Capítulo 2

O meu divórcio com o Pedro foi finalizado no dia em que a minha filha, a Sofia, fez cinco anos.

O advogado entregou-me os papéis, a sua expressão era profissional, mas com um toque de pena.

"Senhora Alves, está tudo concluído."

Assenti, guardando os documentos na minha mala.

Lá fora, o sol de Lisboa brilhava intensamente, um contraste gritante com a escuridão no meu coração.

Liguei ao Pedro.

Queria apenas perguntar se ele ainda viria à festa de aniversário da Sofia.

Ele atendeu rapidamente, mas a sua voz estava distante, cheia de ruído de fundo.

"Clara? O que foi? Estou ocupado."

Antes que eu pudesse falar, ouvi a voz da Helena, a sua colega de trabalho, do outro lado da linha.

"Pedro, querido, o avião não espera. Temos de ir ou vamos perder a conferência em Paris."

A voz dela era doce, quase enjoativa.

"Já vou, Helena. Só um segundo."

Ele voltou a falar comigo, a sua impaciência era clara.

"Olha, Clara, o que quer que seja, pode esperar? Tenho um voo importante para apanhar."

"É o aniversário da Sofia," disse eu, a minha voz mais baixa do que eu pretendia. "Ela está à tua espera."

Houve uma pausa.

Consegui imaginá-lo a revirar os olhos.

"Eu sei. Eu sei. Mas isto é trabalho. É importante. A Helena precisa de mim para a apresentação. Diz à Sofia que o papá a ama e que lhe compro um presente enorme quando voltar."

"Ela não quer um presente, Pedro. Ela quer-te a ti."

"Não comeces com dramas, Clara. Falamos quando eu voltar."

Ele desligou.

Não me bloqueou, mas o efeito foi o mesmo.

Fiquei a olhar para o telemóvel, o ecrã escuro a refletir o meu rosto sem expressão.

Cinco anos.

Cinco anos de desculpas.

Cinco anos a colocar o seu trabalho, e a Helena, à frente da sua própria filha.

O divórcio não foi uma decisão repentina.

Foi o resultado de mil pequenas feridas, mil promessas quebradas.

Lembro-me do primeiro aniversário da Sofia. Ele prometeu estar lá, mas ligou à última da hora.

"Desculpa, amor. A Helena teve uma crise com um cliente. Tive de ficar para ajudar."

No terceiro aniversário, ele nem sequer ligou. Mandou uma mensagem.

"Muito trabalho. Compenso-te depois."

Agora, no quinto, ele estava a caminho de Paris com ela.

A "conferência" era apenas mais uma desculpa. Eu sabia, e ele sabia que eu sabia.

Respirei fundo, forcei um sorriso e voltei para o salão de festas onde a minha filha brincava com os amigos.

Ela correu para mim, os seus olhos a brilhar de excitação.

"Mamã, o papá já vem?"

A sua pergunta era inocente, cheia de esperança.

Senti uma dor aguda no peito.

Ajoelhei-me à sua altura, ajeitando uma fita no seu cabelo.

"O papá teve um imprevisto muito importante no trabalho, meu amor. Mas ele mandou um beijo muito grande e disse que te ama muito."

O sorriso dela vacilou por um segundo.

"Mas ele prometeu," sussurrou ela.

"Eu sei, querida. Mas às vezes os adultos têm de quebrar promessas por causa do trabalho."

A minha própria mentira tinha um sabor amargo.

A festa continuou. Havia bolo, balões e risos de crianças.

Eu movia-me entre os convidados, sorrindo, conversando, a anfitriã perfeita.

Mas por dentro, eu estava a desmoronar.

Mais tarde, quando todos foram embora e a Sofia já dormia, exausta mas feliz, o meu telemóvel tocou.

Era a minha ex-sogra, a mãe do Pedro.

Atendi, esperando palavras de conforto.

Recebi o contrário.

"Clara! O que é que fizeste? O Pedro ligou-me, furioso! Divórcio? No aniversário da tua filha? Que tipo de mãe és tu?"

A sua voz era estridente, cheia de acusação.

"Ele está a destruir a carreira dele por tua causa! A Helena é uma parceira de negócios crucial! Ele precisa dela! E tu decides criar este drama todo por causa de uma festinha de aniversário?"

Fiquei em silêncio, a sua raiva a lavar-se sobre mim.

"Não tens consideração nenhuma? Ele trabalha tanto para vos dar uma boa vida! E é assim que lhe pagas? Sendo egoísta e infantil?"

"Uma boa vida?", repeti eu, a minha voz finalmente a encontrar força. "Ele não esteve presente em nenhum dos aniversários dela. Nenhum."

"Isso são detalhes! O importante é o futuro! Um futuro que tu estás a pôr em risco com este disparate de divórcio!"

Ela desligou, deixando-me no silêncio do meu apartamento, com o eco das suas palavras a ressoar.

Olhei para a porta do quarto da Sofia.

Não, não eram detalhes.

Eram a vida dela.

E a partir daquele momento, eu seria a única a garantir que essa vida seria cheia de amor e presença, não de promessas vazias e ausência.

O divórcio não era o fim.

Era o começo.

Capítulo 3

Passaram-se duas semanas.

A vida assentou numa nova rotina, mais silenciosa.

Eu e a Sofia. Só nós as duas.

O Pedro não ligou. Nem uma vez.

Imaginei-o em Paris, a jantar à luz de velas com a Helena, a "parceira de negócios crucial".

Numa terça-feira à tarde, recebi um email da escola da Sofia.

"Reunião de Pais e Encarregados de Educação. Próxima sexta-feira, 10h. Presença obrigatória para discutir o progresso e o comportamento dos alunos."

Reencaminhei o email para o Pedro.

A minha mensagem foi simples.

"Reunião importante na escola da Sofia. Sexta-feira, 10h. Podes ir?"

A resposta dele chegou em menos de um minuto.

"Impossível. Tenho uma reunião de conselho exatamente a essa hora. Não posso mesmo faltar. Vai tu e depois contas-me."

Senti uma onda de frustração.

Era sempre a mesma coisa.

Respondi: "Pedro, a professora quer falar com os dois. A Sofia tem andado mais calada na sala de aula. Eles estão preocupados."

A resposta dele foi fria.

"Clara, eu dirijo uma empresa. Não posso simplesmente largar tudo por causa de uma reunião escolar. A Helena e eu estamos a fechar o maior negócio da história da empresa. Entendes a pressão? Sê razoável."

A menção à Helena foi deliberada.

Ele sabia que me magoava.

"Ser razoável é esperar que um pai se preocupe com a filha?"

Não houve resposta.

Na sexta-feira, fui à reunião sozinha.

Sentei-me numa cadeira minúscula, em frente à professora da Sofia, a Dona Matilde.

Ela era uma mulher amável, com olhos preocupados.

"Senhora Alves, obrigada por ter vindo. O pai da Sofia não pôde vir?"

"Ele tinha uma reunião de trabalho inadiável," respondi, a desculpa a soar oca até para mim.

Dona Matilde suspirou suavemente.

"Compreendo. Bem, o motivo pelo qual pedi esta reunião é a Sofia. Ela é uma menina doce e inteligente, mas ultimamente... ela está muito distante. Durante as atividades em grupo, ela fica sozinha no canto. E no outro dia, durante a aula de artes, pedi-lhes que desenhassem a sua família."

Ela pegou numa folha de papel e colocou-a na mesa à minha frente.

O meu coração apertou.

Era um desenho típico de criança. Uma casa, o sol, uma árvore.

Havia duas figuras. Uma grande, com cabelo comprido, a sorrir. Era eu.

Ao meu lado, uma figura pequena. A Sofia.

Não havia mais ninguém no desenho.

"Ela disse-me: 'Esta é a minha família. Só a mamã e eu'", disse a Dona Matilde, a sua voz gentil. "Eu perguntei pelo pai. Ela apenas encolheu os ombros e disse 'O papá está sempre a trabalhar'."

As lágrimas picaram-me nos olhos.

Tentei contê-las.

"Nós... divorciámo-nos recentemente," confessei.

A professora assentiu, a sua expressão cheia de compaixão. "Isso explica muita coisa. As crianças sentem tudo, Senhora Alves. Ela precisa de apoio. De ambos."

Saí da escola a sentir-me pesada.

O desenho estava na minha mala. Um pedaço de papel que representava a dolorosa realidade da minha filha.

Quando cheguei ao carro, a raiva sobrepôs-se à tristeza.

Liguei ao Pedro.

Ele atendeu, a sua voz irritada.

"Estou a meio de uma coisa, Clara."

"Acabei de sair da escola da Sofia."

"E então? O que é que a professora disse?"

"Ela disse que a nossa filha desenhou a família dela. E no desenho, só estamos eu e ela. Ela disse à professora que o papá está sempre a trabalhar."

Houve um silêncio do outro lado.

"Ela está a sentir a tua falta, Pedro. Ela está a sofrer."

"Não dramatizes," disse ele, a sua voz a endurecer. "As crianças fazem essas coisas. É uma fase. Ela vai superar."

"Superar? Ela tem cinco anos e pensa que o pai não faz parte da vida dela! Não vês o quão grave isto é?"

Ouvi a voz da Helena ao fundo. "Pedro? Está tudo bem?"

Ele respondeu-lhe, a sua voz a suavizar instantaneamente. "Sim, querida. Só a Clara a ser... a Clara. Já despacho isto."

Ele voltou a falar comigo, o seu tom novamente áspero.

"Olha, tenho de ir. O conselho está à espera. Vou ligar à Sofia mais logo."

"Não te incomodes," disse eu, a minha voz a tremer de raiva contida. "Não faças promessas que não vais cumprir."

Desliguei o telefone.

Agarrei o volante com força, as minhas mãos a tremer.

Ele não entendia.

Ou talvez, pior ainda, ele simplesmente não se importava.

Para ele, a Sofia era um item numa lista de tarefas, uma obrigação a ser cumprida quando fosse conveniente.

Para mim, ela era o meu mundo inteiro.

E naquele momento, percebi que teria de lutar por ela.

Sozinha.

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