Capítulo 2

Jack começou a frequentar lugares que nunca imaginou existir.

Todos sempre acreditaram que os mais ricos tinham espécie de esconderijos secretos, mas eram mais boatos do que fatos. As notícias sempre acabavam perdendo o crédito quando surgiam teorias fantásticas de alienígenas, vampiros, lobisomens, zumbis. Começava com alguma lógica mas acabavam descambando para uma ficção científica que anulava qualquer credibilidade das informações.

Depois que as empresas assumiram a organização e dinâmica das cidades, elas foram mudando completamente, de forma gradativa.

As configurações oficiais se mantinham a mesma, apesar de o conceito de capital não ser mais utilizado. Porém, percebeu-se que alguns locais passaram a ser mais exclusivos. As viagens aéreas passaram a ser mais restritas e necessitavam de autorização das empresas. O preço das passagens era outro fator que dificultava o acesso de qualquer um para qualquer lugar. O fato de algumas pessoas serem indenizadas para desocuparem propriedades e se aproximarem de familiares, conceito que era tido como uma desculpa publicitária, era outro motivo para a diminuição de viagens.

Lincoln no Nebraska e sua região extendida passaram a ser um dos locais no mundo mais fechados e cercados de mistérios, no mundo. Diversos "pedágios" e escalas eram necessários para se chegar até o local. Ainda assim, mesmo com muito dinheiro, não era qualquer um que podia chegar lá.

Especulava-se que os mais ricos tivessem criado suas residências na cidade, mas nada era comprovado. Toda informação era filtrada, já que os últimos veículos de comunicação que existiam eram de posse das únicas grandes empresas, que tinham objetivos convergentes e proximidade nas decisões coletivas. Qualquer informação que eles não quisessem nunca seria divulgada.

O primeiro objetivo de Jack foi justamente ir para Lincoln.

- Você é completamente maluco mesmo! - disse Stewart.

- Claro que sou, coloquei todo meu dinheiro numa aposta maluca bêbado! - Jack respondeu rindo.

- Eu nunca imaginei que você faria aquilo. - Seu amigo olhava para o horizonte, como se buscasse explicação para aquila decisão tão louca.

- E agora você vai comigo! - Jack falou como quem estivesse convocando-o.

- E eu vou também! - Carol entrou na sala da casa de Jack.

- O que você está fazendo aqui, Carol? - Stewart se surpreendeu mais com a chegada dela do que com o convite do amigo.

- Hora, Jack me pediu em casamento! - Carol respondeu e Stew quase infartou.

- Como é?

- É, ele me convidou para ir com vocês dois para o Nebraska e pra mim foi quase como um pedido de casamento - ela respondeu rindo.

- Eu sabia o quanto ela sempre foi antenada nesses mistérios sociais, imaginei que ia ser nossa companhia perfeita. Sem contar que ela já foi do exército. É melhor em artes marciais e auto-defesa que nós dois é uma excelente companhia. Pra dizer a verdade, se tivesse interesse pelo sexo masculino, era até possível que eu a pedisse mesmo em casamento - Jack elogiou tanto que Carol ficou levemente envaidecida.

- Vocês não durariam 5 minutos sem mim, nessa empreitada - ela fez a piada para quebrar a vergonha que sentiu e os três riram.

- E como você pretende chegar lá? - Stewart perguntou. - Não parece que seja uma missão simples mesmo para alguém com a quantia que você ganhou.

- Nós vamos para Nebraska com o objetivo de ir para outro lugar - Jack revelou com certo mistério.

- Para onde? - os perguntaram juntos.

- Para Marte! - Jack respondeu.

- Como é?

- Stew, é bem simples, eles estão alucinados para sair desse planeta. Nós sabemos que estamos com os dias contados e tenho certeza que estão todos lá dentro daquele condado, reclusos, esperando a hora certa.

- Mas não seria mais lógico irmos atrás dos foguetes em Miami, Flórida ou na Califórnia? - Carol perguntou.

- Seríamos expulsos de lá, logicamente. Você já viu algum subordinado autorizar alguma coisa? E o caminho é chegar nos poderosos primeiro. Tenho certeza que esperam ansiosos pessoas com dinheiro dispostas a serem cobaias, como Robert.

- E o que te diz que estou disposto a ser cobaia? - Stewart perguntou.

- Uma vez lá dentro, a gente pode fazer o que quiser. Sou muito mais nossa malandragem e jogo de cintura. - Jack parecia confiante.

- Nenhum de nós tem família, Stew. O que temos a ganhar ficando nesse planeta que está se acabando? Até os poderosos estão prontos para ir. Na verdade, não sei ainda por que não foram - Carol ficou refletindo.

- Ouvi uma teoria que dizia que os homens de Marte estavam impedindo a chegada - Stew brincou.

- A teoria que ouvi é bem mais interessante e palpável, meu amigo: nós precisaríamos nos tornar esses homens de Marte - Jack contou.

- Não entendi! - exclamou Carol.

- O homem da Terra não pode viver em Marte. Os tricientistas (como eram chamados os cientistas que prestavam serviços aos trilionários) buscavam formas de realizar a Terra-formação. Transformar Marte até que ela tivesse condições de abrigar o ser-humano. Mas tiveram que mudar seus objetivos quando a Terra passou a ter data de validade curta. Não haveria tempo, de forma alguma, mesmo acelerando o processo ao máximo, nem se fosse criada uma pequena estrutura temporária, para poucos. A vida não teria continuidade, em nenhum cenário.

Um outro grupo de cientistas, que também trabalhava em conjunto com essa elite, na área de medicina, trouxeram uma outra proposta de solução. Eles vão transformar o corpo dos humanos, adequá-los para Marte. - A teoria, apesar de fazer algum sentido, ainda parecia insanidade para Stewart e Carol.

- Então é isso que você acha que está acontecendo lá? - Perguntou Stew.

- Se eu pudesse apostar tudo que eu tenho, eu apostaria. Aliás, é o que vou fazer - ele respondeu.

- Bom, quando você apostou sem pensar deu sorte, não vejo porque haveria de dar errado agora - refletiu Carol.

- E eu te chamando de covarde - Stewart disse, inconformado.

- Talvez agora você me conheça melhor! - Jack sabia que não era essa pessoa, que o amigo tinha razão sobre ele. Mas diante de todo o contexto que se apresentava diante dele, ousar parecia nem ser um ato de tanta coragem mais. Ainda mais com o dinheiro que Jack havia ganhado.

- Só me resta fazer as malas, então! - decidiu Stewart.

- Já trouxe as minhas, estão do lado da porta. - Carol, que já estava deitada no sofá, virou de costas, como se fosse dormir.

- Faça isso e durma agora a noite, Stew! Quando você voltar, pela manhã, partiremos.

- Traga café e uns pães bem gostosos, daqueles recheados! Você não vai mais precisar do seu dinheiro mesmo, pode gastar pouco dele - Carol brincou.

- Uma verdadeira princesa, não é mesmo? - Agora foi a vez de Stewart brincar com o jeito dela.

- Princesas arrebentam a cara de idiotas, também! - provocou Carol sem sequer se virar.

- Não tinha ninguém melhor mesmo para você convidar para essa viagem? - Stew continuou a provocação, perguntando para Jack.

- É que você acabou vindo na minha cabeça,as se quiser chamo outra pessoa no seu lugar. - Jack riu da cara que Stew fez e deu um tchauzinho, enquanto ele saia contrariado.

- Eu também não consigo imaginar o motivo de você ter me chamado primeiro. - A própria Carol quem perguntou, murmurando como se já estivesse meio que dormindo.

- Eu precisava de alguém que eu soubesse que diria sim. Não consegui pensar em outra pessoa que não fosse você. Bom, nos conhecemos a tanto tempo, não é? - Ele explicou.

- Já até nos apaixonamos pela mesma pessoa. - Carol lembrou.

- A vida era tão mais simples - Jack foi preenchido por um saudosismo incomum para ele.

- Não, não era não, nunca foi simples. Nós, enquanto sociedade, nunca lutamos juntos para que nossas vidas fossem simples. Agora me deixa dormir - Carol finalizou a conversa ali com um pensamento que deixou Jack pensativo pelo resto da noite.

Capítulo 3

- Não é possível que você não tenha conseguido arrumar um carro melhor. Nós vamos nisso? - O espanto de Stewart era justificável. O carro de Jack era do início do século, estava batido em vários pontos e era uma surpresa ainda andar.

- Ninguém está vendendo carros, Stew. Eu fiz ofertas que achei que eram loucura em carros pouca coisa mais novos que o meu. Todo mundo que ainda tem carro tem medo de precisar fugir num momento de catástrofe. Você sabe que há muitos anos não se produz mas carros e, agora, nem lojas de usados se encontra mais. Talvez mais perto do centro do país, ultrapassando as barreiras, consigamos comprar outro. - Jack explicou-se.

- Eu espero não pegar tétano nessa ferrugem toda - Carol ironizou.

- Parem de reclamar! Meu carro está super conservado e é um guerreiro. Só faz tempo que não ando com ele. É vocês nem podem imaginam o quão difícil foi achar gasolina. Mas ele ligou e funcionou muito bem. Ainda bem que eu tinha tirado a bateria e deixado segura. Esses tutoriais de preservação de antiguidade sempre valem a pena - Jack falou orgulhoso.

- Um carro movido à gasolina. Não vai nos explodir não, né? - Carol continuou com o que pareciam comentários irônicos.

- Vocês não sabem de nada. Antigamente é que se faziam carros bons, seguros e resistentes. Esses carros mais novos eram todos descartáveis. Por isso que quase não se vê por aí, as safras intermediarias, de 15 anos atrás, dos carros elétricos e voadores. Viraram tudo sucata. - Jack ainda estava no clima saudosista.

- Isso é um mito. Esses carros foram destruídos para que ainda houvesse compra das últimas produções, antes do fim da indústria de automóveis - Stewart contrariou Jack.

- Em todo caso, é o Big Phil que vai nos levar.

- Minha nossa, ele deu um nome para o carro. Não vai se desfazer dele de jeito nenhum. Você sabe que não vamos conseguir entrar em Nebraska nessa lata velha, não sabe? - Carol ficou temerosa.

- Eu sei, Carol, eu sei! Não precisa falar assim - Jack ficou todo sentimental.

- Vamos logo, vai. Stewart, você vai atrás! Eu que não vou ficar com um monte de mala em uma de mim, só porque o porta-malas do "Big Phil" é minúsculo - Carol já deu às ordens.

- Mas quem trouxe mais malas foi você! E seria mais indicado um ônibus, assim.

- Pessoal, eu tenho muito dinheiro, vamos ter que comprar roupas novas! Porque tanta mala? Estou levando apenas uma mochila - Jack ficou chocado ao ver aquelas malas todas.

- Duas daquelas malas são de armas e acessórios de sobrevivência. Não podemos sai por aí desprotegidos. Ou você acha que só no seu discurso de malandragem, a gente vai conseguir alguma coisa? - Carol se justificou.

- Ok, mas você tem outras três malas. - Stewart endossou.

- Olha, por que ao invés de reclamar, você não arruma direito aí, se organizar, cabe tudo e você ainda fica confortável - ela falou brava.

Tudo pronto, partiram.

- Vocês chegaram a andar nos carros voadores, quando eles ainda existiam por aqui? - Stewart fez a primeira pergunta da viagem. Ambos responderam com negativa.

O silêncio se seguiu por um tempo, até que Jack resolveu colocar música.

- O que é isso? - Carol perguntou.

- Um clássico. Meu avô adorava. É música de viagem para mim. É uma banda britânica era um tipo de rock alternativo. Sim eles chamavam isso de rock. Mas eu acho a melodia tão prazerosa. Você acredita que eles começaram a tocar em 1996? - Jack explicou e os dois ficaram surpresos.

- Não acredito que você está ouvindo algo do século passado - Carol exclamou como se fosse um crime.

- As mais famosas que eu coloquei são do início do século. Já tinham até vídeo, olha ali. Jack jogou a imagem holográfica para o lado do parabrisa do passageiro.

- Que conceito estranho, ele ta fazendo uma cena ao contrário? - Stewart perguntou.

-Isso é arte pura! - Jack estava em êxtase.

- Mentira, a companheira dele morreu? Estavam sem sinto? Ele tava vagando esse tempo todo, em choque? - Carol estava aos prantos. - Música não pode ser algo assim não. Minha nossa!

- Cara, estou numa confusão de sentimentos e já começou outra música, nos vamos assim nessas horas de viagem? - Stewart perguntou.

- Será uma das experiências mais incríveis da vida de vocês. - Jack estava radiante.

Era incrível como o movimento de carros era baixo. O que ainda existia de transporte era coletivo, mas muito raro e o uso de bicicletas era enorme. Ainda assim, tendo em vista o tamanho da população, o fluxo não era alto.

A maioria das pessoas trabalhava de casa e permanecia fixada em seus bairros, saiam para perímetros curtos e por poucos momentos do dia. Quase sempre, apenas pela recomendação publicitária do banho de Sol.

- Viajar realmente é uma experiência incomparável. Ver as coisas passarem rapidamente pela janela, a sensação de mudança de um local para outro, de clima, de visual, é muito interessante. - Stewart nunca tinha saído da cidade onde nasceu.

- Realmente, Stew, é algo único - Jack concordou. - E eu faço tudo ficar mais especial, né?

Continuavam se surpreendendo com músicas e clipes, fazendo análises, até que chegaram na primeira barreira.

- Boa tarde! - O policial cumprimentou o grupo, de fora do carro. - Vamos fazer um reconhecimento do carro, certo?

Instantaneamente, uma luz atravessou todo o veículo e uma imagem apareceu para uma tela que o oficial carregava.

- Vocês estão armados? Ah, sim, eram também da força de segurança! Apareceu aqui. Mas consta que não estão mais a serviço do Big M. Qual o motivo da passagem? - Ele inquiriu.

- Desculpe, oficial. Vou ter que pedir que confira o seu sistema de autorização ultra-secreta - Jack falou deixando todos, inclusive Stewart e Carol espantados.

O homem chamou um outro policial que parecia ser mais graduado na hierarquia, pela roupa, que eram diferentes das quais eles estavam habituados. Ele fez o que com certeza seria um reconhecimento ótico para acessar dados seguros e verificaram a autorização.

- Sinto muito pelo atraso, Sr. Jack! Espero que tenha sucesso em sua missão - Ele se despediu do sorridente motorista que passou lentamente em seu maravilhoso carro barulhento.

- O que você fez? - perguntou Carol muito curiosa.

- Eu tinha amigos no setor de tecnologia da empresa. Pedi que incluíssem os dados de missão secreta. Conseguiremos passar das duas primeiras barricadas dessa forma. Fiz apenas uma pequena contribuição para o fundo deles - Jack explicou.

- E se eles descobrirem? - Stewart, o mais preocupado deles, perguntou.

- Se algo der errado, eles me avisarão. Mas eles são muito bons no que fazem - Jack tranquilizou-os.

- E as outras 3 barricadas? - Carol quis saber.

- Já tenho planos para duas e a última, ainda está em construção - Jack pareceu menos confiante nessa fala.

- Em construção parece muito com: Não faço a mínima ideia - foi a constatação de Carol.

Passaram sem maiores sustos pela segunda parada, apesar de uma leve estranheza extra, dessa vez, em relação ao carro de Jack.

A continuidade dependeria agora da troca do carro e, em pouco tempo, a solução, nessa nova localidade, já se apresentou diante deles.

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