Capítulo 2

O som do motor de um ônibus velho engoliu o silêncio da rua assim que Clara virou a esquina. Caminhava rápido, apertando a bolsa contra o peito, como se isso fosse o bastante para proteger os trocados que carregava - e a coragem, que a cada passo parecia menor.

Fazia calor, mas ela usava um casaco leve, tentando disfarçar a roupa manchada de farinha. Ainda tinha açúcar grudado no pulso, lembrança da fornada da manhã. Nem teve tempo de limpar tudo direito antes de sair.

"Você precisa de um empréstimo. Um respiro. Qualquer coisa."

A voz dela mesma ecoava, repetindo o que Dona Amélia diria se estivesse viva. Mas, ao mesmo tempo, outra parte gritava mais alto: "Não aceite esmola. Não aceite migalhas. Você consegue sozinha."

Parou em frente ao primeiro banco, respirou fundo. O letreiro dourado brilhava como uma promessa. Entrou, ignorando o ar-condicionado gelado que a fez estremecer.

Na fila, Clara revisava os papéis: extratos, recibos, notas fiscais. Tudo organizado, tudo provando que a confeitaria ainda vendia, ainda tinha clientes fiéis. Só precisava de tempo.

Quando finalmente se sentou na frente do gerente, um homem de terno cinza e olhar entediado sentiu o estômago revirar.

- Senhora Clara Martins? - Ele ajeitou os óculos no rosto, folheando as páginas como quem folheia uma revista velha. - Hum... Confeitaria Martins, não é? Uma microempresa individual... vejo aqui que a receita mensal não cobre as dívidas acumuladas.

Clara se endireitou na cadeira, tentando conter a ansiedade.

- Mas tenho fluxo de clientes. Se eu conseguir modernizar a vitrine, fazer uma promoção, pagar fornecedores à vista, posso dobrar as vendas no mês das festas juninas. Eu só preciso de um prazo, um fôlego.

O homem pigarreou, digitou algo no computador. O som das teclas parecia um martelo cravando cada negativa na alma dela.

- Senhora Clara, infelizmente seu score de crédito é muito baixo. Não há garantias reais além do próprio ponto comercial, que, pelo que vejo, pertence à construtora Albuquerque -ele levantou os olhos, sem emoção-. Isso limita muito as opções.

Ela apertou os lábios, tentando segurar a raiva. Claro que o nome Albuquerque estaria ali, como uma sombra atrás de cada porta fechada.

- O senhor não pode abrir uma exceção? -insistiu, quase num sussurro-. Eu trabalho duro, pago cada fornecedor. Se eu perder o ponto, não tenho como pagar nem o que devo.

- Eu entendo sua situação -disse ele, num tom automático-. Mas não podemos ajudar no momento.

Clara saiu do banco com as pernas bambas. O sol já começava a descer, pintando a avenida de laranja. O suor escorria pela nuca, mas o frio vinha de dentro.

Ela respirou fundo, ignorou o aperto no peito, e seguiu para a segunda agência, do outro lado da rua. Mais fila, mais papéis, mais olhares de pena. Mais uma negativa.

Quando saiu dali, o telefone vibrou. Uma mensagem de voz. Era Luísa.

"Amiga, me liga assim que ouvir isso! Tô preocupada, ouvi dizer que você recebeu uma notificação. Vem aqui em casa hoje à noite, vamos conversar, tá bom? Eu te ajudo no que precisar!"

Clara apertou o celular na mão. Luísa era sua amiga desde o colégio, daquelas que sabiam todos os seus segredos, inclusive os que ela queria enterrar. O convite era genuíno - Luísa sempre fora generosa. Rica, casada com um advogado que vivia oferecendo "empréstimos sem juros". Mas Clara conhecia o gosto amargo que vinha junto com cada favor.

Guardou o celular no bolso, sem responder. Não ia se humilhar. Não ia dever favores que não podia pagar.

Passou num terceiro banco antes de voltar para o ponto de ônibus. O gerente, mais simpático que os outros, chegou a oferecer um café. Sorriu enquanto negava o crédito com a mesma leveza com que comentaria a previsão do tempo.

Quando finalmente se sentou no banco de madeira da parada, Clara sentiu as pernas formigarem. As sacolas plásticas com insumos para o dia seguinte estavam pesadas em seu colo. Precisava continuar assando, vendendo, sorrindo. O mundo não ia parar porque ela estava exausta.

O celular vibrou de novo. Outra mensagem, agora de Ana, a prima distante que soube da dívida.

"Prima, vem morar comigo um tempo, fecha essa confeitaria! É só um lugar velho, você ainda é nova, consegue emprego em qualquer padaria. Você não precisa se matar por isso!"

Clara sentiu o sangue ferver. Como explicar para eles que não era só um lugar velho? Era a única coisa que ainda a ligava à avó, ao pai, à infância que ainda fazia sentido.

Olhou o céu, onde o sol começava a sumir atrás dos prédios altos que engoliam a cidade.

"Se eu não lutar por isso, não tenho mais nada."

Passou a mão no rosto, tentando afastar as lágrimas. Abriu a bolsa, tirou um bloquinho amarelado onde anotava os pedidos. Amanhã tinha dois bolos de aniversário, quatro dúzias de brigadeiros e uma fornada de pão de mel para a escola do bairro. Trabalho. Sobrevivência.

De repente, lembrou-se de algo que odiava lembrar. Uma noite, anos atrás, Enzo Albuquerque encostado na porta da confeitaria, ainda de terno, sorriso de canto de boca.

"Você não precisa se matar tanto, Clarinha. Vem comigo. Eu resolvo tudo."

Ela disse não. Orgulho, vergonha. Talvez medo. E agora, anos depois, lá estava ele, dono do prédio, dono da rua, dono de um pedaço do destino dela.

Sentiu o peito apertar. Será que algum dia teria que engolir tudo o que engoliu para bater na porta dele? Não. Não podia. Não ainda.

O ônibus chegou, soltando fumaça preta no rosto dela. Subiu devagar, pagou a passagem com as moedas contadas, sentou perto da janela.

Enquanto o veículo se afastava, Clara viu o reflexo de si mesma no vidro sujo: cabelos presos num coque improvisado, olheiras profundas, a testa marcada pela preocupação. Mas no fundo dos olhos, uma faísca. Pequena, mas viva.

"Não importa quantos bancos digam não. Eu vou dar um jeito. Nem que eu tenha que vender brigadeiro na porta do prédio do Enzo Albuquerque."

E, pela primeira vez naquele dia, um sorriso, pequeno, quase imperceptível, se formou em seus lábios. Ainda tinha luta. E enquanto houvesse luta, havia esperança.

Capítulo 3

A luz suave da tarde caía sobre a grande fachada de vidro do café mais caro do centro. Lá dentro, homens de terno conversavam em vozes contidas, misturando palavras como ações, fusões, aquisição. Entre eles, Enzo Albuquerque parecia alheio a tudo, embora todos os olhares girassem ao redor dele como satélites em torno de um sol frio.

Sentado numa poltrona de couro, ele mexia distraído na xícara de café, sem se importar com o vapor que se dissipava. À sua frente, Lucas Viana, sócio e braço direito em algumas transações menos oficiais, falava sem parar.

- Já temos o terreno do quarteirão de cima. Só falta aquele ponto velho da padaria e fechamos o perímetro inteiro para a nova torre. Os investidores asiáticos querem tudo em contrato até o mês que vem.

Enzo ergueu o olhar, desviando-se dos números projetados no tablet que Lucas empurrava para cima da mesa. Do outro lado da rua, pela parede de vidro, ele via a confeitaria. Pequena, apertada, entre lojas que já estavam com tapumes prontos para demolição.

Ele a via - ou melhor, via ela.

Clara.

Lá estava ela, do outro lado da vitrine embaçada, limpando o balcão com um pano desgastado. A luz amarela do interior parecia envolvê-la num casulo que não combinava em nada com o concreto frio da cidade. A cada movimento, uma mecha solta escapava do coque improvisado, caindo sobre a testa franzida.

- Tá me ouvindo, Enzo? -Lucas pigarreou, impaciente-. Eu disse que, se ela não entregar as chaves, o jurídico entra com reintegração de posse. Rápido e sem barulho.

Enzo não respondeu. Continuou observando. Viu quando Clara parou, suspirou fundo e olhou ao redor como se conferisse cada detalhe daquele pedaço de mundo que se recusava a perecer. Uma mulher entrou, saiu com uma caixa de bolo nas mãos, sorrindo. Clara sorriu de volta, mas Enzo soube reconhecer: era um sorriso quebrado.

Passou a mão pelo queixo, sentindo a barba rala que insistia em crescer nos dias de reuniões longas. Por um instante, uma memória antiga atravessou sua mente: Clara rindo ao provar uma cobertura nova, Clara jogando farinha nele numa noite de sábado, Clara fugindo do toque dele, quando ainda acreditava que podia amar sem medo.

Enzo apoiou os cotovelos na mesa, ignorando o burburinho do café elegante.

- E se ela não desistir? -perguntou, sem tirar os olhos do vidro-. E se resolver brigar até o fim?

Lucas soltou uma risada curta, tirando os óculos para esfregar as têmporas.

- Enzo, por favor... ela tá sozinha. Não tem capital, não tem sócio, não tem crédito. O banco já negou tudo. É só questão de tempo. E se ela for orgulhosa demais pra sair por bem, a gente manda o oficial de justiça e pronto.

Enzo bufou, balançando a cabeça. - "Por bem..." -repetiu em voz baixa, como se provasse o gosto amargo da frase.

Lucas inclinou-se para frente, farejando algo além de negócios. - Não me diga que vai ter crise de consciência agora? Depois de tudo? A mulher quis terminar com você, lembra? Te deixou plantado naquele ponto sujo como se fosse um qualquer.

Enzo fechou a mão, um músculo pulando na mandíbula. - Eu não preciso de lição de moral, Lucas.

- Então, deixa a papelada resolver. Ela não é problema seu.

Mas era. Sempre foi. Por mais que quisesse negar, Clara era como uma farpa cravada sob a pele: invisível à distância, insuportável quando tocava fundo.

Ele viu quando ela saiu para fora da loja, carregando duas caixas de papelão. Parou na calçada, ajeitando o avental sujo de glacê, conversou com um entregador que gesticulava demais. Mesmo de longe, Enzo reconheceu aquele jeito dela: firme por fora, tremendo por dentro.

Sem pensar, empurrou a cadeira para trás, ignorando o olhar confuso de Lucas.

- Onde você vai? -perguntou o sócio, tentando segurá-lo pelo braço.

- Resolver isso do meu jeito.

Lucas soltou um riso debochado. - Cuidado pra não misturar cama com contrato, Albuquerque.

Enzo lançou um olhar que poderia congelar o café inteiro. Não respondeu. Apenas saiu, jogando algumas notas sobre a mesa, a passos largos.

Do outro lado da rua, Clara quase deixou uma das caixas cair. O entregador, apressado, não ajudou em nada - largou tudo encostado na parede e sumiu na moto barulhenta. A caixa quase escorregou, espalhando embalagens de confeitos pela calçada.

- Droga... -murmurou, tentando equilibrar tudo de novo.

- Precisa de ajuda?

A voz soou atrás dela, tão perto que Clara estremeceu antes mesmo de se virar. O cheiro de perfume amadeirado misturou-se ao ar quente da rua.

Quando se virou, viu primeiro o paletó cinza, impecável. Depois, o rosto que conhecia melhor do que queria admitir: o sorriso contido, os olhos escuros que pareciam vasculhar cada fraqueza antes mesmo que ela aparecesse.

- Enzo.

Ele sorriu, com a mesma calma de sempre. - Clarinha.

Ela sentiu vontade de rir do apelido. Não era mais Clarinha. Não era mais nada dele.

- O que você quer?

Enzo pegou uma das caixas das mãos dela, como se fosse a coisa mais natural do mundo. - Não posso ajudar uma velha amiga?

- Eu não sou sua amiga -rebateu, tentando recuperar a caixa. Ele não soltou.

Por um segundo, o toque dos dedos deles se encontrou. Foi rápido, mas suficiente para que uma corrente elétrica passasse dos olhos dele para os dela.

- Então deixa eu te ajudar como... -Ele fez uma pausa, a ponta de um sorriso se formando-. ... como credor.

Clara sentiu o estômago despencar. - Você não vai conseguir me comprar, Enzo.

Ele soltou uma risada baixa, encostando a caixa no quadril para falar mais perto. - Quem disse que eu quero te comprar?

Ela bufou, passando por ele, empurrando a porta da confeitaria. Ele entrou atrás, carregando a caixa como se fosse dono do lugar -o que, de certa forma, era.

Dentro, Enzo olhou ao redor, demorando-se no balcão, no relógio velho, no cheiro adocicado de infância que ainda resistia.

- Eu conheço cada centímetro disso aqui -disse, como se falasse consigo mesmo-. Você não mudou nada.

- E nem vou mudar -Clara pegou a caixa das mãos dele, colocou atrás do balcão, cruzou os braços-. Vai direto ao ponto, Enzo. Por que tá aqui?

Ele aproximou-se do balcão, as pontas dos dedos batucando de leve no mármore. Os olhos fixos nela, intensos, indecifráveis.

- Porque eu posso te salvar, Clara -disse, num tom tão calmo que quase soava cruel-. E porque eu sei que você não vai conseguir fazer isso sozinha.

Ela sentiu o mundo girar. Por um segundo, quis jogar o pano de prato na cara dele, expulsá-lo dali. Mas algo nos olhos dele - algo entre o desejo e o arrependimento - a fez ficar imóvel.

Do outro lado do vidro, a rua fervilhava. Mas ali dentro, só havia eles dois, presos num jogo antigo, de promessas não ditas e dívidas que nenhum contrato poderia quitar.

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