Capítulo 2

Na mesma noite, quando Ivan entrou em casa exalando um aroma de vinho misturado ao perfume de Kiera, pensei que deveria ter deixado a sopa de ressaca pronta, como era de costume, mas não fiz.

Quando ele subiu e me encontrou sentada em silêncio na beira da cama, tentou me envolver em um abraço, mas recuei de imediato, e ele soltou um suspiro, acreditando que eu ainda estava magoada por causa do parque de diversões.

"Desculpa, Allie", disse ele, com suavidade na voz. "Vou compensar você. Que tal eu te dar aquela bolsa Birkin nova que você tanto queria?"

Fitei Ivan sem emoção, mantendo o rosto como uma máscara, enquanto na mente surgiam lembranças de todos os aniversários esquecidos e de cada promessa que jamais cumpriu.

Ele então passou os braços ao meu redor, um gesto me pareceu mais uma prisão do que um carinho, e sussurrou, cada sílaba soando como fingimento: "Você anda trabalhando demais nesse roteiro novo. Precisa descansar."

A dor se abriu para dar lugar a uma fúria fria, mas mesmo assim permiti que ele me conduzisse até a cama. Permaneci com o semblante indecifrável, aceitando sua preocupação encenada.

Quando o ouvi respirar de forma pesada, afundado no sono profundo, eu me levantei e fui direto ao escritório.

A porta, como sempre, estava trancada. Durante muito tempo acreditei na desculpa de que guardava documentos sigilosos do trabalho, mas agora sabia que se tratava de um cofre de segredos. Tentei datas importantes, como nosso aniversário de casamento, o dia em que nos conhecemos e até mesmo o aniversário da minha mãe, mas nenhuma funcionou.

Foi então que um pensamento doloroso me atingiu. Com os dedos tremendo, digitei a data do meu próprio aniversário — o mesmo dia em que Leo nasceu.

O clique da fechadura ecoou — a porta se abriu.

O escritório estava impecável, dominado por uma imponente mesa de mogno. Em uma gaveta trancada, encontrei um pequeno álbum de couro, e minhas mãos estremeciam enquanto o abria.

As páginas revelavam foto após foto de Ivan, Kiera e Leo — no parque, na praia, soprando velas de aniversário. Uma família perfeita, plena. Em uma das imagens, meus pais também apareciam: minha mãe radiante, segurando Leo no colo, e meu pai abraçado a Kiera — nunca tinham parecido tão felizes ao meu lado.

Essas provas já eram devastadoras, mas eu queria mais e abri o notebook dele, cuja senha era idêntica à senha da porta. Os arquivos estavam organizados de forma impecável, e dentro da pasta chamada "Pessoal", havia outra com o título "L".

Lá dentro estava tudo — os primeiros passos de Leo gravados em vídeo, suas primeiras palavras registradas, a digitalização da certidão de nascimento com Ivan como pai.

Havia ainda uma subpasta chamada "Finanças". Quando cliquei, o choque gelou meu sangue, pois eram recibos de transferências mensais de uma conta conjunta dos meus pais, Richard e Eleanor Donovan, para uma empresa de fachada, todas com a mesma descrição "Investimento Galeria Reese". Os valores eram absurdos — milhões ao longo de cinco anos.

Eles não apenas tinham permitido tudo, como financiaram. Cada palavra de afeto, cada presente luxuoso, cada promessa de família... tudo sustentado com o dinheiro usado para bancar a mulher que tentou me destruir e a família que Ivan criou com ela.

O amor deles nunca existiu de fato, e eu era apenas o preço pago para aliviar a culpa que carregavam por causa de Kiera. Copiei cada arquivo para um pen drive criptografado: fotos, vídeos, extratos bancários.

Enquanto a transferência seguia, liguei para Debi, e minha voz saiu estranhamente calma: "Debi, preciso que descubra tudo sobre Kiera Reese nos últimos cinco anos. Tudo."

Eu sabia que teria que enfrentá-los, mas faria isso no meu tempo, armada com provas inegáveis.

Nesse momento, meu celular vibrou com uma mensagem de um número desconhecido — provavelmente era Kiera, que devia ter notado minha presença rondando a galeria.

Na imagem que enviou, estava a mesma foto que eu acabara de ver: aquela em que meus pais apareciam.

"Obrigada pelo lindo quadro que seu marido me comprou hoje. É maravilhoso. Ele disse que a paisagem lembrava o dia em que nos conhecemos. Você sempre será a intrusa, a substituta conveniente."

As palavras, como lâminas, tinham o intuito de me despedaçar e, por um instante, conseguiram. Tive que me apoiar na mesa, e segurei o pen drive com força, enquanto uma lágrima quente de raiva e dor escorria pelo meu rosto.

Mas, em seguida, o luto deu lugar a outra coisa — algo gélido e cristalino. Ela estava enganada. Eu não seria destruída — eu queimaria o mundo deles até virar cinzas.

Capítulo 3

A mensagem de Kiera soava como uma verdadeira declaração de guerra. Ela acreditava estar protegida, intocável dentro da sua gaiola dourada, sem imaginar que a chave sempre esteve comigo.

Eu precisava voltar àquela galeria — não apenas para recolher provas, mas também para enxergar a verdade com meus próprios olhos e ouvir cada palavra sem intermediários. O pen drive já tinha o que estava acontecendo, mas o que eu buscava agora era a razão por trás de tudo.

Depois de vasculhar sites de emprego, encontrei uma vaga temporária para auxiliar de limpeza na Galeria Reese. Usando uma conta falsa, entrei em contato com a gerente administrativa e inventei uma história convincente: disse que era mãe solteira e estava desesperada por trabalho. Para selar o acordo, enviei uma transferência bem generosa — muito acima do valor que eles estavam oferecendo.

No dia seguinte, estacionei junto com os demais funcionários na entrada de serviço. Eu estava usando um uniforme azul simples, e escondia o rosto com uma máscara descartável e boné baixo, mantendo a postura discreta e o silêncio absoluto.

Minha designação foi justamente para o escritório particular de Kiera. O espaço era amplo, elegante e com uma vista deslumbrante da cidade, mas a paisagem não despertava nenhum interesse em mim. O que realmente importava era a vida que eles exibiam ali dentro — sobre uma mesa lateral, uma moldura de prata com a foto de Ivan e Kiera no suposto dia de casamento deles repousava firme, um casamento que nunca aconteceu de fato, já que Ivan era meu marido.

Caminhei pelo escritório fingindo limpar de forma automática, enquanto analisava cada detalhe com atenção. As paredes estavam cobertas por retratos de família: Leo cavalgando um pônei, Kiera e Ivan rindo juntos em um barco... A própria arquitetura carregava a assinatura do estilo empreendedor do meu pai, e a curadoria refletia a estética da minha mãe, sempre marcada pelo olhar de uma cineasta.

Na sala de descanso, encontrei uma funcionária chamada Anna, que exalava uma calma contagiante enquanto esfregava o balcão, e mantive minha voz baixa, um pouco disfarçada. "O lugar é realmente bonito. Eles parecem viver como uma família feliz."

Anna suspirou sem levantar os olhos. "E são, sim. O senhor Hughes é apaixonado pelo garoto. E o senhor Donovan… vive aqui mais do que no próprio escritório, sempre supervisionando tudo de perto."

As palavras me atingiram como uma pancada seca, pois meu pai jamais se dispôs a me orientar — eu implorei inúmeras vezes para que lesse meus roteiros, para que me desse conselhos, mas ele sempre estava ocupado demais, ocupado demais para mim, mas não para a galeria de Kiera.

"E a senhora Donovan?", perguntei, sentindo a voz falhar.

"Ah, ela traz produtores de Hollywood e grandes estrelas toda semana", respondeu Anna, balançando a cabeça. "Vive dizendo que Kiera é a filha que sempre sonhou ter, tão cheia de energia e força."

A filha que ela queria não era eu, a filha de verdade que passou anos implorando por um gesto de carinho.

Meu estômago embrulhou de repente — eu precisava sair dali. Mas, quando estava prestes a deixar a sala, ouvi o som de um carro chegando à garagem, olhei pela janela e vi um sedã preto elegante, o carro de Ivan.

Peguei um esfregão rapidamente e me posicionei no saguão principal, mantendo a cabeça baixa e fingindo concentração no serviço. Com a máscara no rosto, aguardei, atenta a cada som.

E então os vi: Ivan, Kiera e Leo.

Kiera estava irritada. "É insuportável, Ivan. Tê-la por perto me consome. Quando você vai se livrar dela de uma vez?"

O ar travou na minha garganta.

Ivan se aproximou, puxou Kiera contra si e deixou um beijo em sua testa antes de responder, com o tom carregado de impaciência: "Não fale dela desse jeito. Ela ainda é uma Donovan. Tudo que eu posso oferecer a você e a Leo existe por causa dela. Se você não tivesse engravidado naquela época, eu jamais teria traído ela."

Essa confissão me atingiu com mais força do que qualquer insulto e percebi que a inveja de Kiera deveria ter crescido ainda mais, explicando sua crueldade constante. Eu não era apenas uma sombra descartável — era a mulher que ele havia traído por obrigação.

Eu já tinha visto o suficiente e estava pronta para sair discretamente quando ouvi a voz dele cortar o ar:"Ei, você aí, novata!"

Congelei, ainda de costas para ele.

"Vire e tire a máscara." A ordem saiu ríspida, autoritária.

Ivan conhecia todos os rostos dali, pois frequentava o lugar como se fosse sua casa. E a constatação de que ele estava mais familiarizado com cada funcionário da galeria da amante do que com a minha própria vida abriu uma fissura gelada no meu peito.

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