ALANA
Nesse instante, meu temor se concretizou: comecei a sentir um líquido quente escorrer pela região íntima; sem dúvida, estava sofrendo um aborto. O choque se misturou com a dor física, e eu me sentia caindo em um abismo sem fim, sem forças para lutar, machucada e indefesa diante da crueldade do mundo. Ele só parou as agressões quando se cansou, afirmando com uma voz carregada de desprezo que eu deveria agradecer por não ter me matado.
Fiquei estagnada, agradecendo internamente quando ele finalmente saiu de casa. Com um esforço sobre-humano, consegui me levantar, encarei o espelho no guarda-roupa e vi as marcas visíveis em meu rosto e pescoço, lembranças cruéis de uma violência que nunca deveria ter sido infligida. Sentindo as terríveis dores abdominais, tentei, com dificuldade, caminhar até a casa de uma vizinha em quem, de alguma forma, confiava mais do que em qualquer outra pessoa naquele momento.
Nunca havíamos tido uma conversa profunda antes; nossa interação se limitava a cumprimentos trocados quando nos encontrávamos na rua. Mas naquele dia, quando ela me viu em estado de desespero e agonia, seu choque foi notável. Sem hesitar, ela agiu rapidamente, chamando uma ambulância e permanecendo ao meu lado enquanto éramos conduzidas até o hospital. A equipe médica nos recebeu com prontidão, e os paramédicos correram comigo em direção ao centro cirúrgico, pois eu estava enfrentando uma hemorragia interna que ameaçava minha vida a cada segundo que passava.
As luzes intensas do hospital foram as últimas imagens claras que pude ver enquanto era levada sobre a maca pelos corredores. O tempo parecia uma névoa confusa quando finalmente acordei. Descobri, através das palavras gentis da enfermeira ao meu lado, que haviam realizado uma curetagem, um procedimento crucial após um aborto para remover qualquer material biológico retido no útero, evitando complicações futuras.
Ao olhar para frente, vi minha vizinha sentada ali, um suporte emocional silencioso que permaneceu ao meu lado durante todo o processo. Aquele gesto simples, de uma estranha que se tornou um anjo da guarda em meio ao caos, trazia um calor reconfortante mesmo nas sombras mais sombrias daqueles dias dolorosos.
— Oi, você está bem? — Ela murmurou, encarando-me com olhos piedosos.
— Estou péssima, eu perdi meu bebê, não foi? — Perguntei, e ela concordou sutilmente com a cabeça.
— Você precisa denunciá-lo, o que ele fez foi muito grave! — Ela disparou a falar, com uma mistura de indignação e preocupação em sua voz.
— Eu nunca o vi tão descontrolado quanto estava hoje! — Engoli em seco, as lembranças da violência ainda frescas em minha mente.
— Você tem onde ficar? Eu até poderia deixar você ficar na minha casa, mas tenho receio de que ele te veja lá e termine arrumando confusão comigo.
— Não se preocupe, vou ficar na minha casa, ele não voltará pra lá, pelo menos não hoje! — Respirei profundamente, tentando reunir forças para o que viria a seguir.
— Você não tem nenhum familiar por aqui? — Ela arregalou os olhos, preocupada com minha segurança.
— Tenho uma prima, meus pais moram em outro estado, nem imaginam o que tenho passado, mas vou criar coragem e dar um basta nisso! Acho que consigo pagar um aluguel para mim mesma; aliás, sou eu quem está mantendo a casa há um bom tempo. — Suspirei, sentindo o peso das responsabilidades que recaíam sobre mim.
— Se eu fosse você, iria embora e deixaria esse homem, ele não te merece. Olha o que ele fez com você! Quem ama não faz esse tipo de coisa. Não estou aqui para te julgar, mas você poderia estar morta agora, pense bem nisso! Tenho que ir para casa, se precisar de qualquer coisa, pode me chamar lá! A propósito, qual é o seu nome? A gente sempre se cumprimenta, mas nunca paramos para nos apresentar. — Ela me encarou com curiosidade, desejando que nossas vidas tivessem se cruzado em circunstâncias diferentes.
— Sou a Alana e você?
— Me chamo Estela, queria que tivéssemos nos conhecido em outras circunstâncias, mas enfim, espero que fique bem! — Ela foi embora, deixando para trás um rastro de preocupação e apoio.
Eu permaneci em observação por algumas horas, refletindo sobre as palavras de Estela. Ela tinha razão, eu precisava dar um basta naquela situação e recomeçar minha vida longe daquele homem que não me merecia. A direção do hospital agiu prontamente ao acionar a polícia, consciente dos sinais visíveis de que eu havia sido vítima de violência brutal.
Entretanto, mesmo diante das evidências, decidi não revelar a identidade de John, mantendo uma frágil esperança de que ele pudesse se redimir. "Foi apenas um surto, uma consequência dos entorpecentes que usou. Ele não agiria assim em plena consciência!" Pensei, buscando desesperadamente justificativas para o comportamento monstruoso que presenciei.
Decidi também não compartilhar o ocorrido com Daniela, pois, de certa forma, ela estava certa em relação ao pressentimento inicial que teve em relação a ele. Afinal, eu mesma havia negligenciado os sinais, tentando acreditar em uma versão idealizada de quem ele era. A verdade começava a se revelar de forma cruel, mas eu ainda hesitava em encará-la completamente.
Oito meses mais tarde…
O tempo havia passado e, finalmente, Jonathan parecia inclinado a mudar. Ingressou em grupos de Narcóticos Anônimos e, pouco depois, conseguiu um emprego em uma empresa. Embora guardasse ressentimentos por suas ações passadas, ele nunca pediu desculpas pelos danos causados, especialmente por ter tirado a vida do próprio filho.
No entanto, decidi deixar esse assunto no esquecimento, na esperança de que o tempo pudesse curar as feridas mais profundas. Cerca de três meses depois, nossa vida parecia estar tomando um rumo positivo. Jonathan mantinha-se estável no trabalho e afastado das drogas. Porém, a tranquilidade foi abalada quando fui demitida do trabalho devido à diminuição da demanda de clientes.
Apesar da contrariedade, tentei manter a calma, confiando que Jonathan continuaria a sustentar a casa com seu emprego. Enquanto recebia o seguro-desemprego por quatro meses, tive a ideia de investir parte do acerto da empresa em cosméticos e joias para revenda. O restante do dinheiro foi dado a Jonathan, que sonhava em comprar um carro.
Ele deu uma pequena entrada e financiou o restante em meu nome, um gesto que misturava esperança e um certo temor, pois o passado ainda assombrava. Durante esse período, eu vendia meus produtos de porta em porta, e as coisas estavam indo bem. Conseguia sentir uma leve brisa de normalidade em nossas vidas, algo que parecia impossível há algum tempo. No entanto, essa paz foi abruptamente interrompida em um dia que parecia comum.
Ao chegar em casa, deparei-me com Jonathan sentado na pequena cozinha. Seu olhar não era amigável, deixando-me apreensiva diante do que poderia estar por vir. Ele parecia uma sombra do homem que estava tentando ser, e meu coração acelerou com a possibilidade de que os demônios do passado estivessem voltando.
— O que aconteceu? — Perguntei, tentando manter a voz calma, apesar da ansiedade crescente.
— Quem é Fernando? — Ele perguntou, e levei um tempo para responder, tentando recordar quem correspondia ao nome que ele mencionava. — Você está surda? — Ele levantou-se rapidamente, agarrando firmemente meu maxilar.
— John, eu não lembro quem é. Você está me machucando! — Tentei afastá-lo, empurrando sua mão com esforço.
— Não minta para mim! Cheguei mais cedo hoje, e havia um rapaz no portão. Disse que veio buscar o perfume da mãe dele, mas ficou desconfiado ao me ver! Tenho certeza de que você está me traindo com ele, sua vagabunda! — Ele estapeou meu rosto, e o impacto me lançou para trás. Toquei o local atingido, que ardia intensamente.
— A única pessoa que mencionou pegar um perfume hoje foi a dona Maria. Talvez ele seja filho dela! — Murmurei, completamente derrotada e desapontada. Não podia acreditar que ele estava me agredindo novamente.
— Ah, é? Então vamos até a casa dela. Quero esclarecer essa história! E você, reze para que seja verdade; do contrário, hoje você sairá daqui direto para um cemitério! — Ele agarrou meu braço com força, suas palavras causando arrepios.
Meu coração disparou enquanto ele me puxava para fora de casa. A dor no rosto era nada comparada ao medo crescente em meu peito. Fui colocada dentro do carro com brutalidade, a tensão aumentando a cada metro percorrido. A mente girava em mil pensamentos: “por que ele não acredita em mim? Será que ele seria capaz de me matar?”
Aquela era a verdadeira face dele, uma faceta que eu havia erroneamente justificado anteriormente, atribuindo suas ações ao uso de entorpecentes. Contudo, a crua realidade se revelava: ele sentia-se no direito de me maltratar. Eu me permiti perdoá-lo em ocasiões passadas, mas agora compreendia que eu mesma era a culpada, ao permitir que ele repetisse esse padrão, uma vez após a outra. Não havia denunciado por compaixão, solidão, amor excessivo ou dependência da presença dele.
Naquele momento, através das palavras maldosas proferidas, percebi que, impulsionado pelo ódio, pela fúria e por desconfianças infundadas, ele poderia a qualquer instante estar disposto a tirar minha vida. O trajeto parecia interminável. Cada curva, cada rua deserta aumentava meu desespero. Ao estacionar o carro, adquirido com o restante do dinheiro do meu acerto, permaneci em silêncio, um medo constante me dominando a cada segundo. Minha maior preocupação recaía sobre dona Maria; eu mal conhecia seu filho, se é que ela tinha filhos.
As interações foram limitadas, e a incerteza me angustiava. Ao abrir a porta do veículo, ele não permitiu que eu o acompanhasse, dirigindo-se sozinho até a casa dela. O desespero só crescia, eu não sabia se ela tinha filhos, mas era a única que mencionava receber o perfume naquele dia. Após minutos de conversa, ele regressou ao carro. Enquanto se aproximava, meu coração palpitava e minhas mãos suavam frio. O medo dominava meus sentimentos; naquele instante, quase me faltava o ar, as incertezas sobre o meu destino tornavam o ambiente ainda mais angustiante.
— Você tem sorte, Alana! Ele é mesmo filho daquela senhora! Ela está esperando o perfume que comprou, entregue-o para ela! — Ele ordenou, e obedeci rapidamente, indo até a senhora que aguardava. Quando me aproximei, pude ver o cansaço nos olhos dela, misturado com uma pitada de preocupação.
— Filha, você está bem? Seu rosto está bastante machucado! Ele te agrediu? — Ela perguntou com piedade em seus olhos, tocando levemente meu rosto onde as marcas da violência ainda eram visíveis.
— Não se preocupe, eu vou ficar bem! — Engoli o choro que estava preso, gritando para poder sair. A dor física era suportável, mas a dor emocional era insuportável.
— Aqui está seu dinheiro! Você é uma moça bonita, jovem e batalhadora; não merece continuar passando por isso! Livre-se dele enquanto ainda pode! — Ela desabafou, suas palavras ecoando dentro de mim como um chamado para a liberdade, e entrou na casa.
Ao retornar para o carro, um desejo de fugir me consumiu. Dona Maria estava certa; eu não podia continuar vivendo assim, não me sentia mais segura ao lado dele. Era crucial dar um basta naquela situação antes que fosse tarde demais.
— Se livrou de morrer hoje, heim? — Ele comentou com uma naturalidade perturbadora assim que me sentei no banco do passageiro. O peso das palavras dele era como uma sentença de perigo constante.
A seriedade da situação instigou uma reflexão profunda sobre a urgência de tomar uma decisão drástica para garantir minha segurança e bem-estar. As lágrimas finalmente escaparam, rolando silenciosamente pelo meu rosto, testemunhas silenciosas do meu sofrimento. Olhei para fora da janela, as pessoas ao meu redor e as luzes da cidade passando como borrões, e uma determinação crescente tomou conta de mim.
“Não vou deixar que ele destrua minha vida!” - Refleti, a decisão estava tomada. Precisava de um plano. Precisava de coragem. E, acima de tudo, precisava de ajuda para escapar daquele inferno antes que fosse tarde demais. Coloquei minha mão sobre a nuca, sentindo a dor latejante que parecia sussurrar uma ameaça constante à minha saúde. Ao retornar para casa, aquela noite se revelou inquieta, as sombras dançando em cada canto, incapaz de encontrar o consolo do sono.
Cada batida do meu coração parecia um eco dos traumas que havia vivido. Sentia um medo profundo e uma espécie de trauma que me envolvia como um manto gélido. Em silêncio permaneci, enquanto Jonathan dormia alheio à intensidade dos meus sentimentos, seu sono tranquilo um contraste perturbador com o turbilhão que era minha mente. Chorei em silêncio para não o perturbar, desejando desaparecer, mas sem opções viáveis.
O que restou do meu dinheiro foi usado para comprar um carro para ele, uma escolha que agora me pesava como uma âncora arrastada pelos meus próprios erros. A primeira parcela do seguro-desemprego só viria no próximo mês, e cada dia que se estendia como uma sentença de prisão alimentava minha sensação de desespero. Tocar no assunto com Daniela gerava vergonha, e tinha receio de contar à minha prima, com medo de ela revelar aos meus pais e desencadear uma reação que eu não sabia se teria forças para enfrentar.
Estava sem saída, uma naufraga em um mar de angústia e desespero. Mesmo durante as ligações dos meus pais, eu simulava normalidade, ocultando a verdade por medo de decepcioná-los. Aos vinte e sete anos, eu me sentia destroçada, envelhecida prematuramente pelos traumas que me corroíam por dentro, sem ânimo para me cuidar. A cada dia, a vontade de morrer crescia como uma planta venenosa, alimentada pela escuridão emocional que envolvia cada pensamento.
ALANA
As sombras da incerteza e da angústia se projetavam sobre mim, e a solidão parecia um fardo insuportável, um peso que ameaçava me derrubar a qualquer momento. Em meio a esse turbilhão, a busca por soluções se tornava mais desafiadora, enquanto a escuridão emocional envolvia cada pensamento, transformando a esperança em um suspiro distante.
Eu estava com ele há apenas dois anos, e a cada dia que passava, ele parecia sugar um pouco do que restava da essência da minha alma. Nos dias seguintes, apenas me colocava em modo automático: qualquer alteração de voz dele me assustava, cada gesto dele era como um prenúncio de tempestade. Resolvi ligar na rodoviária para perguntar o valor da passagem para Minas Gerais e, após ficar sabendo, tive a ideia de tentar vender o máximo de cosméticos que tinha para juntar o valor.
A cada negociação, sentia como se estivesse vendendo pedaços da minha dignidade, mas a urgência de escapar daquela prisão emocional era mais forte do que qualquer orgulho ferido. Depois de andar bastante debaixo de um sol extremamente quente, finalmente consegui o valor da passagem, mas não podia ir naquele dia, pois ele já estava prestes a chegar do trabalho; precisava esperar por apenas mais uma noite, e foi o que fiz, cada segundo se arrastando como uma eternidade em meio ao pânico e à ansiedade.
Continuei agindo naturalmente, escondendo cuidadosamente meus planos de fuga, como uma atriz em um palco, desempenhando um papel que me sufocava a cada respiração. Naquela noite angustiante, ele buscava contato íntimo, e eu estava envolta em sentimentos ruins, entre eles a repulsa, o nojo e o desprezo. Não queria ceder a ele, e mesmo assim, ele me forçou; senti-me violentada, abusada de forma literal.
Cada toque dele era como uma agressão, cada palavra um golpe na minha dignidade. Na manhã seguinte, encarei minha imagem no espelho, uma visão de uma mulher física e psicologicamente destruída, os olhos refletindo a dor que consumia minha alma. Assim que ele saiu para o trabalho, reuni o máximo de roupas, colocando-as em sacos de lixo, pois não possuía uma mala. Escrevi uma carta de despedida, deixando uma explicação para minha partida, uma última tentativa de expressar a angústia que me sufocava.
Envolta na dor, buscava forças para recomeçar longe deste pesadelo, ansiando por um sopro de liberdade. Embarquei em um ônibus, carregando sacos sobre os braços, parecendo uma pessoa que morava nas ruas, mas interiormente sabia que estava dando os primeiros passos em direção à minha própria libertação. O alívio me dominou ao embarcar, o fim do sofrimento se aproximava. Estava livre, mas então, um novo medo surgiu: “e se ele for até a casa dos meus pais? E se algo terrível acontecer com eles?” Eu não podia arriscar tirar a paz deles e os colocar em risco.
Desembarquei rapidamente, lamentando não obter reembolso da passagem, um pequeno preço a pagar pela minha paz de espírito. Permaneci na rodoviária, pensando no próximo passo. “Talvez devesse abrir o jogo com minha prima e pedir que guardasse segredo.”, pensei, andando de um lado para o outro. Segui até a casa da Bruna, envolta em um dilema ao avistar o imóvel. Tinha receio de que ela contasse aos meus pais, temendo o impacto que minha decisão teria sobre eles. Enquanto pensava no que faria, ouvi um ruído no portão. A Bruna apareceu, surpresa ao me avistar, seu rosto refletindo preocupação e curiosidade.
— Alana? O que aconteceu? Por que não avisou que estava vindo? — Ela perguntou, e a única resposta que consegui dar foi o choro, as palavras se perdendo na angústia que transbordava em cada lágrima.
A cena estava impregnada de desespero, cada lágrima era um grito silencioso por socorro. Meus olhos, opacos pela dor, encontraram compaixão nos olhos da Bruna. Ela me abraçou, acolhendo minha dor sem precisar de palavras. Senti-me um pouco mais leve naquele momento, como se uma parte do peso que carregava tivesse sido dividida.
— Vem, vamos entrar. Vou fazer um chá para nós e você me conta tudo, está bem? — Bruna disse com uma suavidade reconfortante, guiando-me casa adentro.
Naquele momento eu era incapaz de explicar, precisava de amparo, de amor, algo que não recebia há tempos. Bruna pegou alguns dos sacos que eu segurava e os colocou em um canto da sala. Enquanto o chá esquentava, eu expus tudo o que havia acontecido, cada detalhe do abuso e da fuga. Bruna ouvia atentamente, sua expressão alternando entre indignação e compaixão. Ao final do relato, ela segurou minhas mãos com firmeza.
— Você fez a coisa certa ao buscar ajuda, Alana. Vamos dar um jeito nisso juntas. Você não está sozinha. Estou decepcionada por não ter me falado antes! Não consigo imaginar o tamanho do seu sofrimento, querida prima! — As lágrimas inundaram os olhos dela, escorrendo como pequenos rios de angústia.
Após me acalmar, adentrei o quarto indicado como meu, tentando não pensar em como seria quando Jonathan percebesse minha ausência. O coração parecia um tambor acelerado, ansioso por encontrar paz. Tomei um banho relaxante e finalmente desfrutei de uma noite tranquila de sono, algo que me era negado há muito tempo. Dias depois, eu já me sentia renovada.
Minha prima havia inaugurado sua própria lanchonete, e decidi ajudar enquanto recebia o seguro-desemprego. Duas semanas após me libertar do relacionamento tóxico, minha aparência começava a mudar para melhor, mas a dependência que sentia dele era extraordinária, chegava a ser assustadora. Ainda não havia falado sobre o ocorrido com a Daniela, tentava criar coragem para contar sobre o inferno que vivi. Em uma noite tranquila, enquanto cuidava das tarefas na lanchonete, uma voz familiar chamou meu nome.
Era a voz de Jonathan, e minha alma parecia deixar o corpo naquele instante. A tensão tomou conta de mim, como se meu corpo tivesse congelado. Meus olhos encontraram os dele, e por um breve momento, todas as lembranças dolorosas voltaram com força total. O coração disparou, o medo se misturou com a raiva e a tristeza que eu tentava superar. Cada passo dele em minha direção era como um eco do passado, uma lembrança viva de tudo o que eu tinha lutado para deixar para trás.
— Quero um X-salada e um refrigerante! — Ele pediu, e eu concordei com a cabeça, tentando disfarçar o desconforto que sua presença causava. Minha prima, ao perceber quem era, o empurrou, pronta para me defender.
— Calma, Bruna, sou apenas mais um cliente. Descobri que minha mulher está trabalhando aqui e aproveitei para dar uma palavra com ela. Afinal, ela praticamente fugiu de mim, e isso não está certo! — Ele arqueou as sobrancelhas, suas palavras mexendo comigo, e acabei queimando as mãos na grelha enquanto preparava o lanche.
A dor ardente nas mãos parecia simbolizar a intensidade do que eu sentia naquele momento. As palavras dele ecoavam em minha mente, misturando-se com as lembranças do passado turbulento que eu tentava superar. Sentia-me como se estivesse diante de um desafio monumental, um teste de força emocional que eu não sabia se poderia superar.
— Vou chamar a polícia para você! — Bruna gritou, sua voz carregada de indignação e proteção.
— Não precisa fazer isso, não quero confusão, só quero conversar! — Jonathan observava enquanto eu cuidava das queimaduras nas minhas mãos, um gesto que parecia gentil, mas eu sabia que por trás da aparente preocupação havia um controle disfarçado, uma tentativa de manipulação que eu já conhecia muito bem.
— Tudo bem, Bruna, eu vou falar com ele, será rápido! — Tirei o avental e o pendurei no gancho na parede. — O que você quer? — Perguntei ao me aproximar, tentando manter uma postura firme, embora meu coração batesse descompassado.
— Podemos conversar lá fora? Não me sinto à vontade com sua prima me pressionando! — Ele pediu gentilmente, e acabei concordando. Seguimos até a área externa, onde cruzei os braços, esperando que ele dissesse o que queria.
O vento suave da noite parecia carregar as palavras que ele escolheria para tentar me convencer mais uma vez, e eu me preparava para resistir a qualquer manipulação emocional que viesse de suas palavras.
— Você precisa voltar comigo, não posso te perder, tenho passado dias difíceis, sinto sua falta! — Murmurou ele, as palavras carregadas de uma mistura entre tristeza e desespero.
— Não quero voltar, tudo que você fez foi demais pra mim. Dei meu melhor e mesmo assim fui tratada daquele jeito, eu não merecia nada daquilo! — As lágrimas escorreram pelo meu rosto, testemunhas silenciosas da dor que ainda ecoava dentro de mim.
— Vamos dar uma volta de carro? Por favor, eu quero passar um tempo com você, a gente conversa numa boa e, depois dessa conversa, se realmente não quiser voltar, eu juro que te deixo em paz! — Implorou ele, com os olhos suplicantes, mas eu sabia que não poderia ceder tão facilmente.
— Sinto muito, mas não posso, não consigo confiar em você! — Suspirei, a batalha interna entre o amor que um dia existiu e a razão que me dizia para seguir em frente.
— Por favor, Alana, me dê uma oportunidade, vou fazer tudo diferente, eu prometo! Eu sei que errei, admito isso, preciso que me perdoe! — Implorou com os olhos marejados, tentando encontrar uma brecha em minha resistência.
— Preciso de um tempo para pensar nisso! — Evitei encará-lo diretamente, sentindo o peso das emoções conflitantes.
— Bom, vou te dar alguns dias para fazer isso, talvez você possa mudar de ideia! — Ele entrou no carro e foi embora, deixando para trás um rastro de incertezas e sentimentos confusos. Voltei à lanchonete, e minha prima rapidamente veio até mim.
— Não está pensando em perdoá-lo, está? — Ela perguntou, preocupada com a possibilidade de eu ceder aos apelos dele.
— Não, isso não vai acontecer! — Arregalei os olhos, tentando convencer a mim mesma tanto quanto a ela. Mas no fundo, bem lá no fundo, estava, sim, pensando em perdoá-lo. O problema era que o amava demais, e a saudade que sentia dele estava acabando comigo, mesmo que a razão me dissesse para não ceder novamente.
Terminamos de organizar o local em silêncio. Naquela noite, havia combinado com a Daniela de ir ao cinema com ela, decidida a compartilhar tudo que vinha acontecendo comigo. Corri até em casa para tomar banho e me arrumar. Pouco tempo depois, já estava no ponto de ônibus, pois tínhamos acertado de nos encontrar na frente do shopping. No ponto, não havia ninguém além de mim, e o relógio se aproximava das oito da noite quando um carro bastante familiar encostou; o motorista era o Jonathan.
— Vai passear? — Ele perguntou com a voz amigável, mas havia algo na sua expressão que me deixava em alerta.
— Vou ao cinema com uma amiga! — Murmurei, mantendo uma certa distância.
— Entre no carro, te dou uma carona! Estou indo a um encontro entre amigos também! — Abriu a porta, sua insistência começando a me incomodar.
— Obrigada, mas prefiro esperar o ônibus! — Sentei-me no banco que havia no ponto, tentando afastar a sensação de desconforto que crescia dentro de mim.
— Qual é, Alana? O ônibus vai demorar, e eu não pretendo fazer nada com você! — Ele insistiu, e acabei concordando com a cabeça, cedendo à praticidade que a carona oferecia.
Mesmo com certo receio, entrei no veículo. Logo ele deu partida, e seguimos adiante. Tudo era muito estranho; o silêncio no carro era assustador, e eu não tinha qualquer assunto agradável para tratar com ele. Uma música dos anos 80 tocava ao fundo no som do veículo, tornando o ambiente bastante aconchegante. Minha paz foi interrompida quando notei que ele passou da entrada que levava ao shopping e entrou em outra rua, meu coração acelerando diante da incerteza do que estava por vir.
— Jonathan, o shopping fica do outro lado! — Apontei com o dedo, a ansiedade crescendo dentro de mim.
— Calma, só vou abastecer o carro! — Mostrou um posto de combustível logo à frente, tentando acalmar minha preocupação.
— Desculpa, pensei que tinha outras intenções! — Murmurei, sentindo um misto de alívio e desconfiança.
— Eu vou mudar, Alana! Vou te provar que sou capaz disso! — Acariciou meu rosto, e por puro instinto, me afastei, mantendo uma barreira entre nós.
Ele abasteceu o veículo e, em poucos minutos, já estávamos na porta do shopping. Despedi-me dele com um breve aceno e fiquei à espera da Dani, que chegou logo em seguida. Compramos o ingresso do cinema e assistimos a um filme de comédia, deixando as risadas nos distrair por um tempo. Quando o filme terminou, ficamos dando voltas pelo shopping, enquanto eu desabafava e contava a ela tudo o que havia acontecido no meu relacionamento. A sensação de leveza ao compartilhar as dificuldades que enfrentei era reconfortante, e a presença da Daniela parecia tornar tudo mais suportável.
— Ele é um tremendo filho da puta! Nunca fui com a cara daquele desgraçado, eu estava certa a respeito dele. Não acredito que ainda está pensando em voltar com ele, ele vai te matar, Alana! — Ela segurou forte no meu braço, a preocupação evidente em seus olhos.
— Ele parece estar arrependido, nunca havia admitido antes que estava errado. Acho que ele merece uma chance, eu o amo, estou destruída por dentro! — Acabei revelando, a vulnerabilidade transparecendo em minhas palavras.
— Não, você não o ama, isso é impossível. Lembre-se de tudo que ele te fez! — Ela gritou, tentando me fazer enxergar a realidade.
— De qualquer forma, vou pensar no assunto. Não cabe a ninguém decidir isso por mim! — Falei completamente irritada, percebendo que minha confissão tinha gerado mais conflito do que apoio.
— Bom, eu não posso fazer nada a respeito. Se a sua vida não significa nada pra você, o problema é seu, mas lembre-se de que você foi avisada. — Ela me observava com semblante sério enquanto falava, deixando claro que suas preocupações vinham do coração.
O shopping já estava prestes a fechar, e decidimos voltar para casa. Naquela mesma noite, Jonathan me ligou.
— Oi, eu estava com dificuldade para dormir e precisava falar com você! — Ele disse assim que atendi meu celular.
— John, estou confiando em você pela última vez! Juro que será a derradeira tentativa de vivermos juntos. Espero que saiba aproveitar essa oportunidade! — Acabei pronunciando, dando um voto de confiança relutante.
— Você não vai se arrepender, eu te prometo! Estou indo te buscar! — Notei que ele estava animado com a decisão que eu tinha tomado.
— Vou pegar as minhas coisas! — Encerrei a ligação e comecei a juntar meus pertences.
Enquanto retirava todas as roupas do guarda-roupa, a Bruna surgiu na porta do quarto.
—Porque o carro do Jonathan está parado aqui na frente? — Ela arqueou a sobrancelha, expressando sua desaprovação.
— Eu voltei com ele, vamos tentar nos acertar! — Falei em voz baixa, ciente das consequências da minha escolha.
— Você só pode estar brincando, mesmo depois de tudo que ele fez com você? — Ela cruzou os braços, sua preocupação palpável, mas eu permaneci em silêncio, as dúvidas me corroendo por dentro. — Você está cega por esse homem, Alana! Eu espero, de verdade, que ele não te mate! — Ela bufou, a frustração evidente em sua voz, e resolvi sair sem responder nada, deixando um nó de preocupação e incerteza apertando em meu peito.
Entrei no carro decidida, ignorando as vozes de preocupação que ainda ecoavam em minha mente. John me ajudou a colocar meus pertences no veículo e dirigiu de volta para casa. Ao chegarmos, ele me auxiliou a guardar toda a bagunça que eu tinha levado. Os meses seguintes foram incríveis: John realmente havia se transformado, e era visível o esforço que ele fazia para ser uma pessoa melhor.
Nesse mesmo período, consegui um emprego em outro escritório, o que trouxe uma imensa felicidade, pois finalmente tudo parecia estar se encaixando na minha vida. Ele e eu passamos a desfrutar de momentos felizes juntos, construindo uma nova história que estava livre das sombras do passado. Suas demonstrações de carinho e comprometimento eram constantes, e eu me pegava pensando que talvez, só talvez, as coisas finalmente estivessem dando certo para nós.
A cada dia, a confiança que eu depositava nele se fortalecia, e a esperança de um futuro melhor se renovava. O novo emprego também trazia um ar de renovação para minha vida profissional. Eu me sentia valorizada, desafiada e realizada, conquistando novas habilidades e ampliando meu horizonte. Era como se todas as peças estivessem se encaixando, criando um quadro que eu mal podia acreditar que era meu. Claro, sempre havia um receio residual, uma vozinha no fundo da minha mente que lembrava dos momentos difíceis que havíamos passado.
No entanto, eu escolhi focar nas mudanças positivas, no presente que estava sendo construído com amor, esforço e determinação. E por mais que o passado ainda deixasse suas marcas, eu estava determinada a seguir em frente e fazer deste novo capítulo o melhor possível.