O mundo era uma névoa de paredes brancas e cheiro de antisséptico. A dor, aguda e insistente, irradiava das minhas costelas e da minha cabeça. Eu estava em um hospital. De novo.
Através da névoa, ouvi vozes do lado de fora da minha porta.
"O médico disse que são apenas algumas costelas trincadas e uma concussão. Ela vai ficar bem", a voz de Fernando estava tensa de irritação. "Sinceramente, ela só está fazendo cena."
"Ela precisa aprender a lição, Nando", a voz de Caio era mais fria. "É isso que acontece quando ela não escuta."
Meus olhos se abriram quando um médico entrou no quarto. Era um homem mais velho, com olhos gentis que agora estavam cheios de uma pena profunda e perturbada.
"Senhorita Almeida", disse ele suavemente. "Sou o Dr. Esteves."
Ele olhou para a porta, onde Caio e Fernando estavam agora. "Posso ter uma palavra com a família dela? A sós?"
O maxilar de Caio se contraiu. "Nós somos a família dela. O que quer que você tenha a dizer, pode dizer para nós."
Dr. Esteves hesitou, depois suspirou. "Muito bem. Seus ferimentos da queda são leves. Mas... meu exame revelou outra coisa. Algo muito mais sério."
Ele ergueu um conjunto de exames contra a luz. "Senhorita Almeida, você tem câncer de pulmão avançado. Houve metástase. É terminal."
As palavras pairaram no ar, pesadas e irreais.
Terminal.
Senti um estranho distanciamento, uma calma fria se instalando sobre mim. Era como se ele estivesse falando de outra pessoa.
Caio zombou. "Câncer? Não seja ridículo. Ela só está tentando chamar atenção. Outro dos joguinhos dela."
Fernando assentiu em concordância. "Ela sempre foi dramática."
Uma parte minúscula e tola do meu coração tinha esperança. Esperava que essa notícia, essa tragédia inegável, rompesse sua fúria justiceira. Que eu veria um lampejo do irmão, do noivo, que eu costumava conhecer.
Observei seus rostos, procurando por qualquer sinal de remorso, de amor.
Não havia nada. Apenas desprezo gelado.
Nesse momento, o telefone de Caio tocou. Ele atendeu, seu tom mudando instantaneamente de áspero para terno.
"Helô? O que foi? Você está bem?"
Ele ouviu por um momento. "Estou a caminho. Não se preocupe, chego aí num instante."
Ele desligou e se virou para Fernando. "A Heloísa está com medo. Ela precisa de mim."
Ele começou a ir para a porta sem sequer olhar para trás.
"Espere", disse o Dr. Esteves, dando um passo à frente. "Senhor Sampaio, isso é sério. Precisamos discutir opções de tratamento, cuidados paliativos..."
"Dê a ela alguns analgésicos", disse Caio por cima do ombro. "Nando, fique aqui. Certifique-se de que ela não cause mais problemas."
E então ele se foi.
Fernando ficou perto da porta, de braços cruzados, sua expressão impaciente.
Dr. Esteves se virou para mim, seu rosto cheio de uma tristeza impotente. "Senhorita Almeida, podemos começar a quimioterapia para controlar a dor, talvez ganhar um pouco mais de tempo..."
"Tempo para quê?", perguntei, minha voz um sussurro.
"Para contar a eles", ele insistiu gentilmente. "Você precisa contar a eles. Fazê-los entender."
Uma risada amarga escapou da minha garganta. "Entender o quê? Eles não se importariam se eu estivesse morrendo no chão na frente deles."
Minha última brasa de esperança foi extinta pela partida apressada de Caio para confortar a garota que havia roubado minha vida.
"Eles nunca vão acreditar em mim", eu disse, minha voz vazia. "Não importa mais."
Dr. Esteves parecia querer argumentar, mas viu a finalidade em meus olhos. Ele me deixou com uma receita de analgésicos e um olhar de profunda simpatia.
Os dias que se seguiram foram um borrão de dor. A dor nos meus ossos se aguçou, e respirar se tornou um esforço monumental. Os comprimidos mal tocavam as bordas da agonia.
Uma semana depois, Fernando ligou. Ele não perguntou como eu estava.
"Caio disse que você já teve sua semana. Saia do hospital e volte para a mansão. Há trabalho a ser feito."
A mensagem era clara. Minha penitência não havia acabado. Meu sofrimento era um inconveniente para eles.
Tudo bem.
Uma nova e sombria determinação se solidificou dentro de mim. Se eles me queriam de volta, eu voltaria. Eu os deixaria ver as consequências de sua "lição".
Dei alta a mim mesma do hospital, contra os protestos frenéticos do médico. Peguei a receita para um mês dos opioides mais fortes que eles me dariam e peguei um táxi de volta para a gaiola de ouro que Caio chamava de lar.
O mordomo, um homem leal apenas a Caio, me parou na porta.
"Ordens do Sr. Sampaio. Você deve ser desinfetada antes de entrar. Você esteve em um hospital. Não podemos arriscar trazer germes."
Duas empregadas, com rostos impassíveis, me levaram a um grande banheiro perto da garagem. Elas encheram uma banheira com um líquido de cheiro forte e químico.
"Entre", uma delas ordenou.
Eu estava fraca demais para lutar. Mergulhei na solução ardente. Os produtos químicos atingiram os cortes não cicatrizados em meus braços e pernas, uma nova onda de fogo. A água ao meu redor começou a florescer em vermelho enquanto minhas feridas se reabriam.
As empregadas ofegaram, suas máscaras profissionais se quebrando por um momento de horror.
Nesse momento, Caio e Fernando entraram. Os olhos de Caio pousaram no sangue na água e, por uma fração de segundo, vi algo piscar em seu rosto. Choque? Preocupação?
Mas então Fernando colocou a mão em seu braço.
"Não se esqueça do plano, Caio", ele murmurou, sua voz baixa. "Não deixe ela te enganar."
O rosto de Caio endureceu novamente, o breve momento de humanidade se foi. Ele me deu as costas.
"Certifiquem-se de que ela esteja limpa", ele ordenou às empregadas, sua voz desprovida de toda emoção. "Depois, levem-na para o quarto dela."
Observei o homem com quem eu deveria me casar me deixar sangrando em uma banheira de desinfetante, de costas para mim.
Uma risada pequena e quebrada escapou dos meus lábios.
Ele estava preocupado com germes. Que irônico.
Eles me deixaram no banho químico pelo que pareceram horas. Quando as empregadas finalmente me tiraram, minha pele estava em carne viva e inflamada. Elas me arrastaram, pingando e tremendo, para o pequeno e simples quarto no sótão que fora minha prisão por três anos.
Desabei no colchão fino, cada osso gritando em protesto. A dor era uma coisa viva, um fogo que me consumia por dentro. Mas por baixo dela, uma clareza fria se instalava.
Eu ia morrer. Em breve.
E eu morreria nos meus próprios termos.
Passei o dia seguinte juntando as poucas coisas que eram minhas. Fotos antigas de antes do coma, uma flor prensada que Caio me dera em nosso primeiro encontro, cartas dos meus pais de uma época em que eles ainda me amavam.
Eu queria deixar este mundo limpa, sem laços com essas pessoas.
Levei a pequena caixa de memórias para a lareira na biblioteca principal, um cômodo que eu geralmente era proibida de entrar. Acendi um fósforo e o joguei dentro.
As chamas lamberam as bordas das fotografias, transformando meu rosto sorridente em cinzas. O fogo consumiu meu passado, meu amor, minha vida. Era uma pira funerária para a garota que eu costumava ser.
"O que você pensa que está fazendo?"
A voz, afiada e venenosa, cortou o crepitar do fogo. Heloísa estava na porta, de braços cruzados, um sorriso de escárnio em seu rosto bonito.
Não respondi, apenas observei a última de minhas memórias queimar.
Ela caminhou até mim, seus olhos brilhando com malícia. "Tentando chamar atenção de novo? Você é patética. Queimar algumas fotos velhas não vai fazer o Caio te amar de novo."
Ela chutou o braseiro. Ele tombou, espalhando brasas pelo caro tapete persa. Uma pequena chama se acendeu e começou a se espalhar com uma velocidade alarmante.
"Não!" Eu me levantei de um salto, tentando apagar o fogo com um cobertor.
Heloísa agarrou meu braço, suas unhas cravando na minha pele. "Deixe queimar! Deixe tudo que era seu virar cinza!"
A fumaça encheu a sala, espessa e acre. Meus pulmões, já tão fracos, se contraíram. Tossi, um som profundo e ruidoso que rasgou meu peito.
"Socorro!", engasguei, minha visão embaçando.
Heloísa apenas riu, um som agudo e desequilibrado. "Grite o quanto quiser. Ninguém vai te ajudar. Eles só vão pensar que você está tentando incendiar a casa. Mais um pecado para a sua lista."
Nesse momento, Caio e Fernando invadiram a sala.
"Heloísa!", Caio gritou, correndo para o lado dela, ignorando as chamas e meus suspiros desesperados por ar. "Você está bem?"
"Caio!", ela chorou, jogando-se em seus braços. "A Elisa... ela tentou me matar! Ela incendiou a sala!"
Tentei falar, negar, mas tudo que saiu foi uma tosse sibilante. Caí de joelhos, o mundo girando.
Os olhos de Caio, quando finalmente se voltaram para mim, eram glaciais. "Você nunca aprende, não é?", ele rosnou. "Você é uma doença, um câncer nesta família."
A ironia de suas palavras foi um golpe físico.
Ele se virou para os empregados da casa que se reuniram na porta. "Levem-na para a sauna. Liguem no máximo. É hora de ela sentir um pouco de calor de verdade."
Dois homens agarraram meus braços, me arrastando para fora da sala enfumaçada. Eu estava fraca demais para resistir.
Eles me jogaram na pequena sauna de painéis de madeira no porão. A porta bateu, e um momento depois, ouvi o silvo do vapor e senti a temperatura começar a subir.
O calor era sufocante. Pressionava-me, roubando o ar dos meus pulmões. O suor escorria pelo meu corpo, ardendo na minha pele em carne viva.
Bati na porta, minha voz um grito rouco. "Por favor! Me deixem sair! Caio! Nando!"
Não houve resposta.
O calor se intensificou. Parecia que minha pele estava derretendo. Lembrei-me de tempos mais felizes nesta casa, churrascos em família no verão, manhãs de Natal perto da lareira. O amor que eu sentira dessas pessoas, o amor que eu lhes dera.
Como chegamos a isso? Como o amor deles se transformou em algo tão monstruoso?
A dor se tornou insuportável. Eu não conseguia mais gritar. Deslizei pela parede, meu corpo convulsionando.
Justo quando senti minha consciência se esvaindo, a porta foi aberta com um estrondo.
Heloísa estava lá, sua silhueta contra a luz fraca do porão.
"Já chega?", ela perguntou, sua voz gotejando diversão.
Então ela pegou um balde de água com gelo que estava por perto.
"Hora de se refrescar", disse ela com um sorriso cruel, e jogou em mim.
O choque do gelo contra minha pele em chamas foi um novo tipo de agonia. Meu corpo entrou em choque, e o mundo ficou preto.