Capítulo 2

POV Leonardo Vasconcellos

Eles não estão interessados só no contrato. Estão interessados na imagem.

- Isso é ridículo - murmurei, passando os dedos pela ponte do nariz antes de me afundar na cadeira de couro preto do meu escritório. - Isso não é uma fusão empresarial. É chantagem familiar com gravata italiana.

Às vezes, quando queremos muito alguma coisa, precisamos sacrificar outra para conseguir. Nem sempre o sacrifício vale a pena, é verdade... mas, muitas vezes, ele vale - e muito.

E eu sei que, para alcançar o que quero, terei que abrir mão de algo importante. Não da minha vida literalmente, mas da minha privacidade, da minha liberdade. Terei que abrir a porta da minha casa e deixar outra pessoa entrar.

Tudo por causa de uma condição. Uma exigência inesperada que me foi imposta para que esse contrato milionário se concretize.

Ganhar dinheiro não é o ponto - eu já ganho. Já sou um dos melhores na minha área, aqui no Brasil e fora dele.

Tenho empresas espalhadas ao redor do mundo. Mas esse contrato... esse contrato não é apenas sobre cifras. Ele vai me colocar em um patamar diferente.

Vai consolidar tudo o que construí e me tornar o melhor - não apenas um dos melhores. E para isso, eu vou fazer o que for preciso.

O problema? Eles não estão apenas interessados nos números. Estão interessados na imagem. Querem ver estabilidade, tradição. Querem um homem casado. Isso é ridículo... mas é o jogo. E se eu quiser vencer, preciso jogar.

Disse a mim mesmo que analisaria a possibilidade, que talvez fosse só mais uma exigência boba que cairia por terra. Mas não caiu. Aqui estou eu - com a cabeça doendo, um prazo impossível e a responsabilidade de resolver tudo isso. E eu até sei a solução. Mas onde é que se arruma uma noiva... em menos de vinte e quatro horas?

É isso mesmo. Eu preciso estar casado dentro de dois dias. Tenho só mais um dia para encontrar uma mulher disposta a isso.

E eu sei o que vocês estão pensando.

Como é que o CEO de uma das maiores empresas do mundo, o eterno solteirão de São Paulo, está agora sentado numa cadeira de couro, encarando o teto e se perguntando onde vai achar uma esposa?

Eu explico.

Isso não era o que eu queria para minha vida, nunca foi. Mas tudo aconteceu há poucos minutos, numa reunião com os investidores italianos. E depois de ouvir o que eles me disseram, eu percebi que estou completamente enroscado.

Ricardo me encarou com aquele olhar típico de quem se diverte com o caos alheio. Ele era meu melhor amigo - além de diretor de operações da Vasconcellos Investimentos. Imbatível nos negócios, e quando queria... extremamente irritante.

- Você só diz isso porque ainda não perdeu bilhões por causa de uma exigência cultural, Leo - rebateu ele, recostado na minha mesa, com o sorrisinho de quem sabe que está certo.

Infelizmente, estava.

A proposta do Grupo Romano era ambiciosa: uma fusão que nos tornaria a maior potência financeira da América Latina. Gráficos em alta, projeções positivas, lucros estáveis... tudo no lugar. Até que os malditos italianos abriram a boca.

A exigência?

Uma esposa.

Me levantei e caminhei até a janela. São Paulo girava do lado de fora com a mesma pressa de sempre. E eu ali, CEO de uma das maiores empresas do país, refém de uma tradição que nem era minha.

- Eles querem estabilidade. Tradição. Um rosto ao meu lado. Uma mulher de verdade. Nada de capas de revista - falei, ainda encarando a cidade.

Evitei intimidade a vida inteira. Talvez porque não confio em ninguém. Ou talvez porque, lá no fundo, eu ache que não mereço ser feliz. Não como homem. Não depois do que aconteceu.

Ele não teve isso.

Então por que eu teria?

- Então case-se. Você já tem tudo. Falta só ela - disse Ricardo, como se o casamento fosse algo que se compra num app.

- Se fosse tão simples assim, Ricardo...

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FLASHBACK – Reunião com o Grupo Romano

A sala de reuniões estava fria, o ar-condicionado no máximo. Mas a tensão fazia o ambiente ferver.

- O lucro líquido aumentou 12% no último trimestre - dizia Júlia, minha diretora financeira, enquanto os gráficos passavam na tela. - Nossa estratégia de diversificação se mostrou eficaz.

Vincenzo Romano, patriarca do grupo, cruzou as mãos.

- Signore Vasconcellos, os números são excelentes. Mas o que me preocupa... é estabilidade.

- Estabilidade financeira? - perguntei, já prevendo que a resposta seria pior.

- Não. Familiar.

O silêncio caiu como um soco.

- Um homem solteiro é, por definição, instável. Prezamos raízes, tradição. Família. Essa é a minha condição.

- Então é isso que falta para ganharmos a assinatura?

- Exatamente. Uma esposa. Uma aliança. Um lar.

Minha voz saiu firme, apesar do gelo que percorreu minha espinha:

- Então terá.

- Ah, é? E quando?

- Em breve. Eu já encontrei... o meu destino.

Mentira. Mas necessária.

Era isso ou perder bilhões.

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De volta ao presente

- Família é o pilar de qualquer negócio duradouro. E você... ainda não construiu o seu - disse Ricardo, repetindo as palavras do investidor como uma maldição.

Quase ri. Justo ele falando de construir algo? Playboy assumido, responsável no trabalho e completamente inconsequente fora dele. Vive trocando de mulher como quem troca de relógio.

Eu também nunca fui diferente. Nunca procurei mais do que prazer - sem vínculos, sem promessas.

Mas o mais irônico é que ele fala de "construção" como se já tivesse sustentado algo além do próprio ego.

- Quer que eu contrate uma agência de casamentos?

- Quero que encontre alguém disposta a assinar um contrato. Que sorria nas fotos. Nada além disso.

- É sempre assim no começo, Leo. Depois, o jogo vira.

- Ah, claro. E no final todo mundo perde, menos quem inventou as regras.

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Depois de mais reuniões, Ricardo apareceu com um "catálogo" de mulheres.

Ricas, famosas, plastificadas, arrogantes. Superficiais até o osso. Nenhuma delas era real.

- Que chato, hein? Parece que nenhuma é digna do senhor Vasconcellos - ironizou Ricardo, sentado na minha mesa.

O olhar que lancei poderia ter matado.

- Tira essa bunda de princesa da minha mesa.

Ele ergueu as mãos em rendição e se levantou.

- Tá bom, tá bom. Mas todas vieram aqui por dois motivos: dinheiro e fama. Querem capas de revista, viagens pra Dubai... Querem ser a esposa perfeita - no papel.

- E eu posso fazer tudo isso sozinho. Não preciso de rabo de saia me seguindo.

- Quer que eu continue procurando?

- Não sei. Me dá dor de cabeça só de pensar. Vamos deixar pra amanhã.

Peguei meu sobretudo e pasta de documentos, me despedi e fui para o elevador. O peso do mundo ainda nas minhas costas. O dia inteiro foi uma sequência de apresentações ridículas.

Mulheres que queriam meu sobrenome. Meu dinheiro. Não a mim.

E nem é como se eu fosse feio, longe disso. Tenho 1,93 de altura, corpo definido, tatuagens no peito, cabelo loiro, olhos verdes. O pacote completo - pelo menos por fora.

Mas por dentro... bem, eu não acredito no amor.

Não depois do que aconteceu.

Não depois de ser apunhalado.

Talvez eu realmente não mereça uma vida emocionalmente estável.

Ou talvez o amor nunca tenha sido pra mim.

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Do lado de fora, a brisa estava fria. O sol sumia atrás dos prédios.

Ajustava meu relógio distraidamente quando...

- Ai!

Colidi com alguém com força.

- Olha por onde anda! - comecei, irritado.

Mas quando ergui os olhos...

A voz sumiu.

Era uma mulher. Morena, olhos âmbar como mel. Mas o que me prendeu mesmo foi o cansaço estampado no rosto. Não era só físico. Era como se ela carregasse o peso do mundo sozinha.

- Me desculpa - disse ela, abaixando-se para pegar a bolsa.

Me abaixei também. Nossas mãos se tocaram. Ela recuou como se tivesse encostado em fogo.

- Tá tudo bem? - perguntei, observando o tremor nos dedos dela.

- Sim... só tô com pressa. Desculpa de novo.

Ela se afastou rápido, mas deixou cair um papel. Peguei e fui atrás.

- Espera! Você esqueceu isso aqui.

Ela virou, surpresa.

Era um atestado médico. E contas de hospital.

- É seu, né?

- Ah... sim. Obrigada - respondeu com a voz nervosa, mas firme.

Ela me encarou. Olhos intensos, postura erguida. Orgulho e dor em um mesmo corpo.

Um celular tocou.

Ela atendeu.

- É a senhora Aurora Lemos? - perguntou a voz do outro lado.

- Sim, sou eu...

A expressão dela mudou. Ficou branca.

As palavras seguintes a derrubaram.

Ela gaguejou, lágrimas surgiram. A única coisa que entendi foi o nome: Aurora Lemos.

E então ela saiu correndo.

Tentei chamar:

- Ei!

Mas ela desapareceu.

Eu nunca tinha visto aquele rosto.

Mas algo dentro de mim disse:

Talvez...

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Capítulo 3

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BAM!

Esbarrei com força em uma parede. Dei um grito, assustada.

- Olha por onde anda! - a parede... falou?

Espera um pouco. Ele não é uma parede! As paredes não reclamam - e com certeza não têm um cheiro amadeirado tão intenso, sedutor e elegante.

Espera... no que eu tô pensando?

Olhei para cima. E dei de cara com a tal "parede". Linda. Aliás, "lindo" é eufemismo.

Cabelo loiro impecável, olhos verdes como esmeraldas - daquele tipo que te leva pra dar uma volta na floresta amazônica em segundos, e depois te traz de volta... montado num cavalo branco e tudo.

Ele era alto. Muito alto. Devia ter, sei lá, 1,90m. Eu tenho 1,70m e ainda assim precisei levantar bem o pescoço para olhar pra ele.

Espera... por que eu tô encarando?

Desviei o olhar, corando. Notei que minhas coisas tinham caído e me abaixei rapidamente para juntá-las.

- Me desculpa - murmurei, sem coragem de olhar de novo para ele.

Mas, num piscar de olhos, ele também se abaixou. Nossas mãos se tocaram. Afastei a minha rápido. A dele estava quente, diferente da minha, que ainda estava úmida por causa do sereno.

- Tá tudo bem? - ele perguntou, me olhando de um jeito calmo.

Entendi o motivo da pergunta: eu devia estar tremendo. Literalmente. E com cara de zumbi.

Balancei a cabeça, tentando me recompor.

- Sim... só estou com pressa. Me desculpa de novo - disse, recolhendo os papéis o mais rápido que pude e me levantando. Comecei a me afastar, mas aí...

- Ei, espera! Você esqueceu isso aqui.

Parei. Me virei devagar. Ele estendia um dos papéis.

- É seu, não é?

- Sim... obrigada - respondi, pegando. E então me lembrei: eram as contas do hospital. Da minha irmãzinha.

Engoli em seco. A dor no peito voltou, e junto com ela o medo. O medo de perdê-la. Mas jurei que daria meu melhor. Por ela. Por nós. Eu iria garantir um futuro para ela.

Olhei de novo para o estranho. Ou para a parede andante, loira e musculosa. Ele me encarava com aqueles olhos verdes que tiram o fôlego. Olhos lindos pra caramba.

Aurora, para de olhar pra ele! Ou você vai acabar ficando aqui o dia todo.

Graças a Deus, o som do meu celular quebrou o momento. Soltei um suspiro que nem sabia que estava prendendo. Tentei achar o telefone na bolsa como quem procura uma agulha no palheiro.

Finalmente encontrei. Olhei o número. Era do hospital.

Não era um bom pressentimento.

Atendi.

- É a senhora Aurora Lemos? - uma moça perguntou, com uma voz calma. Demais. Daquelas que a gente sabe que vem antes de uma má notícia.

- Sim... sou eu...

Nem terminei de falar.

- Seu pai sofreu um ataque cardíaco nesta manhã. Fizemos de tudo para reanimá-lo, mas... Senhora Aurora, sentimos muito. Ele infelizmente não resistiu.

Meu mundo parou.

A visão embaçou. Tudo à minha volta desapareceu. O barulho, as pessoas, as paredes, tudo.

Senti meu corpo se mover sozinho. Virei-me e comecei a andar. Logo aquilo virou uma corrida.

- Ei! - ouvi alguém gritar atrás de mim, talvez o loiro... não sei. Não me importava.

Como eu podia? Estavam me dizendo que o meu pai... o meu paizinho... que ele morreu. Mas eu sabia que era mentira.

Peguei um táxi.

- Para o Hospital Santa Madalena. Rápido! - ordenei.

Meu pai morreu. Meu pai.

O homem que trabalhava em dois empregos. Que sorria mesmo cansado. Que dizia:

> "Um dia, tudo vai ficar bem, filha."

E agora ele se foi. E eu nem me despedi.

Chorei. Chorei forte. E me perguntei:

O que eu vou fazer agora?

Como eu vou continuar?

E a Sofia? O que eu vou dizer pra ela?

Não pode ser. Meu pai é forte. Já passou por tanta coisa. Ele não morreu. Eu vou chegar naquele hospital e provar isso!

- Senhorita? Está me ouvindo? - a voz do taxista me tirou do transe.

- Chegamos.

Revirei a bolsa, tirei qualquer valor e entreguei. Nem contei. Corri para dentro do hospital como se minha vida dependesse disso.

Corri para dentro do hospital. As pessoas me olhavam. Que olhassem. Que julgassem. Que apontassem. Não me importava.

A recepcionista me olhou com pena. Odeio esse olhar. Pena é para quem perdeu. Eu não perdi nada.

- Miguel Lemos. Onde ele está? - perguntei, sem rodeios.

- Sim, mas...

- Só me diz o quarto.

Ela respirou fundo.

- Corredor 2. Quarto 24. Sinto muito...

Não respondi. Recusei aquelas palavras.

Lamento? Eu não aceito lamentos. Meu pai está vivo. Eu vou provar.

Fui direto. Vi os números passando: 16... 19... 20... 22... 23...

Parei. Meu corpo não queria seguir. Os pês ficaram pesados. As lágrimas vieram.

Em frente à porta 24, estava uma adolescente. Cabelos castanhos, olhos âmbar, as mãos na boca. Sentada no chão. Chorando.

- Sofia...? - minha voz saiu fraca.

Ela levantou os olhos. Começou a chorar mais alto. Se levantou com dificuldade, correu até mim e me abraçou. Soluçava.

Eu não conseguia me mover.

A garganta apertada. Um nó sufocante.

E então ela disse:

- Aura... o papai... ele... ele não está respirando.

O mundo, que já estava em ruínas, desabou de vez.

A frase da minha irmã ficou presa no ar como uma sentença de morte. Aquilo me atingiu como uma lâmina fina e fria, direto no peito.

- O quê...? - minha voz saiu num sussurro rouco, como se tivesse esquecido como se fala.

Me afastei lentamente do abraço de Sofia e quando olhei nos olhos dela, vi algo que eu nunca quis ver: desespero puro. Ela estava pálida, trêmula, com os olhos vermelhos como se tivesse passado o dia inteiro chorando - e talvez tenha mesmo.

- Ele... ele estava bem, mas depois piorou. Eles tentaram tudo, mas... - ela mordeu o lábio com força, como se tentasse se punir por dizer aquilo - ...mas não conseguiram trazê-lo de volta.

De repente, meu corpo ficou fraco. Tão fraco que precisei me apoiar na parede atrás de mim para não desmoronar. Eu senti tudo ao mesmo tempo: um calor que subiu para a cabeça, depois um frio cortante na espinha. O som ao redor virou um ruído distante. As vozes, os passos, o bip das máquinas... tudo ficou abafado, como se o mundo tivesse sido mergulhado debaixo d'água.

- Não... não pode ser. - murmurei. - A gente ia voltar pra casa, a gente ia... ia jantar juntos hoje... ele prometeu que ia cozinhar para a gente...

Sofia tentou se aproximar de novo, mas levantei a mão instintivamente.

- Me dá só um segundo... só um... segundo - pedi, sentindo as lágrimas descerem antes mesmo de eu perceber que estava chorando.

Fechei os olhos com força, como se isso fosse fazer tudo desaparecer. Mas não desaparecia. A notícia estava ali, ecoando como um trovão dentro da minha cabeça. "Ele não está respirando." Não, não é possível... Ele sempre foi tão forte. Tão sorridente. Ele me prometeu que tudo ia ficar bem!

Senti um aperto no peito. Um sufoco que me deixou sem ar.

A dor da perda é uma coisa que ninguém prepara a gente pra sentir. Ela vem sem piedade, sem lógica, e destrói tudo o que você acreditava ser sólido. Ele era meu pai. Meu porto seguro. Meu herói.

- Por que você não me ligou antes? - perguntei com a voz trêmula, mas sem raiva. Era só o desespero querendo encontrar uma explicação, uma forma de voltar no tempo.

- Eu tentei, Aurora... tentei tantas vezes... mas você não atendia, e depois... eu não queria que você soubesse por mensagem, nem por outra pessoa. Eu esperei, mas ele... ele se foi tão rápido...

Ela desabou em lágrimas de novo, e dessa vez eu a abracei com força. As duas, juntas, chorando como se o mundo tivesse parado.

Porque, de fato, tinha parado.

Pelo menos, o nosso mundo sim.

---

[Momento seguinte – Sala de reconhecimento do corpo]

O corredor era longo demais. Cada passo ecoava como um tambor lento em nossos ouvidos. Eu andava com a alma rasgada, guiando minha irmã como se ela fosse uma parte frágil de mim mesma.

A porta foi aberta. E lá estava ele.

Nosso pai.

Deitado, em paz... como se estivesse apenas dormindo. Mas era um sono frio, sem volta.

Me aproximei com hesitação, sentindo o chão oscilar sob meus pés. Toquei a mão dele - gelada. A pele estava cinzenta, sem o calor que tantas vezes segurou minha mão quando eu era criança.

- Pai... - sussurrei. - Por que agora?

Minha irmã se debruçou sobre o peito dele, chorando baixinho.

E então veio a lembrança...

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[Flashback – Alguns anos antes, um domingo no quintal de casa]

- Vamos lá, minhas meninas! Quem cortar mais grama ganha um sorvete! - dizia ele, com um sorriso de orelha a orelha, empunhando um cortador enferrujado.

Eu ria, correndo com a tesoura de jardim, enquanto minha irmã tropeçava na mangueira.

- Pai, isso é exploração infantil! - eu gritava, fingindo revolta.

- Exploração nada! Isso é formação de caráter - dizia ele, erguendo a voz em tom de brincadeira.

Depois, nos sentávamos no banco de madeira debaixo do limoeiro. Ele colocava as mãos atrás da cabeça e olhava o céu.

- Vocês são o meu maior orgulho. Tudo que eu faço é por vocês. Nunca se esqueçam disso.

---

Voltei ao presente com os olhos marejados. Engoli o choro e me curvei, beijando sua testa.

- A gente não vai esquecer, pai. Eu prometo.

<

O sol estava se pondo, tingindo o céu com tons dourados que contrastavam com o cinza que carregávamos no peito.

Eu caminhava abraçada à minha irmã, que agora parecia mais calma, embora seus olhos ainda estivessem perdidos em algum lugar entre a dor e o vazio.

Foi então que vimos uma figura apressada vindo em nossa direção. O salto de suas botas ecoava na calçada do hospital.

- Aurora! - gritou Margo, com o rosto vermelho e lágrimas nos olhos.

Ela nos alcançou e nos puxou para um abraço apertado, sem dizer uma palavra. A presença dela ali, mesmo sem explicações, foi como um cobertor quente sobre a alma.

Eu chorei de novo. E pela primeira vez desde a notícia, senti que talvez... só talvez... a gente conseguisse suportar isso. Juntas.

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