Passei a madrugada inteira com os olhos presos no teto, enquanto as palavras de Damien ecoavam sem parar na minha mente: "O casamento com ela será apenas o pagamento de uma dívida com o pai dela." Para ele, eu não passava de um negócio, uma conta a ser liquidada.
Mas eu não seria a esmola dele. Com meu sobrenome e minha herança, poderia escolher qualquer homem que desejasse. Não havia razão para implorar por migalhas de afeto de alguém que me tratava com desprezo.
Então fiquei de frente para o meu pai, com a decisão gravada em meu olhar. "Estou falando sério, pai. Vou me casar com Hunter. Eu confio nele, é o único que nunca me enganou."
"Mas os Bolsistas..."
"Os Bolsistas só são leais a você porque o futuro deles depende das suas ações", respondi com firmeza. "O respeito que demonstram por mim não passa de uma encenação." Engoli o aperto que queimava por dentro. Todos os anos que desperdicei, o amor que entreguei... tudo parecia uma farsa cruel. Mas ergui o queixo e disse: "Tenho alguns pedidos."
"Pode falar, filha."
"Bloqueie as contas deles. Todas, sem exceção. E corte a mesada de Eve McClain de uma vez por todas. Ela não faz parte dos Barron. Não tem nenhum direito ao nosso dinheiro."
Meu pai me olhou surpreso, mas acabou assentindo, devagar. "Se é o que você deseja, será feito. Ordenarei que todos deixem a propriedade depois do seu casamento."
Senti o peso sair do meu peito e saí do escritório com a cabeça erguida.
Encontrei Eve na grande escadaria. Ela usava um vestido claro, delicado, quase angelical, como se fosse a imagem perfeita da inocência. Ela correu até mim, enlaçando seu braço no meu. "Elena! Eu estava indo atrás de você! Hoje terá um torneio de polo beneficente. Você me leva? Por favor?"
Olhei para o sorriso doce estampado em seu rosto e um enjoo me tomou. Era esse rosto que havia roubado o homem que eu amava e zombado da minha dor.
Arranquei meu braço do dela com força.
Seus olhos se abriram em choque. Então, com um golpe de puro teatro, Eve soltou um grito agudo e se jogou pelos últimos degraus, rolando dramaticamente até o chão.
"Eve!" Um grito desesperado ecoou do pé das escadas — era Damien.
Quando olhei, lá estavam todos. Os sete Bolsistas, parados, fitando-me como juízes.
Kennith Boyle ergueu o dedo contra mim, o rosto vermelho de ódio. "Elena, sua piranha cruel! Como teve coragem de empurrá-la?"
Eve, já de pé, correu em minha defesa, com lágrimas escorrendo. "Não, não, não foi a Elena! Eu só escorreguei. Ela jamais me machucaria."
Mas suas palavras me tornaram ainda mais culpada. Seus olhos vermelhos, o lábio trêmulo... ela era a vítima perfeita.
Todos eles me encaravam com desprezo. Damien não disse nada. Apenas me lançou um olhar gélido e distante antes de erguer Eve nos braços, como se ela fosse feita de cristal.
Fiquei para trás, sozinha. Não tive chance de me justificar —e nem queria.
Mais tarde, fui para minha aula de equitação nos estábulos, na esperança de que o vento fresco clareasse meus pensamentos. E claro, lá estava ela.
Eve estava parada junto ao picadeiro, pálida e delicada, acompanhada de Damien.
"Elena", disse ela, a voz suave e doce. "Desculpe pelo que aconteceu de manhã. E, por favor, não se preocupe comigo e com Damien. Eu sei o meu lugar. Jamais atrapalharia a sua felicidade."
Ele não se afastava dela. Seus olhos não a deixavam, como se ela fosse a coisa mais valiosa do mundo. Com as próprias mãos, ele selou uma égua mansa para Eve, ajudando-a a subir com cuidado exagerado.
Ele então passou a hora seguinte guiando o cavalo com ela, suas mãos conduzindo as dela nas rédeas, sua voz baixa e calma, dita apenas para os ouvidos dela.
Quando Eve disse que estava cansada, ele levou o animal até o bloco de montaria. Mas, em vez de deixá-la usar o apoio, ajoelhou-se diante dela, oferecendo o ombro para que ela pisasse.
Eu congelei.
Minha memória me arrastou de volta ao meu aniversário de treze anos. Eu queria montar o garanhão mais indomável dos nossos estábulos, um animal selvagem que ninguém conseguia controlar. Damien, um cavaleiro habilidoso, era o único capaz de fazê-lo.
Meu pai sempre o havia ensinado que um homem só deveria se ajoelhar diante da própria esposa. Mas naquele dia, ele olhou para um Damien de dezesseis anos, hesitante, e ordenou: "Ajoelhe-se. Deixe que ela suba pelo seu ombro. Ela é o seu destino, Damião. Ela é tudo."
E ele obedeceu, com o rosto marcado por uma humilhação silenciosa.
A fala do meu pai intencionava mostrar a Damien qual era o seu papel, lembrando-o de sua responsabilidade comigo. Ele lhe dizia que eu deveria ser o centro de sua vida, a mulher que merecia sua lealdade acima de todas as outras.
Recordo a sensação da minha pequena bota apoiada em seu ombro firme, enquanto meu coração batia descompassado no meu peito. Foi naquele instante que percebi, pela primeira vez, que estava apaixonada por ele.
Contudo, eu era nova demais, cega pela intensidade dos meus sentimentos, para notar a vergonha estampada em seus olhos.
Depois daquele dia, nunca mais pedi que ele repetisse o ato. O orgulho dele era algo que eu não ousava ferir.
Agora, diante de mim, ele se ajoelhava de bom grado, cheio de alegria, mas por outra mulher —por Eve. O olhar dele para ela carregava uma doçura que fez meus olhos arderem de lágrimas.
A cena doía de uma maneira cruel, quase insuportável. Virei o rosto à força, esporando meu cavalo, um imponente alazão negro chamado Meia-Noite, para que disparasse em galope. Exigi que ele fosse cada vez mais veloz, sentindo o vento cortando meu rosto como chicote, para tentar afastar por alguns instantes a tempestade que me sufocava por dentro. Eu precisava sentir o gosto da liberdade, escapar da prisão invisível que era a minha vida.
O estábulo possuía uma pista de saltos desafiadora, com barreiras altas e curvas fechadas. Conduzi Meia-Noite até lá, forçando-o além dos seus limites. Aproximamo-nos de um obstáculo largo e elevado. O cavalo se concentrou e lançou-se no ar.
No exato segundo em que subimos, ouvi um estalo seco.
A correia da sela se rompeu, e fui arremessada do animal, caindo com violência contra o chão duro. Meia-Noite, tomado pelo pânico, sem cavaleiro, agitava-se de forma descontrolada, seus cascos poderosos golpeando perigosamente perto da minha cabeça.
Envolta por uma névoa de dor, procurei Damien com os olhos. Ele ainda estava com Eve, de costas para mim, alheio ao que acontecia. Ele deveria ser meu protetor durante as aulas, era a única função que lhe cabia. E havia falhado, pois estava ocupado demais servindo a ela.
"Damien!", gritei, a voz quebrada pelo desespero. Só então ele se virou, e seus olhos se arregalaram em espanto. Num movimento veloz, ele se colocou ao meu lado, segurou as rédeas de Meia-Noite e domou o animal em segundos, com a voz baixa e firme. Ele sempre havia carregado esse dom, aprendido nas ruas, de acalmar feras indomáveis.
Seu único trabalho era me manter a salvo. E, ainda assim, por estar focado em Eve, ele quase me deixou morrer.
A próxima lembrança que tenho é de estar em um quarto de hospital, com a perna engessada.
Damien, tomado pela culpa, se ofereceu para cuidar de mim. Cumpriu o papel de enfermeiro com perfeição, sendo atencioso e gentil. Trazia minhas refeições, lia para mim e se certificava de que eu nunca sentisse dor.
Por alguns dias, a parte mais ingênua de mim acreditou que isso significava algo. Talvez ele se importasse. Talvez o acidente o tivesse feito enxergar algo.
Mas bastava Eve aparecer para que a esperança se desfizesse. Os olhos dele se iluminavam diante dela, e os sorrisos cúmplices que eles trocavam, achando que eu não percebia, esmagavam qualquer ilusão.
Minha perna já mostrava sinais de melhora quando, numa madrugada, acordei com vontade de ir ao banheiro. O gesso tornava tudo difícil, então caminhei mancando pelo corredor branco e silencioso da ala particular. Foi então que ouvi vozes vindo de uma pequena sala próxima ao posto de enfermagem. Eram Javier e Damien.
"Você passou dos limites desta vez, Damien", disse Javier, num sussurro carregado de raiva. "Cortar a correia da sela dela? Ela poderia ter morrido."
Um arrepio me congelou. Apoiei-me contra a parede, o coração trovejando nos ouvidos.
A resposta de Damien veio baixa e calma, assustadoramente fria: "Eu não imaginei que o cavalo fosse se assustar tanto. Calculei que ela só teria uma queda leve, talvez uma torção. O bastante para assustá-la, para deixá-la mais dependente. Essa fratura... foi apenas um imprevisto."
Minha mente girava. Ele havia planejado a minha queda. Não havia sido acidente algum — era parte de um plano.
"E essa é a sua pena?", retrucou Javier. "Fingir ser o enfermeiro dedicado?"
"Vou levar isso até o fim", respondeu Damien, firme. "Assim tudo se encerra. Ela vai se recuperar, e nós poderemos seguir adiante."
Um enjoo amargo surgiu dentro de mim, e um frio percorreu meu corpo, da boca do estômago até a ponta dos dedos.
Ele havia feito isso comigo de propósito. Para me assustar. Para me controlar.
Mordi o lábio com tanta força que o sangue escorreu, mas a dor passou despercebida. A ferida real estava no peito, onde o sofrimento queimava mais do que qualquer osso quebrado. Não era só uma traição — era crueldade.