Eu era uma adolescente. E nenhuma expectativa de ser alguém importante na vida. Morava no meio do nada e nunca tive direito a escolhas. Meus pais mandavam e eu obedecia.
Vi Marco pela primeira vez na manhã de Natal, durante a missa da cidade. Me chamou a atenção a postura dele e a roupa, diferente dos garotos dali. Eu cantaria a música principal da celebração, acompanhada do coral. Estava envergonhada e nervosa. Mas foquei nele, que estava junto da família num dos últimos bancos. Ele sorriu para mim e piscou. Aquilo me deu uma segurança que jamais imaginei ter.
A surpresa foi tê-lo reencontrado na escola que eu faria o Ensino Médio. Nossos olhos se encontraram e eu soube que ele seria o meu amor para sempre.
Já no primeiro dia de aula começamos a conversar e passarmos o tempo todo juntos. E depois daquilo nunca mais nos separamos. E todos os dias, quando acabava a aula, ele me levava até próximo de casa, em segurança. E no caminho subíamos o morro e nos beijávamos e fazíamos juras de amor. E eu achei que seria para sempre, porque o que sentia por Marco jamais seria capaz de sentir por outra pessoa novamente.
- Vamos, escolha um ponto de encontro. – Ele me pediu de forma séria, com os dedos alisando meu queixo.
- Eu... Não sei. – Eu não acreditava que haveria um encontro novamente entre nós dois.
- Qualquer lugar no mundo! Diga e eu estarei lá.
Suspirei e proferi, sorrindo:
- Taj Mahal.
Os olhos dele se estreitaram e depois deu um sorriso questionador:
- Por que o Taj Mahal?
- Porque é a única maravilha do mundo moderno que você ainda não conhece. Então... Se tudo der certo, nos encontraremos um dia no Taj Mahal, onde visitaremos o lugar juntos, eu e você. – Sorri, em meio às lágrimas, sabendo o quanto aquilo era loucura.
- Você é incrível, minha garota! – Ele beijou meus lábios – Estarei no Taj Mahal.
- Quando?
- Eu... Não tenho ideia de quando será! – Ele meneou a cabeça, rindo.
- Muita coisa teria que dar errado para nos encontrarmos lá... Como... Os seus e-mails nunca chegarem...
- Eu os mandarei e eles chegarão sim. - Garantiu
- Se não chegarem... Daqui há dois anos você vai ter 18... Então... Poderá fazer suas escolhas... E vir me buscar... Caso queira. – Sugeri, envergonhada, temendo que ele achasse que eu fosse uma garota desmiolada.
- Eu virei.
- E... Se você conhecer alguém neste meio tempo?
- Você será meu único e eterno amor, garota dos cabelos de fogo.
Eu ri:
- Você... Ainda lembra o meu nome? Porque sempre me chama de... Garota dos cabelos de fogo.
- Lembro seu nome, sobrenome, número do seu armário, da sua roupa, do seu pé. Sei até que os fios dos seus cabelos medem 45 centímetros. E que nos conhecemos no dia 25 de dezembro do ano passado, na igreja. Você cantava no coral e usava uma roupa bem esquisita.
Começamos a rir de novo. Marco retirou um embrulho da mochila e me entregou:
- Eu comprei para você.
- Um presente?
- Sim. Espero que goste.
Abri o embrulho amassado e dentro havia uma echarpe branca com minúsculas flores azuis.
- É... A coisa mais linda que alguém já me deu! – Confessei.
- Amo você, minha garota. E amarei para sempre.
- Quando você irá partir?
Ele respondeu de forma hesitante:
- Amanhã.
- Amanhã? Mas... Você sabia disto antes? Por que... Só me disse agora?
- Eu não sabia antes, juro. Como disse, minha vida sempre foi assim. Um dia aqui, outro acolá. É por conta do trabalho do meu pai... E dos desejos de minha mãe. Às vezes me sinto como um andarilho.
- Andarilhos não correm o mundo nos lugares mais lindos! – observei – Vocês... São pessoas de sorte!
- Não, não somos! – ele franziu a testa – Nunca, em toda a minha vida, eu quis tanto ficar num lugar. E foi por você... Meu amor!
- Eu... Sou o seu amor? – Minha voz mal saiu.
- Por toda eternidade.
O abracei com força:
- Veremos o pôr do sol juntos – garanti – E também o nascer dele... Aqui... Hoje.
Marco afastou me encarou:
- Mas...
Limpei as lágrimas e disse, num tom corajoso:
- Quero que me faça sua... Desejo ser a sua mulher – falei com toda certeza – Não importa que não nos encontremos nunca mais, que o destino nos afaste para sempre. Ainda assim quero ter na memória a minha primeira vez... Com você.
Marco pôs para tocar novamente a nossa música: La Solitudine. E ali, no alto do morro, sob o sol do final da tarde, me fez mulher. Eu não tive medo. Pelo contrário, sabia que ele jamais faria qualquer coisa que pudesse me machucar.
Fizemos amor até o dia amanhecer, tendo como testemunhas o sol e a lua, o pôr e o nascer do sol, que tanto sonhamos um dia ver dali, juntos.
Eu sabia que jamais me arrependeria de minha decisão. O único lamento daquele nosso encontro foi que o tempo passou depressa demais e acabou.
A jaqueta masculina ainda cobria minhas costas quando eu estava sentada com os joelhos para cima, escorando meu queixo par apoiar a cabeça enquanto observava o Rio da Solidão, cercado de pinheiros por toda a margem. Era ali o lugar onde os jovens se reuniam nos finais de tarde. Eu nunca fui. Sempre me senti diferente dos demais. E parecia que a vida inteira fiquei a esperar por aquele garoto que estava ao meu lado.
- Machuquei você? – Ele perguntou pela décima vez eu acho.
- Não! – Garanti novamente.
- Foi... A minha primeira vez também. – Falou, sem jeito.
O encarei:
- Mas... Você pareceu tão... Seguro. E... Saber tudo. – Fiquei surpresa.
- Era para ser você, minha garota dos cabelos de fogo – sorriu e alisou meus fios vermelhos – Encrenquei você, não é mesmo? Seus pais devem estar procurando-a neste momento.
Levantei assustada, lembrando que eu tinha uma família. E que certamente minha mãe e meu pai já tinham acionado até o xerife local atrás de mim.
- Preciso ir!
Eu já tinha feito loucura o bastante em ter passado a noite ali e não ter avisado nada. E embora tivesse medo de aparecer em casa àquela hora, sabia que mais cedo ou mais tarde teria que enfrentar meus pais e que não seria nada fácil.
Peguei a echarpe e fui descendo o morro.
- Ei, espere! – Marco veio atrás de mim.
Segui praticamente correndo, desesperada. Marco partiria de Solidão para sempre, mas eu não. Teria que ficar e enfrentar a minha família. E não haveria desculpa para ter passado a noite fora.
Ele me alcançou, pegando-me pelo braço:
- Não pode partir assim!
- Você partirá... Não eu. E este é o problema. Vou ficar... E precisarei justificar esta noite que passei fora pelo resto da minha vida.
- E o nosso encontro. – Ele perguntou.
- No Taj Mahal. – Eu ri daquela ideia louca, descendo novamente, com pressa.
- Quando? – Ele quis saber.
- Daqui há 25 anos – gritei – Vinte e cinco é nosso dia... Nos conhecemos no dia 25 e... Hoje é dia 25. – Lembrei imediatamente, olhando para trás enquanto ainda caminhava.
- Vinte e cinco anos é muito tempo. – Sua voz chegou até mim em forma de eco.
- Acredite, é pouco tempo para eu conseguir todo dinheiro que preciso para chegar na Índia. – Fui sincera – Nos encontraremos no Taj Mahal, daqui a há 25 anos.
- No dia 25 de dezembro – ele gritou – Pois estará fazendo 26 anos que nos conhecemos.
- Estarei lá... No Taj Mahal, daqui há 25 anos, no dia 25 de dezembro.
- Como a reconhecerei?
Levantei a echarpe, que voava com o vento:
- Estarei usando o presente que você me deu! – Temi já não ser mais ouvida.
- E eu estarei com o discman, ouvindo a nossa música. – A voz de Marco foi levada pelo vento, devido à nossa distância, mas não o suficiente para que eu não pudesse ouvir que ele estaria ouvindo a nossa música.
"Te imploro, Marco, me espere
Porque não posso viver a vida sem você."
Marco deixou a cidade, levando o ar que me fazia respirar e viver.
Mas naquela noite, sob as estrelas que testemunharam nosso amor e nossa despedida, fizemos algo bem maior que uma promessa.
E quando Marco partiu de Solidão, levou consigo três coisas: o Discman com nossa música, a certeza de que um dia nos encontraríamos novamente e o segredo que eu carregaria sozinha para sempre, nossa filha.
Cidade de Solidão, Noriah Sul, 2023.
POV TAYLA
Eu não vivia no País das Maravilhas, mas assim como Alice, todos os dias de manhã eu sempre pensava em seis coisas impossíveis:
- Voltar para Solidão
- Não ser filha da minha mãe
- Meu gato ter vidas infinitas
- Meu marido ter um pau enorme
- Meu filho só ter o meu DNA
- Deixar de odiar Ryan Palmer
Naquele dia, o universo conspirava contra mim e me trazia de volta ao lugar onde jurei nunca mais pôr os meus pés.
Quando parei meu carro diante do portão enferrujado do Rancho Palmer, olhei pelo retrovisor e vi Lewis dormindo no banco de trás, seus cílios longos projetando sombras sobre as maçãs do rosto cheia de sardas, herdadas de mim. Apertei o pequeno trevo que adornava minha gargantilha, como se fosse um pingente que pudesse me proteger do passado.
Olhei para Cheshire deitado preguiçosamente no banco da frente e perguntei:
- "Para onde devo ir"?
Cheshire levantou levemente a cabeça e me encarou, enquanto se espreguiçava sem pressa.
- "Depende de onde você quer chegar". É esta a parte que você fala, gato.
Cheshire me ignorou por completo e voltou a dormir.
- "Não me importa muito onde", digo eu... Então o gato responde: "Então não importa o caminho que você tome."
Suspirei e olhei para o letreiro debotado que dizia "Rancho Palmer" e meu coração doeu de uma forma que jamais imaginei que doeria novamente. Lembrava exatamente que quando parti, jurei nunca mais voltar. Mas a vida tinha um senso de humor perverso, assim como o Gato de Cheshire: "Quanto mais você corre do passado, mais ele te encontra de boca aberta, pronto para te devorar."
- Bem-vinda ao País das Mentiras, Taylice. – Falei para mim mesma.
Fiquei ali parada, dentro do carro, tentando encontrar coragem para abrir o portão.
Fechei os olhos e respirei fundo. Cada vez que eu fazia aquilo conseguia sentir o cheiro do ar puro do Rancho Palmer, mesmo quando eu estava bem distante dali. Eu amava a minha vida e sabia que qualquer coisa que mudasse no passado teria feito com que meu momento atual, que era maravilhoso, não existisse. Ainda assim aquele era o lugar que eu escolheria sempre como preferido no mundo, embora tenha sido onde meu coração foi partido em mil pedaços.
Toquei minha região pubiana e sorri. Eu ainda tinha a marca registrada que era o "nosso segredo", o momento mais louco e insano de nossas vidas. E se mil vezes pudesse voltar e nascer de novo, desejaria crescer ao lado dele, por mais dor que eu soubesse que me traria no futuro. Ryan me ensinou tudo que eu sabia. E graças a ele eu sofri de uma maneira inimaginável. Mas também tive forças para superar.
Eu não falava mais com Ryan, mas o via sempre na mídia, fosse em comerciais, programas de televisão e até como figurante em filmes. E se não bastasse vez ou outra em outdoors assim como estampado na lataria dos ônibus. A vida dele estava sempre em evidência e muitas vezes era eu a responsável por aquilo, quando o atacava através do meu podcast: "Alice no país dos prazeres".
Sim, o podcast mais assistido tinha como host a jovem caipira que saiu do interior depois de ter sido humilhada publicamente da pior maneira possível. E agora eu era uma mulher famosa, embora ninguém ali soubesse quem estava por trás da voz mais ouvida no país.
Ri ao lembrar do episódio daquela manhã, que era sobre o sonho de todo pau:
1. Conquistar o cool
2. Acordar com um belo chups de manhã cedo
3. Estar eternamente dentro da boceta e
4. Jorrar em seios grandes.
Aprendi aquilo tudo com ele e hoje ajudava milhões de mulheres a entenderem sobre sexo, dando as dicas práticas e interessantes.
Ironicamente eu falava o tempo todo em peitões, sendo que não os tinha. E sobre sexo, que eu não praticava, mesmo sendo casada e dormindo com meu marido todas as noites.
Meu sonho sempre foi ter peitos. Quando eu era adolescente não tinha dinheiro para botar. E agora que era adulta e tinha dinheiro faltava coragem, porque eu não lidava muito bem com a dor. Ah, a mulher que não lida muito bem com a dor tem uma tatuagem na região íntima, mais precisamente na parte do "capô" da vagina. E eu nunca saberia se doeu ou não. E tinha um filho, que nasceu de parto normal.
Ri lembrando daquela noite que fizemos a tatuagem... E das outras tantas histórias que eu tinha ao lado de Ryan. Era uma vida juntos, que eu levaria para sempre nos pensamentos.
Ryan era a pessoa que eu mais odiava no mundo. E também a que mais amei até conhecer Lewis, meu filho.
Nossa história começou quando nascemos, no mesmo mês, mais precisamente um setembro. Ele nasceu num dia de sol. Eu num dia de chuva, mas ambos na mesma semana. Nona dizia que nossos destinos estavam entrelaçados desde a barriga. E eu achava aquilo lindo e romântico. Até o dia que desejei nunca o ter conhecido.
O certo é que cada vez que eu fechava os olhos, a imagem dele vinha na minha mente. E não era do famoso Ryan Palmer, o modelo que as adolescentes e mulheres de todas as idades eram fãs. Eu lembrava do meu Ryan, aquele que me mostrou o mundo e me fez conhecer o amor... E depois a pior das dores.
Senti um frio percorrer minha espinha quando lembrei da ligação que recebi de Nona dias atrás.
- Como vai, minha menina?
- Bem, Nona! E feliz com a sua ligação. Está com as malas prontas? Lewis já está perguntando quando você virá.
- Eis o motivo da minha ligação, Tayla: eu não irei.
- Como assim não virá? – Fiquei surpresa com a revelação, já que Nona todos os verões vinha passar alguns dias na minha casa, alternando outros ao lado do neto, Ryan, que não tinha moradia fixa, pois passava a maior parte do tempo viajando a trabalho, já que atualmente era um dos modelos mais famosos do mundo.
- Neste verão vocês virão. Será incrível!
- Não, Nona! – eu ri – Sabe que isto é impossível.
- Por quê? Só porque prometeu que nunca mais pisaria os pés em Solidão?
- Isto não é suficiente? – Ri novamente, por dentro sentindo o amargor do motivo pelo qual tomei aquela decisão.
- Preciso que venha, Tayla. – Ela falou de forma séria.
- Aconteceu alguma coisa?
- Sim, aconteceu. Este será o nosso último verão.
Engoli em seco, sentindo como se o ar fosse tirado de mim. Eu tinha Nona Sans Palmer como uma mãe (ou uma avó, tanto faz). Eu gostava dela mais do que da minha própria mãe. A avó de Ryan praticamente me criou.
- Como assim, Nona?