Capítulo 2

Eu estava em completo choque, meu coração deve ter congelado por alguns segundos. Não é possível, ele só tem 7 anos, é uma criança, não pode passar por isso. Como não percebi antes, aquela preguiça, aqueles dias doentes para não ir à escola, achei que era invenção, devia ter levado a sério. Precisei me recompor, ainda tinha que contar, como dizer para o seu irmão que ele está com câncer? Caminhei até o quarto, e o vi tomando uma gelatina, devia ser de limão, pela cara dele. Sentei-me na cama, peguei na sua mãozinha, respirei fundo e abri a boca...

-Estou doente né - Acenei com a cabeça, ele continuou -Você só faz essa cara quando está com medo -eu estava petrificada.

Já escorrendo lágrimas nos meus olhos, abracei ele.

-Vai ficar tudo bem, o médico disse que crianças são mais resilientes, além disso você é meu irmão, quer dizer que é mais forte que a maioria das outras crianças – dei uma risada forçada.

Liguei para o nosso pai, não era uma má pessoa, era apenas um péssimo pai. Quando nossa mãe morreu, ele não aguentou, tive que cuidar dele e do meu irmão, mas depois de um tempo, quando foi melhorando, arrumou outra mulher e foi embora, até nos chamou para irmos junto, mas a gente sabia que queria ir sozinho. Carregar consigo dois lembretes diários do que perdeu é difícil. Mas eu já era maior de idade, e financeiramente nossa mãe tinha deixado um pouco de poupança, consegui terminar a faculdade e cuidar do John. Pelo menos até agora. 

Ele não atendeu, o que não era novidade, tive que enviar por mensagem e esperar. Resolvi chamar Anna, minha amiga da faculdade, ela me deu muita força quando perdi minha mãe. Estávamos um pouco afastadas por causa do trabalho, na verdade o meu trabalho, apesar de formada Anna casou cedo e largou a profissão, seu marido Paul era um empresário do ramo alimentício, tinha muita grana, era uma boa pessoa. Anna logo me atendeu e foi correndo para lá. Depois de me consolar, a deixei e segui para o escritório.

Meus planos era sair do escritório, queria ir para a promotoria, estar do outro lado, e futuramente ser juíza, mas isso foi alguns dias antes de me oferecerem o caso de Mark, não queria aceitar, meu chefe pediu para que pensasse, o caso era dele, mas queria abandonar para sair de férias, ele já foi o melhor advogado da cidade, mas hoje só queria aumentar sua conta bancária e viajar. Eu ganhava muito mais ali, sou boa no que eu faço, a melhor do escritório sem modéstia, mas nunca tinha pegado um caso de grande repercussão como esse. 

Mark nos procurou desesperado, pagaria qualquer valor para que o representássemos. Meu chefe pegou o caso sem pestanejar. Eu estava decidida a não aceitar, mas agora tudo mudou, tinha que aceitar, esse caso me daria outros, precisava muito de dinheiro. Meu cargo na promotoria vai ter que esperar. Estava em pedaços naquele dia, e além de aceitar tive que encarar os jornalistas do lado de fora, engoli o choro e segui para a primeira entrevista como advogada de Mark Costello.

Eu estava em todos os jornais, isso não enchia meu ego, ganhar um processo, igual aquele sim, era minha motivação. Meu chefe já tinha conseguido que Mark respondesse em liberdade até o julgamento, com tornozeleira eletrônica. Na semana seguinte seria a primeira audiência, não tinha cabeça mas tinha que me preparar, pensei em estudar o caso, mas preferi passar a primeira noite no hospital com John. No dia seguinte fui para casa, Anna trocou comigo mais uma vez, resolvi tomar um calmante e dormir um pouco, para quando acordar poder estudar o caso.

Acordei por volta de 13h com meu pai me ligando,  estava vindo com a esposa Melanie, eles moravam a apenas 1 hora dali e ficaria com o John no hospital, me surpreendi, mas fiquei aliviada, assim poderia me preparar para a audiência mais tranquila. Os médicos queriam fazer outros exames antes de começar os tratamento, ainda não sabia como iria dar conta de tudo, mas pensei em encarar uma coisa de cada vez.

Passei dias entre o escritório e o hospital, meu pai ficava mais tempo com John, Melanie teve que voltar para casa por causa do trabalho, disse que voltaria no final de semana. Anna me ligava todos os dias, só não ligava mais vezes, porque pedi a ela um tempo para poder trabalhar.

Estava impressionada com toda a rede criminosa de Mark, a família era bem antiga nesse ramo, tive vontade de largar tudo, era nojento. Tinha dois caminhos, pena de morte ou prisão perpétua, ele não queria morrer, para um crimonoso daquele tamanho, era bem covarde, mas óbivo que o plano era fugir da prisão depois. Mark era um senhor, de uns 60 anos, mal cuidava dos negócios devia ser o filho ou a esposa quem dava ordens, mas só pegaram ele. Descobri que estavam fazendo negócios com cartéis, isso ainda não havia chegado na mídia, acho que nem na promotoria.

Capítulo 3

Chegou o dia da primeira audiência, queria parecer bem, não poderia transparecer que não queria estar ali. Se soubessem do meu irmão, iriam questionar minha condição emocional, não poderia deixar isso prejudicar meu caso. Os capachos de Mark me buscaram em casa, ele estava no carro, apesar de tentar parecer ser um cara legal, eu não conseguia fingir simpatia, era apenas educada.

O Tribunal para mim era mais um dia normal, exceto pela quantidade de jornalistas, não falei com nenhum, já havia falado com eles algumas vezes, mas hoje não estava com vontade de fazer cena. Entrei na sala principal e estava cheia, imagino que alguns advogados, jornalistas credenciados, familiares dele e talvez das vítimas. Não fiquei reparando, fui direto para o meu lugar.

A audiência começou e fiquei admirando a imponência do Juiz no tribunal, era isso que eu queria. Logo meu pensamento foi interrompido pelas alegações da promotoria. Como assim um dos jurados havia sido intimidado? Nem havia começado o processo, como souberam quem eram os jurados, se nem os advogados sabiam antes. Olhei para o Mark, engoli seco. 

Chegou minha hora, me apresentei e comecei meu discurso do primeiro dia, mas tive que arrumar uma brecha para mais uma defesa. Se algum jurado foi intimidado, houve vazamento de informação do tribunal, solicitei que todas as pessoas que tiveram acesso a lista de jurados fossem re-avaliadas. Promotoria não apresentou objeção. Mark tinha muitos inimigos, poderia ser alguém tentando prejudicá-lo, como cidadão merece o benefício da dúvida, ele sabe que isso seria ruim. Foi o que aleguei. Consegui que permanecesse em prisão domiciliar, incomunicável.

Estava furiosa com Mark, fui pega de surpresa, e tive que ir conversar com ele. Segui-o até o banheiro e nem dei tempo dele se defender. Eu estava nervosa, era muita coisa na minha cabeça, ele era o chefe da máfia, poderia me matar ali mesmo, se não estivesse passando por tanto, aguardaria chegar até a casa dele, mas só pensei nisso depois que saí nervosa e esbarrei em um homem que entrava no banheiro, devia ser algum segurança dele, pois consegui sentir seu braço musculoso, olhei rapidamente, pedi desculpas e saí. Confesso que não foi minha atitude mais inteligente.

Fui direto para o hospital. Entrei no quarto e estava apenas meu pai, dei um abraço, apesar de não sermos tão próximos, eu estava precisando e acho que ele percebeu. Me direcionei para John, confirmei como ele estava se sentindo. Estava apenas ansioso, só tinha pouco mais de uma semana no hospital e já queria ir embora. O tratamento nem havia começado.

Dei um abraço e fiquei deitada com ele na cama, prometi que levaria jogos de mesa e passaria mais tempo com ele brincando. Não sei como iria cumprir isso, mas prometi do mesmo jeito. Fomos interrompidos pelos médicos.

Era uma equipe +/- ou cinco médicos. Cada um falava uma coisa. Ouvir eles falarem que o câncer estava se espalhando, todas as cirurgias, sessões de quimio e riscos que o John estava correndo, era como se eu saísse do meu corpo, só queria saber se ele iria ficar bem, mas tinha que saber como ajudá-lo a passar por aquilo, claramente não seria fácil.

 Combinei com meu pai que ele poderia ficar em casa, eu iria arcar com as despesas médicas, pois o seguro não cobria muito, e meu pai não tinha muito dinheiro. Mas ele teria que estar com o John, quando eu não pudesse. O caso tomava muito do meu tempo, mas era isso que pagaria as contas.

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