Gabriel Cavalcante tinha trinta e quatro anos e era considerado o jovem mais rico da cidade. Seu pai era dono de mais da metade dela - literalmente. Foi ele quem fundou a universidade, a escola particular, o hipermercado. Metade de tudo lhe pertencia; da outra metade, podia-se dizer que era sócio, já que cedeu capital para o desenvolvimento.
Apesar disso, seu pai não era um homem generoso. Nunca investiu em nada que não garantisse retorno elevado, muito menos por caridade. Era mão fechada, calculista, e só colocava dinheiro em projetos que prometessem lucro - e rápido. Gabriel era seu único filho.
Quando voltou dos Estados Unidos, oito anos antes, Gabriel retornou cheio de sonhos. Estudar no exterior ampliou sua visão de mundo. Trouxe projetos de diesel renovável e ideias sólidas sobre como investir em petróleo com responsabilidade social.
Precisava apenas do investimento inicial do pai, que concordou em ajudar sob uma condição: que Gabriel adiasse o casamento com Celine por três anos. Os argumentos eram lógicos. Havia muito trabalho a ser feito, projetos a implantar e os negócios da família a administrar.
Celine era sua namorada de infância. Amiga, companheira, o grande amor de sua vida. Antes de sair da cidade para estudar, fizeram um pacto de castidade. Ainda eram virgens e prometeram se guardar para depois do casamento.
Gabriel passou cinco anos fora e não foi fácil conter os impulsos. Ainda assim, amava aquela loirinha mais do que qualquer coisa.
Celine aceitou esperar os três anos e começou a se preparar. Desde o primeiro ano, Gabriel lhe deu acesso irrestrito às suas finanças, permitindo que ela fizesse o que quisesse. Celine comprou a segunda maior mansão da cidade - a maior ainda pertencia aos pais de Gabriel. Sua mãe ajudou a escolher os móveis, o enxoval, cada detalhe.
No primeiro ano, tudo estava pronto. Gabriel, por sua vez, pouco se envolveu nos preparativos do casamento. Estava totalmente focado na implantação de seu projeto e, nesse período, recebeu a indicação de uma consultora extremamente inteligente que vivia no Canadá.
A Senhorita Poirot resolvia tudo por e-mail. Nunca aceitava chamadas de vídeo; no máximo, ligações com a câmera desligada. Ela o via, mas ele jamais a viu.
Ainda assim, Gabriel confiava plenamente nela. Tudo o que aconselhava dava certo. Após um ano de trabalho conjunto, decidiu contratá-la como assessora exclusiva. Não correria o risco de vê-la dividir suas ideias brilhantes com concorrentes.
E o noivado? Gabriel evitava ficar perto de Celine. Tinha vinte e quatro anos e ainda era virgem. Resistir era difícil, e ele não queria desrespeitar a decisão dela.
Certo dia, sua mãe chamou sua atenção:
- Celine é uma menina tão boa, tão dedicada, Gabriel. Você está negligenciando sua noiva. Precisa passar mais tempo com ela, cuidar dela.
No dia seguinte, ele a convidou para almoçar no escritório, dizendo que mandaria o motorista buscá-la.
- Eu tenho um carro, Gabriel. Você mesmo me deu. E eu sei dirigir - respondeu ela.
- Desculpa, meu amor. Sei que tenho sido negligente com nosso relacionamento...
- Relaxa, benzinho. Faço como nos anos anteriores. Finjo que você ainda está nos Estados Unidos. Vai ficar tudo bem.
- Então venha almoçar comigo hoje.
- Não vai dar. Hoje vão instalar as cortinas da nossa casa. Preciso acompanhar tudo para ficar do meu jeito.
- Tudo bem. Mas precisamos incluir um tempo só nosso na rotina.
- À noite eu vou à sua casa. A gente namora e combina nossas agendas.
Na hora do almoço, Gabriel decidiu fazer uma surpresa. Passou no drive-thru do McDonald's, comprou dois Big Macs e milk-shakes de Ovomaltine - o preferido dela - e seguiu para a casa que dividiriam. Imaginou os dois sentados no carpete felpudo, comendo lanche e namorando.
Ao chegar, notou um dos carros do pai na garagem. Bateu a mão na testa. Claro que a mãe estaria ali para acompanhar a instalação do enxoval. Celine era uma jovem exemplar, mas vinha de uma família humilde; sua mãe acreditava que ela precisava de orientação para lidar com tanto luxo.
Decidiu deixar os lanches para as duas e comprar outro para si depois. No entanto, ao entrar, ouviu gemidos vindos da sala. Seu coração disparou. Pensou que alguma das duas tivesse se machucado ao mexer em algo pesado.
Acelerou o passo e, ao entrar na sala, ficou paralisado. O choque foi tão grande que deixou os embrulhos caírem das mãos. Os copos de milk-shake se abriram ao atingir o chão, espalhando o líquido marrom-escuro por todo o carpete felpudo branco.
No enorme sofá Brooklin ilha com chaise marrom, seu pai estava sentado com as calças arriadas até os pés, enquanto Celine, completamente nua, cavalgava sobre ele, enquanto estava sendo enrabada...
O projeto de Gabriel sempre girou em torno do petróleo, mais especificamente do pré-sal. Mas, desde o início, ele sabia que não queria repetir o mesmo modelo que dominava o setor havia décadas. Não queria criar apenas mais uma máquina de fazer dinheiro para meia dúzia de homens ricos que nunca pisavam em uma plataforma, nunca sentiam o cheiro do óleo cru, nunca sujavam as mãos.
A ideia fixa que carregava era simples e, ao mesmo tempo, revolucionária: o projeto precisava gerar impacto social real. Os prestadores de serviço tinham que ganhar bem. Os técnicos, engenheiros, operadores e trabalhadores terceirizados precisavam sentir que aquele negócio também era deles. O lucro não podia ficar restrito a salas climatizadas, planilhas fechadas e assinaturas em contratos frios. Precisava chegar a quem colocava o corpo em risco todos os dias.
Quando apresentou o projeto pela primeira vez, ouviu risadas disfarçadas, olhares de desdém e comentários venenosos. Diziam que ele era jovem demais, idealista demais, ingênuo demais. O investimento inicial foi alto, milionário, e muita gente apostou que aquilo não passaria de um capricho caro de um herdeiro tentando brincar de empresário consciente.
Cinco anos depois, ninguém mais ria.
O projeto rendia nove vezes mais do que o valor investido - por ano. E não dava qualquer sinal de desaceleração. Pelo contrário. Crescia de forma agressiva, sólida, consistente. Chamava atenção de bancos internacionais, fundos de investimento, conglomerados estrangeiros e, inevitavelmente, de gente poderosa que não aceitava ver dinheiro circulando fora do próprio bolso.
Dois anos antes, veio o boom.
O mercado finalmente entendeu o tamanho do que Gabriel havia construído. E, como sempre acontecia quando algo realmente grande surgia, os grandes capitalistas chegaram em bloco. Vieram com sorrisos treinados, discursos técnicos e propostas "irrecusáveis". Queriam mais lucro. Queriam cortar custos. Queriam rever contratos, reduzir pagamentos, eliminar cláusulas sociais.
Para eles, a conta era simples: se o projeto dava lucro daquele jeito, dava para espremer mais. Se alguém saísse perdendo no processo, que fossem os prestadores de serviço. Os pobres sempre se viravam. Ou quebravam.
Gabriel não cedeu.
Desde o início, manteve a mesma postura. Não mexeu na distribuição de renda, não abriu mão das cláusulas sociais, não negociou princípios. Cada reunião terminava do mesmo jeito: propostas recusadas, tensões no ar, portas fechadas com força.
Essa postura transformou o projeto em algo admirado por muitos... e odiado por outros tantos.
E quem odiava tinha poder. Muito poder.
Antes de voltar para o Brasil, Samira recebeu o alerta de Evelyn. A amiga, que sempre foi sua conselheira silenciosa, seu radar e seu porto seguro, não rodeou o assunto.
Os acionistas estavam se articulando.
A jogada era suja, mas extremamente eficaz. Todos colocariam suas ações à venda ao mesmo tempo. O mercado entraria em pânico. Os preços despencariam em questão de horas. Os cinquenta e um por cento de Gabriel continuariam sendo maioria no papel, mas valeriam quase nada na prática.
Ele ficaria encurralado.
Teria apenas duas opções. Ou colocava parte das próprias ações no mercado, perdendo o controle da empresa, ou abria o capital para tentar conter o estrago. E abrir capital naquele cenário era brincar com fogo. Se a queda continuasse, a empresa quebraria em pouco tempo.
Era um xeque-mate.
Se Gabriel cedesse, perderia o posto de acionista majoritário e os tubarões venceriam. Se resistisse até o fim, poderia afundar tudo o que havia construído com tanto cuidado.
Era exatamente ali que Samira entrava.
Evelyn tinha sido a grande responsável por levá-la até aquele ponto. Foi ela quem a ensinou a observar em silêncio, a ouvir mais do que falar, a perceber movimentos antes que se tornassem oficiais. Foi com Evelyn que Samira aprendeu que informação, quando usada no tempo certo, valia mais do que dinheiro.
Samira sempre esteve um passo à frente. E não por sorte.
Havia dois anos, mesmo sem título oficial, ela já exercia o papel de vice-presidente do projeto. Era ela quem desenhava estratégias, antecipava movimentos do mercado, sugeria decisões que pareciam ousadas demais, mas sempre se provavam corretas. Tudo isso à distância, protegida pelo anonimato da Senhorita Poirot.
Em uma das reuniões com a câmera desligada, Samira questionou Gabriel pela primeira vez com um tom mais firme, quase impaciente:
- Como exatamente você espera que eu seja vice-presidente da sua empresa no Brasil morando no Canadá, Gabriel?
Do outro lado da tela, ele suspirou. O cansaço era evidente até na voz.
- Então volte para casa, Senhorita Poirot. Ninguém administra essa empresa melhor do que você.
- Ainda não posso - respondeu ela, sem hesitar. - Você sabe que estou no meio do furacão. Se eu voltar agora, perco acesso a informações que ainda são fundamentais para você crescer mais um pouco antes do ataque final.
Houve um silêncio pesado antes da resposta.
- Eu não estou conseguindo segurar tudo sozinho - ele admitiu. - Preciso de alguém ao meu lado. Preciso de um vice-presidente de verdade. E não confio esse cargo a mais ninguém.
Samira ficou em silêncio por alguns segundos. Não por dúvida, mas por cálculo.
- Eu vou fazer tudo o que estiver ao meu alcance para consolidar sua empresa - disse, por fim. - Até lá, você pode contar com o apoio de um dos seus sócios, mas sem dar poder demais.
A resposta dele veio carregada de amargura:
- São todos aves de rapina. Se eu der qualquer espaço, eles desmontam a parte social do projeto em uma semana. Vamos fazer assim: tudo o que puder ser decidido à distância, eu divido com você.
E foi exatamente isso que aconteceu.
Durante dois anos, Samira comandou decisões importantes por e-mail, mensagens criptografadas e reuniões discretas. Dava ordens diretas à equipe administrativa, resolvia conflitos internos, fechava contratos, renegociava prazos, apagava incêndios antes mesmo que eles se tornassem públicos. Tudo sem nunca aparecer.
Quando completou seis meses nessa função informal, seus ganhos já eram cinco vezes maiores do que quando assumiu o projeto. Foi então que fez um pedido pessoal: a contratação de Tarcísio como administrador júnior.
Ela passou a dar ordens diretas a ele, sempre mantendo a distância profissional. Tarcísio jamais desconfiou que a Senhorita Poirot e sua noiva eram a mesma pessoa. Evelyn achou melhor assim. Samira também. Não queria ferir o orgulho dele, nem criar um desequilíbrio que pudesse corroer a relação por dentro.
No mês anterior, como já controlava toda a área administrativa, foi ela quem sugeriu a promoção de Tarcísio.
Gabriel avisou que estava organizando tudo para sua volta definitiva ao Brasil. Disse que, assim que ela assumisse oficialmente, poderia promover e demitir quem quisesse. Afinal, era Samira quem realmente conhecia o time.
Ela riu quando ouviu aquilo.
Os administradores trabalhavam no mesmo prédio que Gabriel, e ele mal sabia o nome de metade deles.
- Eu não cuido só desse projeto, Senhorita Poirot - ele explicou. - Depois que meu pai se aposentou, tudo caiu nas minhas costas. Por isso coloquei você no comando dessa parte.
- Eu sei - respondeu Samira, calma. - Seu pai se afastou e agora você segura o império inteiro sozinho.
Do outro lado da linha, houve uma pausa curta, desconfiada.
- Como você sabe disso?
- Somos da mesma cidade, senhor Cavalcante. Sua vida nunca foi exatamente um segredo.
Ele riu. Um riso curto, intrigado, carregado de curiosidade.
- Interessante... Então não vai ser difícil você voltar em breve e assumir seu cargo de vez.
Respirou fundo antes de concluir, com um tom mais pessoal do que nunca:
- E, finalmente, eu poder te conhecer.