Capítulo 2

"A Lili não disse quem era o meu pai?" Leo indaga, curioso.

Leo sabe que não sou a mãe biológica dele. Afinal, não possuímos traços parecidos. Sou ruiva de cabelos ondulados e olhos esverdeados. Leo tem cabelos castanhos lisos e olhos da mesma cor. Deve ter puxado ao pai desconhecido.

"Vou te mostrar uma coisa, meu anjinho," respondo.

Conduzo Leo até o meu quarto e pego no meu guarda-roupa a carta que minha irmã, Liliane, deixou junto com Leo. Noto pela primeira vez algo diferente na carta, na parte de trás, um símbolo pequeno de um lobo. Nunca havia reparado nisso nesses anos todos, mas também, como tudo mudou de repente, minha mente naquela época não estava boa para analisar esse detalhe.

Leo se senta na minha cama e seus olhos estão agitados, cheios de expectativas. Me sento ao lado dele e abro a carta. Há um pouco de informação sobre o pai do Leo que eu consigo compartilhar com ele.

"Aqui, Lili disse como o seu pai era," informo. "Pelo  que ela conta aqui, ele é um homem forte, com lindos cabelos castanhos, iguais aos seus, meu anjinho. E que ele é um homem muito poderoso e ocupado."

Enfeito um pouco mais as informações do pai. Digo que ele é corajoso e inteligente. A realidade é que Liliane apenas diz que não pode criar uma criança como Leo, que o pai não sabe da existência dele e que foi apenas uma noite carregada de bebidas e tesão acumulado.

"Será que algum dia eu vou conhecer ele, mamãe?" Leo questiona.

Puxo-o para o meu colo e faço um cafuné em seus cabelos macios.

"Espero que sim, meu anjinho. Ele terá muita sorte de saber que tem um menino incrível como você como filho dele," respondo com sinceridade.

Leo se aconchega em meus braços e deita a cabeça em meu ombro.

"Eu não queria ter mordido ele," Leo confessa baixinho. "Eu só fiquei muito bravo porque ele falou coisas horríveis para mim, mamãe. Desculpa."

Meu coração se compadece das suas palavras e eu o abraço com força, afagando suas costas com carinho.

"Tudo bem, meu anjinho. Às vezes eu também fico brava, mas a partir de hoje você precisa aprender a controlar sua raiva, está bom?"

Ele balança a cabeça, concordando.

"Como você controla a sua raiva, mamãe?" Leo pergunta com um bocejo.

"Respiro fundo, conto até dez e lembro da sua risada, meu anjinho," explico com sinceridade.

Leo ri e isso me faz sorrir.

"É mesmo, mamãe?" Ele questiona desconfiado.

''É claro, meu anjinho. Sua risada consegue acalmar até o mar mais agitado," respondo e beijo sua testa. "Agora vem, vamos jantar."

***

Pego novamente a carta da minha irmã e observo mais atentamente o símbolo do lobo atrás. Há algo nesse símbolo que desperta a curiosidade em mim. Aproveito que Leo já está dormindo em seu quarto e começo a pesquisar mais sobre esse símbolo.

Leva um tempo para eu encontrar algo remotamente interessante e totalmente estranho. Uma empresa de florestamento chamada Lobo de Ferro surge nas pesquisas. Tento encontrar o fundador da empresa ou até mesmo o atual CEO, mas nenhuma imagem surge, apenas as áreas que eles já fizeram florestamento.

Percebo que não é tão distante assim de onde vivemos, talvez umas três horas de viagem de carro.

Do lado de fora, ouço um uivo quebrar o silêncio da madrugada. Isso me causa um arrepio na espinha e um desconforto estranho. Vou até a janela que dá em direção à rua e noto uma movimentação por entre as casas. Uma figura canina se estreitando e se camuflando pela noite.

Percebo também uma van preta estacionada alguns metros afastada da minha casa. Fico com a sensação de estar sendo observada. Fecho as cortinas por precaução.

Como a Liliane conseguiu colocar as mãos em um papel com esse símbolo? Durmo com esse questionamento na cabeça.

Desperto do meu sono com o som do alarme já anunciando que um novo dia começa. Não dormi direito, sonhos estranhos dominaram minha mente. É uma luta fazer Leo levantar da cama, é isso que acaba me fazendo sempre chegar atrasada ao trabalho.

Na saída para a escola do Leo, volto a sentir a sensação de estar sendo observada. Olho para trás e noto novamente a van passando por nós e virando a esquina.

"Mamãe, o que foi?" Leo pergunta curioso.

Balanço a cabeça, afastando os meus pensamentos paranoicos.

"Nada, meu anjinho. Se comporte hoje, está bem? Mais tarde eu venho te buscar."

Capítulo 3

Assim que chegou ao meu trabalho, atrasada novamente, meu chefe manda eu ir ao seu escritório. O local fede a cigarro barato e cerveja. Não posso perder esse trabalho, com tantas contas atrasadas e a ordem de despejo, preciso mais do que nunca me manter nesse lugar insuportável.

"Dahlia, você chegou atrasada novamente," meu chefe declara com a voz rouca e decepcionada. "Sendo que pedi ontem que precisava de você aqui mais cedo."

Respiro pela boca para não sentir o cheiro do seu hálito fedido.

"Sinto muito, senhor. Eu tentei chegar mais cedo, mas a escola do Leo..." começo a me explicar com pressa.

Meu chefe nega com a cabeça e faz um estalo com a língua, impedindo que eu continue a falar.

"Dahlia, você só arruma desculpas para sua incompetência. Aqui é uma empresa séria, correta", ele responde com ar de superioridade. "Não posso manter uma funcionária que não consegue cumprir com o básico."

O desespero começa a dominar o meu corpo. Não posso perder esse trabalho.

"Por favor, senhor, eu prometo que vou melhorar. Se o senhor puder mudar um pouco o meu horário de entrada, eu juro que irei fazer valer a pena," argumento desesperada.

Meu chefe se levanta da sua cadeira e anda na minha direção. A sua presença grotesca me causa enjoo, mas me mantenho firme. Ele fica parado na minha frente, com uma postura de dominador. Ele pega o meu queixo e me obriga a olhá-lo como uma submissa.

"Para eu poder dar o que você quer, Dahlia, você precisa dar algo que eu quero também," ele sugere com a voz rouca e nojenta.

Os dedos ásperos dele passam pelo meu rosto, ele enrola uma mecha do meu cabelo entre os dedos e seus olhos ficam maliciosos em minha direção. Coloco-me de pé em um salto, afastando-me do seu toque como se fosse veneno.

"Só posso oferecer minha competência como funcionária, nada mais além disso", respondo decidida.

Meu chefe me lança um olhar duro e feio. Ele se afasta e volta a se sentar em sua poltrona.

"Então sua competência terá que servir em outro lugar, Dahlia," ele rebate com a voz fria. "Você está demitida."

O pronunciamento me atinge como um soco no estômago, porém não me permito ficar abalada visivelmente. Não quero dar o gostinho para o meu chefe. Ex-chefe.

Saio do escritório com passos decididos e com o desespero contido.

*** 

Enquanto Leo janta, eu procuro atualizar meu currículo e começo a ver novas vagas de trabalho. Não posso ficar um dia sem trabalhar.

"Você foi mandada embora do seu trabalho por minha causa, mamãe?" Leo pergunta com a voz triste.

Abro um sorriso reconfortante para ele e nego com a cabeça.

"Claro que não, meu anjinho. Era um local bem feio, não gostava de lá," explico com tranquilidade.

Antes que Leo pudesse me perguntar mais alguma coisa, uma batida na porta quebra a nossa conversa. Tenho um sobressalto com o som e Leo também. Coloco-me de pé e sinto o meu coração martelar dentro de mim.

A batida na porta fica mais forte e mais alta também, me trazendo ainda mais apreensão.

"Leo, fique aí," ordeno, séria. 

Sinto um medo percorrer meu corpo e a sensação de perigo latente, pego uma faca afiada de cozinha. Vou até a porta e vejo pelo vidro embaçado o contorno de um homem.

Abro um pouco a porta, o coração saltando do meu peito com a sensação de tensão. Do outro lado surge a figura de um homem alto, imponente, de cabelos castanhos lisos penteados para trás. Os olhos castanhos frios dele me atravessam como uma lança afiada. A semelhança entre ele e Leo é gritante.

Atrás dele, há dois outros homens enormes e intimidadores. Um deles possui cabelos pretos ondulados e os olhos castanhos claros puxados, o olhar dele cruza com o meu e sinto um enorme arrepio.

"Onde está o meu filho?" O primeiro homem indaga com a voz rouca e firme.

Ele invade o meu espaço pessoal, me empurrando junto com a porta para entrar em minha casa. O choque me atinge como um raio e eu seguro com mais firmeza a faca em minha mão.

"Ei! Você não pode invadir a casa das pessoas dessa maneira!" informo, incrédula. 

Coloco-me na frente dele, impedindo que ele avance pela minha sala e vá em direção ao Leo. Levanto a faca e tento manter minha mão firme. 

"Eu vou chamar a polícia se vocês não saírem imediatamente da minha casa!" Ameaço.

O homem solta uma risada curta, seca e zombeteira para mim. Ele avança mais na minha direção e segura a faca pela lâmina. Ele gira minha mão através da faca, meu pulso torce e sinto uma dor. Isso me obriga a largar a faca rapidamente.

"Chame a polícia, fêmea. Quero ver você explicar para eles que você ameaçou a vida do pai biológico dele," o homem declara com a voz cheia de autoridade.

Meu coração acelera ainda mais com as palavras ameaçadoras dele.

Leo surge correndo e empurra o rapaz pela cintura. A sua atitude é inusitada e pega todos nós desprevenidos.

"Sai de perto da minha mãe, seu monstro!" Leo grita decidido.

Sei que a força do meu filho é nada comparada ao tamanho do rapaz, mesmo assim, o homem cambaleia para trás, surpreso. Seguro Leo pelo ombro, afastando-o do sujeito.

Leo está com o olhar zangado e se agarra à minha cintura como se fosse possível me proteger dos três homens que nos encaram sérios.

O homem se agacha na frente do Leo e abre um sorriso de canto. Leo agarra ainda mais firme minha cintura.

"Você é um rapazinho muito corajoso", o homem diz com orgulho na voz. "Você vai se dar bem lá na alcateia."

Olho para ele, incrédula e confusa. Alcateia? O pai de Leo é um louco?

"Ele não vai a lugar nenhum com vocês!" afirmo com firmeza na voz e afasto Leo do sujeito.

O homem levanta o olhar frio em minha direção e um rosnado escapa por entre os seus lábios cerrados.

"Alfa Lakan, eles chegaram," diz o rapaz de cabelos castanhos. "Precisamos ir antes que eles avancem."

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