Capítulo 2

O sol estava nascendo sobre o Rio de Janeiro, mas aquela luz não tinha nada de divina. Não pra mim, parceiro.

O céu parecia aberto na faca. Um corte lento. Profundo. O vermelho daquela manhã vagabunda escorria por cima dos prédios espelhados, pelos viadutos da Linha Vermelha, pelos ônibus superlotados da Avenida Brasil, como sangue quente vazando de uma cidade que já morreu faz tempo e esqueceu de cair. O Rio é uma carcaça que finge que respira.

Fiquei parado diante da janela panorâmica da cobertura na Barra, observando a miséria e o luxo se misturarem lá embaixo enquanto segurava um copo de uísque dezoito anos ainda pela metade. O vidro blindado refletia minha imagem com uma clareza incômoda, como se eu fosse dois homens presos no mesmo corpo, disputando o mesmo espaço, a mesma carne.

O delegado Marco.

E o outro.

O verdadeiro. O Marcola.

A estrela dourada pressionava meu peito por baixo do paletó italiano perfeitamente alinhado. Três mil dólares de tecido importado tentando esconder o cheiro de pólvora e a podridão do que eu realmente sou por dentro. Já a pistola .40 customizada, presa na costela, contava a verdade sem vergonha nenhuma. Fria. Pesada. Honesta. A arma nunca mente. O ferro não sabe o que é hipocrisia. Diferente das pessoas. Principalmente as pessoas que usam o mesmo distintivo que eu ostento no cinto.

Muita gente olha pra mim e vê um herói de telejornal. O delegado linha-dura da Narcóticos. O homem que enfrenta o tráfico sem abaixar a cabeça, o paladino que bota a cara em coletiva de imprensa pra acalmar a classe média apavorada. O rosto estampado em capa de revista. O Intocável.

Chega a ser engraçado. Dá vontade de rir na cara de cada um deles.

Se esses otários soubessem o que realmente existe por trás do meu sorriso controlado, dos discursos bonitos sobre direitos humanos e das entrevistas milimetricamente calculadas... talvez corressem desesperados quando eu entrasse em qualquer sala. Talvez rezassem pra não cruzar o meu caminho. Porque o Dr. Marco é só um personagem. Uma fantasia cara de grife. Uma máscara bem costurada pra agradar político corrupto, jornalista sensacionalista e empresário safado que gosta de fingir que o Rio ainda tem solução pra continuar faturando alto.

Mas por baixo da pele bem cuidada, do perfume importado de quinhentos euros e da voz perfeitamente calma... existe o Marcola. E o Marcola não acredita em justiça. Nunca acreditou. Justiça é história pra boi dormir, utopia de quem tem estômago cheio. Eu acredito em poder. Em controle absoluto. Só isso.

Nasci no lugar errado da cidade, no barro, onde o esgoto corria a céu aberto no meio da rua e criança aprendia a distinguir o som de tiro de fuzil antes de aprender a ler o alfabeto. Minha velha lavava roupa pra madame na Zona Sul até os dedos abrirem em carne viva, voltando pra casa com o braço dormente e moedas de esmola no bolso. Meu irmão, Bento, cresceu magro, sempre calado nos cantos, olhando pro prato vazio como se tivesse vergonha da própria fome que roía suas entranhas. A gente era invisível. E o invisível só serve pra ser pisado.

Meu pai morreu quando eu tinha dez anos.

"Erro de operação". Foi exatamente essa farsa que os vermes escreveram no relatório oficial que arquivou a vida dele.

Os policiais entraram no nosso barraco de tábua chutando a porta, gritando feito bicho, quebrando o pouco que a minha mãe tinha conseguido juntar com o suor do trabalho. Diziam que procuravam o gerente da boca, que procuravam traficante. Meu pai, assustado, tentou explicar com as mãos calejadas levantadas que era pedreiro. Trabalhador. Homem de bem. Nunca teve uma passagem, nunca puxou um baseado. Não adiantou porra nenhuma. Deram um tiro no peito dele mesmo assim, à queima-roupa, sem pestanejar.

Lembro até hoje do corpo dele estirado no chão, tremendo perto do fogão velho. Minha mãe gritando até rasgar a garganta, aquele som de bicho sendo abatido. O sangue escuro descendo devagar pelo chão de madeira fuleira. E o policial? O desgraçado limpando o cano da arma na cortina encardida enquanto ria com o outro agente, fazendo piada, como se tivesse acabado de esmagar uma barata no canto da cozinha.

Naquele dia, vendo o sapato daquele cana sujo pisar na poça que saía do meu pai, eu aprendi a lição mais importante da minha vida: o homem que aponta a arma escreve a verdade. O resto? O resto é rebanho que só aceita e chora na calçada.

Ajudei minha mãe a limpar o sangue do chão usando um pano velho e uma lata de água com desinfetante barato. Eu tinha só dez anos... mas naquele exato momento, alguma coisa de vidro dentro do meu peito quebrou e morreu junto com o meu velho. Ali nasceu o monstro. Ali nasceu o ódio. E o ódio, parceiro, quando é alimentado com inteligência e cresce do jeito direito, vira a ambição mais perigosa do mundo.

Estudei como um condenado, com os dentes travados de rancor. Não porque acreditava num futuro melhor pro país, não porque queria ser o salvador da pátria ou o vingador dos oprimidos. Eu queria entender a engenharia do sistema. Queria aprender exatamente onde estavam as rachaduras, as brechas jurídicas, os pontos cegos da lei. Enquanto meus colegas de faculdade, aqueles playboys criados a leite com pera, sonhavam em mudar o mundo com discursos acadêmicos, eu passava as noites devorando o Código Penal imaginando maneiras de dobrar cada artigo, de contornar cada parágrafo sem que o meu nome aparecesse na investigação. Descobri cedo que a lei não foi feita pra proteger inocente. A lei foi escrita por quem tem poder pra proteger quem sabe usá-la contra os otários.

Entrei pra polícia jovem demais e subi rápido demais. Eu era brilhante. Frio. Disciplinado ao extremo. Nunca errava um relatório, nunca me atrasava prum plantão. Virei o exemplo de integridade. A grande promessa da corporação. O delegado perfeito que os secretários queriam do lado pra tirar foto. A imprensa adorava vender a minha história: o garoto pobre da favela que venceu a miséria através do estudo e se tornou o terror dos bandidos. Que piada maravilhosa. Eles não entendiam que eu nunca quis vencer o sistema por fora. Eu queria possuir ele por dentro. Queria ser o dono da chave da engrenagem.

Com o tempo, assumindo as chefias, comecei a enxergar a podridão inteira funcionando nos bastidores, sem maquiagem. Juiz vendendo sentença por preço de carro importado. Deputado negociando qual milícia ia dominar qual território na Zona Oeste. Coronel da PM desviando tonelada de maconha apreendida pra revender pra facção da Zona Norte. Secretário de Estado recebendo mala de dinheiro pra autorizar contrato de segurança privada de fachada. E sabe o que era o pior de tudo? Ninguém escondia mais essa merda. A corrupção no Rio já nem tentava parecer discreta ou ter vergonha. Era um organismo vivo, uma máquina gigante alimentada por rios de dinheiro, medo absoluto e montanhas de cadáveres que sumiam nos valões da Baixada.

Nesse cenário, meu irmão, ou você aceitava virar uma peça lubrificada da máquina, ou você batia de frente e era triturado, virando estatística de "policial herói falecido em combate". Eu escolhi o controle.

Capítulo 3

A virada definitiva, o meu batismo nas sombras, aconteceu há dez anos. Chovia tanto naquela madrugada que o Complexo da Caveira parecia que ia desabar e afundar na lama junto com a miséria dos moradores. Nós recebemos uma denúncia anônima de movimentação de carga pesada e eu cometi o erro de liderar a incursão, subindo o morro na frente, como um idiota que ainda carregava um resto de crença no dever e na cartilha. Achei que tava indo limpar a área, fazer o meu trabalho de polícia. No fim, descobri que o perigo real não tava de bermuda tactel e chinelo segurando o fuzil na laje. Tava de farda do meu lado.

O tiroteio começou pesado no meio da subida, naquele labirinto de beco escuro. Confusão generalizada. Rádio falhando na estática, gente correndo, gritaria, escuridão rasgada por traçante. E então eu senti o vento da traição passar perto da minha cabeça. Meu próprio inspetor de confiança, um cara que frequentava a minha casa, que bebia a minha cerveja no churrasco de domingo, que chamava o meu irmão Bento pelo apelido de infância... o desgraçado tentou me meter uma bala pelas costas no meio do breu. Ele já tinha vendido a minha cabeça pro chefe do morro por uma mala de dinheiro e a promessa de assumir a minha cadeira na especializada.

Ainda me lembro perfeitamente da expressão de pavor dele no clarão do tiro quando percebeu que errou a minha nuca por milímetros e acertou o reboco da parede. Não senti tristeza. Não senti raiva. Não senti o coração acelerar. Só senti uma clareza mental absurda, gélida, cortante. Naquela madrugada de tempestade, o delegado Marco que ainda acreditava em alguma coisa morreu afogado dentro daquele beco inundado de esgoto. Porque eu finalmente entendi a regra máxima e única desse jogo: quem hesita por um segundo perde a vida e o trono.

Matei o traficante que vinha de frente primeiro, com dois tiros no peito. Depois me virei pro meu inspetor. Ele tentou levantar a arma, gaguejou, tentou pedir desculpa. Não dei tempo pro show. Meti um tiro na boca dele pra ele parar de falar e outro na nuca pra garantir o óbito. Sem discurso moralista. Sem tribunal. Sem um pingo de culpa no peito. A chuva forte lavou o sangue da calçada enquanto eu olhava os dois corpos caídos no valão e percebia a verdade mais nua e crua da minha existência: se o sistema inteiro era podre e funcionava na base da violência e do suborno... então eu não precisava desperdiçar a minha vida lutando contra ele. Eu precisava ser o dono dele. Precisava gerenciar o caos.

E foi exatamente o que eu fiz nos anos seguintes. Subi de cargo pisando em cima de quem tentou me atravessar. Fiz alianças estratégicas com as cúpulas mais escuras do poder. Comprei o silêncio de promotor com dossiê de traição. Enterrei inimigos em cemitérios clandestinos que eu mesmo gerenciava através de terceiros. Transformei delegados caxias em cachorros obedientes que abrem inquérito contra quem eu mando, e transformei os chefes de facção em funcionários terceirizados do meu império. Porque no Rio de Janeiro, meu parceiro, o crime organizado não sobrevive uma semana sem a autorização do Estado. E hoje, o Estado que autoriza sou eu. O carimbo da licença pra roubar e vender tem as minhas digitais.

Atualmente, deputados influentes apertam a minha mão em restaurantes de luxo no Leblon, elogiando a minha postura técnica, sem ter a menor pista de que parte do dinheiro que financiou as campanhas milionárias deles saiu diretamente dos carregamentos de cocaína pura que eu ordenei que as minhas viaturas escoltassem pelas rodovias federais. Jornalistas renomados de televisão me ligam pedindo exclusiva, me chamando de o maior exemplo vivo de combate ao crime, enquanto os meus homens de confiança montam a logística de distribuição das armas que entram pelo porto. Secretários de segurança pública sorriem orgulhosos do meu lado em coletivas de imprensa transmitidas ao vivo pro país inteiro, enquanto eu, discretamente no celular embaixo da mesa, decido quais morros vão entrar em guerra pra fazer média com a opinião pública e quais terão a paz comprada pro tráfico lucrar sem perturbação.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED