Capa do Romance Contrato de Silêncio

Contrato de Silêncio

9.1 / 10.0
Lívia, uma simples empregada, vê sua vida mudar ao firmar um pacto matrimonial com Adriano Moretti. O CEO implacável buscava apenas conveniência, enquanto ela lutava para sobreviver. Envoltos em segredos e manipulações, os dois descobrem que sentimentos reais não respeitam cláusulas. Em um cenário de poder e verdades ocultas, o acordo gélido torna-se um jogo perigoso. Agora, o maior risco para ambos é permitir que o amor quebre o silêncio desse contrato fatal.

Contrato de Silêncio Capítulo 1

Lívia Rocha

Desde sempre fui uma pessoa reservada, sem muitos amigos e que mais ouvia do que falava. Aprendi que para sobreviver nessa vida é preciso ter cautela, paciência e sobretudo passar desapercebida. Ouvir muito e guardar tudo. Essa sempre foi a minha teoria, e até agora tem funcionado perfeitamente bem. Mas pelo que tenho observado, hoje, as coisas nessa casa parece que vão mudar drasticamente. Só desejo que nada interfira na minha vida e no meu trabalho. Até porque, problemas eu já tenho de sobra.

Acordei cedo demais, e isso é resultado do problema que tem tirado o meu sono. Mas isso deixarei para outro momento. Já uniformizada, observo com atenção cada canto desse lugar que mais parece um mausoléu do que um lar. A casa dos Moretti respira. Eu sei porque aprendi a ouvir. Não com os ouvidos, mas com a pele. O mármore frio sob meus pés descalços muda de temperatura conforme o dia avança. As paredes altas rangem à noite, como se reclamassem do silêncio imposto. As câmeras piscam discretamente nos cantos, olhos mecânicos que nunca dormem. Esta casa vê tudo. E, por consequência, me vê.

Trabalho aqui há dois anos, três meses e dezessete dias. Não porque eu conte, mas porque o tempo, dentro dessas paredes, não passa - ele se acumula. Cada dia fica sobre o outro, pesado, silencioso, observador. Assim como o dono.

O nome dele não é dito em voz alta pelos funcionários. Não por ordem expressa, mas por instinto. Adriano Moretti não precisa ser lembrado. Ele se impõe mesmo quando está ausente. Sua presença é uma sombra fixa, projetada em cada móvel minimalista, em cada superfície limpa demais.

Sou a única que entra em todos os cômodos. A governanta cuida da ala social. A equipe de limpeza faz rodízio e nunca passa da área delimitada. A segurança não atravessa certas portas sem autorização biométrica. Mas eu... eu entro no quarto dele. No escritório privado. No banheiro onde o espelho inteligente reconhece apenas um rosto autorizado - o dele - e o meu, porque fui cadastrada para limpar. Esse detalhe sempre me incomodou. Ser reconhecida por uma máquina em uma casa onde ninguém parece realmente me enxergar.

Hoje, a casa está inquieta. Sinto isso antes mesmo de terminar o café da manhã. As telas embutidas nas paredes exibem gráficos em tons frios. O noticiário financeiro passa sem som, mas as legendas piscam rápido demais. O sistema de iluminação ajusta-se sozinho, diminuindo a intensidade como se antecipasse algo errado.

Seguro a bandeja com as mãos firmes. Café preto, sem açúcar. Duas torradas. Nenhum detalhe fora do lugar. Aprendi cedo que Adriano Moretti não tolera falhas - nem visíveis, nem invisíveis.

Bato uma vez na porta do escritório. Nunca duas.

- Entre - a voz dele vem grave, controlada. Sem emoção.

Empurro a porta e a casa, mais uma vez, parece prender a respiração.

O escritório é o coração da cobertura. Vidros do chão ao teto revelam uma cidade que se estende como um organismo vivo, pulsando lá embaixo. Adriano está de costas, as mãos apoiadas na mesa de vidro, o paletó perfeitamente ajustado, como se tivesse sido moldado ao corpo dele e não o contrário. Não me olha. Ele nunca olha de imediato.

Caminho até a mesa, coloco a bandeja no local exato, alinhando a xícara com a borda invisível que só existe na cabeça dele. Dou dois passos para trás. Silêncio.

- O relatório da noite? - ele pergunta.

- Nenhuma movimentação fora do padrão. - Minha voz sai baixa, neutra. - O perímetro permaneceu seguro.

Ele assente levemente. Um gesto mínimo, quase imperceptível.

- Pode ir.

Eu deveria ir. Sempre vou. Mas hoje, algo está errado. Sinto isso na forma como os ombros dele estão tensos demais, na rigidez da mandíbula refletida no vidro, no jeito como os dedos pressionam a superfície da mesa como se quisessem quebrá-la. A casa observa. Eu observo também.

- Senhor... - escapa antes que eu consiga impedir.

O silêncio que se segue é denso. Perigoso.

Adriano se vira devagar. Os olhos escuros encontram os meus, e há algo ali que não estava antes. Não é raiva. Não é frieza. É cálculo - misturado com urgência.

- Sim? - ele diz.

Engulo em seco. Não sei por que falei. Nunca falo além do necessário. Invisibilidade é uma forma de sobrevivência, e eu a domino bem.

- O café vai esfriar - digo, sentindo-me ridícula.

Por um segundo, penso que ele vai me dispensar com um olhar. Ou algo pior: questionar minha ousadia. Mas Adriano sorri. Não é um sorriso bonito. Não é gentil. É afiado.

- Sente-se.

Meu corpo reage antes da mente. O coração bate forte demais. Nunca me sentei na presença dele. Nunca fui convidada a ocupar espaço.

- Eu... estou trabalhando.

- Está. - Ele puxa a cadeira à frente da mesa. - E agora, estou pedindo que se sente.

A casa observa e eu obedeço.

O couro da cadeira é frio. Minhas mãos repousam no colo, dedos entrelaçados com força. Ele se senta do outro lado, finalmente toca a xícara, mas não bebe.

- Qual é o seu nome completo? - pergunta.

A pergunta me atravessa como um corte.

- Lívia Rocha - respondo.

Ele inclina a cabeça, como se experimentasse o som.

- Você mora aqui.

- No quarto dos funcionários, sim.

- Não. - O olhar dele é intenso. - Você mora nesta casa. Conhece os horários, os sistemas, os silêncios. Conhece a mim.

Não respondo. Porque qualquer resposta seria perigosa.

- Sabe por que confio em você? - ele continua.

Não, penso. Sei por que ele me permite existir aqui. Confiança é outra coisa.

- Porque você nunca pede nada - ele diz, como se lesse meus pensamentos. - Pessoas que não pedem são as mais previsíveis.

Algo se fecha no meu estômago.

- Isso vai mudar - ele acrescenta.

- Senhor?

Adriano se recosta na cadeira, cruzando os dedos à frente do rosto. Pela primeira vez desde que o conheço, ele parece... humano. Cansado. Pressionado por algo maior do que ele.

- Preciso de alguém que já esteja dentro - diz. - Alguém que a casa reconheça. Que o sistema não questione. Que a mídia não conheça.

Meu coração dispara.

- Não entendo.

- Vai entender. - Ele se levanta, contorna a mesa e para à minha frente. Perto demais. O cheiro dele é discreto, caro, impossível de ignorar. - Sua vida vai mudar, Lívia.

Ouvir meu nome assim, na boca dele, não soa como promessa. Soa como sentença.

- E antes que pense em recusar - continua - saiba que eu não faço propostas vazias.

Ergue um tablet, a tela se acende. Vejo números, nomes, algo que reconheço rápido demais: uma dívida antiga, enterrada, mas nunca resolvida. O passado que eu escondi com tanto cuidado.

- Eu posso resolver isso - ele diz calmamente. - Hoje.

Minha garganta fecha. As paredes parecem se aproximar.

- Em troca - acrescenta - você vai assinar um contrato.

- De quê? - sussurro.

Os olhos dele descem pelo meu rosto, não com desejo, mas com avaliação. Como se eu fosse uma equação complexa prestes a ser resolvida.

- De casamento.

O mundo não acaba. Ele apenas muda de eixo.

- Isso é... impossível - digo.

- Nada é impossível - Adriano responde. - Apenas caro. E eu posso pagar.

Levanto num impulso, a cadeira arrasta no chão, o som ecoa como um alarme.

- Eu não sou esse tipo de pessoa.

Ele sorri de novo. Mais frio.

- Nenhum de nós é o tipo de pessoa que o mundo pensa.

Silêncio.

A casa observa cada batida do meu coração, cada microexpressão, cada segundo que passa enquanto percebo que algo irrevogável acabou de começar.

- Pense - ele diz, afastando-se. - Amanhã, quero sua resposta.

A porta do escritório se abre sozinha, como se obedecesse à vontade dele - ou da casa.

Saio com as pernas trêmulas.

Nos corredores, tudo parece igual. Limpo. Organizado. Silencioso. Mas agora sei a verdade. Esta casa não apenas me observa. Ela me escolheu.

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