Olho os lápis a minha frente agora focando neles, retornando das lembranças felizes que parecem de outra vida.
Aquela noite foi a última vez que transamos já que milagrosamente após tomar um chá, Taylor melhorou. Foi o último dia da rotina a dois. De nós dois.
Na manhã seguinte recebi uma mensagem de um número desconhecido dizendo que ele me traiu na festa. O confrontei, ele negou, mas logo a foto do meu namorado beijando outra, pior, uma colega de trabalho, também misteriosamente veio parar em minhas mãos e soube porque ele queria tanto ir embora da festa e o real motivo de ir mais cedo.
Era para ninguém me contar nada e claro,
poder ficar com a outra. Porém, eu soube e percebi que fui muito burra por acreditar em um homem com a fama de cafajeste da contabilidade pois já pegou e iludiu muitas colegas de trabalho e profissão.
Eu odeio Taylor Ramos.
Odeio Priscila Camargo iguamente, a advogada da empresa, que teve o descaramento de me apunhalar assim de forma tão baixa. E daí se ela tem fama de ser liberal e cheia de atitude? Poderia pelo menos deixar o homem comprometido em paz e ela sabia que ele era meu namorado.
Odeio ter que continuar trabalhando com esse tipo de gente só por consideração ao patrão, necessidade e para não dar ousadia para eles acharem que isso me abalou.
Claro que não fiquei abalada. Como ficar abalada? Foi só o meu namorado de quase três anos, por quem era apaixonada, me traindo com uma colega de trabalho que várias vezes passou por mim dando “bom dia”. Quem sabe em uma dessas, depois de pagar um boquete no meu namorado em uma das salas da empresa.
Odeio eles!
Ainda assim não fiquei abalada com a traição. Continuei maravilhosa como o monumento que sou. Quem ficaria abalada? Eu como chifre no jantar ou o coração daqueles dois filhos da puta assados em álcool enquanto ainda pulsa.
Homem nenhum presta e colegas também não.
— Sabrina? — reconheço imediatamente a voz de Matthew Morrison, meu chefe, chamar meu nome quase me assustando. — Pode parar de apertar minha mão e esse pobre lápis?
Só estão percebo que exprimia a mão dele
com uma mão e um lápis já quebrado na outra. Efeito Taylor. Essa história me tira do sério sem falar que me deixa irracional e violenta.
Já faz quase oito meses que terminei com ele e ainda fico com raiva em pensar nele. Pior ainda, penso nele. Penso muito. Preciso de outro emprego o qual não sou obrigada a ver meu ex todo dia sem jamais conseguir esquecê-lo.
— Mil perdões chefe — peço colocando a mão na boca. — Desculpa mesmo, não tive a intensão
— Tenho pena do Taylor — comenta olhando a mão com uma careta enquanto abre e fecha. Que exagero.
— Pena do Taylor por quê? Vocês homens sempre são os coitados da história. Não importa quão idiota sejam. Todos não valem o que o vaso sanitário guarda, mas sempre são os coitadinhos — brado socando a mesa e alguns funcionários nos olham.
— Mais cuidado como fala comigo, ainda sou seu chefe e exijo respeito — cospe entre dentes, mas suas palavras não tem o mesmo poder intimidante de outrora. Ele está mudado.
— Desculpa. Estou estressada.
— Eu achando que Aisha e Beatriz eram as bravas do escritório. Quem te viu quem te vê, hein Sabrina? Entrou aqui calado e hoje grita até comigo.
— Eu só queria a cabeça dele numa
bandeja para ficar mais calma.
— Legal... — Ele me olha com aquela cara que todo homem faz quando acha que a mulher está com TPM e ele precisa manter o máximo de distância possível. É exatamente isso que ele faz, sai caminhando de frente para mim, como se eu fosse o apunhalar pelas costas.
— O que queria chefe?
— Nada, Fernanda faz para mim. Por que não vai para casa? Tira o resto do dia de folga.
Descansa.
Reviro os olhos. Homens!
Matthew trabalha tanto com mulheres que sempre dá folgas quando estamos com a TPM atacada e o escritório não está um caos. Ele mesmo diz se está tudo fluindo bem, para quê estragar tudo deixando uma mulher de TPM ainda mais estressada?
Que exagero! Isso surgiu só porque ano passado a faxineira quebrou o rodo nas pernas de um funcionário por cuspir no chão. Nem precisa estar de TPM para fazer isso. No entanto, gostamos disso e aceito a sugestão dele numa boa. Não sou japonesa para gostar de trabalhar.
— Irei fazer isso.
Espreguicei-me na cadeira olhando a tela escura do computador. Matthew comigo quase sempre é gente boa, nunca me cantou e não tem nada a ver com meus óculos, aliás, ele sempre disse que fico sexy com eles. Sou uma nerd sexy.
Também não tem a ver com o fato de gostar do meu cabelo rosa, azul ou o atual vermelho sangue. Nem com o fato de eu ser baixinha, fora dos padrões modelo 46 e tamanho P, mas porque desde que trabalho aqui sempre fui do Taylor.
Quando entrei no prédio da empresa pela primeira vez e encontrei Taylor Ramos no elevador esbanjando charme sem o menor esforço, eu o quis. E parece que diferente de certa advogada vadia, o chefe respeitou isso me deixando fora de seus encantos, mesmo ele e Taylor se dando tão mal e tendo motivos para proibir nosso namoro. No fundo sei que essa birra é por território. Dois machos alfas na mesma alcateia dão embate mesmo.
É difícil ver que Taylor não deixou de ser mulherengo e não passou de um bom ator que tirou dez na arte de iludir. Já Matthew, mesmo sendo legal comigo, sempre foi um babaca com todos e ultimamente vem notando certa mudança de comportamento nele.
Nos últimos dias não ouço gritos nem
xingamentos contra ele e algo me diz que tem a ver com sua secretaria Aisha. Eles vivem trocando olhares e sorrisos que acha que ninguém percebe. Desconfio que estejam juntos. O clássico chefe que se apaixona pela secretaria.
Espero que sejam felizes se realmente
estiverem e que ele não seja mais um loiro traidor como certas pessoas de olhos cor de mel, lábios rosas como um morango tão gostoso no primeiro momento, mas depois se mostra mais amargo que o fel.
— Sab? — ouço a voz grossa que por meses sussurrou palavras bonitas em minha cama, que gemeu em meu ouvido o quanto me queria e agora para mim, é a mais irritante do mundo.
Observo Taylor debruçar na minha mesa com o sorriso que me sempre fez tropeçar, meu coração acelerar e minhas mãos suarem. E que ultimamente parecce sair dos meus pensamentos direto para o mundo real.
Ainda recordo como fiquei bem mais apaixonada quando com esse sorriso disse que me amava pela primeira vez.
Esse sorriso lindo vive por aí seduzindo mulheres. Iludindo. E mesmo com toda raiva que sinto por ele, hoje não sou imune, o sorriso ainda causa os mesmos efeitos de outrora em mim.
Por que cafajeste nunca tem sorriso feio?
— Que foi? — indago inclinando para trás na cadeira. Toda distância desse sorriso é pouca. Sei bem o estrago que ele faz na minha mente e na calcinha.
— Está de TPM. — Afasta fazendo o sinal da cruz. — Volto para conversamos amanhã.
Ele sempre sabe quando estou de TPM e não só estressada ou mal-humorada. E nem foi pela pergunta rude. Pois com ele, depois de tudo que aconteceu, sou sempre grossa. Ele sempre foi bom em saber o que estou sentindo.
Isso é o que mais me dói. Taylor sabia que não teríamos volta e mesmo assim me traiu descaradamente. Tudo que vivemos foi uma mentira e eu era apenas um objeto em sua mão como um peão em um tabuleiro de xadrez.
— Não temos nada para conversar nem hoje, nem nunca — rebato. — Agora vai procurar outra para encher o saco.
— Não vou desistir até você me ouvir. — Cruza os braços ficando sério e aparentemente esquecendo que estou de TPM.
Sem querer meus olhos desviam para seus braços que pelo fato de estarem cruzados deixaram mais aparente sob o terno. Engulo em seco, tentando me obrigar a olha para ali, mas resulta impossível e termino ficando excitada.
Eu ainda lembro como ele é nu. Lembro de sua pele bronzeada e a forma como eu brincava na cama desenhando os músculos dos seus braços entrelaçando nossas pernas ainda ofegante após gozar.
— Já disse, não temos nada para conversar
— repito olhando nos seus olhos, com medo dos meus próprios desejos e pensamentos.
— Acha que essa sua birra não já deu não? Vamos terminar assim? Dessa forma?
— Já terminamos e foi por culpa sua. Não quero conversar com você. — Levanto me inclinando na mesa buscando me impor. — E você não tem que trabalhar não? Depois reclama que não tem emprego.
— Não vamos terminar até eu dar minha versão. E já fiz meu trabalho — Sorri me olhando nos olhos. — Agora quero diversão. O que vai fazer hoje à noite?
Sério isso? Agora sou sua diversão? Ele vai mesmo agir como se fossemos um casal? Só pode ser castigo.
— Vou fingir que não me perguntou isso.
— Você está marrenta hein... — Aproxima deixando seu rosto bem próximo do meu. — É falta do prazer que eu te dava.
Odeio como ele ainda me afeta e odeio
mais ainda não ter saído com outro cara. Ser fiel a uma história que já acabou por uma traição dele me faz sentir ridícula. Muito ridícula.
— Vai se foder.
— Boca linda, mas bem sujinha. — Tenta me tocar, mas me afasto. — Não vou desistir, pode me evitar como for.
Não sei porque ele ainda me procura. Já me usou, enganou e não me deixa ir.
— O que quer de mim Taylor? — atrevo-
me a perguntar.
— O seu coração — responde sério, sem deixar margem para eu achar que é brincadeira. — Seu amor de volta.
— Para quê? Para você quebrar ele de novo? Para me machucar novo?
— Sab... — tenta falar, mas levanto
apontando o dedo para sua cara.
Sei que devo ter chamado a atenção de todos os funcionários do escritório, mas foda-se. Vou dizer tudo que guardei todo esse tempo. Taylor não quer conversar? Então que seja um escândalo.
Todos sabem que fui corna mesmo, todos viram ele se pegando com a advogada, podem tranquilamente ver a lavagem de roupa suja inteira.
— Pra que caralho você quer o meu amor? Só sabe amar a si mesmo com o seu ego imenso. Acha que sou o quê? O copo de café que você muda, muda e depois que usou todos quer lavar e me usar de novo? Eu não sou! — Respiro fundo tentando não chorar na frente dele.
— Sabrina! — chama em tom de
repreensão olhando ao redor.
— O quê? Não queria conversar? — berro
abrindo os braços chamando ainda mais atenção.
— Quero conversar, mas não...
— Vamos confessar — corto sem chance
para ele continuar. — Taylor, eu te dei tudo. Eu me dei em tudo para nossa relação e você me traiu. Mentiu. Me humilhou... agora não me venha querer ser o arrependido. — Deixo meus braços caírem de tão cansada. Tão exausta de fingir que não estou sofrendo. De mentir que a presença deles não me afetam. — Se não sabe cuidar, não sabe ser fiel, não me procura mais, pois, homem como você não me serve nem para sexo. — No fim minha voz saiu embargada e me deu raiva quando senti a primeira lágrima descer.
Taylor me encara tão assustado e sentido com meu desabafo que parece sem fala e sem reação.
Não espero para sentir sua pena, viro e
saio correndo para o banheiro. Vários colegas tentam conversar comigo no caminho, mas desvio de todos e só paro e desabo em lagrimas já dentro do reservado.
Choro copiosamente por uns segundos até me recompor. Paro em frente ao espelho me apoiando na pia quase me surrando por estar nesse estado.
Parabéns Sabrina. Parabéns por ter perdido a cabeça no trabalho e agora todos sabem que além de corna você chora por um homem que não vale nada.
Limpei uma lágrima com força, com raiva de mim mesma por ter feito algo tão infantil. Só que não aguento mais ter que vê-lo todo dia, ter que falar com ele e fingir que nunca tivemos nada.
Seria o fim se a advogada também trabalhasse aqui no mesmo andar que nós dois.
Graças à Deus ela fica mais em outros andares do prédio, não quero ser obrigada a ter muito contato.
Entro em uma das cabines do banheiro quando ouço passos e tranco a porta. Não quero ver, nem falar com ninguém. Sento em cima da tampa da privada abraçando minhas pernas. Odeio ele. Odeio ter me apaixonado por ele. Odeio ter chorado por ele.