Capítulo 2

⚜ Christopher Bustamante ⚜

Quando meus avós morreram, deixaram o Hospital Imperial ClinBustamante na divisão do meu pai e meus dois tios Henrique e Guilherme. Meu pai tinha bastante interesse por ser o melhor médico-cirurgião plástico, meu tio Guilherme após o nascimento de Anaíra não quis se envolver com nada do hospital, já Henrique sempre teve interesse pela presidência até porque era o mais ambicioso

Henrique queria deixar Alessandro na presidência, acontece que meu avô deixou claro no testamento que o hospital só teria um novo presidente se fosse um dos três filhos, caso não fosse nenhum dos filhos, o neto ou neta que lhe desse um bisneto primeiro mesmo em morte, essa foi a cláusula principal no testamento

Eu confesso não tinha interesse na concorrência da presidência do hospital, meu único intuito é apenas trabalhar no hospital de meu avô e honrar o nome dele. Me formei em medicina muito cedo, logo após conclui fazendo Neurocirurgia e hoje posso falar com orgulho que sou o melhor e maior Neurocirurgião da região, você só consegue abrir um crânio ao ter um domínio muito grande sobre essa anatomia e o meu futuro é continuar oferecendo o que eu tenho de melhor para os meus pacientes

Alexandra – Eu acho que você deveria concorrer à presidência também, tem tanto direito assim como Alessandro

Christopher – Mãe, a vontade do vovô não era essa e a senhora sabe!

Alexandra – Claro que era, o testamento foi aberto e estava a cláusula lá bem clara que o primeiro neto a ter filhos teria a presidência

Christopher – Mamãe, por favor! Eu me contento em ser apenas chefe Cirurgião, amo o que faço

Alexandra – Você também precisa pensar em Ana Heloísa, meu filho, esse hospital depois vai passar a ser dela também

Christopher – Mamãe, a Ana tem apenas sete anos e independente do que ela quiser, eu estou muito bem profissional e financeiramente também. Agora bom dia, eu preciso ir levar Ana Heloísa na escola e ir para o trabalho

Ana Heloísa é minha princesa, tem apenas sete anos, mas uma cabecinha de adulto, eu tive muito medo de criá-la sem a mãe até porque a mesma foi embora três meses depois que ela nasceu. De início eu fiquei desesperado, até a leva para faculdade eu levava só para não a deixar com nenhum desconhecido, quando nos tornamos pais é raro deixarmos nossa cria com qualquer pessoa, até mesmo se for conhecida

Ana Heloísa – Papai, eu posso ir com o senhor?

Christopher – Não, princesa, você vai para escola e eu vou para o trabalho

Ana Heloísa – Tudo bem, eu peço para tia Anaíra me levar para o trabalho com ela

Christopher – Anaíra não vai me desobedecer à Ana, vá para escola sim! De tarde, quando eu lhe buscar, a gente almoça e eu compro um sorvete para você. O que acha?

Era difícil dizer não a Ana, contudo, uma criança não vive apenas de SIM, mas sim de limites. Fui para reunião encontrar meu pai, ele está querendo se aposentar e passar a presidência mesmo eu dizendo que não quero

Victor – Meu filho, entenda que eu não confio em Alessandro. Sei que o hospital decairia nas mãos dele, ele é ambicioso e faz de tudo por dinheiro

Christopher – Pai, o senhor sempre me apoiou quanto a isso! Sempre foi a favor e contra o que a mamãe queria

Victor – Independentemente, meu filho. A sua mãe só quer que você aceite essa presidência por questão de dinheiro e ego. O ego dela é maior do que ver o Alessandro sentado em uma cadeira que aos olhos dela deveria ser sua

Christopher – E o senhor, qual os seus motivos?

Victor – Não quero que esse hospital entre em falência! Conheço seu primo, se o fosse para o Henrique ficar eu ainda relevaria porque sei que ele não acabaria com o nosso patrimônio, até porque nosso pai que suspendeu esse hospital, mas seu primo é ambicioso

Christopher – Pai, eu vivo dentro desse hospital e tenho a Ana Heloísa! Não quero interferir no tempo que tenho com minha filha, o Alessandro tem mais tempo por não ter obrigações

Victor – Seu primo vai ser pai, também casou a alguns anos e agora vai ser pai. Também não teria tempo já que vai ser recém-nascido

Eu não sabia muita coisa sobre Alessandro, somos primos, mas nunca fomos próximos, até porque ele era ruim desde pequeno. Me lembro perfeitamente quando ele colocou minha bicicleta na linha do trem por pura maldade, sempre que nosso avô nos dava dinheiro ele ficava olhando para ver se recebi a mesma

quantia que ele, caso contrário, ele rasgava o dinheiro ao qual eu ganhava

Quando ele se casou, não me convidou. Mesmo se tivesse convidado eu não poderia ir, até porque eu estava viajando por conta dos estudos, eram congressos e mais congressos. Na nossa adolescência, ele namorou minha primeira namorada e foi um verdadeiro livramento, até porque o que ela tinha de linda, tinha de interesseira, já que me traiu para viajar para fora do estado com ele

Verdadeiramente será desagradável ter que conviver com Alessandro novamente, eu imagino o que a pobre coitada da esposa não deva passar na mão dele. A ruindade ali já está instalada

Victor – E então, promete pensar?

Christopher – Pai, está fora dos meus planos! Não vou colocar o pouco tempo que tenho com a Ana Heloísa em jogo

Victor – Sendo assim, eu não vejo outra maneira de discutirmos isso de maneira ponderada. Vai ser preciso fazer um sorteio com os três, você, Anaíra e Alessandro com todos os investidores e acionistas, ambos dão suas versões do porquê querem e aí sim se você não for votado tudo bem, mas não quero você entregando assim de cara

Não era nada que eu esperava, contudo, não adiantaria eu ir contra meu pai. Ele é teimoso demais e ficou ainda mais depois que pediu o divórcio a minha mãe

Christopher – Seja como o senhor quiser, então, já deixo declarado que não quero a presidência. Vou ver como estão meus pacientes que precisam de revisão e depois busco Ana Heloísa na escola

E assim fiz, verifiquei o estado de todos os pacientes que passaram por cirurgia e estavam em observação e fui em direção a escola, como não tinha local na porta da escola para estacionar então parei do outro lado da rua e fui em direção a escola, o sinal estava fechado então decidi atravessar

Acontece que assim que atravessei veio um carro correndo em alta velocidade que havia furado o sinal, até tentei voltar para trás, mas acredito que o condutor jogou o carro para o mesmo lado ao qual eu retornei e só senti minhas pernas fraquejarem

– Olá moço, como o senhor está? Fique quietinho que a ambulância já irá chegar – Senti a mesma colocar algo em baixo da minha cabeça

Que mulher é essa? Puta merda! Uma pena que pelo jeito seja casada, até porque pela grossura da aliança em seu dedo, daria até para derreter e fazer um portão de ouro de todas as casas da cidade

– Se você fizer boca a boca nesse desconhecido, acaba aqui nosso casamento! – Ouvi o rapaz gritar do carro, se bem que se ela quisesse fazer respiração boca a boca, eu me faria até de morto, daria a patinha e tudo!

– É um favor que você me faz Alessandro! – Opa, casamento em crise?

– O senhor está consciente, certo? – Ela me perguntou - Vamos ficar conversando até que a ambulância chegue

Eu não estava tão mal, meu celular havia ficado no bolso do terno porque parei apenas para buscar Ana Heloísa mesmo, única coisa que eu tinha ali foi a minha carteira. A moça estava de joelhos segurando algo em baixo da minha cabeça, até ouvirmos a sirene da ambulância

Christopher – Ligue para meu pai, prefiro ser tratado no hospital dele moça

Não deu mais tempo para dialogarmos e menos ainda a agradecer por ter me prestado os primeiros socorros, eu precisava chamar minha mãe para que ela buscasse Ana Heloísa e então fui perdendo a linda moça de vista sem nem ao menos perguntar seu nome

Capítulo 3

⚜ Luísa Manoela Bergantine ⚜

Chegando em casa encontrei Alessandro com todas as nossas malas prontas enquanto ele falava ao telefone

de maneira alterada

Alessandro - Não posso pai, não posso! Estou saindo do Brasil hoje mesmo com Luísa Manoela (...) Ok! Eu volto para a tal reunião, já que o senhor diz ser tão importante para mim - Virou-se dando de cara comigo e desligou

Luísa Manoela - O que você está fazendo Alessandro? Eu disse que eu não iria!

Alessandro - Mas iremos, você deve ir onde seu marido esteja e é para lá que irei - Disse enquanto colocava as malas no carro - Não tem com o que se preocupar, eu levo sua obstetra para lá, é isso que te aflige?

Luísa Manoela - Não podemos sair assim Alessandro, tenho minha irmã aqui com vários problemas

Alessandro - Mandaremos um gordo cheque para ela e tudo resolvido - Me empurrou para o carro

Eu não fazia ideia de onde Alessandro estava me levando, tentei mandar uma mensagem para Maitê, contudo, Alessandro logo tratou de tirar o celular de minhas mãos

Alessandro - Não será necessário meu bem - Me deu um selinho - Sua mãe estará lá para lhe amparar caso você necessite de algo na minha ausência

Ausência? Ele não iria ficar comigo e por que diabos a Blanca ficaria comigo, já que a mesma não apareceu nem quando eu soube da minha gravidez e lhe avisei pelo telefone?

Luísa Manoela - Para quê? Não irá ficar comigo?

Alessandro - Chega de perguntas, Luísa, meu Deus!

O mesmo dirigiu até o aeroporto sem dar uma palavra se quer e eu só soube o destino que estávamos indo quando ele me entregou o passaporte com as passagens

Luísa Manoela - México?

Alessandro - Sim, teremos uma nova vida lá e inclusive já aluguei uma casa com contrato de um ano, se você não se sentir bem nesse primeiro ano, aí nós voltamos

Luísa Manoela - Mas e Maitê? Ela precisa de mim Alessandro, ela está com dívidas e sozinha

Alessandro - Eu não a deixaria desamparada Luísa Manoela - Virou o celular mostrando-me a transferência de R$50,000 para conta de Maitê

Eu estava achando tudo muito estranho, por que Alessandro quis sair do Brasil assim tão rápido? E sem contar que ele nunca ajudou Mai com R$1,00 se quer, por que ajudou agora? Quando a escola é demais, o santo desconfia! Nem o enxoval da Pérola ele me deixou trazer, dizendo que compraria tudo novo e teríamos uma vida nova

Durante a viagem eu cochilei e me despertei com Alessandro falando ao telefone, pelo que consegui ouvir ele não havia avisado a quase ninguém, apenas ao pai que não entendia o motivo da viagem tão repentina e para dizer a verdade nem eu, me entreguei novamente ao sono até chegarmos ao nosso destino. Blanca estava lá no aeroporto assim que pousamos

Blanca - Você realmente engravidou Luísa Manoela Maria? Tanto lhe alertei para que não ficasse com o corpo pior do que já era e de nada adiantou. Não sabe quantas plásticas precisei para conseguir chegar a esse corpo ao qual estou

Luísa Manoela - E continua um esqueleto maltratado, do que adiantou as plásticas? Daqui a pouco esse tamanquinho da senhora sai andando pela rua - Revirei os olhos

Alessandro - Não briguem, não briguem! Vem meu amor, vou lhe mostrar os cômodos da casa - Me trouxe pela mão - Aqui é o quarto, aqui o banheiro, cozinha, lá nos fundos é a lavanderia e tem também um belo quintal para quando Esmeralda crescer

Luísa Manoela - É Perola!

Alessandro - É isso, meu amor, é isso! - Descemos uma escadinha que parecia ser o sótão

Luísa Manoela - Credo, que lugar escuro! - Notei que ali havia uma cama

Alessandro - Benzinho, você sabe que aqui no México há muito terremoto, não?

Luísa Manoela - Claro, inclusive por isso que não queria vir - Observando onde ele gostaria de chegar com aquela conversa

Alessandro - Por isso eu acho mais seguro lhe deixar aqui, pressa! O furacão passa e vocês vão estar seguras - Disse já subindo as escadas e claro que eu não conseguiria acompanhá-lo já que eu estava próxima do nono mês de gestação

Luísa Manoela - Alessandro, volta aqui! Está um calor danado aqui, eu vou acabar passando mal e eu estou faminta

Alessandro - Qualquer coisa sua mãe abrirá para você! Eu vou precisar voltar ao Brasil para uma reunião a qual meu pai no convocou de família e é perigoso você voltar com esse barrigão, sua mãe cuidará de você meu bem! - Senti a voz do mesmo ficando cada vez mais distante

Diabos! Eu não acredito nisso, agora tudo está muito claro aos meus olhos. Ele nunca aceitou que eu estivesse gravida, ou melhor, que minha filha fosse especial. O que estava acontecendo com ele? É claro que eu também fiquei em choque quando descobri, por ser algo que eu não entendia tão bem, mas mudei meu foco de pesquisa de "Mãe de primeira viagem" para "Qualidade de vida para uma criança com Síndrome de Down" porque apesar do espanto, era MINHA FILHA e nada mudaria, não iria permitir que minha filha sofresse preconceito da própria família

Luísa Manoela - Blanca - Gritei - Me tire daqui, está muito calor

E de nada adiantou, sentei-me na cama, pois meus pés estavam inchados diante da viagem que foi longa, onze horas sentadas intercalando entre banheiro e acento do avião. Foi amanhecendo e eu estava faminta, soando frio e meus pés cada vez inchando mais, eu precisava de um banho, eu precisava me alimentar e principalmente descansar

Ali foram se passando minutos, horas e dias. Eu já estava me sentindo mal pelo calor, a fome, a sede, eu devia estar ali por uns dois dias e não aguentava mais, procurei incansavelmente alguma ferramenta que eu conseguisse abrir o basculante que tinha no sótão, contudo, era muito alto e eu não alcançava; Joguei a chave de grife que achei no chão pelo basculante, mas devido à força que eu havia feito comecei a sentir contrações

Luísa Manoela - Não filha, por favor não! Não está na hora de você vir ao mundo - Implorei segurando minha barriga - Blanca!

Gritei incansavelmente e era como se não tivesse ninguém naquela casa, aquilo que Alessandro fez foi de caso pensado! De tanto gritar, ouvi alguém que escutou meu lamento

- ¿Hay alguien ahí? (Tem alguém aí?)

Luísa Manoela - Droga! Eu não sei falar na língua deles, capaz de morrer aqui igual uma lagartixa arreganhada - Pensei alto

- Eu sei falar português, o que está acontecendo?

Luísa Manoela - Estou entrando em trabalho de parto, não está na hora da minha filha nascer, mas ela quer - Chorei sentindo mais uma contração - Me ajude por favor!

- Fique tranquila! Eu sou médico e estou ligando para ambulância para que você tenha sua filha tranquilamente, você está sozinha aí no quarto?

Luísa Manoela - Não, na verdade, isso é um porão, o meu marido me prendeu aqui dizendo que estava tendo furacão e eu ficaria mais protegida aqui

- Vou tentar chamar para ver se tem alguém em casa, caso não tenha eu irei arrombar a porta e entrar

Luísa Manoela - Não, não me deixa aqui não! Por favor - Eu precisava sentir que tinha alguém ali comigo, eu não queria morrer e principalmente perder minha filha

- Fica calma! Os estágios iniciais das contrações, usualmente ocorrem em intervalos de quinze a vinte minutos e duram entre trinta e quarenta e cinco segundos

Luísa Manoela - Eu também sou médica, eu estou calma - Respirei fundo - Só me tira daqui por favor!

Ouvi o moço ligar para alguém, talvez estivesse ligando para ambulância... As contrações cada vez aumentavam, já estavam a 12 minutos e isso era sinal de que eu estava longe do nascimento da minha filha, contudo, a dor só aumentava

- Olá, eu já liguei para ambulância! Eu tentei abrir a porta, mas está impossível... liguei também para o marceneiro para conseguirmos tirar vocês daí, não fica nervosa não que eu estou aqui e vou estar até o fim

Eu não sei porque, mas me senti segura com aquele desconhecido, mesmo que ele estivesse do outro lado da vidraça. A ambulância levou uma vida para chegar, entretanto, chegou mais rápido que o marceneiro para abrir a porta e as contrações vieram cada vez mais forte

Luísa Manoela - AAAAAAAAAAI - Perdi os sentidos e não me lembro de mais nada

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