Anthony
Richard parecia realmente cansado. Ele estava suado, e eu me perguntava o porquê de ele estar tão destruído por causa de algumas flexões e polichinelos no intervalo da nossa corrida matinal. Adotamos o hábito de correr todos os dias porque Rich implicava comigo. " Você nunca sai de casa" insistia, ou " Trepar não é exercício". Por que justo meu irmão tinha que bancar o médico atencioso comigo?
Bom, parecia que eu estava inteiro, pelo menos.
Ele dormiu em casa ontem. Veio do terror de Nova York para a calmaria de Connecticut. Sempre vinha me ver nos finais de semana, e ficava aqui por 3 ou 4 dias antes de voltar para Nova York e esquecer que eu existo — por 4 ou 3 dias. Sempre corríamos todas as manhãs antes das 8. No começo era difícil levantar cedo e acompanhar o pique de Rich, mas depois de um tempo, eu quem assumi a sua posição.
— Mais dois minutos — eu disse, correndo sem sair do lugar. — Vamos, Rich! — Insisti, e ele me lançou aquele olhar que dizia " me deixa em paz, porra". Ele ofegava como se tivesse acabado de carregar três toneladas. O tom dourado natural de sua pele estava pálido e o suor brilhava à luz do sol. Os meus fones de ouvido quicavam em meu peito, a música cochichava em espaços de tempo. Ele apoiou as mãos nos joelhos, praticamente exausto. — Fracote. — Era muito bom irritá-lo para variar, e deu certo, porque ele revirou os olhos.
— Estou cansado. — Admitiu. — Mas não sou fracote.
Ele nunca dava o braço a torcer.
Parei de correr sem sair do lugar. Pus as mãos na cintura e pausei a música no meu IPhone.
O vizinho acenou do outro lado da rua. Eu retribuí com um sorriso. Aposto que se descobrisse que sua esposa adorava ficar de quatro na minha frente não iria se comportar desse jeito — no mínimo. Eu tinha uma boa relação com meus vizinhos, embora não passasse de sorrisos simpáticos ou apertos de mão não muito demorados. Mas aquele cara… eu queria descobrir quanto demoraria para um homem como ele descobrir que sua esposa o traía. Tommy Cavanaugh, o engomadinho que cheirava a grana e poder. Sua esposa me contou uma vez que ele a fez dormir enquanto a chupava.
Sorri de canto.
Tommy cruzou a rua.
Rich pareceu se recompor e me olhou. Ele franziu a testa, como se soubesse que meu sorriso podia significar uma única coisa: eu fiz besteira. De novo.
Eu não tinha culpa se a esposa dele adorava me cavalgar, tinha?
— Tommy! — Eu cumprimentei. Ele sorriu, um sorriso exagerado demais. Colocou a mão na testa para proteger os olhos. — Como vai a Anna? Soube que ela não compareceu à última reunião que Dana fez. — Ele assentiu.
Dana era uma velha bastante amigável que adorava fazer reuniões em sua casa e convidar todas as pessoas do bairro — ou melhor: todas as mulheres. Por algum motivo, Anna não havia ido à última reunião do bairro, o que me fez pensar que provavelmente estava tentando fugir de alguém. Como todos os vizinhos sabiam basicamente da vida uns dos outros, a única saída era ignorar e torcer para que a fofoca não se espalhasse.
Os malditos podem até parecer legais, mas estão esperando o momento certo para que você vire o novo assunto do momento.
— Ela está doente — disse. Não senti firmeza na sua voz. — Parece que estava com dor de barriga e não pôde ir.
Eu não engoli a mentira.
— Ah. — Eu disse. Essa é nova… não sabia que Tommy sabia mentir. Na verdade, não. Ele não sabe. — Que pena. Diz pra ela que desejei melhoras. — Eu pisquei.
Tommy fez que sim com a cabeça.
— Tchau, Tommy! — Eu disse. Ele acenou com a cabeça e voltou a cruzar a rua, dessa vez para sua casa.
— O que fez dessa vez? — Rich disse, me fazendo olhar para ele. — Transou com a Anna Cavanaugh de novo? — O tom de acusação por trás de sua voz era ridiculamente firme.
Era disso que eu estava falando!
Coloquei a mão no peito, como se sua acusação fosse uma ofensa.
— Você sabe que eu nunca faria isso. — Eu disse, mas ele não pareceu acreditar, porque levantou uma sobrancelha. Eu sorri. — Qual é! Foi só uma rapidinha. — Admiti — quer saber de um segredo? Não foi uma rapidinha —, virei e comecei a andar na direção da entrada da minha casa. — Não tenho culpa se ela ama o meu pau.
— Você é tão ridículo. — Ele disse.
Deixei sua voz ser afogada pela música nos fones de ouvido que coloquei em cada orelha. Apertei o play na tela do celular e abri o portão da cerca branca.
***
— Cheguei — gritei e joguei a garrafa e o celular no sofá. Não demorou até George aparecer do outro lado da sala, correndo na minha direção.
— Papai! — Ele gritou. Vestia um pijama azul. A babá, Alice Alguma Coisa, apareceu atrás dele segurando um livro. Quando George chegou mais perto, agarrou minha cintura. — Senti sua falta.
Eram 8 da manhã. Fazia exatamente uma hora e meia que havia saído para correr com Rich. Tecnicamente, ele deveria estar dormindo, mas parece que alguém não fez seu trabalho direito. Olhei sério para Alice, que quando notou meu olhar, encolheu dois centímetros.
— Oi, garotão! — Eu disse, abraçando-o. — Por que está acordado? — George coçou o olho e baguncei seus cabelos castanhos. Ele não respondeu. — George? — Insisti.
— Ele pediu para que eu não dissesse nada, mas… — Alice começou.
— Mas...?
Alice parecia uma daquelas garotas boazinhas pelas quais garotos bonzinhos se apaixonam. A contratei por este motivo, embora não soubesse que sua cara de anjo era disfarce para suas atitudes de demônio. Na última vez que a deixei como babá, flagrei ela transando com o entregador de pizza. Eu quase a chutei para fora de casa, se soubesse que George não iria ficar arrasado; depois de mim, Alice era a coisa que mais amava, porque a primeira era Bonnie, o lagarto traidor. No mês passado, quando ela ficou doente, George chorou por quase uma hora. Aos 9 anos, ele se apegava a tudo e a todos. Infelizmente, não posso me livrar de Alice, mas deixei bem claro que se a flagrasse fazendo alguma coisa inapropriada, iria experimentar o caos que só eu sei causar.
...
...
Ela pigarreou.
— Fizemos isso para o senhor, Sr. Donovan — ela mostrou o livro que tinha nas mãos e me entregou. George pareceu eufórico de repente. Começou a dar pulinhos. — George me ajudou a fazer. Era para ser uma surpresa.
Eu verifiquei a capa dura, de cor azul feita com papel e decorada com glitter e tecido, tinha escrito: " Anthony Donovan ". Abri, folheei cada página. A fascinação acendeu meus olhos.
Uau.
Era um livro de recortes cheio de fotos, poemas e pequenos textos escritos à mão.
Isso fez meu coração ficar quente.
— Gostou, papai? — George perguntou. Eu olhei para ele e não encontrei palavras.
— Ficou incrível! — Eu consegui dizer. Poucas coisas me faziam calar a boca, e uma delas era George.
Eu era forte quando estava perto dele.
A emoção tomou conta de mim, explodindo do meu coração e se apossando do meu cérebro. Era o melhor sábado da minha vida!
— Obrigado, George. — Eu fiquei de sua altura, beijei seu cabelo e o abracei com força. — Eu também tenho uma surpresa pra você, sabia? — Desviei os olhos para Alice, que nos observava orgulhosa. Sorri para ela.
— É? — Ele perguntou, animado.
Eu assenti, fazendo que sim com a cabeça.
Rich não tinha avisado que vinha para cá, e eu não tive tempo de contar para George que seu tio estava em casa. George o adorava. Ele carregava o quarto lugar da coisa mais amada por George. Perdia para mim e Alice. Bonnie continuava no primeiro lugar — lagarto idiota.
— Seu tio está aqui — George arregalou os olhos, mais que animado. Rich apareceu atrás da porta. Combinamos antes de entrar em casa para fazer uma surpresa para George. Eu tinha certeza que ele ia ficar feliz. — Vai lá abraçar ele! — Não precisei dizer uma segunda vez. O garoto correu na direção do tio. Agachado, olhei os dois por cima do ombro. Alice chamou minha atenção, falando:
— Que bom que ele conseguiu vir. George está muito feliz.
Eu fiz que sim.
Ele estava muito feliz.
Era muito bom saber que desta vez eu conseguia vê-lo ficar tão feliz. Sem dúvida foi um dos momentos que mais me arrependi de ter perdido quando fui internado 6 anos atrás. 3 anos dividido em pequenos períodos de tratamento na reabilitação. 3 anos! Eu sempre voltava aos velhos hábitos quando saía da clínica. E morar em Nova York me incentivava a afundar naquele maldito inferno.
Eu havia perdido muita coisa. Rich me ajudou a melhorar e eu devo tudo a ele. Por conta do que aconteceu na noite do bar, quando um cara quase me estrangulou, a guarda de George passou para Rich. Foi melhor assim. George ainda tem pesadelos com o pai sendo espancado, ainda tem medo de que um dia eu retorne ao que era. Não o culpo. Por conta daquele erro, ferrei com sua mente. Não consigo me perdoar por isso. Mas vê-lo durante os três anos, quando me visitava semanalmente, me fazia ficar forte o suficiente para persistir e querer continuar limpo. Nosso acordo, de que eu sempre estaria cuidando dele e ele de mim, era inquebrável. Enquanto existisse nós, eu teria força.
Rich e George andaram na minha direção, cada um com um sorriso no rosto e falando sobre como Alice havia ajudado George a fazer o livro. O meu livro. Eu sorri. Passaram por mim, e Rich me lançou um olhar, que eu interpretei como: " Você conseguiu". Não tinha outra coisa que me deixasse mais feliz que isso.
Acompanhei os dois.
George o levou para a cozinha, empolgado. E pegou o livro que estava nas minhas mãos. Ele mostrou ao tio, que parecia encantado com o que via. Rich sentou-se na banqueta do balcão da cozinha, e eu os observei. George mostrava todo o conteúdo do livro, animado.
— Eu também quero um pra mim. Aposto que vai ficar melhor que o dele — Rich disse, a voz suave. E olhou para mim, segurando o livro. — Seu pai é um bebezão! — George riu do seu comentário e Alice passou por mim.
— Não escute o Rich, George. Ele está meio confuso ultimamente — eu disse, sentando na banqueta à frente deles. Rich abriu a boca para falar alguma coisa, mas George falou por ele.
— A srta. Montgomery me disse que é muito feio xingar o coleguinha — George disse. — E você não pode xingar o titio, porque ele não xingou você. — Sua voz alterou, passando a um tom mais alto. Ele me olhou com cara feia e cruzou os braços.
Franzi a testa.
— A srta. Montgomery? — A professora de arte de George, a que quase quebrou meu pau por eu ter dito que apenas estava transando com ela por distração. Eu não tinha percebido que tinha sido babaca até ela dizer que fui, mas não ligo. Agora, sempre que ela tem uma oportunidade, me mostra o dedo do meio quando vou levar George para a escola. Fingi não saber de quem ele estava falando. — O que tem ela?
— Ela disse que você é grosseiro e trata mal todo mundo. — Ele disse, com sua indignação de criança de 9 anos. Fez biquinho e juntou as sobrancelhas, assim como… Rachel fazia. — Peça desculpas para o tio Rich.
— Ela disse, foi? — Perguntei. Ele fez que sim com a cabeça.
Claro que disse.
Aquela mulher me odeia.
Mas não odiava quando estava sobre mim.
Olhei para Rich e pedi desculpa por ter sido grosseiro. George amarrou a sua melhor cara de vitória por ter conseguido o que queria, e disse:
— Bom menino.
Eu e Rich rimos. George não ficou para trás e também gargalhou.
Eu não deixava minha vida amorosa — se é que posso chamá-la assim — interferir na minha vida pessoal. Deixei bem claro para todas que dividiam a cama comigo que não queria nada sério. Elas não passavam de uma diversão oportuna. Eu sempre frequentava um bar quando ia para a cidade, o The Mystic Fairy, e conhecia algumas mulheres que procuravam o mesmo que eu. Sexo. Metade da diversão de estar num bar — a bebida —, era limitada a apenas água. Mesmo assim, não perdia tempo. As levava para um apartamento que comprei para quando estivesse na cidade, o que acontecia bastante, visto que eu trabalhava todos os dias da semana. George ficava com a avó ou com Rich quando eu não podia, e até que Christine não rugia mais para mim quando me aproximava dela. Agora tínhamos um motivo para nos aproximar. Por outro lado, não compartilhava do mesmo "bom relacionamento" com seu filho, Scott, que pegava no meu pé. Ele ainda achava que eu não era bom o bastante para cuidar do meu filho.
Para mim, sexo era apenas uma consequência do desejo, e eu admito que já não sentia isso com tanta frequência quanto antigamente, mas nos últimos dois anos, larguei o bom moço que insistia em acreditar que o amor verdadeiro existia e todas aquelas baboseiras que te contam para você não ver que alguém nunca pode ser tão feliz quanto de fato se diz ser e virei o cara que maltratava as pessoas, como a srta. Montgomery disse. Ela estava certa. Eu era um baita babaca, porque não queria que ninguém nunca mais fizesse do meu coração uma coisa feia e sem vida. Você pode escolher ser alguém perfeito porque quer ser, mas a verdade é que essa pessoa não existe. Foda-se. Eu tento chegar perto disso com George. Ele merece que eu seja o oposto do que sou para o resto do mundo. E foda-se a srta. Montgomery. Ela e suas baboseiras!
...