Acordei com o som metálico do relógio da cozinha. Cada tique-taque parecia martelar meu cérebro, lembrando-me de que estava em casa alheia e, portanto, obrigada a me adaptar aos costumes deles. O primeiro dia completo na casa da minha melhor amiga havia começado e, com ele, minha imersão em um mundo de normas que eu não havia pedido.
- Virginia - a voz de Octavio ecoou da sala, grave e firme. - Está na hora do café da manhã.
Não havia nenhum traço da cordialidade que se esperaria de um irmão mais velho. O tom dele era direto, implacável, uma mistura de autoridade e advertência. Suspirei, tentando ignorar o arrepio de desconforto que percorria minhas costas.
- Já vou - respondi, tentando soar despreocupada, embora soubesse que ele não se deixava enganar facilmente.
Ao entrar na cozinha, o vi de pé, braços cruzados, inspecionando a mesa como se estivesse avaliando meu respeito às regras da casa. Cada movimento dele parecia medido, calculado. E eu, ao mesmo tempo, sentia a pressão de ser observada, avaliada, julgada.
- Sente-se - ordenou. - Café da manhã às 7:00 em ponto. Nem antes, nem depois. Ninguém interrompe esse horário. Está claro?
Suspirei novamente. Regras. Normas. Ordem absoluta. Meu primeiro impulso foi revirar os olhos e pensar no absurdo daquilo. Mas sabia que qualquer gesto de desdém seria registrado e criticado. Parte de mim queria me rebelar, desafiá-lo só para ver se era realmente tão inflexível quanto aparentava.
Durante o café, a conversa foi mínima. Octavio falava apenas quando necessário, e cada palavra carregava um peso inesperado, como se cada sílaba fosse uma prova da minha obediência. Tentei me concentrar na xícara de café, no pão torrado, em qualquer coisa que não fosse ele. Mas não consegui. Cada movimento seu era impossível de ignorar: o jeito seguro com que se movia, como seus olhos pousavam sobre mim com precisão, a autoridade que parecia emanar de cada músculo.
- Vai para a universidade hoje? - perguntou, sem levantar os olhos.
- Sim, às oito - respondi, tentando manter o controle do meu tom.
- Lembre-se de que suas responsabilidades aqui não terminam com as aulas. Esta casa exige disciplina. Ordem. Respeito - o olhar dele cravou-se em mim como um raio, e por um instante senti um arrepio na espinha. - E espero que cumpra com ambas as coisas.
Não consegui evitar que meu sangue fervesse. Desde quando alguém tinha o direito de controlar cada aspecto da minha vida? Tentei engolir a raiva, mas era impossível. Cada palavra dele era um convite ao desafio, e minha rebeldia não demorou a se manifestar.
- Você realmente precisa me lembrar disso a cada cinco minutos? - soltei, incapaz de conter-me. - Não sou uma criança perdida dentro de casa. Sei me comportar.
Ele arqueou uma sobrancelha, imperturbável. Não houve reação imediata, apenas um silêncio que pesava mais do que qualquer repreensão verbal. Cada segundo sob aquele olhar era um desafio mudo. Senti uma mistura de frustração e um estranho formigamento de adrenalina. Era irritante e, ao mesmo tempo, impossível de ignorar.
- Você e eu veremos como lidar com disciplina - disse finalmente, a voz mais baixa, quase um murmúrio, mas com um peso que me fez estremecer.
Saí da cozinha com o coração disparado. Nem consegui comer. Tentei me concentrar nos preparativos para a universidade, nos livros, na roupa, mas era inútil. Cada pensamento me levava de volta a ele, ao olhar dele, à tensão entre nós. Eu estava presa entre a necessidade de afirmar minha independência e o reconhecimento silencioso de que Octavio era alguém impossível de ignorar.
Quando cheguei à universidade, o segundo choque me aguardava. Assim que entrei no ginásio, o vi diante de um grupo de alunos, com um apito pendurado no pescoço, postura perfeita, ar imponente. Sua presença era inconfundível: não era apenas o homem com quem eu dividia o teto, mas também o treinador que supervisionaria cada um dos meus movimentos, cada exercício, cada erro.
Um arrepio percorreu minhas costas. O medo e o desafio se misturavam com algo mais: atração, irritação, curiosidade. Cada fibra do meu corpo parecia consciente de que estávamos prestes a entrar em um jogo que nenhum de nós poderia controlar.
- Virginia, aí está você - disse, com aquela autoridade que fazia tudo ao redor parecer rígido e ordenado. - Espero que esteja pronta para cumprir as regras, tanto aqui quanto em casa.
A tensão me queimava, e meu instinto de rebelião disparou. Não podia, nem queria, me deixar dobrar. Mordi o lábio, respirei fundo e respondi:
- Não vou deixar que me controle. Tudo tem um limite - minha voz soava mais firme do que eu me sentia, mas eu estava decidida.
Ele me olhou, arqueando a sobrancelha de novo, avaliando cada nuance do meu desafio. Um sorriso mínimo surgiu em seus lábios, quase imperceptível, mas suficiente para me arrepiar com uma mistura de medo e desejo.
- Veremos - murmurou, antes de se virar para os outros. - Agora, todos para o ginásio. Vamos começar o treino.
Cada passo até a quadra era um lembrete de que eu não poderia escapar da influência dele. O controle de Octavio estava em todos os lugares: em casa, na universidade, em cada olhar, em cada ordem silenciosa. E, ainda assim, uma parte de mim se negava a ceder.
Enquanto me posicionava na linha de início, senti sua presença atrás de mim, uma sombra dominante que me observava, avaliava, desafiava. Não havia palavras entre nós, mas a tensão era palpável. O fogo que eu havia sentido em casa agora ardia com intensidade renovada: desafio contra autoridade, desejo reprimido, curiosidade perigosa.
Prometi a mim mesma não me deixar dobrar. Prometi lutar contra cada ordem, cada olhar, cada toque de poder que Octavio exercia sobre mim. Porque, embora me aterrorizasse, embora me fizesse sentir vulnerável, havia algo nele que me atraía de forma irracional. E eu estava disposta a enfrentar aquela tempestade... mesmo que isso significasse que cada dia seria um campo de batalha.
O dia terminou com meu coração acelerado, a adrenalina ainda correndo em minhas veias. Não consegui descansar nem um minuto sob a pressão sufocante dele e não queria desencadear um conflito maior.
Enquanto caminhava de volta para casa, respirando o ar fresco da tarde, repeti para mim mesma: não vou me deixar dominar. Nem por ele, nem por ninguém. E, ao mesmo tempo, tentarei manter a convivência tranquila, evitarei cruzar olhares com ele.
Eu não me dobraria... mas estava em suas mãos. O desafio com Octavio estava apenas começando.
O cheiro de álcool e a música retumbante me atingiram assim que entrei na festa universitária. O quarto estava cheio de luzes piscantes, risadas e conversas que se misturavam em um caos inebriante. Eu só queria relaxar depois dos primeiros dias sob o teto de Octavio, deixar que a cidade me engolisse um pouco, nem que fosse por algumas horas.
- Virginia! - gritou uma amiga, erguendo um copo no alto. - Calma, esta noite é para curtir!
Peguei o copo com um sorriso forçado, desejando que ninguém percebesse o quanto eu precisava escapar da tensão que Octavio impunha na minha vida diária. Cada gole de cerveja queimava minha garganta, e a música vibrava pelo meu peito, me desorientando e, de certa forma, me libertando.
Não lembro quando comecei a perder o controle. A sensação de tontura foi gradual, até que o mundo ficou turvo, e cada risada parecia um som distante. Foi então que o vi: um garoto que eu não conhecia, se aproximando demais, rápido demais.
- Ei... quer dançar comigo? - disse ele, com um sorriso que tentava ser simpático, mas que me deixou em alerta.
- Não... - tentei recuar, mas ele insistiu, colocando a mão na minha cintura.
Um arrepio de desconforto percorreu meu corpo. Tentei afastá-lo, mas meu equilíbrio traiçoeiro não ajudava. Senti que ia cair e, a cada tentativa de me soltar, ele se aproximava mais.
E então eu o vi.
Octavio.
Estava parado ao lado da porta, sua expressão séria e os olhos ardendo de uma raiva que gelou meu sangue. Antes que eu pudesse reagir, ele se aproximou com passos longos e firmes. Não disse nada. Não precisava de palavras. Com um movimento rápido, afastou o garoto de mim, com uma força que me fez prender a respiração.
- Afaste-se dela! - sua voz era rouca e desafiadora, como se tivesse direitos sobre mim, e o garoto recuou, tremendo.
O controle dele sobre a situação era absoluto. Cada gesto, cada músculo tenso, me dizia que não havia lugar onde eu pudesse escapar da sua autoridade... e ainda assim, me senti estranhamente segura. Um tremor percorreu meu corpo, mistura de medo e algo que eu não conseguia definir.
- Obrigada... - murmurei, incapaz de encará-lo diretamente.
- Não volte a se colocar em perigo - disse ele, com aquela voz baixa e grave que me fez estremecer. - Vamos para casa.
Não protestei. Não podia. A segurança que senti sob seus cuidados anulava qualquer impulso de rebeldia. Enquanto caminhávamos até a porta, apoiando-me levemente nele, percebi que o odiava e precisava dele ao mesmo tempo. Odiava que controlasse cada aspecto da minha vida, mas o alívio da sua proteção me fez sentir vulnerável de uma forma estranha e nova. Admito: gostei.
O caminho de volta para casa foi silencioso, exceto pela minha respiração acelerada e o som dos nossos passos na calçada molhada pela leve chuva noturna. Eu me sentia estranha: agradecida, frustrada, assustada, mas também... curiosamente excitada. A confusão de emoções me fez virar a cabeça para olhá-lo, e ele, como sempre, parecia inabalável.
Ao chegar em casa, ele me deixou na sala e foi para a cozinha sem dizer uma palavra. Minha mente tentava processar o que havia acabado de acontecer: a mistura de medo, gratidão e algo que eu não entendia totalmente. Eu não podia negar a tensão que havia se acendido entre nós, nem o estranho tremor que senti estando sob sua proteção.
- Você está bem? - perguntou finalmente, voltando-se para mim com um olhar que tentava ser neutro, mas que falhava em esconder a preocupação.
- Sim... - respondi, com a voz trêmula, embora tentasse soar firme.
E então aconteceu algo que eu nunca teria esperado. Num movimento natural, como se a preocupação o tivesse feito baixar a guarda, ele tirou a jaqueta. Meu olhar desviou-se involuntariamente para o seu torso e senti um arrepio ao notar as cicatrizes que cortavam sua pele. Marcas de um passado doloroso, um acidente que agora ganhava forma diante dos meus olhos.
Eu o vi vulnerável. Não o homem frio e dominante que me fazia arder de frustração e desejo, mas alguém que havia sofrido, que carregava feridas invisíveis e visíveis. Meu coração se apertou, e uma mistura de emoções me atingiu com força: compaixão, curiosidade, medo e algo mais profundo que eu não sabia nomear.
- Octavio... - minha voz falhou um pouco, surpresa pela intensidade do momento.
Ele se enrijeceu, consciente de que eu o havia observado por tempo demais. Sua expressão voltou a se endurecer, e por um instante, o homem dominante retornou, apagando qualquer indício de vulnerabilidade.
- Não me olhe - disse, firme, embora sua respiração estivesse mais lenta que o normal, como se controlar cada emoção lhe custasse um enorme esforço.
Encolhi os ombros, com medo de que Mariana tivesse escutado, mas não. Ela estava no seu mundo...
Mordi o lábio, tentando processar tudo o que havia sentido nas últimas horas. A atração e a frustração, a gratidão e o medo, se misturavam em um turbilhão que eu não conseguia controlar. A vulnerabilidade dele me havia atingido de uma forma inesperada, despertando algo em mim que eu não podia ignorar.
E enquanto eu ficava ali, observando-o, entendi que o que no início me irritava nele, agora me atraía. Seu controle, sua força e seu passado doloroso não só me incomodavam, mas também me fascinavam. Eu estava perigosamente envolvida.
Enquanto ele se aproximava para se certificar de que eu já estava estável, o vi baixar o olhar para o torso novamente, e por um segundo, seus olhos, que normalmente me queimavam com frieza, se encheram de algo que eu nunca tinha visto antes: fragilidade. Eu quis saber mais da sua história, consolá-lo e descobrir o motivo de tanta hostilidade.