Capítulo 2

Capítulo 2

Helena caminhava pelo apartamento que havia alugado recentemente. Era modesto, mas atendia a todas as suas necessidades, especialmente agora, com o novo trabalho. Sentando-se na borda da cama, ela pegou o celular e discou o número do chefe, o único que sabia da verdadeira natureza de sua missão.

- Vasquez - a voz do chefe soou firme do outro lado da linha.

- Chefe, estou entrando no novo trabalho. Tudo conforme o planejado. Assinarei o contrato e estarei oficialmente envolvida no caso. O casamento será de fachada, mas estarei investigando o desvio dentro da empresa de Adrian Turner.

O chefe respirou fundo antes de responder.

- Isso é sério, Helena. Mais do que qualquer outro caso que já assumiu. Se algo der errado, o risco é grande. Mas, se tem alguém que pode lidar com isso, é você. Desejo sorte, você vai precisar.

Helena sorriu, sentindo o apoio do chefe, mesmo em meio a uma missão tão delicada.

- Obrigada, chefe. Mantenha o canal aberto para qualquer atualização. E não se preocupe, sei o que estou fazendo.

- Eu sei que sim. Mantenha-me informado. E, Vasquez... cuide-se.

- Sim, senhor. - Com isso, ela desligou o telefone. Não era a primeira vez que se infiltrava em um ambiente perigoso, mas um casamento falso era algo novo, mesmo para ela.

Precisando aliviar a mente, Helena foi direto para o banheiro. A água quente do chuveiro escorria pelos seus ombros, relaxando os músculos enquanto ela deixava os pensamentos vagarem sobre o que viria a seguir. Ela sabia que fingir ser esposa de um CEO poderoso exigia mais que habilidades técnicas. Exigia frieza, disciplina e, acima de tudo, a capacidade de não se deixar envolver.

Após o banho, ela se enrolou em uma toalha e caminhou de volta ao quarto. Parou em frente ao espelho, avaliando o reflexo. A expressão firme e controlada de sempre ainda estava lá, mas havia algo a mais, uma faísca de desafio. Ela estava pronta para isso, ou pelo menos, era o que precisava acreditar.

Soltando a toalha, ela escolheu um vestido leve e prático, perfeito para uma noite tranquila em casa. Enquanto ajustava o tecido ao corpo, ouviu o toque do celular vindo de cima da cômoda. Estendeu a mão e desbloqueou a tela, apenas para ver uma nova mensagem do contato que, até recentemente, ela não tinha, Adrian Turner. Fez uma anotação mental de trocar o nome dele por algo mais melado.

Mensagem de Adrian: Jante comigo esta noite. Te busco às 20h.

Helena leu a mensagem duas vezes, absorvendo o significado por trás das palavras. O jogo havia começado mais cedo do que ela esperava. Ele estava colocando em prática o plano de serem vistos juntos, preparando o terreno para o casamento. Ela sabia que isso era parte do trabalho, mas a realidade de ter que se apresentar ao lado de Adrian, de encarnar o papel de sua noiva tão cedo, ainda era uma mudança brusca.

Ela digitou rapidamente uma resposta: *Mensagem para Adrian: Estarei pronta.*

Helena deixou o celular de lado e olhou para o relógio. Tinha algumas horas antes de Adrian chegar. Tempo suficiente para se preparar, não apenas fisicamente, mas mentalmente, para o que viria. A noite prometia ser o primeiro teste de muitos, e ela estava determinada a não falhar.

Ela respirou fundo, buscando a serenidade que sempre a guiou em situações difíceis. Aquela não era apenas uma missão. Era um jogo de xadrez onde cada movimento contava, e ela sabia que Adrian Turner estava jogando para ganhar. Ela também.

Helena sorriu, mas o sorriso logo se desfez quando se dirigiu ao guarda-roupa. Ao abrir as portas, franziu a testa ao se deparar com a seleção limitada de roupas que tinha. Seus olhos percorreram rapidamente as prateleiras e cabides, e um pensamento claro surgiu em sua mente: precisava urgentemente atualizar seu guarda-roupa para se alinhar ao estilo sofisticado de Adrian Turner.

Ela fez uma anotação mental, quase cômica, de que uma visita a uma butique chique seria necessária o quanto antes. Metade de seu guarda-roupa consistia em fardas da polícia, que, obviamente, não eram apropriadas para um jantar com um CEO. Quanto ao restante...

"Só pela misericórdia", pensou Helena, enquanto seus olhos encontravam uma coleção de camisetas simples, shorts desgastados e calças jeans. Nada que se encaixasse no perfil de uma futura esposa de um dos homens mais poderosos do país.

Ela suspirou e continuou a vasculhar as roupas, até que algo chamou sua atenção no fundo do armário: um vestido preto justo, que ela quase havia esquecido que tinha. Combinado com um par de sapatos de salto alto da mesma cor e uma bolsa elegante que havia ganhado da mãe no ano anterior, poderia ser sua salvação para a noite.

Puxou o vestido do cabide, olhando-o com um olhar crítico. Fazia tempo que não o usava, e desde então, seu corpo havia passado por algumas mudanças.

- Espero que ainda sirva - murmurou para si mesma, lembrando-se de que havia ganhado alguns quilos nos últimos meses devido ao estresse do trabalho.

Helena segurou a respiração enquanto deslizava o vestido pelo corpo, ajustando o tecido sobre seus ombros e quadris. Quando finalmente se olhou no espelho, foi surpreendida pela visão. O vestido ainda caía bem, moldando suas curvas de maneira elegante e sofisticada. Talvez um pouco mais apertado do que antes, mas nada que comprometeria a sua aparência para o jantar.

Soltou um suspiro de alívio e calçou os sapatos, completando o visual com a bolsa preta que combinava perfeitamente. Aquele look seria suficiente para o primeiro encontro como noiva de Adrian, mas ela sabia que precisaria elevar seu estilo para manter a aparência impecável que a posição exigia.

Ela sorriu para o espelho, ajustando uma mecha de cabelo solta.

- Nada mal, Helena. Nada mal.

A noite estava apenas começando, e Helena sentia que estava pronta para enfrentar o desafio. Com seu habitual otimismo, acreditava que conseguiria lidar com tudo com facilidade.

Ela começou a se maquiar e a arrumar os cabelos, aliviada por ter um pequeno estojo de maquiagem que ganhou de presente no seu aniversário de trinta anos, seis meses atrás. Pensar que já estava na casa dos trinta a fez suspirar, um pouco triste com o tempo passando.

Após terminar, ela se olhou no maior espelho do apartamento e ficou satisfeita com o resultado. No entanto, percebeu que demorou mais do que o esperado, pois recebeu uma nova mensagem de Adrian informando que ele estava esperando em frente ao prédio.

Helena pegou sua bolsa e saiu do apartamento. Ao entrar no elevador, seu coração acelerou, antecipando o momento em que encontraria Adrian. Quando finalmente se viu na entrada do prédio, Adrian estava lá, e sua reação foi instantânea. Ele ficou boquiaberto, os olhos arregalados e a expressão transformada pela surpresa.

Ela se aproximou com a confiança de uma modelo desfilando na passarela, cada passo exalando elegância e sensualidade. O leve requebrado no quadril não passou despercebido, e Adrian sentiu um nó na garganta ao perceber o impacto avassalador que ela teve sobre ele. Sempre se considerou um homem de lógica e controle, mas Helena desafiou essa percepção com uma força inesperada.

Ele se esforçou para recuperar a compostura e, com um gesto deliberado, abriu a porta traseira da limusine para ela. Helena olhou para ele com um sorriso agradecido, e, ao entrar no carro, sentiu que estava prestes a iniciar uma nova fase em sua vida que, embora exigisse máscara e estratégia, também despertava algo profundo e inesperado dentro dela.

Capítulo 3

Capítulo 3

O interior da limusine estava silencioso. Helena se acomodou no banco de couro macio, consciente do olhar de Adrian sobre ela.

Adrian, do outro lado, mantinha os olhos fixos nela. A transformação de Helena, de uma policial investigativa dedicada a uma mulher que exalava confiança e mistério, era algo que ele não havia previsto. Ele sabia que esse jantar era mais do que uma simples refeição. Era o primeiro ato de uma encenação que ambos teriam que dominar.

Quebrando o silêncio, Adrian estendeu a mão, revelando uma pequena caixa de veludo azul.

- Antes de chegarmos, há algo que preciso fazer. - Ele abriu a caixa, revelando um anel solitário lindíssimo de ouro, com um diamante de 1 quilate brilhando sob a luz suave do carro.

Helena olhou para a joia, surpresa.

- Você não perde tempo, não é? - comentou, tentando esconder o impacto que a visão do anel causou.

- Precisamos que isso pareça real, Helena - ele disse, sua voz firme, mas com uma ponta de gentileza. Ele tirou o anel da caixa e, com cuidado, colocou-o na mão esquerda dela. O toque dele era surpreendentemente suave, e a joia parecia irradiar um calor inesperado ao se encaixar em seu dedo.

Helena estudou o anel por um momento, antes de erguer os olhos para ele.

- E onde está a sua aliança de noivado? - perguntou, com uma sobrancelha levantada em curiosidade.

Adrian sorriu levemente, quase como se esperasse a pergunta.

- Nos Estados Unidos, o noivo não usa aliança até o dia do casamento. A noiva, por outro lado, usa um anel solitário como este na mão esquerda.

- Entendi, sou brasileira, não conheço a cultura de vocês.

- Fique tranquila, aprenderá o que for necessário.

Helena assentiu, processando a informação enquanto admirava a joia em seu dedo. Era um símbolo poderoso, e agora fazia parte da encenação que ambos teriam que levar adiante.

- Este jantar é o primeiro de muitos - ele continuou, mudando de assunto. - Precisamos começar a nos mostrar em público, para que nosso relacionamento pareça natural.

Helena compreendeu a lógica.

- Entendo. Precisamos que todos acreditem que somos um casal de verdade.

Adrian a olhou novamente, desta vez com uma intensidade que a fez prender a respiração.

- Sim. E precisamos fazer isso funcionar, Helena. Por mais que seja apenas um contrato, precisamos agir como se fosse real.

Helena percebeu que estava entrando em um jogo perigoso, onde as emoções podiam facilmente se misturar com as aparências.

Antes que ela pudesse responder, a limusine parou suavemente em frente ao restaurante. Adrian olhou pela janela e, em seguida, voltou sua atenção para ela.

- Pronta?

Helena respirou fundo, ajustando a postura e se preparando para o papel que agora teria que desempenhar.

- Pronta.

Adrian abriu a porta e saiu, oferecendo a mão para ela. Helena aceitou, e juntos, saíram da limusine. Os flashes das câmeras e os olhares curiosos já começando a seguir cada movimento deles.

Helena sabia que Adrian Turner era praticamente uma celebridade, mas mesmo assim não pôde evitar um leve desconforto ao ser recebida por uma enxurrada de flashes e câmeras assim que saíram da limusine.

A presença dos repórteres, sempre à espreita por um vislumbre da vida do magnata, trouxe à tona um nervosismo que ela tentou disfarçar com um sorriso.

Enquanto eles caminhavam em direção à entrada do restaurante, um repórter se aproximou, com o celular já em modo de gravação, buscando captar qualquer declaração ou reação. Com uma expressão curiosa, ele fez a pergunta que todos ali queriam saber:

- E quem é a bela dama ao seu lado, senhor Turner?

Adrian, que segurava firmemente a mão de Helena, puxou-a suavemente para mais perto, envolvendo sua cintura com um gesto protetor. Seu olhar, antes frio e calculado, suavizou ao responder:

- Ela é Helena Vasquez, a futura senhora Turner.

As palavras de Adrian ressoaram como uma declaração definitiva, e o repórter não precisou de mais nada para transformar aquele momento em manchete. Helena, apesar do incômodo inicial, sentiu um certo alívio ao ouvir a resposta firme e segura de Adrian.

Enquanto Adrian e Helena se preparavam para entrar no restaurante, a multidão de repórteres se agitou ainda mais. Um deles, mais ousado, gritou: "Podemos ver um beijo do casal?"

Adrian manteve uma fisionomia passiva, acostumado com as demandas intrusivas da mídia. Já Helena, por outro lado, engoliu seco, surpreendida pela súbita exigência. Ela havia se esquecido de que, para que essa farsa funcionasse, muitos beijos e gestos íntimos seriam necessários.

Antes que o nervosismo dela se tornasse evidente, Adrian agiu. Com uma calma impressionante, ele segurou o queixo de Helena com delicadeza, fazendo com que ela levantasse o olhar para encontrar o dele. Seus olhos transmitiam uma mensagem clara: eles estavam nisso juntos, e ele iria guiá-la.

Com um gesto firme, mas carinhoso, Adrian inclinou-se e a beijou. Foi um beijo suave e diante dos flashes incessantes, os dois se tornaram o centro das atenções.

Para os repórteres e curiosos ao redor, era o retrato perfeito de um casal apaixonado. Mas, para Helena, aquele momento serviu como um lembrete de que a linha entre a farsa e a realidade podia se confundir facilmente.

Quando o beijo terminou, Adrian deu a Helena um sorriso tranquilizador antes de finalmente guiá-la para dentro do restaurante. O barulho dos cliques das câmeras foi ficando mais distante à medida que a porta se fechava atrás deles.

Já sentados, Helena ainda estava surpresa com a situação:

- Eu não esperava por isso.

- Eu sei, querida. Pode ficar tranquila. Como eu disse mais cedo, você vai ter que confiar em mim.

Ela assentiu, mostrando que estava disposta a seguir em frente.

- Perdoe-me por ter escolhido o restaurante sem consultar você antes. Não perguntei se gosta de comida francesa.

- Para ser honesta, só estou familiarizada com a gastronomia brasileira, japonesa e italiana.

- Se importa se eu escolher o prato para você?

- De jeito nenhum. Fique à vontade.

Adrian ouviu atentamente, percebendo a diversidade de gostos dela, e, sabendo que ela apreciava carne, optou por pedir: pato ao molho de maracujá, acreditando que ela iria gostar.

Adrian fez o pedido, incluindo um vinho para acompanhar a refeição. Helena, apesar de gostar de vinho, não tinha o hábito de beber muito, e na segunda taça já estava começando a sentir os efeitos do álcool. Percebendo isso, decidiu diminuir o ritmo, mas Adrian notou que ela estava bebendo menos e interpretou de outra maneira.

- Algum problema com a bebida, querida? - ele perguntou, com um toque de preocupação.

- Não - respondeu Helena, tentando aparentar estar sóbria, apesar da leve embolada em sua voz.

Adrian observou Helena por um momento, percebendo o leve rubor em suas bochechas. Ele sabia que ela estava tentando manter a compostura, mas também notava que o vinho estava começando a fazer efeito. Sorrindo internamente, ele decidiu não pressioná-la mais e mudou o foco da conversa.

- Então, Helena, fale um pouco sobre você. Como decidiu se tornar policial investigativa?

Helena endireitou-se na cadeira, tentando afastar a leve tontura que começava a sentir. Ela estava ciente de que precisava manter a fachada e, ao mesmo tempo, evitar falar muito sobre seu trabalho, que agora estava diretamente ligado a Adrian.

- Bom, acho que sempre tive um certo senso de justiça - respondeu, tentando parecer o mais clara possível. - Cresci em um ambiente onde isso era muito valorizado. E, desde jovem, sempre me interessei por resolver mistérios. Acho que era inevitável que eu acabasse nessa profissão.

Adrian assentiu, genuinamente interessado.

- E deve ser um trabalho bastante desafiador, não é?

- Sim, bastante. Mas é também muito recompensador. Saber que você está fazendo a diferença, que está protegendo as pessoas... É uma sensação única.

Adrian sorriu, admirado com a dedicação que ela demonstrava ao falar sobre seu trabalho.

- Eu admiro isso em você, Helena. Essa determinação, essa paixão pelo que faz.

Ela corou levemente com o elogio, desviando o olhar por um instante. Era estranho ouvir aquelas palavras vindas de alguém como Adrian Turner, especialmente considerando que, aos olhos do mundo, eles eram apenas um casal apaixonado. Mas ela sabia que havia muito mais em jogo, e que precisaria manter-se focada na missão.

A comida foi servida, e Helena experimentou o prato com curiosidade. O pato ao molho de maracujá era diferente de tudo que já havia provado antes, e para sua surpresa, ela realmente gostou.

- Está maravilhoso, Adrian. Obrigada por escolher.

- Fico feliz que tenha gostado - respondeu ele, satisfeito.

Enquanto comiam, a conversa continuou fluindo, mais leve desta vez. Adrian manteve o tom descontraído, perguntando sobre os hobbies de Helena, suas preferências, e até algumas histórias engraçadas de sua carreira.

Aos poucos, ela foi se sentindo mais à vontade, e o jantar que começou tenso, foi se transformando em uma experiência surpreendentemente agradável. Mas, no fundo, Helena não conseguia esquecer que aquilo tudo fazia parte de uma grande encenação, e que a verdadeira razão pela qual estava ali com Adrian era muito mais sombria.

Quando a refeição chegou ao fim, Adrian olhou para ela com carinho.

- Acho que tivemos um bom começo, não acha?

- Sim, acho que sim - concordou ela, sem deixar transparecer as preocupações que ainda rondavam sua mente.

Adrian pagou a conta e, mais uma vez, ofereceu-lhe a mão, como um verdadeiro cavalheiro. Quando saíram do restaurante, os flashes das câmeras estavam lá, aguardando para capturar cada movimento do casal. Mas desta vez, Helena se sentiu mais preparada.

Ela manteve a cabeça erguida e o sorriso firme, sabendo que, a partir daquele momento, cada passo que desse ao lado de Adrian Turner seria cuidadosamente observado.

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