Capítulo 2

O remorso é a única dor da alma, que nem a reflexão nem o tempo atenuam.

Madame de Staël

Júlia

Estava sentada em frente ao meu computador, na sala em que trabalhava na empresa Gusmão e Associados, refletindo sobre a minha vida e as escolhas que eu havia feito ao longo dos meus vinte e três anos.

Desde que o novo gerente de projetos havia assumido a equipe da qual eu fazia parte, uma vez que o senhor Waldir, meu antigo chefe, havia se aposentado, que a minha vida no trabalho tinha mudado drasticamente.

Para meu total desprazer, Maxwell Miller havia assumido a posição e ele simplesmente estava dificultando o meu trabalho de proposito, eu não tinha dúvida, pois ele deixava isso bastante claro.

Eu nunca havia sido uma garota “sortuda”, àquela que tudo que faz, ou que pretende fazer, dar certo. Mas a maioria das pessoas também não. Então até aí, eu era só mais uma pessoa vivendo uma vida normal, enfrentando algumas dificuldades.

Alguns diriam que eram desafios.

Independentemente da nomenclatura utilizada, eu considerava que estava tudo caminhando para alcançar a minha tão sonhada estabilidade.

Eu havia nascido em Brotas, interior de São Paulo e sempre me senti muito feliz ao lado dos meus pais. Mas tudo mudou quando minha mãe faleceu e meu pai colocou outra mulher dentro de nossa casa, menos de dois meses depois.

Durante a minha adolescência, presenciei um desfile constante de mulheres entrar e sair da vida do meu pai, e consequentemente, da minha também.

Mesmo assim, meu pai conseguiu me surpreender quando em meu aniversário de dezenove anos, ele e minha melhor amiga, a Samantha, assumiram um relacionamento e decidiram que iriam se casar. Aquilo me deixou devastada, eu realmente não esperava e falei àquilo para eles.

Meu pai me pediu então para sair de sua casa. Mesmo eu não tendo nenhum outro lugar para onde ir, pois a minha única família era ele e seus irmãos e nenhum deles me aceitou em suas casas.

Não podendo contar também com a minha melhor amiga, apelei então para a Cecília, uma grande amiga de infância, que já não morava mais em Brotas fazia mais de cinco anos, mas com quem sempre mantive contato.

Ela me aceitou em sua casa e me mudei então para São Paulo, aonde consegui encontrar, de maneira rápida, um emprego e pouco tempo depois, dei início ao meu curso de engenharia civil, algo que eu sempre sonhei em fazer.

O meu emprego era bastante razoável, levando-se em conta que ainda estava cursando a faculdade e eu dividia um apartamento de dois quartos com a Cecília, em um bairro relativamente calmo.

A gente se dava bem e sempre saíamos para nos divertir com nossos amigos JP, Vivi e César e eu gostava muito da minha nova vida em São Paulo e acreditava que estava tudo muito tranquilo, apesar do que tinha acontecido com meu pai.

Isso até conhecer Maxwell Borges, o que acabou por se tornar mais um divisor de águas na minha vida, há dois anos atrás e que agora havia voltado para tirar a minha estabilidade, não apenas psicológica dessa vez, como também a financeira.

Eu gostava muito do meu emprego, até que o novo gerente de projetos havia assumido a equipe e a minha vida no trabalho tinha mudado drasticamente, pois o Max, como ele se havia se apresentado para mim em uma boate, há dois anos, havia assumido a posição e ele simplesmente estava dificultando o meu trabalho de proposito, eu não tinha dúvida, pois ele deixava isso bastante claro.

Ele passou a me perseguir no trabalho, me mudou de função e me colocou como sua secretaria, na tentativa ridícula de me fazer aceitar ser sua amante, me fazendo propostas absurdas durante o meu expediente de trabalho.

Como eu dependia totalmente daquele emprego para pagar minha faculdade e as minhas despesas morando na capital, tentei encontrar outro emprego, para então poder pedir demissão.

Infelizmente não fui selecionada em nenhuma das entrevistas das quais eu havia participado e hoje me encontrava em um beco sem saída, pois não queria depender da bondade dos meus amigos para tudo o que eu precisava e sabia que não conseguiria aguentar trabalhar com o Max por muito tempo mais.

Para meu total desprazer,

- Venha até minha sala, Júlia. Agora! – Maxwell falou pelo interfone e eu rolei os olhos de desgosto.

Me preparei psicologicamente para enfrentar mais uma batalha, baixei minha saia o máximo possível e ajeitei o decote extravagante da blusa que eu tinha sido obrigada a usar como farda no meu trabalho, ideia do Max, é claro.

- Pois não, senhor Maxwell? – Tentei manter uma fachada de neutralidade, apesar de estar trincando os dentes de raiva daquele mal caráter.

- Sente-se aqui, de frente para mim. – Ordenou em um tom que me dava calafrios de repulsa.

Fiz conforme me ordenou e aguardei pelas orientações. Se é que seria algo relacionado ao trabalho.

- Pensou sobre a minha proposta?

- Está se referindo ao convite para jantar? – Questionei, arqueando a sobrancelha.

- Também. – O olhei sem entender. – Não desejo apenas um jantar com você. Sabe que quero bem mais que isso.

Enquanto falava, se levantou de seu lugar por trás da mesa, caminhando a passos lentos e parando então por trás da cadeira na qual eu estava sentada.

Apesar de não conseguir ver o seu rosto, não lhe dei o prazer de me virar em sua direção.

- Não tenho interesse. – Disse apenas.

Senti quando ele colocou suas mãos sobre o encosto da cadeira que eu estava e fiquei imediatamente tensa.

- Acho melhor você reconsiderar.

Ele havia se abaixado ao ponto de falar bem próximo ao meu ouvido, o que me fez ter ânsias de vômito, ao sentir o cheiro do seu perfume assim tão próximo de mim.

Pensei em me levantar, mas ele estava me cercando, sua intenção de me intimidar era clara.

- Como já falei, eu não estou interessada.

Decidi me levantar, não estava aguentando aquela proximidade entre nós. As lembranças dos olhares condenatórios das pessoas do prédio, do bebê que perdi, da pessoa insegura que eu tinha me tornado, tudo muito fresco em minha memória ainda.

Mas antes que eu pudesse dar ao menos um passo, Max me agarrou por trás, me mantendo presa entre seus braços, que me apertaram.

- Você não tem opção, Júlia. Ou você aceita o que estou te oferecendo, ou você pode se considerar mais uma na fila do desemprego.

Ele falava suspirando alto e seu hálito me fez quase vomitar ali mesmo, tamanho era o nojo que eu sentia daquele homem.

- Me solta ou eu vou gritar tão alto, que todos nessa empresa vão me ouvir. – Não foi uma ameaça vazia.

Tentei me soltar, fazendo bastante força em meus braços, mas ele os prendia de maneira firme, e era bem mais forte que eu.

Como ele não afrouxou o agarre, eu fiz menção de abrir a boca, pois eu realmente pretendia gritar a plenos pulmões, mas ele colocou a mão sobre os meus lábios, evitando dessa forma que eu concluísse a ação.

Me virou de frente para ele, conseguindo manter uma de suas mãos em minha boca e a outra juntou as minhas em um aperto só, e estava tão firme, que eu já estava começando a sentir dor aonde ele segurava.

Quando ele começou a afastar a mão que estava sobre a minha boca, eu acreditei que ele me deixaria livre para gritar, mas fui novamente surpreendida por sua ação, pois ele colocou sua boca por sobre a minha, me mantendo presa em seu aperto e seu beijo punitivo, machucando meus lábios.

Não consegui mais controlar a ânsia que estava sentindo, tamanha era a repulsa que eu sentia pelo Max e estava prestes a vomitar ali mesmo, em cima daquele cretino, quando ele pareceu entender o que iria acontecer e me livrou dos seus braços.

- Mas o que é isso!? – Maxwell perguntou o óbvio, afastando-se de mim, para meu total alivio.

Saí correndo em direção ao banheiro da minha sala, trancando rapidamente a porta e enfim pude despejar todo o alimento que havia conseguido ingerir naquela manhã, que havia sido apenas um suco de laranja, me sentindo completamente esgotada ao termino do ato.

Depois que consegui me recuperar, pelo menos parcialmente, me limpei da melhor forma possível e saí do banheiro, me deparando com o Max me aguardando bem próximo a porta.

- Você pode me explicar o que aconteceu? – Ele exigiu em um tom altivo.

Passei direto por ele, indo até a minha mesa e pegando a minha bolsa.

- Você não precisa me demitir. – Falei imprimindo o máximo de desprezo possível na voz. – Eu estou pedindo demissão.

- Você enlouqueceu?

Não dei nenhuma resposta e saí da sala andando o mais rápido que meus saltos permitiam. Eu queria a maior distância possível entre eu e aquele homem inescrupuloso. Não iria mais me submeter ao seu assédio. Nada poderia vir primeiro que a minha dignidade.

Capítulo 3

Você bloqueia seu sonho quando você permite que seu medo fique maior do que a sua fé.

Mary Manin Morrisey

Júlia

Eu conhecia a Cecília desde que éramos apenas crianças e estudamos na mesma escola, em Brotas, cidade do interior de São Paulo.

Apesar dela ter se mudado para a capital quando ainda era adolescente, nós mantivemos nossa amizade e quando meu pai me mandou embora de casa, ela me convidou a morar com ela e se ofereceu para me ajudar naquele momento tão difícil em que me vi sem casa e sem família alguma que me estendesse a mão.

Eu aceitei o convite da minha amiga, pois tinha algumas economias que estava juntando para iniciar minha faculdade e não ficaria totalmente dependente dela nos primeiros meses. Nós não tínhamos mais nenhum parente próximo e cuidávamos uma da outra agora, desde que me mudei para São Paulo.

A Cecília já havia dito, várias vezes, que eu deveria pedir demissão, mas eu temia não conseguir encontrar outro emprego rapidamente, pois agora a situação era outra e eu não me sentiria bem.

Mas não adiantava ficar remoendo esse assunto, pois já tinha pedido demissão mesmo, pensei, decidindo que o melhor seria parar de me lamentar e sair a procura de outro emprego, amanhã mesmo.

Mas pensar e fazer eram coisas completamente distintas e quando percebi, estava novamente relembrando a decisão errada que eu havia tomado, dois anos atrás e que estava repercutindo de forma negativa na minha vida hoje.

- Cheguei. – Cecília falou alegre, entrando em meu quarto.

- Que bom. – Falei, mas sem animação alguma na voz. – Estava me sentindo muito só.

- Você não deve se sentir assim, Júlia. São coisas que acontecem em nossas vidas e não temos como mudar o passado. Agora é tentar não recair no mesmo erro, como você tem feito todo esse tempo.

- Estou muito preocupada, amiga. Como vou ajudar com as contas de casa?

- Eu consigo segurar as pontas. Você não poderia ter ficado se submetendo a um chefe abusivo dessa forma, Júlia. – Cecília falava de maneira firme, pois se tinha uma pessoa nesse mundo que detestava ainda mais o Max do que eu, essa pessoa era ela. – Desde o primeiro momento em que sofreu o primeiro assedio, era para ter ido diretamente ao RH e exposto a situação.

- Estou pensando seriamente em ir até Brotas, falar com o papai. – Mudei de assunto, pois já havíamos falado várias vezes sobre aquilo.

- Você tem certeza? – Cecília parecia preocupada. – Não quero me meter na sua vida dessa forma, mas não acho uma boa ideia.

Ela provavelmente estava certa, mas eu não estava me sentindo feliz morando em São Paulo desde o que havia acontecido comigo há dois anos, e agora, com o Max de volta a minha vida, aquela sensação de insatisfação ficou ainda mais nítida.

Entre ficar dependendo da Cecília ou do meu pai, eu estava chegando a conclusão que o melhor seria voltar para minha cidade natal e tentar fazer as pazes com a minha única família.

A Cecília já havia me ajudado muito e eu não queria ficar novamente dependendo dela financeiramente, que seria exatamente isso que aconteceria, agora que saí do trabalho. Eu não tinha mais economias, pois o meu salário era suficiente apenas para me manter e pagar a minha faculdade.

Estava prestes a falar tudo aquilo para minha amiga, quando percebi que meu celular, que estava no modo silencioso, estava vibrando com uma chamada.

Olhei para a tela e vi que se tratava do Henrique, um grande amigo do João Felipe, noivo da Vivi.

- Henrique novamente? – Cecília perguntou, exibindo um sorriso de diversão.

Mostrei a tela do meu telefone para ela, que viu que se tratava dele mesmo e caiu na risada.

- Não entendo o que tem de engraçado nessa situação. – Exibi uma carranca de desagrado.

- Você poderia ao menos aceitar o convite dele para trabalhar na construtora. Seria uma solução muito boa para o seu problema atual, já que não deseja aceitar a minha ajuda. – Falou isso e exibiu uma careta, pois ela sempre fazia questão de deixar claro que não se importava em assumir todas as despesas da nossa casa.

- Eu só conseguiria arrumar mais um problema, isso sim.

- Por que diz isso?

- O Henrique está interessado em mim, como já deixou claro para todo mundo.

Eu havia conhecido o Henrique quando fui a uma boate com minhas amigas e ele entrou em uma briga para defender o João Felipe. Depois que toda a confusão já havia sido resolvida, ele se ofereceu para vim deixar a gente em casa, ao que eu recusei logo de imediato.

Mas a Cecília acabou aceitando o oferecimento e desde então, ele tentava conseguir um encontro comigo, pois se dizia apaixonado por mim. Eu realmente não acreditava em suas palavras, pois além de ser lindo e rico, ele era um cara muito simpático e extrovertido, que tinha escrito em sua testa a palavra “Mulherengo”.

Eu não queria nenhum tipo de envolvimento no momento, muito menos com alguém que nunca antes tinha estado em um relacionamento amoroso, vivendo sempre em busca de aventura.

Eu tinha apenas vinte e dois anos e poderia afirmar, com toda a convicção, que já havia passado dessa fase e não era isso o que eu queria para a minha vida no momento.

Tampouco estava em busca de um relacionamento sério, também. Eu só queria terminar minha faculdade, conseguir um emprego na minha área e poder ter a minha tão sonhada estabilidade financeira. Mas para isso, eu teria que encontrar uma fonte de renda, o mais rápido possível.

- Eu não consigo te entender, Júlia! – Cecília falou, aparentemente chateada com minha recusa em aceitar a oferta feita pelo Henrique. – Quer um emprego, o Henrique está te oferecendo um, mas você não quer trabalhar na construtora Alcântara por que o diretor financeiro, com o qual você mal terá contato, afirma está apaixonado por você.

- Eu tenho certeza que se de decidisse aceitar essa proposta, ele iria confundir as coisas e eu só terei pulado de um assediador para outro.

Apontei o óbvio. Ao menos para mim, estava mais que claro que era aquilo que iria acontecer. Por mais que todos dissessem que o Henrique era totalmente diferente do Max, eu não iria pagar para ver.

Temia me envolver novamente com alguém, depois do que aconteceu quando caí na conversa do Max e fui enganada de maneira tão vil.

Eu e a Cecília tivemos até mesmo que mudar de endereço, uma vez que no prédio em que ela morava desde que chegara a São Paulo, quando se mudara de Brotas, a nossa permanência ficou insustentável, devido ao meu envolvimento com o Max, que morava no mesmo prédio que nós e que era casado, mas eu só tomei conhecimento do fato quando já era tarde demais.

- E sobre a proposta da Vivi?

Viviane havia se tornado uma grande amiga, desde o primeiro momento em que nos conhecemos, quando a Cecília nos apresentou. Eu era recém-chegada a São Paulo e elas eram amigas e nós acabamos formando um grupo muito unido, juntamente ao João Pedro e ao César.

A Viviane hoje estava noiva do João Felipe, que era irmão do João Pedro, com o qual a Vivi também havia sido casada. Nós todos ficamos bastante surpresos quando ela nos contou toda a história entre ela e o Felipe, e que sua filha, a Sarinha, não era filha do João Pedro, como eles nos fizeram acreditar, quando se casaram e sim do irmão e atual noivo dela.

Mas hoje estava tudo nos seus devidos lugares e o nosso amigo João Pedro morava atualmente nos Estados Unidos, pois era o CEO da empresa da família na filial americana.

- Eu sei que ela tem a melhor das intenções, mas não acho certo aceitar sua oferta. A empresa do João Felipe é de um setor totalmente diferente do que eu gostaria de trabalhar e acredito que não tenha nem vaga para mim.

- Mas lá na empresa em que você trabalhava, você também não estava atuando na sua área. Não seria diferente agora. – Cecília insistiu.

- A diferença é que eu consegui o emprego por mérito próprio e agora eu estaria apenas ganhando uma oportunidade por ser amiga da mulher do chefe. Não acho isso correto. – Não achava justo me aproveitar da amizade que tinha com as pessoas, para conseguir benefícios próprios.

- Desisto. – Ela falou, saindo do quarto pisando duro e eu fiquei me sentindo um pouco mal pela situação toda.

Olhei novamente para o telefone e vi que havia voltado a vibrar, mais uma chamada do Henrique. Decidi atender e ouvir o que ele tinha a dizer, dar uma oportunidade e mais uma vez, deixar claro que eu não tinha interesse no momento.

Antes de conseguir atender a ligação, o telefone parou de tocar. Cheguei a suspirar de alívio. Na próxima vez que ele ligasse, iria atender e sugerir que fôssemos amigos, pois qualquer coisa diferente disso, não tinha possibilidade alguma de acontecer.

A Júlia que me tornei, depois de quebrar a cara, não iria se arriscar tão fácil assim. Seria necessária uma situação muito incomum para que eu deixasse meu bom senso de lado e colocasse meu coração em risco novamente.

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