Infelizmente para Beatrice, o tempo longe do envolvimento com vampiros iria durar pouco, afinal algo mais havia mudado depois de sua visita a mansão na Áustria, não com todos, mas com um vampiro especial, que ela mesma havia tido a chance de colocar os olhos, sentir a atração e virar as costas, indo embora como nada tivesse acontecido… diferente da realidade. Claro que a humana não tinha realmente culpa sobre isso, afinal somente vampiros sentem o puxão, a conexão de companheiros e se eles têm a sorte de conhecer seu companheiro, ou companheira no caso de Beatrice, ainda na forma humana… a conexão infelizmente demora um pouco mais para ser completada, ao menos para aqueles vampiros com honra, que preferem deixar seu companheiro ciente da situação e lhe dá uma escolha.
Talvez esse não fosse realmente o caso de Damian, se ele não tivesse visto a humana ao lado de um tipo de vampiro que ele tanto detestava. Teimoso, como só ele sabia ser, o vampiro não fez qualquer movimento para agir e declarar Beatrice sua. Na verdade, o vampiro escolheu viver pelos cantos da mansão, tentando ignorar a dor em seu peito, que depois de uma semana passou a ser constante, desde que Arvin, Layla e Beatrice haviam ido embora. Ele sabia que Beatrice Flowers era a culpada, ou ao menos suspeitava disso, se a súbita atração e a corda que pareceu puxá-lo para ela, ao encarar aqueles olhos verdes, fosse indicação suficiente. Ele relaxou ao encontrar seu olhos, seu coração pareceu acelerar ao vê-la sorrir para ele, o deixando surpreso e com uma vontade enorme de retribuir o sorriso. Ele não era de sorrir, então haviam indícios suficientes para ajudá-lo a entender.
- Damian, você está bem? - perguntou Alicia, parecendo realmente preocupada, ao ver um de seus melhores soldados se inclinar levemente, parecendo segurar um gemido de dor, ao mesmo tempo que segurava o próprio peito, como se o apertar fosse suficiente para fazer a dor sumir. Ela conhecia aquelas reações, mas acreditava que o homem não seria tão tolo em esconder o fato de ter encontrado sua companheira… ela estava errada.
- Eu estou bem mestre. O que deseja de mim? - disse Damian com mais esforço, do que pensou que realmente precisaria. Mas, a vampira havia lhe chamado para uma nova missão e tinha trabalho a ser feito, então não havia qualquer possibilidade de parar e refletir sobre o fato do desconforto e da dor estar se tornando cada vez mais presente, constante e forte.
- Temos fortes suspeitas de que um vampiro, com um talento peculiar, está rondando Seattle. Preciso que o elimine, o mais rápido possível, antes que cause ainda mais estragos.
- Dom peculiar? Como assim?
Com o interesse despertado, Damian conseguiu deixar Beatrice de lado, longe do centro de seus pensamentos, ao menos por um momento. Foi quase um alívio.
- Ele está transformando vampiros em humanos. O seu dom é trazer vampiros de volta à vida. Ao que parece, sem chances de volta.
Damian encarou sua mestre chocado. Não acreditava que aquilo seria algo possível, ou permanente. Era surpreendente.
- Mestre Alicia…
- Tenho fontes confiáveis Damian, e confio em você para eliminá-lo... se realmente estiver bem como está dizendo.
- Eu estou b... Ah!
Damian então desabou, sentindo como se seu peito estivesse se abrindo. Algo o puxava, o fazia sofrer pela distância e gritar de dor agora também.
- Damian, já chega! Você encontrou sua companheira, não foi? - disse Maurício, se aproximando e o ajudando a levantar.
Damian o encarou, nervoso, sabendo muito bem do que aquele vampiro era capaz, mas assentiu, desistindo de ser forte. A dor o estava consumindo, não podia mais segurar.
- Quem? - perguntou Gustave, curioso.
Todos se surpreenderam ao ver a emoção passar pelo rosto do mais velho dos irmãos Ventrue, aquele que perdeu a companheira a poucas décadas e ainda não havia sido capaz de se reerguer. Gustave era o exemplo perfeito do que perder um companheiro poderia causar.
- Eu acho que foi... Beatrice Flowers. - confessou Damian, não surpreso em ver o choque no rosto de todos ali.
- Por que não disse nada?! Eles foram embora a uma semana! - disse Alicia, irritada em ver um de seus melhores guardas sofrendo, por pura burrice, se ela fosse franca.
- Ela foi embora nos braços daquele vampiro mimado. Se ela veio até aqui por ele, então talvez seja como ele.
Ao dizer aquilo, Damian sentiu algo dentro dele se contorcer. Seu coração não concordava com suas palavras e talvez nem seu lado racional concordasse. Ele estava com medo, do que ter uma companheira humana poderia representar. Ele não desejava acabar como Gustave, mesmo que o respeitasse e admirasse.
- Podia estar apenas sendo enganada ou foi persuadida a vir. Eu vi sua mente Damian, e Arvin não foi bem recebido por ela. - disse Alicia, quase sorrindo ao ver um pingo de esperança aparecer nos olhos de seu guarda.
- Desculpe Alicia, eu não cheguei a pensar nesta possibilidade.
- Isso é porque a julga sem conhecer, sua própria companheira. Podemos ser considerados tiranos e insensíveis e, embora isso seja quase verdade, você precisa agir Damian, ou essa dor ficará pior, até não restar nada de você. - disse Gustave.
- Vá atrás da dela e pegue sua companheira e isso é uma ordem. - disse Maurício.
- Mas e quanto ao vampiro? - perguntou Damian, lembrando de sua missão inicial.
- Leve-a com você para pegá-lo. Ela será uma grande ajuda, vai facilitar seu trabalho. - disse Alicia, o fazendo rir ao vê-la voltar a ser a velha vampira que desejava os melhores ao seu lado e a defendendo, antes de assentir e se despedir de todos.
Mas, apesar das ordens e do desejo em seu coração, sabia que precisava inverter suas missões. Não se sentiria ele mesmo se não acabasse com o vampiro que estava prejudicando sua gente primeiro. Beatrice não podia ser sua prioridade naquele momento, não se quisesse mostrar que ainda era capaz de agir e cumprir com seus deveres.
Apesar do desejo de ser um bom soldado e fazer seu trabalho o mais rápido possível, antes de ir atrás de sua companheira, Damian teve o destino do seu lado, disposto a fazê-lo ver o caminho certo, ou neste caso, andar pelo caminho certo.
Assim que colocou os pés em Seattle, foi atingido por uma nova dor, que o fez se inclinar, segurando o peito, sem forças para continuar andando naquele momento, chocado com a força e sua falta de controle, que só serviu para impedi-lo de cair.
- Você esta bem? - perguntou uma voz feminina, e estranhamente familiar, que Damian não tinha sido capaz de esquecer.
Damian então tentou se erguer, mas ao colocar os olhos na mulher a sua frente, desistiu de ser forte. Era ela. Beatrice estava bem na sua frente, preocupada com ele, aparentemente. Ela parecia mais bonita desde a última, e primeira vez, que tinha colocado os olhos nela.
Entre a dor e a súbita admiração, Damian ficou sem palavras.
Beatrice estava pronta para voltar para casa quando viu aquele homem quase cair na rua, parecendo com muita dor, não havia qualquer possibilidade de simplesmente seguir em frente sem oferecer ajuda. Mas quando seus olhos se encontraram, ela sentiu a conexão e o reconheceu de imediato.
Ele era o vampiro que não parou de encará-la enquanto esteve naquela mansão dos vampiros. Ela se lembrava dele, não podia esquecê-lo, não quando aparecia com muita frequência em seus sonhos, às vezes inocente, às vezes não.
- Você não está bem. - disse ela, dispersando as imagens indecentes de seus sonhos, ao perceber que o homem estava sem palavras, a encarando, por mais que tentasse se erguer.
Foi então que, apesar do receio, se viu pegando sua mão e o puxando. Ele se deixou levar, parecendo ainda mais chocado.
- Vamos, tenho certeza que vai se sentir melhor sentado. - disse Beatrice, ao chegarem ao carro dela. Ela abriu a porta do carona e fez sinal para que ele entrasse.
- Por que quer me ajudar? - perguntou Damian, finalmente encontrando sua voz.
- Sou boa demais para ser confundida com uma idiota… Não achei certo seguir em frente, vendo alguém precisando de ajuda.
Ela piscou, arrancando um sorriso sincero do vampiro.
Damian quase não acreditava no que estava vendo. A dor foi desaparecendo a cada segundo que estava em frente a Beatrice, respirando seu cheiro doce, e precisava admitir a si mesmo que não conseguiria se afastar agora, nem se quisesse. Ele obviamente não queria.
- Então... o que o trouxe a Seattle? - perguntou Beatrice, agora sentada atrás do volante, ao lado de Damian.
Ele a encarou, pensando se deveria falar a verdade ou não. Apesar do que eram, do que se tornaram um para o outro, não sabia se queria envolvê-la naquele problema.
- Tenho uma missão aqui. Preciso eliminar um vampiro. - acabou respondendo, vendo o medo aparecer nos olhos verdes da humana.
- Ele é tão perigoso assim?
Damian pegou sua mão, admirado que ela sequer tremeu pela diferença de temperatura, assim como nenhum dos dois pareceu se sentir estranho com aquele contato.
- Apenas está causando problemas com os próprios vampiros. Não se preocupe Beatrice.
- Você pode me chamar de Trice.
Damian sorriu.
- Acho Beatrice muito melhor. É único.
Beatrice sorriu, e ele a viu corar pela primeira vez.
- Eu preciso ir para casa. Prefiro evitar chegar muito tarde, agora que sei o que está à espreita na escuridão. - disse ela, depois de um silêncio confortável entre eles.
Damian hesitou, mas sabia que precisava tentar. Ele estava ali para isso também, afinal de contas.
- Quer que eu vá com você até sua cidade? Por segurança, contra vampiros que estão na escuridão. - ofereceu, vendo a surpresa no olhar da humana.
- Por que você faria algo assim?
- Porque eu quero.
- Damian... Você está aqui para saber se eu realmente vou me tornar uma vampira?
Damian rosnou, não conseguindo segurar sua raiva ao vê-la duvidar dele.
E antes que ela fugisse, a puxou de volta para dentro do carro.
- Eu não preciso mentir. Se estivesse aqui para ter certeza que aqueles idiotas vão cumprir a parte deles, eu diria. Não sou aqueles...
- Está bem! Eu acredito em você.
Ela o deteve antes que ofendesse ainda mais os vampiros, que apesar de tudo, fizeram parte de sua vida em algum momento.
- Vai me deixar acompanhá-la então?
Beatrice suspirou, mas não disse nada, apenas colocou o cinto de segurança, ligou o carro e seguiu de volta para casa.
A viagem inteira foi feita com ambos em silêncio, apenas com o som da música que a jovem ligou.
Ao estacionar atrás do carro de seu pai, Damian enfim voltou a ouvir a voz de sua companheira.
- Sou muito estúpida por estar mostrando onde eu moro? - disse ela, o fazendo rir.
- Eu sou um vampiro querida, capaz de rastrear quem eu quiser, Beatrice. Não faria diferença. - respondeu, ainda sorrindo, confiante.
- Você consegue usar seu poder em mim? Pensei que não funcionasse. Aqueles outros que tentaram…
- Eu não sou como eles.
- Você tentou?
Damian iria responder, até perceber que não havia tentado. Beatrice sorriu com seu silêncio.
- Tenho que entrar. Obrigada por ter vindo comigo até aqui, quando não precisava. - disse ela e ele assentiu.
Os dois saíram do carro e depois de se despedir, Damian tentou se afastar dela, apenas para ser atingido por uma dor, como se estivessem tentando arrancar seu coração morto do peito.
Ele tentou não demonstrar e seguir em frente, mas já tinha entendido que Beatrice Flowers era observadora demais, para o próprio bem.
- O que está acontecendo com você?! - disse chocada, indo até ele e o segurando. Damian percebeu que não conseguia se afastar de suas mãos.
- Eu não consigo ir embora. Não consigo! - confessou Damian, derrotado, sentindo algo escorrer de seus olhos.
Ao vê-la estender a mão e limpar seu rosto, percebeu que pela primeira vez em toda sua eternidade estava chorando.
Ela suspirou, parecendo lutar contra sua consciência.
- Me deixe na floresta. - pediu ele, ao vê-la tentar movê-lo.
Determinada, ela assentiu, mas o surpreendeu ao começar a guiá-lo para sua casa.
- Beatrice, não. Você não me quer dentro da sua casa.
- Quem decide isso sou eu e você vem comigo.