Capítulo 2

ANDREW

A ideia de um Príncipe Perdido domina meu pensamento, essa é a oportunidade perfeita de livrar-me da obrigação de ser Rei. Estou cansado de viver minha vida em função de algo que não me pertence, meu pai jamais aceitaria o herdeiro de meu tio no poder, então preciso fazer algo, já que nunca concordei com as atitudes dele, e também não pude fazer nada contra o seu modo violento de governar. Portanto, encontrar meu primo, antes de meu pai, talvez seja a grande chance de mostrar para mim que sou capaz de fazer algo pelo reino de Ascabaltt.

Eu fiquei tão perdido em pensamentos, deitado em minha cama e não percebo o tempo passar. Olho para a janela, e percebo que o sol se põe. Sou tirado de meu transe quando escuto alguém bater em minha porta. Levanto-me, caminho vagarosamente, perdido em uma sensação estranha. Abro a porta e um criado me informa algo.

— Alteza, venho em nome do Rei trazer-lhe um recado...

— Diga!

— O Rei Alexander, seu pai, pediu que Vossa Alteza desça para o baile em homenagem à senhorita Artanis!

— Muito obrigado, pelo recado. Diga ao meu pai que logo descerei.

Assim que o rapaz se vai, tranco a porta, sento em minha cama, e as ideias retornaram à minha mente. A história do Príncipe Perdido me consome, e esse pode ser o momento propício para mudar os rumos de meu destino e do reino.

[...]

As ruas de Epassi estão vazias. Caminhar depois de uma fuga mal planejada parece arriscado, mas faltam opções, e o medo de ser reconhecido me deixam em alerta constante. Caminho entre algumas pessoas na rua, puxo ainda mais o meu capuz da minha túnica. Há poucas pessoas pelo local, pouco movimento por causa do baile que meu pai promove, avisto alguns soldados que se dirigem a ponte de acesso a Venas, sou obrigado a recuar, e me esconder atrás de alguns barris. Estou sem muita opção, mas evitar a ponte e seguir por outro caminho é necessário.

A escuridão toma conta das ruas, poucas tochas iluminam a área. Caminho apressadamente por ruas paralelas a que estou, e avisto muitas tochas, e casas espalhadas adiante, é um povoado. Não é possível perceber muita coisa, mas noto as enormes janelas de madeira, e percebo que estou em Bartari. Olho de um lado a outro, e paro diante de algumas casas, sento no batente de uma delas para descansar, mas percebo que os soldados se aproximam, levanto e apresso meus passos sem que eles percebam minha presença.

Estou a horas caminhando, exausto, mas não posso parar. Sigo meu caminho até uma pequena plantação que dá acesso ao bosque. Continuo caminhando até avistar com dificuldade uma vila, pela organização das ruas e imponência das casas de pedra, acredito ter chegado em Baleak, é neste lugar que fica a ponte de acesso a Volcann, território onde supostamente pode estar o mago Killian, mas um barulho me chama atenção, cavalos se aproximam, não tenho escolha, seguir pela ponte parece arriscado neste momento, e rapidamente sigo para o lado oposto, um caminho por dentro do bosque, algo que não conheço.

O dia começa a amanhecer, e eu continuo andando, numa direção que desconheço. Estou perdido. Árvores, e mais árvores... Caminho um pouco mais, até avistar um grande conjunto de montanhas, que parecem uma grande fortaleza de pedra, deduzo que estou na Floresta Petrificada. Um lugar muito misterioso, que possui pequenas cavernas, aproximo-me das grandes rochas, e encontro uma delas para descansar. Acordo com a luz do sol batendo em meu rosto, pela intensidade dos raios, já passam do meio dia. Abro pausadamente meus olhos, me sento, observo a pequena caverna. Eu ainda estou muito cansado, mas preciso continuar minha missão. Como rapidamente algumas maçãs, e enquanto sacio minha fome lembro-me das palavras de meu pai, elas ecoam por minha mente: “Eu farei o possível e o impossível para impedir, e nenhum herdeiro de Moriam subirá ao trono que pertence ao meu filho”.

Eu sigo meu caminho rumo a Volcann. Durante minha caminhada me deparo com a parte mais alta das montanhas, que possui uma extensão gigantesca em todo o seu contorno que lembrava um enorme muralha de pedra, pequenas vegetações como gramíneas cobrem uma parte desta área. Esse lugar é de uma beleza ímpar, impressiona, e por trás de toda aquela grande montanha, dizem haver um longo bosque de pinheiros, mas esta é uma área que poucas pessoas conseguiram se aventurar.

A grande muralha verde é admirável, observo ao meu redor e deparo-me com um rio, corro em sua direção, tiro minhas roupas e mergulho. A água toca minha pele, e uma sensação de frescor toma conta de mim, levo minha mão por meus longos cabelos para tirar o excesso de água. Enquanto me banho, ouço um barulho que me deixa em alerta, saio da água e olho de um lado para o outro, mas não avisto ninguém, mesmo assim acho melhor vestir minhas roupas para ir embora, e antes que consiga fazer qualquer coisa, sinto uma dor forte na minha cabeça, e tudo escurecendo ao meu redor.

ALLYSSA

Estou cansada. Uma sessão de treinamentos exaustivos. Ás vezes sinto que meus companheiros de treino querem me testar ao máximo por ser uma mulher. Entretanto, mesmo cansada, sinto-me tão orgulhosa de meus avanços, e de minha nova espada, algo nela me traz uma vaga sensação de conforto, de pertencimento, na verdade o sentimento em relação a ela era o mesmo que sentimos quando voltamos para casa depois de um longo período longe. Esse é o meu sentimento desde que a toquei pela primeira vez quando a encontrei enterrada atrás de minha antiga casa. Nosso treino é interrompido por um dos soldados que acompanham Duric, o homem tem uma expressão seria em sua face, não parece trazer boas notícias. Ele se aproxima, e profere em voz alta.

— Prenderam um homem na entrada do nosso território, Duric vai precisar da contribuição de todos vocês!

Balanço a cabeça em sinal positivo, e caminho em direção a cabana que usávamos como prisão. Passo por uma grande extensão de grama, até chegar ao bosque, a vila ficava próxima a ele. Ao chegar diante da cabana, entro juntamente com alguns companheiros de treino, me deparo com alguns soldados e Duric, eles analisam um rapaz desacordado. Olho para Duric, e em seguida para o prisioneiro, enquanto meu líder e os outros debatem o que seria do prisioneiro, volto minha atenção para o rapaz. Tem um longo cabelo loiro, barba, seu rosto é delicado, o nariz com traços finos, a boca carnuda, ele está com o torso nu, e sua calça é igual a que os camponeses usam, bem justa ao corpo. Ele não parece ser alguém desta região, suas feições são diferentes dos homens que habitam nosso território, ou os povoados e vilas vizinhas. Algo chama minha atenção. Ele usa um anel. Lembra a joia usada pelos nobres de Ascabaltt, que traz um símbolo de cada família que governa uma Cidade-Estado. Duric possuí um. Eu me aproximo e agacho diante dele, toco o anel, aparenta ser de ouro, possui uma pedra redonda e avermelhada em cima e duas espadas cruzadas, levanto-me, viro bruscamente na direção de Duric e dos soldados que já haviam decidido o destino do rapaz.

— Se ele acordar, façam-o falar o que estava fazendo por aqui! — Duric diz com autoridade.

— Sim Senhor, mas vamos mantê-lo prisioneiro por quanto tempo? — Pergunta um dos soldados.

— Se ele falar alguma coisa ou não, amanhã o executem!

— Mas Senhor, como assim executá-lo? — pergunto de forma assustada, meu coração dispara, sou tomada por uma sensação estranha.

— Ele provavelmente é um espião a serviço do Rei, alguém poderá vir atrás dele, e se o mago de Alexander detectar sua presença...

— Mas a magia de Direl não é párea para a magia, que Killian lançou em nosso território!

— Allyssa, este homem deve ser executado. Não podemos correr riscos!

— Mas, ele deve ser alguém da nobreza. Olhe o anel dele! — Duric se aproximou do rapaz e olhou para o anel que o rapaz trazia consigo.

— É, parece ser da nobreza...

— Então, se ele for um nobre, podemos usá-lo como garantia de aliança com a Cidade-Estado que ele representa! — falo esperançosa.

— Não sei Allyssa, isso parece muito arriscado!

— Senhor, se ele for nobre será uma grande oportunidade que perderemos... Pense bem, não faça nada ainda, interrogue-o, e depois decida o que fazer com ele! — digo na tentativa de persuadi-lo.

Duric me encara com seus grandes olhos da cor da escuridão, seu olhar parece inquisitivo. Acredito que assim como eu, ele também se pergunta o porquê da insistência em permanecer resguardando a vida de alguém da nobreza. Foram segundos que pareciam uma eternidade, até ele proferir algo.

— Pensando bem, você pode ter razão Allyssa! Podemos usá-lo como isca, ou moeda de troca, mas para isso precisamos descobrir de onde exatamente ele é. Eu quero dois soldados vigiando este homem, e eu quero que você o interrogue, Allyssa!

— Eu? Tem tantas pessoas melhores que eu para isto, Senhor!

— Eu quero que você faça isto. Será um grande aprendizado para você, e se precisar de ajuda, pode me chamar, ou qualquer um dos rapazes... — assim que diz isto, Duric e a maioria dos soldados se retiraram, ficando na cabana apenas eu e mais dois homens que ficariam encarregados da segurança do local.

O prisioneiro está ferido, tem um ferimento na cabeça, pedi a um dos soldados que procurasse Melli, a curandeira do Território para que trouxesse alguns panos e unguentos para tratar a ferida do prisioneiro, além de água e comida. O homem se retirou e eu fiquei sozinha com o rapaz desacordado, aproximo-me, agacho e toco sua cabeça, mas exatamente em sua nuca, sinto que está molhado, é sangue.

Limpo minha mão, e observo cada detalhe de seu rosto, e sinto uma necessidade desenfreada de tocá-lo. É mais forte que eu... Meus dedos acariciam sua barba e continuam a passear pela sua boca. Sinto algo estranho, estou desconfortável, minha mão desliza por seu cabelo que está emaranhado, acaricio levemente seu cabelo, alguns fios entrelaçam-se entre meus dedos.

Seus olhos mexem rapidamente, e retiro minha mão e me afasto um pouco, ele se mexe, abre os olhos vagarosamente, e em sua face vejo a expressão de dor, tenta levar a mão em sua nuca, mas algo o impede de levantar, olha na direção de seu braço, e percebe que está acorrentado, e sua expressão muda ainda mais, parece assustado, tenta se levantar, mas seus pés estão amarrados. Ele vira a sua cabeça em minha direção, e nossos olhares se encontram.

— Onde eu estou? Por que estou preso? — pergunta assustado.

— Acalme-se, você sabe muito bem onde está! Está preso porque sabemos que é um espião a mando do Rei Alexander! — digo com veemência.

— O que? Eu não sou espião do Rei, e definitivamente não sei onde estou ou porque me acorrentaram!

— Se não é espião do Rei, o que faz por aqui? Quem é você? Vi que tem um anel da nobreza, de onde você vem?

— Isso não é da sua conta!

— Acho melhor você responder com educação à minha pergunta!

— Por quê? Vai me matar? Acho que não, afinal você quer saber sobre o anel, não é mesmo? — pergunta em tom de deboche, saco a espada que estava ao meu lado, e aponta para o seu pescoço. — O que é isso? Vamos com calma!

— Responda a minha pergunta com educação!

— Eu sou um nobre, sim! Ganhei esse anel de meu pai quando fiz 20 anos... venho de Spaldi, me chamo Paolo e sou filho de Guilhermo, governador da Cidade-Estado de Spaldi! Pronto respondi suas perguntas? — sua última fala é extremamente irônica.

— Você é filho de Guilhermo Rivvera? Ah, você é aquele irresponsável que anda causando problemas pelas ruas de Epassi junto com o Príncipe? — pergunto no mesmo tom que, ele não responde, e me olha com muita raiva.

— Quem é você?

— Não importa, você não me respondeu o que fazia na Floresta Petrificada!

— Eu não sou obrigado a te responder...

— Eu vou te esclarecer algo, meu caro nobre! Eu comando os interrogatórios, e...

— Uma mulher comandando interrogatórios? Você é Alfa? — pergunta de forma debochada.

— Eu não vejo problema em ser mulher e comandar um interrogatório, e se sou Alfa, Ômega ou Beta, não importa! Mas, se você está incomodado, posso chamar alguns soldados para me ajudarem...

Eu o encaro, tiro um punhal do cós de minha calça, toco em sua ponta, e caminho até a porta, mas sou parada pela voz do rapaz.

— Tudo bem! — fala, e viro em sua direção. — Eu vim de Epassi à procura de um lugar para me esconder, pois os soldados do Rei estavam me perseguindo, pois ajudei o Príncipe a fugir, fomos descobertos e cada um encaminhou-se para um lado diferente do bosque, eu estava à procura do Príncipe...

— E por que vocês estavam fugindo?

— Porque você quer saber? Isso não é da sua conta! — me responde com raiva.

— Dá para você me responder por bem, ou por mal? — pergunto, levo o punhal até seu rosto, e contorno toda sua barba, nossos olhares se encontram, e uma sensação estranha toma conta de mim.

— Quem é você? — pergunta sem tirar seu olhar sob mim.

— Já disse que não importa, me diga porque você e o príncipe estavam fugindo!

Ele me olha de um modo estranho, e sinto um cheiro que parece emanar dele, isso é algo que jamais aconteceu na minha vida, nunca senti odor de ninguém, nem do meu irmão. O medo me invade, meu coração bate tão forte, e pela primeira vez não sei o que fazer, e as palavras do meu irmão vem à minha mente...

“Eu tenho certeza que no dia que você conhecê-lo vai entrar no cio, e agir feito uma tola apaixonada”

Afasto-me bruscamente dele, levanto-me e caminho em direção a porta, e antes que eu toque a maçaneta, ele se manifesta.

— Ajudei Andrew a fugir porque ele não queria casar com uma moça por conveniência! — fala, me viro, e o observo atentamente.

Seu olhar é intenso enquanto fala. Sinto que sou analisada, e sinceramente isso não me agrada, sinto-me profundamente incomodada, o encaro com seriedade, e quando estou pronta para perguntar-lhe sobre sua atitude, sou interrompida pelo soldado que traz consigo o que eu pedira.

Capítulo 3

ALLYSSA

A proximidade é tamanha, e eu me sinto desconfortável, ele me olha intensamente. Eu não sei como agir, normalmente eu o colocaria em seu lugar, não gosto que homens tomem a liberdade comigo, ou que olhem intensamente para mim. O olhar de Paolo intercala entre meus olhos e minha boca, e isso me deixa com raiva.

— Por que você está me olhando desse jeito?

— Não posso olhar para você?

— Não é isso, eu só não gosto quando me olhem assim. — digo em tom de raiva.

— Assim como?

— Assim do modo que você está me olhando!

— Do jeito que a senhorita também está me olhando?

— Eu não é... Olho, quer dizer, não estou olhando para você desse mesmo jeito que você me olha! Eu preciso limpar seu ferimento...

O que está acontecendo comigo? Por que me sinto tão vulnerável? Eu não sou assim. Sinto-me confusa com o jeito que este homem me olha, ele não fala absolutamente nada, e apenas vira um pouco a cabeça para que eu faça a limpeza de seus ferimentos.

Levo minha mão até seus cabelos afastando os fios que estão próximos do corte que foi ocasionado pela pancada que recebera de um dos soldados de nosso território. Procuro limpar seu ferimento delicadamente, e ao mesmo tempo com atenção, mas algo me incomoda, e é essa delicadeza, nunca agi assim. Cada toque de meus dedos em seus cabelos, e na pele machucada me trás uma sensação estranha, é assustador, seu cheiro continua forte. Levo minha mão até meu nariz na tentativa de não sentir seu cheiro, mas não consigo, e me afasto bruscamente. O prisioneiro me encara confuso.

— Já terminou? Você limpou direito?

— Já terminei e não se preocupe, está tudo bem com seu ferimento! É... Você está com fome?

— É bem irônico, quase me matam com uma pancada certeira na cabeça, e depois me oferecem comida, quanta gentileza! — responde com sarcasmo.

— Estou tentando ser gentil com o senhor, mas vejo que não adianta muito. O senhor parece não saber o que é isso, porque os nobres nunca tratam ninguém com gentileza, acabam desconhecendo o que é ser gentil!

— Ah, você está sendo gentil? — pergunta ironicamente mais uma vez.

— Estou, mas se acha que não... Ah, quer saber de uma coisa, se estiver com fome, vai continuar, porque da minha parte eu não vou te dar comida, morra de fome!

— Quem você pensa que é garota, para falar comigo desse jeito? Eu exijo falar com o líder deste lugar, porque provavelmente, não é você!

— Quer saber? Foda-se! — respondo, me afasto rapidamente, abro a porta e saio sem olhar para trás, os soldados me perguntam algo, e não respondo nada porque não consigo.

O homem é extremamente irritante e arrogante ao mesmo tempo. Não perderei meu precioso tempo com alguém como ele. Caminho rapidamente em direção à minha casa.

[...]

— Irmã, eu soube que você esteve interrogando o prisioneiro, conseguiu alguma informação sobre ele?

— Se ele estiver falando a verdade, será um grande trunfo para nós, pois ele é filho de Guilhermo de Spaldi, e poderemos usá-lo como moeda de troca!

— Allyssa, o que houve? Você parece um pouco irritada, foi algo com o prisioneiro?

— Eu me irritei um pouco com ele, pois tentei ajudá-lo, e ele se mostrou muito arrogante comigo, ou melhor, um verdadeiro idiota! Eu até o tratei educadamente, fui gentil tentando limpar seus ferimentos, mas ele... Arghh! — respondo de forma irritada para meu irmão sem concluir o que digo.

— Você... O quê? Limpou os ferimentos de um prisioneiro? Desde quando você é gentil com um homem, e principalmente um prisioneiro?

— Ele estava machucado, com um ferimento na cabeça que sangrava. O que você queria que eu fizesse?

— Não é o que eu queria que você fizesse, mas o motivo de tanta preocupação com um prisioneiro, soube que você pediu a Duric que poupasse sua vida.

— Como eu te disse, ele pode servir como moeda de troca! — digo e me sento à mesa, Balck se senta ao meu lado.

— Eu te conheço, você nunca se importou com prisioneiros, sempre apoiou Duric quando os sentenciava à morte, o que está acontecendo?

— Não está acontecendo nada, Balck! — respondo irritada, olho para meu irmão, que me encara como se estivesse me investigando. — Eu já disse, não está acontecendo nada!

— Tudo bem, se você diz...

[...]

Já era noite quando voltei à cabana do prisioneiro, ele parece estar dormindo, e eu fui designada há algumas horas para ficar de guarda dentro da cabana. Particularmente não gostei muito da ideia, mas infelizmente não posso negar um pedido de Duric. Sentada ao chão, consumida pelo tédio e observando a luz refletida pela tocha na parede da cabana, viro meu rosto rapidamente ao ouvir algo.

— Não, não... Eu preciso encontrá-lo! — Não é possível que além de arrogante, impertinente, ele ainda fala enquanto dorme?

É inevitável, volto minha atenção para ele, e percebo que se encolhe um pouco, parece sentir frio. Levanto-me e pego um dos cobertores que está ao meu lado, aproximo-me e cubro o nobre arrogante. Olho para ele, não sei o que está acontecendo comigo, o que há de tão especial neste homem, em que em tão pouco tempo chama minha atenção? Eu me afasto, e balanço minha cabeça em sinal negativo à minha ação.

Não me reconheço, nunca me importei com prisioneiros. Volto para meu lugar, pego o outro cobertor espalho pelo chão, e deito-me. Pensamentos povoam a minha mente, e desagrada-me. Penso no contato com o prisioneiro, tento afastar da minha cabeça balançando-a, e lembro-me da conversa que tive, e consequentemente do que descobri sobre ele. Preciso contar ao meu líder que não o sentencie à morte, seria um verdadeiro desperdício matar alguém com tamanho valor para os nossos planos.

O sol já clareava o território rebelde quando eu finalmente abro meus olhos, sento-me exausta, não consegui dormir muito bem, passei parte da madrugada acordada à espera de mais um soldado para reforçar a segurança durante a troca de turno. Abro meus olhos definitivamente, e percebo o olhar daquele insolente sobre mim, e isso me incomoda, não gosto que me olhem, e muito menos que o façam do modo que este estorvo o faz.

— Por que está me olhando? — levanto-me rapidamente e pergunto irritada.

— Ah, esqueci que é proibido olhar para a moça sem nome. O que há de mal nisso? Vai me matar porque estou te olhando? — responde ironicamente, deixando-me ainda mais irritada.

— Acho que você ainda não entendeu que é um prisioneiro, me deve obediência e respeito, não deve ficar me olhando assim. Só não faço alguma coisa a você porque... — não consigo concluir minha frase.

— Já sei, porque precisa de mim para os planos da resistência rebelde! Eu ouvi você falando com seu amigo ontem.

— Ah, quer dizer que você escuta as conversas alheias?

— A conversa em questão me envolvia, então tinha que saber do que se tratava!

No instante em que discutíamos um dos soldados, Yan, entra na cabana trazendo comida.

— Allyssa, o nosso líder está à sua espera, e quer vê-la urgentemente.

— Eu o procurarei em breve! — informo.

— Algum problema com o prisioneiro? Escutei o que parecia... Uma pequena discussão, está tudo bem?

— Não se preocupe, Yan... Está tudo bem! Nosso prisioneiro é um pouco rebelde...

Eu procuro encurtar a conversa o mais rápido possível, e assim que ele se retira, eu volto as minhas atenções para a comida. Mas, o prisioneiro é realmente insistente, e parece querer me irritar.

— Ele parece interessado em você!

— O quê?

— O soldado, o jeito que ele te olhava, o tom de preocupação na voz...

— É uma piada?

— Não, e por que seria uma piada?

— Porque Yan é apenas alguém com quem eu treino todo dia, e...

— É um amigo?

— Não exatamente, ele tem amizade com meu irmão, eu não converso muito com ele, e... Mas, o que é isso?

— O quê? — pergunta em tom de ironia.

— Você está querendo saber da minha vida? Escute bem, você é o prisioneiro aqui... Quer saber? Eu não vou perder meu tempo discutindo com você

— Tudo bem, Allyssa! Eu já entendi...

— O quê? Descobriu o meu nome?

— O seu amigo te chamou pelo nome... — o encaro, e uma vontade de esfregar o rosto dele na parede surgi dentro de mim.

Saio batendo a porta e chamando a atenção de Yan que estava de guarda ao lado da porta. O rapaz com seus grandes olhos verdes me encara assustado.

— Algum problema, Allyssa?

— Não Yan. Não há problema algum!

Yan continua me encarando sem entender o que há, embora eu também não saiba o motivo da minha raiva. Faço recomendações a ele, para que sirva comida ao prisioneiro, e me retiro daquele ambiente rapidamente. Sigo caminhando pelo povoado, e minha mente está me traindo, pois o rosto daquele irritante aparece em meus pensamentos, e me pergunto o que está acontecendo comigo, sinto-me vulnerável. Eu não sei porque abri minha boca para conversar com ele, contar sobre Yan e a sua amizade com meu irmão... Sinto raiva de mim, não sei porque estou perdendo meu tempo para dialogar com alguém como ele! Maldito Paolo!

Caminho entre as árvores, passo por algumas plantações, subo um terreno inclinado, e paro, olho para aquela vasta extensão verde, mas meu pensamento ainda está inundado pelo prisioneiro. Por que estou pensando nisso? O que está acontecendo?

Continuo caminhando, sigo por uma área coberta por uma leve grama, distraída não percebo que Duric está no meio dos soldados, no campo de treinamento. Percebo apenas quando ele me chama.

— Allyssa! Allyssa!

— Ah... Senhor, desculpe não o vi!

— Está tudo bem? Você parece tão distraída! — pergunta, pelo seu olhar parece notar algo estranho em mim.

— Está... Eu só acordei com uma indisposição, dormi pouco, só isso!

— Conseguiu extrair alguma informação do prisioneiro?

— Sim, o nome dele é Paolo, é filho de Guilhermo Rivvera, parece que ele estava ajudando o Príncipe a fugir, mas como os soldados capturaram o filho do Rei, Paolo fugiu, e acabou se perdendo.

— Quer dizer que ele é filho do maldito Guilhermo?

— É sim!

— Eu gostei desta informação, mas ao mesmo tempo fiquei um pouco preocupado...

— Por que? — pergunto.

— Porque o pai dele é um rato infame, que prejudicou demais a minha vida, a de Algor e principalmente de meu grande amigo, o Rei Moriam. Ter o filho daquele maldito preso em meus domínios é um grande trunfo, mas ao mesmo tempo é muito perigoso!

— O que faremos com ele? Vai mantê-lo como uma espécie de garantia, preso aqui?

— Sim, mas temos que reforçar a guarda, pois mesmo com o bloqueio de Killian, pode ser que aqueles ratos estejam usando este rapaz como isca para chegar até aqui, e por isso devemos reforçar a segurança ainda mais, e vistoriar a área externa da Floresta Petrificada.

Duric explicou a seus comandados o que cada um devia fazer e os designou para suas atividades, além de determinar que um deles levasse uma mensagem a Algor informando o que aconteceu dentro do movimento. Ele sabia que ter como prisioneiro o filho de Guilhermo, era importante e perigoso, precisaria reforçar a segurança e designar mais soldados para vigiar a cabana onde o prisioneiro estava. Além disso, me encarregou de vigiar e tomar conta daquele infame.

— Senhor, eu gostaria de ficar vigiando a cabana do prisioneiro por fora!

— Qual o problema, Allyssa? Você já vigiou outros prisioneiros!

— Este tal de Paolo é insolente, eu não gosto do jeito que ele fala comigo ou...

— Ou o quê? Essa não é a primeira vez que você lida com gente insolente, você é uma guerreira! Treinada para enfrentar qualquer tipo de perigo e, além disso, Paolo é um nobre e a maioria deles são esnobes, assim como o pai dele, então não espere que ele seja gentil e obediente com você. Seja dura com ele, bata nele se for preciso, mas não atente contra a vida dele, este rapaz insolente é o nosso trunfo!

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