Capítulo 2

Quando o céu já estava tingido de um azul profundo com os primeiros traços de estrelas, Theron escalou a parede lateral do castelo com cuidado. Seus pés encontraram apoio em saliências familiares, e suas mãos agarraram a beirada da janela de seu quarto. Ele havia feito o caminho inverso de sua fuga com a mesma precisão, mas desta vez com o coração acelerado.

Pulando para dentro do quarto, ele bateu os pés no chão de pedra e se endireitou rapidamente. Foi então que ouviu um som que o fez congelar.

- Theron.

A voz grave de seu tio, Ares, ressoou no quarto escuro. Theron virou-se lentamente, já preparando uma desculpa. Seu tio estava sentado na cadeira ao lado da janela, os braços cruzados e o semblante sério, mas com um brilho inconfundível de preocupação nos olhos.

- Tio Ares! - Theron tentou soar despreocupado. - Não sabia que estava aqui...

Ares levantou-se, o som de suas botas ecoando levemente no quarto.

- Onde você estava? - perguntou, direto. - Eu procurei você por todo o castelo. Os guardas estão quase entrando em pânico.

Theron engoliu em seco. Ele não queria mentir, mas também sabia que revelar tudo poderia causar mais problemas.

- Eu... eu só fui tomar um ar - disse, tentando soar convincente. - Estava sufocando aqui dentro.

Ares arqueou uma sobrancelha, descrente.

- Tomar ar? - ele repetiu. - Theron, você só tem 10 anos. Sair sozinho, ainda mais fora dos limites do castelo, é perigoso. O que você faria se algo tivesse acontecido?

Theron baixou os olhos, sentindo o peso das palavras de seu tio. Ele sabia que Ares estava certo.

- Eu sei - respondeu baixinho. - Mas eu só queria... eu queria ver o que tem lá fora. Queria me sentir livre, nem que fosse só por um dia.

O rosto de Ares suavizou ao ouvir o tom sincero de Theron. Ele suspirou e colocou uma mão sobre o ombro do sobrinho.

- Eu entendo, garoto. - Ares olhou pela janela por um momento, como se também estivesse se lembrando de algo. - Eu também era assim quando tinha sua idade. Mas você precisa ser mais cuidadoso. A vida fora das muralhas não é tão simples quanto parece.

Theron ergueu os olhos para ele, hesitante.

- Eu encontrei alguém, tio. Uma menina... de Elyndor. Ela estava colhendo flores.

Ares levantou uma sobrancelha, interessado, e puxou uma das cadeiras para sentar-se. Ele indicou com a cabeça para que Theron fizesse o mesmo.

- Me conte sobre ela.

Theron sentou-se e começou a falar, descrevendo como tinha encontrado Elore, as flores que ela colhia e as histórias que ela contava. Enquanto falava, o entusiasmo iluminava seus olhos, e Ares ouvia com atenção, um leve sorriso brincando em seus lábios.

- Você realmente viveu uma aventura hoje, hein? - comentou Ares quando Theron terminou. - Mas devo dizer, você tem sorte de ter voltado inteiro.

- Eu sei - disse Theron, olhando para as mãos. Depois ergueu os olhos e sorriu. - Mas foi incrível, tio. Foi como estar em um dos contos que você me conta antes de dormir.

Ares riu e bagunçou os cabelos do sobrinho.

- É bom saber que minha paixão por aventuras não foi desperdiçada em você. - Ele se levantou e olhou para a janela aberta. - Mas agora, acho que é hora de você descansar. Amanhã será um novo dia, e quem sabe? Talvez mais aventuras te esperem.

Theron concordou, sentindo o peso da fadiga finalmente tomar conta dele.

- Obrigado, tio.

- Sempre, garoto. Agora durma.

E com isso, Ares apagou as luzes, fechou a porta e deixou Theron sozinho com seus pensamentos, ainda cheio das imagens da floresta e de Elore.

Dia seguinte

Theron Akoni, de apenas 10 anos, é uma criança que parece nunca parar. Seus cabelos castanhos vivem despenteados, como se refletissem a energia constante que o move. Os olhos castanhos, profundos e atentos, observam tudo ao seu redor com curiosidade insaciável, como se cada canto do mundo escondesse um segredo esperando para ser descoberto.

Ele passa boa parte dos dias dividido entre suas paixões. No estábulo, cavalga com habilidade para alguém tão jovem, adorando sentir o vento no rosto enquanto imagina estar galopando para além das fronteiras de Mytra. Já no pátio de treino, pratica golpes de espada sob a supervisão de seu tio, Ares, que o incentiva a ser tanto ágil quanto estratégico.

Hoje, Theron está especialmente inquieto. Ele brinca com seus irmãos, Lancelot, de 6 anos, e Hera, de 4, inventando uma história sobre um dragão que ameaça o castelo. Lancelot segura uma espada de madeira, tentando imitar os movimentos do irmão mais velho, enquanto Hera, com sua coroa de flores, insiste que ela deveria ser a rainha que dá as ordens.

- Theron, você tem que salvar o reino! - Hera grita, segurando um cajado improvisado.

- Salvar o reino? - Theron sorri, inclinando-se dramaticamente. - Como um cavaleiro destemido, eu juro que vou proteger todos vocês!

O riso dos três ecoa pelos corredores do castelo. Por mais que Theron seja o herdeiro, ele é, acima de tudo, um irmão dedicado.

Quando não está com os irmãos, Theron frequentemente procura Ares, seu tio e melhor amigo. Ares, com seu jeito descontraído e histórias emocionantes, é o único que parece entender plenamente o desejo de Theron por liberdade.

Agora, no final da tarde, Theron se senta com Ares em uma varanda do castelo.

- Então, garoto, o que anda passando nessa cabeça? - Ares pergunta, jogando uma maçã para o sobrinho.

- Só queria sair daqui - Theron responde, mordendo a fruta. - Quero ver o que tem lá fora. As florestas, as montanhas... deve haver tanta coisa além dessas muralhas!

Ares ri, mas não zomba. Ele reconhece o mesmo espírito inquieto que tinha na idade de Theron.

- Um dia, você vai ver tudo isso. Mas precisa ter paciência. Lá fora não é só aventura; também há perigos.

Theron olha para o horizonte, onde o sol começa a se pôr, tingindo o céu de laranja e dourado.

- Mas é isso que faz tudo valer a pena, não é?

Ares sorri.

- Você tem razão, garoto. E quando chegar a hora, espero que você me leve junto.

Theron ri e continua a conversar com Ares, imaginando aventuras que ainda estão por vir. Ele ama sua família, mas sabe que o mundo além dos portões do castelo o espera. E, com cada pôr do sol, esse desejo cresce ainda mais dentro dele.

Capítulo 3

Theron acorda cedo, antes mesmo de o sol se erguer completamente sobre as montanhas de Mytra. Há dias ele pensa no encontro na floresta, em Elore e na maneira como ela parecia pertencer ao mundo lá fora. Ele precisa vê-la de novo, mesmo sabendo que é arriscado.

- Ajax, você vai comigo. - Theron declara, seu tom firme enquanto arruma uma pequena bolsa com pão e frutas.

Ajax, o filho do chefe da guarda real e seu melhor amigo, estreita os olhos enquanto amarra a capa nos ombros.

- Eu deveria perguntar onde exatamente estamos indo, mas já sei que não vou gostar da resposta.

Theron sorri de lado, tentando soar confiante.

- Vamos até a floresta. Quero encontrar alguém...

Ajax o encara por um momento, incrédulo, mas acaba suspirando. Ele conhece Theron o suficiente para saber que o amigo não desistirá facilmente.

- Tudo bem, mas se formos pegos, vou dizer que você me obrigou.

- Claro, como sempre. - Theron ri, empurrando Ajax para fora do quarto.

Os dois atravessam o castelo com a discrição de ratos em busca de migalhas, até finalmente chegarem ao portão lateral. Os guardas ainda estão sonolentos, e, com um pouco de astúcia e sorte, os dois conseguem escapar para a liberdade da manhã fria.

Quando chegam à floresta, os sons da natureza os envolvem novamente. Theron lidera o caminho, os olhos atentos ao terreno, enquanto Ajax tenta acompanhar, murmurando algo sobre "ser morto pelo pai" se forem descobertos.

- Você tem certeza de que sabe onde está indo? - Ajax pergunta, desviando de uma raiz alta.

- Sim, mais ou menos. - Theron responde, com um sorriso travesso.

Após quase uma hora de caminhada, os dois chegam a uma clareira perto do riacho onde Theron encontrou Elore pela primeira vez. Ele começa a procurar por sinais dela, mas é interrompido por vozes que ecoam entre as árvores.

- Ei, olhem só quem está aqui!

Theron e Ajax se viram rapidamente, apenas para ver quatro garotos mais velhos saindo de entre as árvores. Suas roupas são gastas, e seus rostos, marcados por sorrisos maliciosos. Eles claramente não pertencem a Mytra ou Elyndor; devem ser filhos de mercadores ou vagabundos que vagam pelas fronteiras.

- Quem são vocês? - um dos garotos pergunta, cruzando os braços. - Não parecem daqui.

Ajax dá um passo à frente, tentando parecer mais confiante do que se sente.

- Não interessa quem somos. Apenas nos deixem em paz.

O garoto maior ri, aproximando-se de Ajax e Theron com os outros logo atrás.

- Ah, vocês não querem problemas? Pois parecem ser ótimos em encontrá-los.

Theron cerra os punhos, pronto para reagir, mas sabe que ele e Ajax não têm chance contra os quatro. Ele está prestes a responder quando uma voz feminina, firme e autoritária, corta o ar.

- Deixem eles em paz!

Os garotos se viram, surpresos, e Theron acompanha o movimento. Lá está Elore, segurando um galho comprido como se fosse um cajado. Seus olhos verdes brilham com determinação, e seu cabelo loiro, iluminado pelo sol filtrado pelas árvores, parece quase uma auréola dourada.

- Quem é você? - um dos garotos pergunta, desconfiado.

Elore não responde. Em vez disso, dá um passo à frente e bate o galho no chão com força.

- Vocês querem problemas comigo? Porque garanto que não vão gostar do que vai acontecer.

Os garotos hesitam, trocando olhares nervosos. Há algo na postura de Elore que os faz recuar.

- Vamos sair daqui. - o maior deles diz, empurrando os outros. - Não vale a pena.

Quando os garotos desaparecem entre as árvores, Theron solta a respiração que nem percebeu estar prendendo.

- Você... apareceu na hora certa. - diz ele, sorrindo para Elore.

Ela abaixa o galho e cruza os braços, olhando para os dois meninos.

- Vocês não deveriam estar aqui sozinhos. É perigoso.

Ajax resmunga, massageando a nuca.

- Eu tentei dizer isso a ele.

Theron, no entanto, não se deixa abalar.

- Eu precisava te ver de novo.

Elore pisca, surpresa com a sinceridade do garoto, mas acaba sorrindo levemente.

- Então vamos. Já que estão aqui, pelo menos vamos fazer algo útil.

Ela começa a andar, e Theron e Ajax a seguem, sentindo que a aventura mal começou.

Theron, Ajax e Elore passam o restante da manhã e boa parte da tarde brincando e explorando a floresta. Elore lidera o trio com a confiança de quem conhece cada árvore e riacho. Ela os leva até uma clareira onde flores raras crescem em abundância, mostrando a Theron e Ajax como trançar as hastes para criar coroas.

- Aqui - diz ela, colocando uma coroa de flores sobre a cabeça de Theron. - Agora você parece um rei das florestas.

Ajax ri, apontando para a coroa.

- Talvez ele prefira uma espada a flores, mas ficou engraçado.

Theron revira os olhos, mas não consegue evitar sorrir.

Eles correm pelo riacho, escalam pequenas pedras e até tentam atravessar uma ponte improvisada feita de um tronco caído. Pela primeira vez em semanas, Theron sente que encontrou algo mais importante do que suas aulas e deveres: uma amizade genuína e a liberdade que ele tanto busca.

Quando o sol começa a se pôr, Elore olha para o horizonte, preocupada.

- Está ficando tarde. Vocês devem voltar para casa.

Theron olha para ela, relutante.

- Nos vemos de novo?

Ela sorri.

- Talvez. Agora vão.

Ajax puxa Theron pelo braço, e os dois começam a voltar para Mytra, rindo das histórias que inventaram durante o dia. Mas, ao se aproximarem do castelo, o riso cessa.

A primeira coisa que os dois percebem é o cheiro de fumaça. Depois, vêm os sons – gritos, o estrondo de espadas se chocando e o galope desesperado de cavalos.

- O que está acontecendo? - Ajax pergunta, a voz carregada de urgência.

Theron não responde. Ele já está correndo na direção do castelo.

Quando chegam aos portões, a visão é devastadora. As muralhas estão parcialmente destruídas, e soldados estranhos, usando armaduras negras, lutam contra os guardas de Mytra. Corpos jazem no chão, e o pátio está um caos de sangue e chamas.

- Meus pais! - Theron grita, disparando para dentro.

Ajax tenta segui-lo, mas o garoto é rápido demais. Theron entra pelos corredores do castelo, desviando dos invasores. Ele conhece aqueles corredores melhor do que qualquer um. Chega ao salão principal, onde vê uma cena que nunca esquecerá.

O rei Alden e a rainha Isolde estão caídos no chão, rodeados por homens armados. Theron sente o mundo desabar ao redor dele.

- Pai! Mãe! - Ele corre até eles, mas é detido por Ajax, que finalmente o alcança.

- Theron, não! Não podemos fazer nada aqui!

O príncipe, chorando, se debate, mas Ajax o puxa para longe.

- Precisamos encontrar seus irmãos e seu tio! - Ajax diz, tentando trazer Theron de volta ao momento.

Eles correm para os aposentos das crianças. Lá, encontram Lancelot, de 6 anos, segurando uma espada pequena, tentando proteger a irmã mais nova, Hera, de dois invasores.

- Larguem ela! - Lancelot grita, mas suas mãos tremem, e a espada é derrubada de seus dedos pequenos.

Theron e Ajax entram na sala no momento em que um dos invasores agarra Hera e a leva.

- Hera! - grita Theron, correndo atrás deles, mas Ajax o detém novamente.

- Eles têm mais soldados! Precisamos ser inteligentes!

Theron vê Lancelot ajoelhado no chão, chorando. Ele o abraça, tentando consolá-lo, enquanto a dor da perda cresce em seu peito.

- Vou encontrá-la, Lancelot - promete Theron, a voz quebrada. - Eu prometo.

Enquanto os invasores recuam, um silêncio mortal cai sobre o castelo. Theron e Ajax finalmente encontram Ares, ferido mas vivo, escondido em uma sala lateral.

- Tio! - Theron corre até ele, ajudando-o a se levantar.

Ares, com dificuldade, olha para o sobrinho e balança a cabeça.

- Eles... eles sabiam onde atacar. Foi tudo planejado.

Theron, agora com o olhar endurecido, segura a mão do tio.

- Eles levaram Hera, tio.

Ares fecha os olhos, com o semblante de quem carrega a culpa.

- Então vamos trazê-la de volta.

Theron, com lágrimas misturadas à raiva, olha para Ajax, Lancelot e o tio ferido.

- Isso não acaba aqui.

E, naquela noite, sob as ruínas de tudo o que conhecia, Theron Akoni promete lutar por sua família, sua irmã e por justiça.

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