Vinte anos depois....
Chloe
Munida de sua maleta de couro que fora um presente de seu pai, Chloe desceu as escadas do escritório da M&L exportações, com certa dificuldade. Tinha vinte e sete anos agora, com seu jeito peculiar de caminhar, devido a deficiência em sua perna direita, ela não era nenhuma beldade, e apreciava que seu aparência não contribuía para a atenção masculina.
Seus cabelos dourados que desciam até o meio das costas, estavam presos em uma fivela no rumo da nuca, e seus azuis claros ficavam escondidos atrás das lentes dos óculos que usava para trabalhar. A roupa mais folgada que consistia em uma camisa de linho bege e uma calça azul marinho, cumpriam com o seu propósito de cobrir bem seu corpo esguio que media um e setenta de altura.
A calça solta de brim grosso, ocultava perfeitamente o dispositivo ortopédico na perna direita que devido ao acidente que marcou sua infância perdeu completamente a mobilidade do joelho para baixo. Sem essa peça de plástico, platina e silicone, ele nem mesmo conseguiria caminhar.
Chloe chegou ao térreo do prédio, a porta ampla mostrava um cenário critico lá fora. Foi chamada ali porque era a única médica que atendia os trabalhadores que não tinham seguro saúde. O que por lei, era ilegal.
Mas ela, nunca viu a vida das pessoas como uma barganha social. Esses homens arriscavam suas vidas em auto mar nos navios cheios de mercadoria de várias companhias de logística que não pagavam o suficiente para arcarem com o básico para gastos com a saúde. Muitos deles nem tinham vínculos empregatícios.
Ex-pescadores, mecânicos, caldeireiros dentre outros, que perderam seus empregos quando grandes companhias foram comprando mais e mais territórios e rotas, e foi ficando cada vez mais difícil para eles manter a concorrência com as equipes bem treinadas dos donos desse amplo negócio nesse porto.
Ao longe, viu seu amigo, e o responsável por chama-la sempre que alguém precisava. Evan Fitz. Enquanto vários carrinhos de carga se aproximavam da doca dezessete, onde o cargueiro da US Ocean. acabou de aportar, Evan se aproveitava da confusão das avarias da carga, para apoiar um homem quase inconsciente para fora da agitação da ponte central das docas.
Um dos funcionários da M&L os viu, e correu para ajuda-los. Enquanto caminhava em direção a pequena sala, do lado de um almoxarifado de artigos de escritório, ela pensava em como foi difícil os primeiros atendimentos ali, quando começou, há cerca de cinco meses atrás.
O boato de que uma médica estava atendendo os homens no porto, correu rápido Muitos se apresentavam com sintomas de infecções virais, doenças infecciosas, e até mesmo neurológicas. Havia muita preconceito e resistência por parte dos afiliados e funcionários das grandes companhias; que achavam que o que ela estava fazendo, nada mais era do que atrair ainda mais mão de obra desqualificada e barata.
Evan adentrou a pequena enfermaria improvisada, apoiando o homem hispânico pelas ombros, que gemia de dor.
- Bom dia Evan. Pegaram uma tempestade e tanto, vi os container retorcidos.
- Bom dia Chloe, nem me fale. Metade da carga virou lixo. – Evan ajudou o homem a se deitar na estreita maca, e continuou. - Esse é o Ramon, ele foi atingido nas pernas pelos cabos de aço que se romperam na proa. Acabou de ser contratado pela US Ocean, e praticamente não fala a nossa língua.
- Sabe me dizer se ele se feriu em mais algum lugar, além das pernas?
- Parece que ele tem um corte na cabeça, também.
- Alguem deu algum medicamento para ele? – ela perguntou avaliando as pupilas do homem com um olhar sereno e compenetrado.
- Não.
- Certo. Vamos colocá-lo de bruços para que eu estanque esse sangramento.
- Você acha que ele está assim, quase desmaiando por causa da profundidade desse ferimento ou pela dor?
- É uma mistura dos dois.
Apertando a mão do homem, ela sorriu levemente, antes de posicionar a cabeça dele de lado e começar a cortar com a tesoura os trapos das calças de trabalho que ele vestia.
Com os movimentos certos, ela iniciou os cuidados necessários. Ser precisa na limpeza era essencial para não causar a infecção que facilmente chegaria a corrente sanguínea, as lacerações quase vararam a perna do pobre homem. A concentração a bloqueava de tudo o que ocorria ao seu redor.
E mesmo sentindo aquele incômodo, uma sensação de que era observada, Chloe ignorou completamente aquele fato e continuou a trabalhar com precisão. Cuidar das pessoas sempre foi a sua missão de vida, e era tudo o que queria fazer, nada mais que isso.
Não havia outras aspirações em seus planos. Nada de casamento, marido e filhos, e um cachorro. A família de comercial de margarina, não era para ela.
O fato de estar clinicando de forma praticamente clandestina, em um ambiente possivelmente perigoso para uma mulher vulnerável como ela, parecia loucura. Mas ignorar aquelas pessoas sendo capaz de cuidar e ajudar, para ela era desumano.
Chloe foi incapaz de tamanho ato egoísta e insensível a realidade daquele lugar. Mesmo que despertasse a raiva dos outros, respaudados pelas grandes companhias, não se importava com a zombaria e provocações que suportava todas as vezes que chegava ao Porto de Long Beach, na grande e inflamada Los Angeles.
O ar foi expelido de seus pulmões, com um suspiro suave. Chloe se aproximou da pequena pia, e abriu a torneira. De repente, todo o ar a sua volta ficou pesado, e o som dos trabalhadores desapareceu, quando a porta da pequena saleta foi fechada silenciosamente.
O paciente foi levado para casa em segurança, e Evan ainda não tinha voltado para a M&L. Seu pai e sua irmã adotiva, Holly estavam fora do prédio, resolvendo questões na câmara de comercio. Não tinha ninguém ali que pudesse entender seu temor paralisante ao sentir a aproximação de alguém que não foi convidado para a enfermaria.
Chloe secou as mãos tremulas, com a toalha de papel, pensando em que objeto poderia usar para se defender, caso precisasse.
Ela sabia que não podia correr, e que a sala minúscula era uma armadilha de uma só entrada e saída, portanto, tinha que enfrentar quem quer que seja.
Se virando devagar, ela se deparou com um homem que praticamente tomava todo o espaço. Olhos verde oliva acertaram os dela como setas afiadas e letais, um rosto esculpido em ângulos milimetricamente proporcionais exibia uma expressão desafiadora e poderosa. Cabelos castanhos escuros em ondas sedosas, penteados para trás, chegavam até o pescoço musculoso.
O porto físico daquele homem era o suficiente para afugentar qualquer pessoa mal intencionada. Faltava pouco para que sua cabeça chegasse ao teto, ele devia ter mais de dois metros de altura, e mais de cem quilos em músculos distribuídos em igualdade dos pés à cabeça.
Engolindo em seco, ela tentou parecer o mais calma possível, quando um sorriso provocativo surgiu nos lábios desenhados daquele homem enorme. Sulcos profundos surgiram em sua face, uma de cada lado de sua boca, transformando aquele simples gesto, em puro charme masculino.
Ignorando aquele detalhe, que a fez desviar os olhos imediatamente, Chloe, se apoiou na pia para que sentisse alguma firmeza sob seus pés.
- É mais interessante assim de perto. – ele disse.
A voz dele era tão grossa, que ela juraria que a sentiu vibrar em seu peito, em ressonância com a aquela presença altamente magnética.
Consultando o relógio com um gesto displicente, ele exibiu o relógio caríssimo, e as abotoaduras de ouro branco. Vestindo uma camisa escura, gravata cinza grafite, e um terno preto, que parecia modelar cada centímetro de sua forte estrutura, esse homem parecia saber exatamente o que sua presença causava.
- Estava esperando pelo momento em que finalmente conheceria nossa boa doutora. – ele disse, com uma pitada de malícia no final da frase.
Subitamente sua cabeça foi inundada de conversas em que Holly, descrevia por incontáveis minutos, o homem que agora tinha a M&L em suas mãos. O dono da maior companhia naval de exportação, Damien Knight.
"Olhos verdes quentes, de derreter qualquer mulher, cabelos que você sonha em acariciar só de ver os fios se moverem com a brisa. Um sorriso de te fazer queimar de tesão, e uma presença de tirar o fôlego. Ele é a personificação de um deus grego, maninha!" Holly dissera na última vez que falou de Damian.
Não havia mais ninguém com essa presença em essa descrição ali em Porto Long Beach. Estava diante da pessoa que detinha o poder de tudo por ali, inclusive da pequena empresa de sua família.
- Como vai, Sr. Knight? – perguntou, com a voz mais firme que conseguiu formular.
- Então, sabe quem eu sou. Sagacidade é uma qualidade que aprecio muito. – ele comentou, enfiando as mãos nos bolsos da calça. – Me diga, senhorita Miller, como foi a sua visita ao porto dessa vez?
- Não venho aqui para passear, Sr. Knight. – ela respondeu, cruzando os braços sobre o peito, se sentindo extremamente incomodada com a forma com que ele esquadrinhava sua figura abertamente. – Venho para ajudar essas pessoas que não podem contar com ambulâncias e hospitais.
- Muito louvável de sua parte. – o escárnio ficou evidente em cada palavra. – Entretanto, essa sua...benevolência, vem trazendo problemas para a ... – ele sorriu, mostrando seus dentes brancos, perfeitamente alinhados. - ...harmonia entre os meus homens.
- Isso é uma ameaça velada, Sr. Knight? – ela perguntou, quando ele percorreu seus lábios, com algo indistinguível naquele poço profundo verde oliva. – Eu não tenho a intensão de prejudicar ninguém. Só quero ajudar essas pessoas.
Um passo largo, e ele estava a centímetros do rosto dela, tragando todo o seu ar e causando uma tempestade em seu sistema. Damian olhou para as mãos de Chloe, que agora seguravam a beirada da pia com tanta força, que os nós de seus dedos estavam da mesma cor da porcelana em que se segurava.
Damian analisou seu rosto com um brilho de interesse e algo misterioso brilhou no fundo esverdeado de sua íris. Tao repentino quanto a aproximação, foi a distância que ele colocou entre eles.
Chloe se sentia prestes a hiperventilar.
Suas pernas não conseguiram mais sustenta-la. A sustentação do dispositivo ortopédico não foi o suficiente, e ela caiu no chão de uma vez, com baque surdo.
Os tremores eram acompanhados de arrepios estranhos, que eram desconhecidos para ela. A presença desse homem foi o suficiente para que ela fosse reduzida a nada; uma pilha de nervos inútil que não ousava levantar o rosto.
Completamente humilhada, Chloe sentiu seus olhos arderem.
- Na verdade, eu quero saber mais sobre a senhorita. – as palavras dele não eram o que ela esperava. – Que tal almoçar comigo e me contar quando pretende parar com essas atividades clandestinas no meu porto?
"Ahh... ai está." Ela pensou amarga. A intimidação era a única razão para esse homem estar ali. Agora que ele finalmente fez o seu movimento preciso, ela ficaria livre de sua presença.
- Não estou disponível para ir a lugar algum com o senhor. – ela respondeu, levantando os olhos e se deparando com a mão dele estendida.
Seu olhar se fixou naquela palma enorme. Essa era mais uma forma de faze-la perceber a sua posição, dependente de auxílio. Ou seja, ele estava validando o que todos afirmavam constantemente; uma mulher deficiente como ela, não tinha como ajudar ninguém, era ela quem sempre precisaria de ajuda.
Ignorando sua mão, Chloe segurou a perna de sua mesa, e foi se apoiando devagar, usando a perna saudável para se forçar a se levantar.
- É uma mulher teimosa, Srta. Miller. – ele disse. – Entretanto, não acho que essa atitude poderá ajuda-la caso perca a sua licença para clinicar.
Passando um braço ao redor de sua cintura fina, ele a colocou de pé em um intante. Chocada com sua atitude, Chloe o encarou sentindo seu corpo se arrepiar inteiro, e a cor fugir de sua pele.
- Bem melhor assim. – Damian disse, com um meio sorriso. – Agora pare com essa atitude desnecessária e contraproducente, e pegue sua bolsa para almoçar comigo.
Recuperando as suas capacidades de raciocínio e de coordenação, Chloe usou toda a força que conseguiu, para se afastar de Damien, ficando atrás de sua mesa, com dificuldade para arrastar sua perna que doía como se estivesse empalada por uma lança.
- Agora que já provou a que ponto chega a sua arrogância e presunção Sr. Knight, quero que saia. E nunca mais ouse me tocar. – ela disse, com a voz trêmula de tanta revolta e nervoso.
Uma risada desprezível e cruel cortou os minutos que surgiu após suas palavras. A encarando com frieza e ferocidade, Damien travou seu olhar na deficiência de Chloe.
- Cometeu um erro, doutora. E logo vai descobrir o preço que pagará por isso.