O cheiro estéril de antisséptico encheu os sentidos de Clara enquanto ela acordava lentamente. Estava em um quarto de hospital, os lençóis brancos ásperos contra sua pele.
Heitor estava perto da janela, de costas para ela. Sua postura era rígida, sua silhueta cortando uma linha nítida e raivosa contra a luz da manhã.
Ele se virou, o rosto uma máscara fria.
"Você acordou," ele afirmou, a voz desprovida de calor. "O que você estava pensando, fazendo uma cena daquelas? Achou que isso me faria sentir alguma coisa por você?"
Clara tentou falar, mas sua garganta estava irritada. Uma tosse seca escapou de seus lábios.
A expressão de Heitor não se suavizou. "Deixe-me ser claro, Clara. Eu não te amo. Nunca vou amar. Todo esse seu sacrifício... é patético."
Ela baixou os olhos, encarando o cobertor branco. Qual era o sentido de contar a ele sobre Juliano? Sobre a promessa? Ele não acreditaria nela. Apenas veria isso como mais uma manobra desesperada por sua atenção. Ela aprendera há muito tempo que, com Heitor, o silêncio era sua única defesa.
"Eu entendo, Sr. Montenegro," ela disse, a voz rouca.
Ele a observou, um lampejo de algo — irritação? confusão? — em seus olhos. Parecia desconcertado por sua aceitação silenciosa. Ele esperava lágrimas, discussões.
Seu tom se suavizou quase imperceptivelmente. "Tire algumas semanas de folga. Descanse."
Então, como se movido por um impulso que não entendia, ele puxou uma cadeira para o lado da cama dela. "Eu fico."
Pela primeira vez em cinco anos, uma centelha de luz apareceu nos olhos de Clara. Era uma coisa pequena e frágil, mas estava lá.
"Por que você está tão feliz?" Heitor perguntou, genuinamente perplexo.
Ela olhou para o rosto dele, tão parecido com o de Juliano. "Apenas... feliz em te ver," ela sussurrou.
Ele sentiu uma pontada estranha no peito, uma emoção que não conseguia identificar. Estava prestes a dizer algo, qualquer coisa, quando seu telefone tocou.
Era Michelle. Sua voz estava chorosa e em pânico. "Heitor, querido, eu... eu caí. Meu tornozelo dói tanto. Você pode vir? Estou com medo."
O olhar de Heitor instintivamente se voltou para Clara. Ele viu o lampejo de esperança nos olhos dela morrer, substituído por uma resignação familiar e cansada.
"Você deveria ir até ela," disse Clara, a voz monótona. "Ela precisa de você."
Ele hesitou por uma fração de segundo, uma guerra travando dentro dele. Então ele se levantou.
"Certo," ele disse, a voz seca. Ele se virou e saiu, sem olhar para trás.
No momento em que a porta se fechou, o leve sorriso de Clara desapareceu. Seus olhos ardiam, mas nenhuma lágrima veio. Depois de cinco anos, ela havia esquecido como chorar.
Uma comoção explodiu do lado de fora de sua porta. As enfermeiras conversavam animadamente.
"Você ouviu? O Sr. Montenegro acabou de reservar todo o andar VIP para a namorada dele!"
"Apenas por um tornozelo torcido? Ele deve amá-la muito."
Clara ouviu, o rosto uma máscara de indiferença. Ela sabia. Sempre soube.
Mais tarde, o ferimento em sua cabeça precisava de um novo curativo. Ninguém veio. Heitor havia pago pelo quarto, mas sua atenção, e a atenção da equipe, estava focada em Michelle, um andar acima.
Clara saiu da cama, o corpo doendo, e cuidou do ferimento sozinha. Encontrou um pequeno kit de primeiros socorros no banheiro.
Suas mãos tremiam enquanto aplicava o antisséptico. Ardia, uma dor aguda e limpa.
O pequeno frasco de desinfetante escorregou de sua mão, quebrando-se no chão de azulejo.
Ela se abaixou para pegar os cacos, uma onda de tontura a atingindo. O movimento puxou os pontos em sua cabeça, enviando uma nova pontada de dor através dela. Ela tropeçou, seu mundo inclinou, e caiu no chão.
Seu joelho bateu no azulejo duro com um estalo doentio. Uma nova e aguda agonia explodiu, e sua visão escureceu nas bordas.
Mordendo o lábio para não gritar, ela se levantou, ignorando o sangue que agora vazava por sua camisola de hospital. Ela limpou meticulosamente o vidro e depois cuidou de seu novo ferimento.
Nos dias seguintes, ela às vezes caminhava pelos corredores para se exercitar. Em uma dessas caminhadas, passou pelo quarto de Michelle. A porta estava entreaberta.
Ela viu Heitor sentado ao lado da cama de Michelle, descascando uma maçã para ela, seus movimentos gentis, sua expressão cheia de uma ternura que Clara nunca tinha visto.
Ele realmente a amava.
Um pensamento estranho entrou em sua mente. Se ela pudesse ajudá-los, fazê-los felizes juntos, talvez Juliano também ficasse feliz.
No dia em que recebeu alta, ela arrumou seus poucos pertences. Ao sair de seu quarto, deu de cara com Michelle, que estava sendo empurrada em uma cadeira de rodas por uma enfermeira.
Clara instintivamente se moveu para o lado para deixá-la passar.
De repente, Michelle soltou um grito e se jogou da cadeira de rodas, caindo em um monte no chão.
"Ah! Meu tornozelo!" ela lamentou.
Heitor veio correndo do corredor. Seus olhos pousaram em Clara, depois em Michelle soluçando no chão. Ele viu apenas uma narrativa.
Ele se lançou para a frente, seus dedos se fechando em torno do pulso de Clara como um torno. "O que você fez com ela?" ele rosnou.
"Eu não fiz nada," disse Clara, a voz firme apesar da dor em seu pulso.
Michelle, entre lágrimas, fez um show de magnanimidade. "Heitor, não a culpe. Tenho certeza de que ela não quis. Foi um acidente."
"Eu vi você!" A voz de Heitor era um rosnado baixo. Ele se recusou a ouvir. Ele a empurrou para longe dele, com força.
Clara tropeçou para trás, batendo na parede. O impacto sacudiu seu corpo inteiro, e o ferimento em sua cabeça, que mal começara a cicatrizar, se abriu novamente. Um fio quente de sangue escorreu por sua têmpora.
Heitor se inclinou sobre ela, o rosto uma máscara de fúria. "Nunca mais toque nela. Você me entendeu?"
Ele então se virou, sua expressão se derretendo em uma de preocupação. Ele gentilmente pegou Michelle em seus braços, seu toque infinitamente suave. "Está tudo bem, querida. Estou aqui."
Enquanto a carregava para longe, Michelle olhou para trás por cima do ombro dele para Clara. Seus lábios se curvaram em um sorriso triunfante e malicioso.
Clara deslizou pela parede, caindo sentada no chão frio. O sangue fresco manchou o colarinho de sua camisa branca.
Pela primeira vez em muito, muito tempo, ela sentiu um esgotamento tão profundo que se instalou em seus ossos. Um cansaço da alma.
O apartamento estava vazio, o silêncio pressionando-a. Clara se movia como um autômato, limpando e enfaixando seus ferimentos com uma eficiência desapegada.
Ela tirou uma pequena caixa de metal trancada de seu armário. Dentro estavam seus únicos tesouros: uma foto desbotada dela e de Juliano, uma flor seca que ele lhe dera, um ingresso de cinema do primeiro encontro deles.
Ela traçou o contorno do rosto dele na foto, a ponta do dedo tremendo.
"Estou tão cansada, Juliano," ela sussurrou para a imagem silenciosa. "Não sei se consigo mais fazer isso."
Seu telefone vibrou, quebrando o silêncio. Era Heitor. Sua voz era fria e seca, uma ordem, não um pedido.
"Michelle quer um bolo específico de uma confeitaria do outro lado da cidade. Vá buscá-lo para ela."
A linha ficou muda antes que ela pudesse responder.
Lá fora, uma tempestade havia começado. A chuva açoitava as janelas.
Clara olhou para a foto uma última vez, depois fechou a caixa. Pegou um guarda-chuva e saiu para o dilúvio.
A fila na confeitaria era longa. Quando comprou o bolo, estava encharcada até os ossos, seu corpo tremendo com um frio profundo e persistente.
Ela o entregou na cobertura de Heitor. Michelle, envolta em um cobertor de caxemira, pegou a caixa dela.
"Você está toda molhada," disse Michelle, com uma doçura falsa na voz. "Vai sujar o chão." Ela se virou para Heitor, que observava do sofá. "Não é mesmo, querido?"
O olhar de Heitor varreu a forma encharcada de Clara, sua expressão indecifrável.
Michelle deu uma mordida no bolo e fez uma careta. "É muito doce. Não gostei. Vá me buscar outro. Da filial do centro desta vez."
Clara ficou em silêncio por um momento, a água pingando de seu cabelo no chão de mármore. Então ela assentiu. "Ok."
Ela voltou para a tempestade.
Isso se tornou o padrão. Michelle encontrava uma nova exigência impossível, uma nova maneira de atormentá-la. Um café específico que tinha que ser comprado em uma cafeteria a uma hora de distância. Um livro que só estava disponível em uma loja especializada. Cada vez, Clara tinha que enfrentar a tempestade, seu corpo ficando mais fraco, uma febre persistente se instalando.
Após a quarta viagem, Michelle finalmente se declarou satisfeita. Ela se aninhou contra Heitor.
"Querido," ela arrulhou, "estou entediada. Vamos dar uma festa. E você tem que beber comigo."
Bruno e Jeremy, que haviam chegado, ficaram chocados.
"Michelle, você sabe que ele não pode," disse Bruno. "Ele é gravemente alérgico a álcool. Poderia matá-lo."
"Se ele realmente me ama, ele fará isso," insistiu Michelle, seus olhos se enchendo de lágrimas. "É só um pequeno teste."
Jeremy, que uma vez fora o maior apoiador de Michelle, finalmente explodiu. "Um teste? Você quer que ele arrisque a vida por um 'teste'? Qual é o seu problema?"
Michelle explodiu em soluços, virando-se para Heitor em busca de conforto. "Eles estão sendo maus comigo."
Heitor, com o rosto sombrio, pegou um copo de uísque. "Tudo bem."
Ele estava prestes a beber quando Clara, que estava em silêncio no canto, de repente se moveu. Ela arrancou o copo da mão dele.
"O que você está fazendo?" Heitor exigiu, zangado e confuso.
"Você vai parar no hospital," ela disse, a voz rouca por causa da febre. "Ou pior." Ela se virou para Michelle. "Ele não pode beber. Eu bebo por ele."
Michelle sorriu, um brilho cruel e triunfante em seus olhos. "Por mim, tudo bem."
Antes que Heitor pudesse protestar, Clara tirou um pequeno pacote de pílulas antialérgicas e as enfiou na mão dele. "Tome isso. Por via das dúvidas."
Então ela começou a beber.
Ela bebeu copo após copo de uísque, o licor forte queimando sua garganta e estômago. A sala ficou em silêncio, todos a observando.
Heitor ficou paralisado, o pacote de pílulas esmagado em seu punho, seus nós dos dedos brancos. Uma dor surda e latejante começou em seu peito. Ele observou o rosto pálido dela, suas mãos trêmulas, sua determinação inabalável.
Ele se lembrou de todas as outras vezes. A multa de trânsito que ela levou por ele. O negócio que ela salvou trabalhando por 72 horas seguidas. O investidor furioso que ela enfrentou em seu nome.
Ele sempre disse a si mesmo que não significava nada. Que a devoção dela era uma obsessão que ele não queria.
Mas observando-a agora, envenenando-se por ele, ele sentiu a garganta apertar.
Ele tentou ignorar a sensação estranha e sufocante. Ele amava Michelle. Tinha que amar Michelle. Repetia isso para si mesmo como um mantra, uma tentativa desesperada de abafar a visão do sacrifício silencioso de Clara.