Capítulo 2

A umidade salgada do ar grudava na pele, pesada e opressiva, quase tanto quanto a dívida que me esmagava os ombros. Cinco anos. Cinco anos procurando por Rafael, meu marido, o capitão cujo navio desapareceu no mar sem deixar vestígios. Vendi nossa casa, o último pedaço da minha família. Pedi dinheiro emprestado a todos que conhecia e a muitos que não conhecia. Cada centavo foi para essa busca, para essa esperança que se recusava a morrer.

Hoje, essa esperança me custaria o último suspiro de dignidade.

Eu estava em um leilão clandestino em uma ilha remota, um lugar onde segredos e informações valiam mais que ouro. O ar cheirava a charutos caros e desespero. Eu estava aqui por um único lote: um pacote de informações sobre o "Estrela do Mar", o navio de Rafael.

O leiloeiro, um homem de rosto liso e olhos frios, anunciou o lote. As propostas começaram baixas, mas logo escalaram. Eu lancei o valor que representava tudo o que me restava no mundo, uma quantia que me deixaria na miséria absoluta. Minhas mãos tremiam, meu coração batia na garganta.

"Vendido! Para a senhora na terceira fila."

Um alívio fraco e doentio me percorreu. Eu consegui. Eu finalmente teria uma resposta. Um homem de terno me entregou um envelope selado. Dentro, um único cartão com um conjunto de coordenadas e uma nota: "A verdade o espera."

Aluguei um barco pequeno com o resto do dinheiro. O motor tossia fumaça preta enquanto eu navegava em direção às coordenadas, uma ilha particular não marcada nos mapas comuns. Ancorei em uma enseada escondida e caminhei pela vegetação densa, seguindo o som de vozes e música suave.

Cheguei a uma clareira com uma luxuosa casa de praia. Luzes quentes derramavam-se das janelas panorâmicas. E foi então que ouvi a voz dele. A voz que eu sussurrava para dormir todas as noites.

A voz de Rafael.

Meu coração parou. Fiquei congelada atrás de uma palmeira, o som do meu próprio sangue pulsando nos meus ouvidos.

"Ela realmente pagou, você acredita nisso?", a voz de Rafael disse, cheia de um divertimento cruel que eu nunca tinha ouvido antes. "Tola. Vendeu tudo por uma informação que eu mesmo plantei."

Uma risada feminina, estridente e familiar, respondeu.

"Eu te disse, Rafa. Sofia faria qualquer coisa por você. Ela sempre foi pateticamente devota."

Manuela. Minha meia-irmã.

Espreitei pela folhagem. Lá estavam eles, no terraço, iluminados pela luz da varanda. Rafael, meu marido desaparecido, parecia mais saudável e mais forte do que nunca. Ele não era um fantasma, não era uma memória. Ele estava vivo. E ele estava abraçando Manuela.

O braço dele estava em volta da cintura dela, os dedos traçando delicadamente uma cicatriz feia no antebraço de Manuela, a mesma cicatriz que ela carregava desde a adolescência.

"Fizemos ela pagar por cada lágrima que você derramou por causa daquela mulher", disse Rafael, sua voz baixa e cheia de um veneno que me gelou até os ossos. "Isso é só o começo. Ela vai pagar pelo que a mãe dela fez com você."

A mãe dela. Minha mãe.

Manuela se inclinou e o beijou, um beijo longo e possessivo. "Você prometeu, meu amor. Vingança. E está sendo mais doce do que eu jamais imaginei."

O mundo se desfez em fragmentos silenciosos. O som das ondas, a música, as vozes deles, tudo se transformou em um zumbido distante. O ar foi roubado dos meus pulmões. Cinco anos de sacrifício, de dor, de dívidas esmagadoras. Não foi uma tragédia. Foi uma farsa. Uma tortura longa e meticulosamente planejada.

E eu era o alvo.

As lágrimas que eu segurei por tanto tempo finalmente vieram, silenciosas e quentes, escorrendo pelo meu rosto. Eu me encolhi atrás da árvore, meu corpo tremendo incontrolavelmente. A dor da perda era uma coisa, mas a dor da traição era um abismo. E eu tinha acabado de cair nele.

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Capítulo 3

A memória me atingiu como uma onda violenta. O dia em que a notícia chegou. Eu estava na cozinha, preparando o jantar favorito de Rafael, esperando sua ligação do porto. Em vez disso, a ligação veio da companhia de navegação. "O Estrela do Mar... perdido em uma tempestade... sem sobreviventes."

Meu mundo desabou. Recusei-me a acreditar. Rafael era o melhor capitão. Ele conhecia o mar como a palma da sua mão.

Comecei a busca no dia seguinte. Ignorei os olhares de pena, as sugestões para "seguir em frente". Vendi minhas joias, depois o carro. Quando o dinheiro acabou, vendi a casa que meus pais me deixaram. Pedi dinheiro emprestado, acumulando uma montanha de dívidas, cada promissória assinada com a tinta da esperança. Eu contatava videntes, mercenários, qualquer um que prometesse uma pista. Cinco anos da minha vida, reduzidos a uma busca obsessiva por um fantasma.

Um fantasma que estava vivo, rindo de mim com minha própria irmã.

A dor se transformou em uma raiva fria e dura. Eu me levantei, minhas pernas ainda trêmicas, e saí do meu esconderijo. Marchei até o terraço, meus passos pesados na areia.

Eles se viraram ao me ouvir. O sorriso de Manuela vacilou, substituído por um choque mal disfarçado. Rafael, no entanto, apenas levantou uma sobrancelha. Seu rosto não mostrava surpresa, apenas uma diversão fria e calculista.

"Sofia", ele disse, seu tom casual, como se estivéssemos nos encontrando para um café. A normalidade disso era grotesca.

"Rafael?", minha voz saiu como um sussurro rouco. "Você... você está vivo."

"Parece que sim", ele respondeu, dando um gole em sua bebida.

"Por quê?", a palavra rasgou minha garganta. "Cinco anos... eu vendi tudo... por quê?"

Manuela deu um passo à frente, seu rosto se contorcendo em uma máscara de falsa simpatia. "Sofia, querida, não é culpa sua."

"Cale a boca!", eu gritei, uma força que eu não sabia que tinha surgindo dentro de mim. Meus olhos estavam fixos em Rafael. "Eu estou falando com você."

Rafael finalmente me olhou diretamente, e seus olhos eram de um estranho. Frios, duros, sem nenhum traço do homem com quem me casei.

"Você quer saber por quê?", ele disse, sua voz baixa e ameaçadora. "Porque sua mãe destruiu a vida da Manuela. Ela era a protegida do seu pai, e sua mãe, com seu ciúme, garantiu que Manuela não recebesse nada. Pior, ela causou o 'acidente' que deixou esta cicatriz."

Ele acariciou a cicatriz de Manuela novamente. Uma mentira. Eu estava lá quando Manuela se machucou. Foi em um acidente de bicicleta, ela foi imprudente. Minha mãe não teve nada a ver com isso.

"Isso é mentira!", eu disse. "Você sabe que é mentira!"

"É a minha verdade", ele retrucou. "E eu prometi a Manuela, meu primeiro amor, que faria sua família pagar. E você, como a filha amada, é o pagamento perfeito."

Tentei dar um passo para trás, para fugir, mas minhas pernas não obedeciam. Eu estava presa. "Eu vou embora."

Rafael riu, um som oco e cruel. "Ir embora? Você não vai a lugar nenhum. Você me deve. Você pagou uma fortuna pela 'informação' que a trouxe até aqui. Você está em minha ilha, em meu barco. Neste pequeno vilarejo de pescadores de onde viemos, a esposa pertence ao marido. Você é minha, Sofia. E nosso jogo está apenas começando."

O desespero me engoliu. Ele estava certo. Eu não tinha para onde ir, não tinha um centavo. Estava completamente à mercê dele.

Manuela se aproximou de mim, seu rosto a poucos centímetros do meu. "Não se preocupe, Sofia", ela sussurrou, seu hálito cheirando a vinho. "Vamos cuidar bem de você."

Ela colocou a mão no meu ombro, fingindo um conforto que não sentia. Então, com um movimento sutil, ela enganchou o pé no meu e me empurrou. Eu perdi o equilíbrio e caí com força no chão de madeira do terraço. A dor aguda no meu quadril foi nada comparada à humilhação.

"Oh, meu Deus! Sofia, você está bem? Eu sou tão desajeitada!", ela exclamou, com uma preocupação teatral.

Rafael olhou para mim no chão, seu rosto uma tela de desprezo. "Levante-se e peça desculpas a Manuela. Você a assustou."

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