Capítulo 2 – "Jogos de Poder"
(Narrado por Evan Montenegro)
O aroma de couro velho misturado ao toque sutil de cedro era sempre um lembrete de onde eu estava, no comando. O escritório "Montenegro Gourmet" era uma extensão da minha personalidade, funcional, sofisticado, mas sem os exageros que meu pai tanto adorava. Cada peça, da mesa robusta de madeira maciça aos quadros discretos nas paredes, era uma escolha calculada. E ainda assim, hoje, esse ambiente impecável parecia menos reconfortante do que deveria.
O testamento do pai de Lara.
A cláusula absurda.
O casamento forçado.
– Que jogada ousada, senhor Torres. – Minha voz soava baixa, quase inaudível no silêncio da sala. A frase, dita para mim mesmo, tinha um quê de sarcasmo, mas também de admiração.
Olhei para o contrato à minha frente, onde o nome dela estava rabiscado ao lado do meu, um prelúdio do que estava por vir.
Lara Torres. Chef dedicada, teimosa até os ossos, e com uma língua tão afiada quanto suas facas de cozinha. Eu já tinha ouvido falar dela antes mesmo de vê-la pessoalmente, mas nada poderia ter me preparado para o impacto de sua presença.
A memória de seus olhos castanhos faiscando de raiva no dia anterior invadiu minha mente. Era óbvio que ela me odiava, e eu não a culpava. Mas, ao contrário dela, eu entendia o jogo. E casamentos, reais ou não, eram jogos de poder.
Passei os dedos pelos cabelos, bagunçando-os ligeiramente, enquanto recostava na poltrona de couro. A verdade era que o testamento não era apenas sobre Lara, era sobre proteger minha própria posição. Meu pai, com sua mania de controle, deixara suas próprias condições ocultas. Se Lara não aceitasse, não apenas ela perderia tudo, mas também a Montenegro Gourmet sofreria consequências. Minha empresa não era negociável.
Minha linha de raciocínio foi interrompida por uma batida na porta.
– Entre.
Camila entrou, os saltos altos ecoando no piso de madeira. Ela tinha aquele brilho jovial que a tornava uma estrela das redes sociais, mas o que muitos não percebiam era que ela também tinha uma inteligência cortante, algo que ela escondia sob camadas de sorrisos e frases ensaiadas.
– Já decidiu como vai lidar com a sua nova esposa? – ela perguntou, jogando-se numa das poltronas como se estivesse em casa.
– Não é tão simples assim, Camila.
Ela arqueou uma sobrancelha perfeitamente desenhada.
– Nada na sua vida é simples, Evan. Mas isso... isso é ouro para as redes sociais. Vocês dois juntos? Fogo e gasolina.
Eu a encarei, exasperado.
– Isso não é um jogo para ganhar seguidores, Camila.
– Tudo é um jogo, irmão. E você melhor do que ninguém sabe disso.
Ela tinha razão, claro. Eu sempre sabia como jogar. Mas Lara era um desafio diferente. Ela não apenas resistia, ela lutava.
Camila levantou-se, ajeitando o blazer rosa-choque que parecia deslocado no ambiente sóbrio do meu escritório.
– De qualquer forma, boa sorte. Você vai precisar.
🍽️🍽️
*Mais tarde naquele dia*
Estava em um jantar formal com investidores-chave no restaurante principal da Montenegro Gourmet. O ambiente era meticulosamente projetado para impressionar, mesas cobertas com toalhas de linho branco impecáveis, luzes suaves que destacavam cada detalhe dos pratos perfeitamente apresentados, e uma música instrumental suave preenchendo o ar.
Eu estava no centro da mesa, cercado por executivos de diferentes setores, cada um deles com interesses que poderiam alavancar, ou destruir, minha empresa. E então, ele apareceu. Gustavo Villar, meu rival declarado, um homem cuja única alegria na vida parecia ser tentar me desestabilizar.
– Evan, ouvi dizer que temos algo para comemorar – disse ele, com um sorriso falso. – Um casamento, não é?
Meu maxilar travou, mas mantive a expressão neutra. Gustavo era como um abutre, sempre à espera de qualquer sinal de fraqueza.
– É verdade – respondi calmamente. – Estou noivo.
A sala caiu em um silêncio desconfortável. Gustavo se inclinou para frente, os olhos brilhando de diversão.
– Que interessante. E onde está sua noiva? Ou ela é tão fictícia quanto algumas das histórias que circulam sobre sua empresa?
O insulto velado fez minha paciência diminuir. Peguei o telefone no bolso e, sem hesitar, liguei para Lara.
– Evan? O que você quer? – Sua voz, irritada, ecoou no meu ouvido.
– Preciso que você venha para o restaurante agora. É importante.
– Eu estou ocupada – ela retrucou, o tom carregado de desdém.
– Isso não é um pedido, Lara. É uma exigência. Vista algo apropriado. Você tem trinta minutos.
Antes que ela pudesse protestar, desliguei.
Quando ela entrou no salão, senti o ar mudar. Lara estava deslumbrante em um vestido preto simples, mas elegante, que abraçava suas curvas sem ser chamativo. Seus cabelos cacheados estavam soltos, caindo em ondas sobre os ombros, e seus olhos carregavam uma mistura de raiva e determinação.
– Aqui estou – disse ela, com um sorriso falso. – Espero que tenha valido a pena.
– Sempre vale – respondi, estendendo minha mão para guiá-la até a mesa.
Os olhares se voltaram para nós, curiosos, avaliadores. Gustavo parecia particularmente interessado.
– Então, esta é Lara? – ele perguntou, levantando-se para cumprimentá-la. – Uma mulher impressionante, devo dizer.
Lara manteve a compostura, apertando a mão dele com firmeza.
– Impressionante o suficiente para lidar com situações inesperadas, pelo visto.
Ela era boa. Melhor do que eu esperava.
A noite continuou com tensões veladas e sorrisos forçados, mas Lara manteve sua posição como uma profissional. Quando a música começou a tocar, aproveitei a oportunidade.
– Podemos dançar? – perguntei, estendendo minha mão.
– Isso faz parte do show? – ela murmurou, mas aceitou.
Enquanto dançávamos, meu rosto estava próximo ao dela. Baixei a voz, permitindo que apenas ela ouvisse.
– Você pode até odiar isso, mas já somos parceiros. Melhor se acostumar.
Ela ergueu o olhar, os olhos faiscando com desafio.
– Não conte com isso, Evan Montenegro.
Enquanto girávamos na pista de dança, o olhar de Gustavo do outro lado da sala deixou claro que ele não comprava nossa farsa. E, pior ainda, Lara não parecia disposta a facilitar minha vida. Se eu queria vencer, teria que encontrar outra forma de convencê-la.
Capítulo 3 – "Primeiros Confrontos"
(Narrado por Lara Torres)
Os primeiros raios de sol atravessavam as cortinas da cozinha principal do "Sabores da Terra", pintando as paredes em tons suaves de dourado. Era cedo demais para o movimento começar, mas o calor do forno já preenchia o ambiente. Eu amava esses momentos de silêncio, quando podia focar no que sabia fazer de melhor, criar algo com minhas próprias mãos.
Na bancada de mármore, um pedaço de massa descansava sob um pano limpo, esperando para ser modelado. O cheiro do pão recém-assado pairava no ar, misturando-se ao aroma sutil de café fresco que eu tinha preparado minutos antes. Era o tipo de conforto que eu precisava, um lembrete de que, no meio do caos, eu ainda tinha controle sobre algo.
Mas meu momento de paz foi brutalmente interrompido.
– Você chama isso de privacidade? – A voz grave e familiar cortou o ar, ecoando pela cozinha.
Me virei para encontrar Evan Montenegro encostado na porta, as mãos nos bolsos do terno perfeitamente ajustado. O brilho zombeteiro em seus olhos me irritou imediatamente, assim como a maneira como ele parecia deslocado e, ao mesmo tempo, completamente à vontade naquele espaço que era meu.
– O que você está fazendo aqui, Evan? – perguntei, cruzando os braços e me preparando para a discussão que, sem dúvida, estava por vir.
Ele deu alguns passos à frente, observando a bancada cheia de utensílios e ingredientes.
– Precisamos conversar.
– Sobre? – Minha voz era afiada, cortante, mas ele não parecia intimidado.
– Regras – respondeu simplesmente, pegando um pedaço de pão e examinando-o como se fosse um crítico.
Puxei o pão de volta de sua mão antes que ele pudesse fazer qualquer comentário.
– Regras? Você está no lugar errado para isso.
Ele arqueou uma sobrancelha, claramente achando graça da minha resistência.
– Acredite, Lara, regras são exatamente o que precisamos. Se vamos fingir que somos um casal, precisamos estar na mesma página.
– Eu já deixei claro que não gosto disso – retruquei, com o tom carregado de exasperação.
– E eu já deixei claro que isso não é sobre gostar. É sobre necessidade.
Soltei um suspiro frustrado e passei as mãos pelo avental que ainda usava, tentando conter a raiva. Ele tinha o dom de me tirar do sério em questão de segundos.
– Se insiste tanto, venha comigo. Mas saiba que não tenho paciência para os seus joguinhos hoje.
Ele me seguiu pelo corredor estreito que levava ao meu pequeno escritório, um espaço que nunca tinha sido projetado para abrigar conversas tão tensas quanto as que estávamos prestes a ter. O ambiente era aconchegante à sua maneira, com prateleiras lotadas de livros de receitas e papéis espalhados pela mesa.
Eu me sentei na cadeira giratória desgastada e apontei para a cadeira do outro lado.
– Sente-se.
Ele ignorou minha sugestão, optando por encostar-se na mesa. A proximidade era desconfortável, ele estava perto o suficiente para que eu pudesse sentir o calor de sua presença.
– Vamos estabelecer algumas coisas – começou, cruzando os braços. – Primeiro, nossas aparições públicas. Precisamos parecer um casal genuíno, não dois estranhos obrigados a dividir o mesmo espaço.
– Isso é óbvio – murmurei, apoiando os cotovelos na mesa.
– Segundo, precisamos ensaiar uma história consistente. Como nos conhecemos, como começamos a namorar... você sabe, os detalhes que as pessoas vão querer saber.
– Você quer que eu decore mentiras agora?
– Prefiro chamar de... narrativa criativa.
O sarcasmo em sua voz fez meu sangue ferver.
– Você não tem ideia de como isso é ridículo, não é? – eu disse, levantando da cadeira. – Minha vida inteira foi virada de cabeça para baixo, e agora você quer que eu finja ser sua adorável esposa?
Ele inclinou a cabeça, como se estivesse analisando cada palavra que eu dizia.
– Não estou pedindo que você seja adorável, Lara. Só convincente.
– Bem, isso vai ser um problema. Porque eu não sou uma atriz.
O silêncio que se seguiu foi denso, carregado de tensão. Ele parecia estar ponderando algo, os olhos fixos nos meus como se estivesse tentando desvendar algum segredo oculto.
Finalmente, ele deu um passo à frente, reduzindo ainda mais a distância entre nós.
– Talvez isso seja mais fácil do que você pensa – ele murmurou, a voz baixa e quase provocadora. – Se pararmos de fingir que odiamos tanto.
O tom em sua voz, a maneira como ele invadia meu espaço pessoal, tudo me deixou desconcertada. Meu coração disparou, mas eu me recusei a mostrar qualquer sinal de fraqueza.
– O que você quer dizer com isso? – perguntei, erguendo o queixo em desafio.
Ele sorriu, um sorriso lento e calculado que me deixou ainda mais irritada.
– Acho que você sabe exatamente o que quero dizer.
E, com isso, ele se afastou, deixando-me sozinha no escritório com mais perguntas do que respostas.
Quando voltei à cozinha para tentar retomar meu trabalho, percebi que minhas mãos ainda tremiam. Ele tinha um poder irritante de me desestabilizar, algo que eu detestava com todas as forças. Mas uma coisa era certa, se ele achava que podia me manipular, estava prestes a descobrir que eu era muito mais resistente do que aparentava.
Se Evan Montenegro queria jogar, eu estava disposta a jogar também. E faria questão de ganhar.