Eu pensei que a tarefa mais complicada e que exigiria mais da minha paciência e boa vontade seria ter passado aqueles anos de treinamento militar num ambiente totalmente dominado por homens. Eu nunca me imaginei sendo paparica com manicures que alongavam minhas unhas com fibra de vidro.
Nunca imaginei que meus cabelos seriam repuxados e alongados por mechas de megahair em tons levemente dourados, para que as minhas mechas castanhas se misturassem de modo quase californiano.
Eu nunca sonhei, nem nos meus piores pesadelos, que teria de mudar as minhas peças de roupas para shorts curtos e tops que não cobriam mais do que a minha barriga, só que fiquei espantada ao notar que meu corpo realmente caía muito bem naquele tipo de roupa.
E, mesmo contra todas as minhas divagações mais férteis, eu jamais me imaginei olhando no espelho e não reconhecendo a minha própria imagem. Qualquer um que não estivesse na mesma sala onde os preparos foram feitos, jamais poderia dizer que Juliana Moreira — a policial que não gostava nem mesmo de um olhar torto — estava agora se vestindo com roupas cujo tamanho não servia nem mesmo para enxugar o chão.
O meu short era ridículo, e me deu vergonha de usá-lo, mesmo que os policiais do meu batalhão já não estivessem mais por perto. E mesmo que o Major tenha me dado a liberdade de escolher ser transformada para o trabalho em um local que me trouxesse privacidade.
Eu me senti exposta. Mesmo numa sala só com uma equipe de mulheres do ramo estético. Eu me senti como um dos piores adjetivos que se podoa dar para uma mulher que se vestia daquela forma.
— Não está tão ruim assim — comentou Mariana Amaral, nossa já infiltrada no complexo do Mandela. Ela me observou conforme se recostava na moldura do espelho de corpo diante de mim. Os cabelos pretos dela estavam suavemente brilhantes pela luz forte ao redor do espelho. E foi aquela mesma luz que deixou bem nítida a minha expressão desencorajadora. Mariana suspirou. — Você precisa se vestir de acordo com o local, Ju. Você acha que eu gostei de usar isso por um ano inteiro?
Eu a observei. De fato, ela também usava uma roupa muito curta para uma policial de respeito. Mariana era um pouco mais corpulenta, e isso tornava as roupas muito mais chamativas do que normalmente seria, e se não fosse aquela postura altiva e firme que todos policiais ganham com os anos de serviço, ela apenas pareceria uma mulher fútil e sem graça.
Embora eu não pudesse dizer que minhas coxas expostas não demonstravam os anos de exercício e treinamento militar. Eu me sentia como uma garota de academia que gostava de expor as curvas para todo o mundo.
Eu me encolhi levemente, cruzando os braços diante do peito. Estava frio, e o maldito top até o umbigo não era de um tecido resistente o bastante para não revelar os meus mamilos através do sutiã. Eu me sentia ridícula.
— O que não fazemos pelo nosso emprego, hein? — indaguei, em tom irônico.
Eu já sabia muito bem que Mariana não estava se hospedando no complexo apenas por ordens investigativas. Apesar de vir de uma família formada na academia de polícia, ela tinha parentes distantes que ainda moravam no morro.
Aquela parte da família era uma que seu pai jamais quis nos deixar saber da existência, mas quando houve a necessidade de nos infiltrarmos na favela, ele sugeriu que a filha fosse morar com a avó, para que ela ficasse de olho em tudo.
Ninguém conseguia disfarçar o fato de que Mariana tinha gostado muito mais de estar naquele complexo do que nos anos vividos dentro do batalhão. Ela ainda não tinha perdido o sotaque sofisticado, mas as roupas já eram totalmente adaptadas para aquele ambiente, e ela parecia muito segura de que não havia vida melhor do que na favela.
— Admita que você só aceitou tudo isso para se vingar — disse ela, arqueando uma sobrancelha. Eu fiz a minha melhor expressão de confusão, virando-me para calçar um par de tênis. Mariana ressurgiu diante de mim. — Ninguém em sã consciência, nem mesmo o Major, obrigaria Juliana Moreira a fazer qualquer coisa que não fosse da vontade dela. Todo mundo sabe que você é doida para entrar naquela favela e fuzilar todos os moradores.
— É claro, minhas intenções nunca foram segredo — disparei, dando de ombros.
Era desumano admitir aquilo. Honestamente, uma grande parte de mim nem mesmo considerava aquela hipótese. Eu odiava uma pessoa em específico, e não o morro inteiro.
Eu sabia que muitas pessoas não tinham condições financeiras o suficiente para deixar aquele lugar. Eu não era burra de pensar que alguém merecia morrer só por nascer no lado errado da cidade. Só que eu não gostei do tom de Mariana.
Nós nunca nos demos bem, para dizer a verdade. Ela era uma das três mulheres que também trabalhavam comigo naquele batalhão. Uma das melhores. E uma das mais arrogantes. Ou será que a arrogância era minha?
— Só que eu ainda sou subordinada de alguém, e se este alguém me dá uma ordem, eu só devo acatar. Mas é bom que não espere que nos tornemos amigas, Mariana. Eu estarei indo morar em sua casa só para saber o que você já descobriu e como posso contribuir para o nosso general. Fora isso, se considere apenas uma pessoa da qual ainda tenho de suportar.
Mariana deu uma risada. Ela era uma mulher muito bonita, e ficava adorável quando gargalhava, porque suas bochechas ficavam vermelhas e os olhos azuis cintilantes. Só que o problema é que ela só gargalhava quando queria soar irônica, e apesar de sua aparência fofa, eu queria socar o seu rosto até que ela ficasse irreconhecível.
A única coisa que sempre me impediu de bater nela até sua pele descolar do corpo, era meu respeito pelo seu pai. Porém, ela não demonstrava o mesmo senso de consideração, porque fazia de tudo para me irritar.
— Ah, Juliana, pare de drama — disse ela, revirando os olhos, mas mantendo o maldito sorriso. — Anime-se. Não é todo dia que você tem a incrível oportunidade de fazer um retiro espiritual num lugar tão maravilhoso quanto a favela. Você vai acabar se habituando. O problema vai ser só nos três primeiros meses, com seis meses você já vai estar até falando as gírias mais usadas como todo mundo.
Eu dei uma risadinha baixa, querendo encerrar o assunto porque a equipe de maquiagem havia retornado para perto afim de retocar meu batom vermelho e o delineado. Os meus cabelos enroscaram desconfortavelmente ao redor dos meus braços, e eu praguejei que o motivo para que meus fios originais fossem curtos era justamente por odiar ser presa sem perceber.
Mariana ficou rindo o tempo todo, dando palpites sobre o que e onde a equipe deveria se concentrar mais para me tornar uma garota da laje.
Enquanto Mariana fazia o favor de me deixar ainda mais irreconhecível, não pude evitar o terrível pensamento de que, três meses na favela já me parecia um tempo longo demais, seis era uma impossibilidade, e, com um ano, eu provavelmente já teria matado alguém ou enlouquecido de vez.
A percepção disso me deixou calada pelo resto do tempo em que fui transformada numa Juliana que jamais pensei me tornar.
Quando fomos deixadas há muitas quadras antes do destino, eu notei que a região em que se encontrava a favela do Mandela fazia jus ao nome africano.
Todas as pessoas que moravam ali ao redor, tinham aquela expressão de sofrimento contido no rosto, de quem acordava muito cedo e dormia muito tarde e mesmo assim não conseguia conforto algum na vida.
A falta de saneamento básico já era nítida logo nos primeiros córregos que Mariana me fez atravessar com uma mochila pesada nos ombros. Ela estava alegremente arrastando a minha mala por cada poça de lama e sujeira pela qual passava. Ela acreditava mesmo que eu tinha colocado roupas ali dentro.
Mal sabia ela que só era o meu material de trabalho mais caro. Não que eu tivesse levado armas para o complexo — pelo menos, não na quantidade normal que eu usava —, e não que eu pensasse que em algum momento poderia usar armas para me defender sem ter de explicar o motivo de tê-las.
Eu apenas tinha feito o possível para levar um computador (incluindo a CPU que Mariana batia constantemente no chão a cada passo que dava), celulares com rastreador diretamente conectado na central de polícia, e pequenos aparelhos que poderiam me salvar numa fuga precipitada.
É claro que a minha estranha colega de trabalho não fazia a menor ideia de que aqueles itens eram muito mais valiosos e caros do que roupas, mas fazia toda a sua questão de andar batendo em tudo e atravessando buracos com água.
— Você não deveria estar me contando tudo o que já sabe? — questionei em voz ríspida.
Mariana tinha permanecido comigo durante toda a minha transformação, e deu um feedback preciso sobre o quão parecida com as garotas comuns da favela eu estava. Só que, ao amanhecer, ela sequer me deu qualquer orientação do que eu precisava me preparar para enfrentar.
Ela sequer se preocupou em me dizer qual papel eu realmente desempenharia naquele morro. Eu sabia que tinha de fingir ser uma parente bem distante dela e com problemas familiares o bastante para ser exilada na favela, só que a maldita mulher nem se deu ao trabalho de me situar.
— Ou será que preciso lembrar a você que ainda sou a sua superior?
— Não precisa, capitã — disse ela, com uma petulância que quase me fez tirar a mochila e arremessá-la em sua cabeça. Mariana abriu um sorriso largo, cumprimentando pessoas que passavam ao nosso lado na calçada. A rua era bem estreita, mas se erguia na lateral esquerda para um morro onde as ruas eram ainda mais apertadas. Seria impossível passar dois carros ali. Por isso a ação da polícia era tão dificultada. Mariana me lançou um olhar de soslaio, esperando ao meu lado para atravessar a rua. O movimento dos carros e dos ônibus era constante ali. — Eu apenas estou esperando para chegar em casa, e não termos tantos olhos e ouvidos ao redor para contar exatamente o que a senhorita precisa saber.
— Sim, mas pode, e deve, pelo menos me dizer qual vai ser o meu nome nesse lugar — exigi, sem fazer um pingo de esforço para soar menos indelicada.
Um músculo tremeu ao redor do sorriso de Mariana, como se ela estivesse também se esforçando muito para não bater com a minha cabeça na parede mais próxima. Estávamos quites nos pensamentos homicidas, então.
— O seu nome ainda será Juliana, só que Amaral, por conta do meu pai — disse ela, erguendo minimamente o queixo. A luz do sol da manhã quente do Rio de Janeiro brilhou contra a sua pele clara, e beijou suavemente a minha pele alguns tons mais bronzeados que o dela. Mariana cumprimentou com um gritinho o motorista de um carro que parou para que atravessássemos, e a buzinada nada discreta do condutor me deixou ciente de que eles deveriam se conhecer. — Mas é bom se acostumar a ser chamada de Juju... Todo mundo aqui tem um segundo nome para ser chamado, os maiorais usam um vulgo.
Eu sabia disso.
Tinha pesquisado seriamente sobre Erick, vulgo Picasso, que era ninguém mais e ninguém menos do que o dono do morro. Eu sabia sobre a idade, as características físicas, e até os gostos pessoais daquele homem. Não que ele algum dia já houvesse sido preso pela polícia. Eu nunca vi um traficante tão conhecido com uma ficha tão impecável.
O ordinário era apenas esperto demais. Todos ao seu redor já haviam sido presos, até seu irmão, mas ele não. Picasso era extremamente inteligente e sagaz. Ele nunca se deixava sair daquele maldito morro. Ele criou uma fortaleza com seu tráfico e fez com que cada morador daquele complexo servisse como murro de arrima.
Eu pesquisei sobre tudo daquele homem. Até mesmo o procurei em suas redes sociais. Só que, como todo bom bandido que se preze, o maldito não tinha um facebook. Eu não sabia muito bem se ele possuía alguma mulher, se tinha algum ponto fraco a ser usado, mas, estava disposta a tudo para derrubá-lo de seu trono.
— Bem, se o dono do morro se chama de Picasso, devido aos seus dons na cama... — Comecei a dizer em tom baixo, porque já estávamos terminando de atravessar a rua, e a subida do morro estava sempre cheia de adolescentes sentados nas calçadas numa vigília constante. — Como sugere que eu me chame, devido aos meus dons inalcançáveis para qualquer mortal?
Eu só tinha falado daquela forma porque Mariana era um simples soldado que causava mais problemas do que os solucionava. Era atrapalhada, gostava de fazer piadinhas fora de hora, e já havia recebido inúmeras advertências pela minha parte.
Estar ali, dependendo dela, me deixava com uma sensação terrível de inferioridade. Eu queria sair por cima. Deixar bem claro que eu era boa demais para um lugar daqueles, e ainda mais compartilhando uma casa com ela.
— Ah, pensei em Juju do prexecão — disse Mariana, gargalhando. Eu a observei com a minha melhor expressão de asco. Como resposta, a maluca mulher resolveu segurar minha mala com uma única mão e me abraçar pelos ombros com a outra. — Ah, vamos lá, Juju... Não vai demorar nada para que o apelido acabe se espalhando pelo morro todo. Vou me empenhar para fazer isso acontecer. Em nome da nossa... amizade... Sabe?
— Sei — rosnei, odiando cada segundo em que Mariana achava que estava no controle da situação.