Capítulo 2

Realmente, eu não sou muito querida pela galera que frequenta esses bailes, principalmente as amiguinhas da Gabriela. Eles dizem que sou metida e que me acho melhor que os outros  simplesmente porque eu não gosto de me misturar. 

—Claro.  Você só anda com esse nariz empinado. —Diz se olhando no espelho. 

—Não.  Eu não ando com nariz empinado,  apenas seleciono bem as pessoas que merecem minha atenção. Você deveria fazer o mesmo,  Gabriela, principalmente com aquele bosta* que você corre atrás. Ele não vale a pena. 

—Não fala assim do Russo. Ele é um cara legal. Todos aqui vivem bem por causa dele. 

—Muito legal. Um anjo —Ironizo. 

O Russo é o atual dono da Cachoeirinha,  pelo menos é assim que todos aqui o conhecem: o dono do morro. Que breguice.  A minha irmã é louca por aquele bandido idiota*, vive correndo atrás dele igual uma cadelinha, isso me tira do sério. Uma pena que a polícia não sobe aqui e leva aquele merda, eles até tentam, mas até hoje não conseguiram pegar ele. 

—Ele me trata bem e me enche de presentes — Diz orgulhosa. Mas eu consigo enxergar também uma leve tristeza. 

—Claro. Você abre as pernas pra ele sempre que ele quer.  Se valoriza, Gabriela, você merece mais que isso. 

—Até parece que você nunca abriu também! — Responde irritada. Eu também fico depois de ouvir sobre essa passagem da minha vida que quero esquecer. —Não adianta fingir que você nunca subiu naquela laje pra trepar* com o Russo, Graziela, todos sabem que você já foi e mais de uma vez. Então não me julgue. Ela acaba de falar e sai do quarto batendo a porta. Eu não gosto de lembrar dessa fase da minha vida, eu não era muito inteligente naquela época, tanto que me envolvi e me entreguei para o Russo. Ele era só o Ruan Santos, estudante de direito há seis anos,  mas já estava no mundo do crime, e eu sabia. 

Não era pra menos, ele é o sobrinho do dono do morro e há três anos ele assumiu o posto de chefe quando o tio foi preso, agora é ele quem comanda isso aqui. No começo ele não aceitou bem o fim do nosso relacionamento, eu também não, era apaixonada por ele, louca, só terminei porque ele me traiu. Como eu sofri. Mas depois que ele se formou, ao invés de sair daqui e seguir a carreira de advogado em outro lugar, ele ficou trabalhando para o crime, defendendo os integrantes da facção, e depois quando pegaram o Drake, tio dele, ele assumiu o lugar, virou criminoso de vez, aí eu desencantei,  passou o sentimento. Não nasci pra ser mulher de bandido. Mas ele ainda é advogado, pelo menos até a polícia descobrir a verdadeira identidade do Russo. 

—Você e a Gabriela brigaram de novo? —Minha mãe pergunta entrando no meu quarto. 

—Não mãe,  foi só um desentendimento de irmãs —respondi me sentando na cama. 

—O motivo foi o Russo outra vez? —Arqueia a sobrancelha. 

—Foi e não foi —Suspiro. —Mãe,  eu só não quero que a Gabriela sofra. A Senhora sabe que aquele cara não quer nada sério com ela, isso é só diversão pra ele. 

—Graziela,  eu sei que não é nada fácil pra você, mas não podemos fazer nada —suspira profundamente. —Sua irmã é apaixonada por aquele homem, e não é só uma paixão passageira como  você sentiu, parece que ela o ama de verdade. —Reviro os olhos. 

—Para com esse papo, mãe. Aquela idiota* caiu na conversa fiada daquele filho da puta*, mas uma hora ela vai abrir os olhos e ver que não é nada disso, que ela é exatamente como eu fui, uma iludida. O Russo só está usando ela pra tentar chamar minha atenção, quando vê que não deu certo ele descarta ela. —Falo francamente, deixando minha mãe um pouco aborrecida. 

—Você já pensou que ele pode estar realmente interessado na Gabriela? Já passaram muitos anos, ele também pode ter te esquecido — Reviro os olhos novamente. Como minha mãe é iludida. Não é à toa que foi enganada duas vezes e por homens diferentes, ainda teve que criar duas filhas sozinha. 

Acordo com o barulho do maldito despertador,  o barulho ecoa pelo quarto. Pego ele e jogo no canto da cama, faço isso todos os dias, depois de olhar as horas, claro.  Como eu queria pelo menos uma vez, olhar pra ele e não ser quatro e meia da manhã. Me arrasto para fora da cama e sigo cambaleando sonolenta até o banheiro. Escovo os dentes, arrumo o cabelo, conserto um pouco minha cara com um rímel, uma base com protetor solar e um delineador, também passo um batom, ficar apresentável é o mínimo. Minha mãe sai do seu quarto esfregando os olhos. 

—Bom dia, minha filha —diz bocejando. 

—A benção, mãe —dou um beijo. —Já estou saindo. A Gabriela voltou? —Pergunto antes de entrar de volta no meu quarto. 

—Voltou. Ela não demorou muito lá. —Responde. 

—Que milagre foi esse? Ela não quis se hospedar no cafofo do traficante dessa vez,  já é um começo — ironizei. Ouço minha mãe suspirar descontente. Tudo bem, eu fui um pouco longe demais, espero que não tenha acontecido nada de ruim lá,  se bem que se tratando daquele bosta*, é difícil, provavelmente teve treta, coitada da minha irmã. 

—Graziela! —Bufa. 

—Desculpa! —Ergo as mãos —estou indo, tchau! — Beijo sua bochecha e saio. Mais um dia normal de trabalho duro me aguarda.

Entro na van, paro no centro, entro no ônibus e finalmente chego no Jardins. É, a rotina é puxada, mas eu prefiro isso a trabalhar naquele postinho fuleiro lá da favela. Sete horas da manhã e as ruas estão quase vazias, a "peruada" toda dormindo o sono da beleza, essa é a vida que eu queria pra mim, mas ao invés disso estou aqui, acordada desde às quatro da manhã, aff. Pelas ruas só vejo os funcionários seguindo para seus trabalhos. 

—Cuidado! 

Ouço um grito agudo próximo de mim e em seguida sou puxada para o lado, caindo sobre um corpo forte e suado. Suado, mas cheiroso. Tem cheiro de perfume caro. Um carro, mais precisamente um Lamborghini, passa voando por nós e bate com tudo no poste à nossa frente. 

—Ai! —Digo massageando meu nariz que bateu forte nos músculos do homem,  músculos que mais parecem aço de tão duros. 

—Se machucou? —Pergunta. Ele tem uma voz grossa que chega arrepiar. E olha que eu ainda nem vi a cara do fortão que me salvou. 

—Só meu nariz, eu… bati ele no seu… —toco seu peito forte sobre a camiseta regata. —Desculpa. — digo quando ele afasta minhas mãos. 

—Tudo bem —diz erguendo nós dois do chão numa facilidade incrível, mas também com aquele corpo todo, o homem parece um armário. Quando estamos sentados no gramado, de frente um para o outro, eu finalmente posso olhá-lo com atenção, faço uma avaliação rápida em cada pedacinho e só consigo pensar: Jesus, que homem perfeito! Sem exagero, o homem na minha frente ganha em disparada de qualquer modelo de capa de revista. Moreno, provavelmente deve ter seus um metro e noventa e cinco de altura, cabelos pretos, um belo par de olhos verdes e uma boca que é um convite para beijar de tão bem desenhada. O corpo é outro espetáculo à parte, ombros largos, músculos bem desenhados e bem firmes, mãos grandes que devem ter uma pegada boa, enfim… queria um desse pra mim, já sonhei muitas noites com isso. 

—Algum problema? —Pergunta meio rude, acho que notou minha sutil avaliação. Tudo bem, não foi tão sutil assim. 

Capítulo 3

—Nada, me desculpa —respondi sem graça. 

—Okay. Vamos lá, o socorro deve está chegando, vamos avaliar se está tudo certo. Eu poderia dizer que estou bem e não preciso disso? Poderia. Mas eu não vou perder a chance de passar mais alguns minutos ao lado desse "deuso'', não mesmo! Já perdi as contas de quantas vezes me imaginei conversando com esse homem, aliás, meu sonho é ter a oportunidade de conhecê-lo e conquistá-lo.

Assim que levantamos do gramado já tem um carro do Samu parado próximo do carro de luxo destruído, bombeiros e policiais também já estão chegando, e por incrível que pareça quase não tem curiosos, bairro chique é outra coisa, né. Se fosse onde moro já estaria lotado de curiosos. Ô gente pra gostar de olhar desgraça alheia é pobre. Eu até tentei puxar assunto e ter uma troca de palavras com o meu salvador gostoso, ou melhor, meu chefe gostoso, sim,  esse homem maravilhoso é Samuel Moretti, o herdeiro do império Moretti. Os Moretti são os donos da rede de hotéis para a qual eu trabalho e mais um monte de outros negócios. Ele me respondeu, deixou no vácuo, acho que ele percebeu que não passo de uma pobre funcionária, e para gente como ele, ou seja, milionários, gente assim acha que pessoas como eu não merecem atenção, no final ricos são todos iguais. 

—Obrigada por ter me salvado —digo quando ele está saindo. 

—Sem problemas —respondeu seco. Ok, eu me senti frustrada agora, poxa, achei que ele fosse ao menos ser simpático por eu ser bonita, mas… pelo jeito não sou bonita o suficiente para conseguir sua atenção, pelo menos ele tem instinto de herói e salvou minha vida. Imagina só, eu fui salva pelo meu chefe gostoso, tudo bem que ele nem me olhou, mas eu pude sentir um gostinho daquele corpo todo. 

—Isso são horas, Graziela?! —Assim que passo pela porta ouço a voz irritante da minha chefe. Que velha azeda insuportável! 

—Eu só me atrasei porque tive um acidente — respondi calmamente depois de respirar fundo. Minha vontade é mandar essa velha para a puta* que pariu. 

—Essa é a melhor mentira que você tem? —Diz depois de me olhar dos pés à cabeça —não estou vendo nenhum machucado. —Constata. 

—Justamente por isso eu estou aqui trabalhando, porque se tivesse me machucado os socorristas teriam me mandado para o hospital. Eu quase fui atropelada por um carro desgovernado que bateu no poste, pode averiguar, foi aqui perto —digo e ela torce a cara. 

—Tudo bem, mas tenha cuidado na próxima vez, não quero ter atrasos por aqui. Se troque e vá trabalhar! —Me olha mais uma vez e sai,  com certeza está indo conferir se falei a verdade. 

Depois de me trocar, sigo para os quartos, meu dia normal de trabalho duro acaba de voltar ao normal de fato. 

[…]

Dois meses, dois meses se passaram desde o acidente do Lamborghini, e eu ainda fico aqui fantasiando com o fato de eu ter sido salva pelo herdeiro Moretti. Como eu queria que isso tudo fosse como aqueles filmes de romance que o gato milionário - nesse caso bilionário - salva a mocinha e se apaixona por ela e depois se casam e vão morar em uma mansão que mais parece um castelo. Mas não, a realidade é uma bosta*, o boy magia nem olhou pra mim. Aff. 

Hoje o hotel vai receber uma hóspede vip,  dizem que é a mulher do governador de São Paulo. Imagina só, enquanto a gente rala pra pagar as contas, que são caras por causa dos impostos altíssimos, os nossos queridos políticos hospedam seus familiares em hotel de luxo, isso é o Brasil, o povo sofre e os políticos luxam. Às dezesseis horas eu terminei de limpar e organizar o quarto. Um vaso com girassol no centro do quarto, vinho importado no frigobar, lençóis de seda, cortinas e tapete italianos… a mulher é exigente viu. Segundo a minha chefe, a mulher iria chegar às dezessete horas, mas quando estou saindo com meu carrinho a porta se abre e uma mulher e um homem entram grudados um no outro. Eu fico sem reação no momento, o homem parece que vai engolir a mulher de tão forte que beija ela. Que situação, para piorar, o homem é justamente o meu chefe. E agora o que eu faço? Forço uma tosse para avisar que chegaram cedo demais e ainda estou aqui, ou eu espero eles me notarem? Quando o homem enfia a mão embaixo do vestido de grife da mulher, eu escolho a primeira opção. 

—Ham-ham —raspo a garganta chamando a atenção deles. 

Imagina minha decepção quando o homem me olha e não me reconhece, é muita inocência minha pensar que o todo poderoso Samuel Moretti, herdeiro do Grupo Moretti iria se lembrar de mim, a garota da faxina que limpa o chão do hotel dele. Ainda mais quando ele está trepando* com a esposa do governador, aliás, que mulher safada, tá traindo o marido! 

—Mas que porra* você está fazendo aqui?! —Ele grita com uma voz absurdamente grossa.

—Desculpa, senhor, senhora —faço um aceno com a cabeça cumprimentando os dois, sou educada afinal —eu já estava de saída, acabei de limpar o quarto agora. 

—Mas que porra*! —O homem lindo, que neste momento está muito irritado, esbraveja —vocês fazem a limpeza com os hóspedes entrando? —Me lança um olhar assassino, é,  realmente ele parece está furioso por ter sido pego no flagra. 

—Desculpe, senhor, mas segundo a dona Marta, a hóspede chegaria às dezessete horas. Está agendado na ficha de chegada,  o horário da entrada dela. —Falo naturalmente. Mas só Deus sabe como estou de verdade. O homem bufa, ainda está furioso, mas não desconta mais em mim. Ele e a mulher, que até o momento estava calada, me encaram.

—Tudo bem, pode ir —ele diz se afastando o máximo possível para eu passar com o carrinho.

—Ela não vai falar nada que viu aqui, não é? — Ouço a mulher questionar antes que eu saia. 

—Não. Nosso hotel preza pela privacidade e protege a intimidade dos hóspedes —ele responde. Eu reviro os olhos. 

Privacidade? Intimidade? Que pilantra! É da safadeza isso sim. Os dois estão traindo, colocando um belo par de chifres no cônjuge da safada e ainda exigem privacidade, é brincadeira. 

Eu obviamente não tive culpa do flagra que dei nos dois safados, mas como eu sou uma simples faxineira, ainda tive que ouvir um belo sermão da azeda da minha chefe, ô mulherzinha insuportável. Depois de ouvir ela lendo duas páginas do código de conduta dos funcionários deste hotel, eu finalmente fiquei livre da velha. Mas uma coisa é certa, aqueles dois têm muito medo dessa história vazar, mas também imagina só o escândalo: Esposa do governador e o dono do Grupo Moretti se encontram às escondidas. A hashtag "o governador é corno" alcançando o top um dos assuntos mais comentados dos sites de fofocas. Ou o escândalo do herdeiro da família Moretti pegando a esposa do amigo, indo parar na capa das revistas de negócios. 

—Qual é a treta dessa vez? —A Loane pergunta. Ela trabalha aqui também, nós somos muito amigas e saímos juntas para balada sempre que dá. 

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