Kalita abre minha mochila e dá uma espiada. Ela me olha rápido. Sei o que viu então, então só suspiro. — Sabe que isso é encrenca, né? — Sei que poderá ser uma possível encrenca. Porém, vivo encrencada mesmo. — Dou de ombros. — Só o fato de morar com um padrasto bêbado e violento já é uma baita encrenca. Ela se cala e nós seguimos para o centro de Roma. O vento sopra forte contra meu rosto, começamos a nos mover lentamente. Aos poucos vou deixando as rodas do meu skate ganhar velocidade. Passo livremente entre os carros, desejando voltar para a minha terra, para o meu país e claro que levaria minha amiga junto. Olho para trás vendo Kalita e Yan ficar para trás, que estavam rindo e conversavam. Eu volto a sentir o vento, que apesar de frio dava a sensação de liberdade. Olho o transito caótico de cidade grande. Roma é linda, mas até a sua deslumbrante e rica arquitetura histórica não escapa do fluxo intenso de carros. Passo entre carros com cuidado para não aranhar um dos luxuosos carros, ou estarei bem ferrada. Pois, estou desempregada e mesmo que estivesse trabalhando, teria que trabalhar a vida todinha para pagar a pintura de um desses carros caros. Lembro que perdi meu trabalho na casa de uma boa família, devido ao Jacques aparecia bêbado, me pedindo dinheiro. E como aqui, a maioria das pessoas é contra skate, me olham como se eu parecesse um ET. O ET Micaela Yeva. Quase dou risada sozinha, e com certeza acabaria sendo chamada de louca. Os italianos têm o sangue quente, na minha terra não é muito diferente. Entretanto, lá não me olham torto. Bom, como ando de skate e sou imigrante, as pessoas daqui não me olham com bons olhos. Nossa como estou sofrendo muito mais aqui na Itália do que na Rússia. Vida triste essa minha! Espero que as coisas comecem a melhorar. Droga de vida! Meu lugar não é nesse país. Meu lugar não é morando com свинья пьяна. (Tradução). ("Porco bêbado" em russo). Não suporto mais isso. Cadê a minha mãe? Será que tá bem? Sinto saudades dela, estou triste e preocupada com ela. Minha mãe some quando a coisa fica feia. Desde que vim para esse lugar, a desgraça só piora. Primeiro foi ter que sair do meu país, do convívio com os meus amigos, tudo sem uma explicação. Não bastasse perder o trabalho. Agora não consigo mais pagar a faculdade que mal iniciei. O que quer dizer adeus ao sonho de ser uma repórter investigativa e investigar grandes crimes e tudo mais... ter um futuro brilhante, jamais poderei. Adeus ter e dar uma vida mais tranquila para mim e minha mãe, não penso em dinheiro. E sim em uma vida onde ela possa desempenhar seu papel de genitora, e que não precise a ver ser espancada e aonde eu também não vou ser agredida. Na ausência de um covarde. Estar junto da minha mãe, isso já me bastaria para ser feliz. A saudade machuca e fica mais forte, merda é como se resume minha vida agora. Bom, como uma boa ex futura repórter, de longe meus ouvidos atentamente ouvem um chorinho de uma criança. Ando mais rápido na direção do amedrontado chorinho, este fica mais alto na medida que avanço. Meu pé esquerdo vai para o asfalto dando velocidade ao skate. Vou o mais rápido que posso. Um dia desses acabo me matando mesmo, como a minha mãe quando presente fala. Até que não seria uma má ideia. Morrer me traria alívio para tanta dor, para tanta agonia, por sempre viver essa vida infame que estou levando. Não bastasse eu sofrer, minha única e melhor amiga, a minha irmã do coração também está passando por maus bocados. A mãe dela usa drogas e sai com vários homens. Na verdade, nós duas conseguiríamos viver no inferno. Acho que lá estaríamos melhor do que nas nossas casas. Se o diabo encontrar com o Jacques, vai rejeitar o bêbado. O motivo?! Se aquele homem fala no inferno, causa uma explosão devido a seu hálito de quem está sempre bêbado. Pior eu vou para lá e não quero correr o risco de encontrar o padrasto carrasco explodindo tudo com o bafo dele. O infeliz com quem minha mãe resolveu me deixar. Maldito são dezoito anos que nunca chegam. Não bastasse tantos problemas, ainda tenho que aturar o Ygor, o maldito não me dá folga. Eu lá tenho cara de quem iria querer um crápula daqueles?! Não bastasse ele tem a minha idade. Fala sério! — Porca miserável. — Falo alto ao ver uma linda boneca chorando perdida no meio da rua. Que stronzo deixa uma bambina no meio da rua? Que filho de uma égua. Estou enlouquecendo, com tantas coisas sobre meus ombros. São os assuntos da máfia, e estes não são poucos. Ainda tem o fato importantíssimo, de não saber como cuidar bem da Clara, minha doce bambina. Não bastasse tantas preocupações, minha mamma não dá sossego aos meus ouvidos, deixando claro que não devo me casar com Irina. E sim que deveria me apaixonar outra vez. Como se fosse possível. Depois do que passei, sendo abandonado com a minha pequenina, tudo por causa da mulher que achei que me amava, se necessário, teria dado a minha vida para honrar a palavra que dei a ela. Sem saber, que na verdade ela não passava de uma vadia. Uma vadia que fugiu, com o dinheiro que eu tinha no cofre. Ela foi um dos meus sicurezza, ele era uma das minhas sombras della morte, e mesmo sabendo do risco ele foi com ela. Pior o cara era da minha inteira confiança. E tudo que a mamma da minha bambina deixou, foi uma carta dando adeus. Minha famiglia não queria meu casamento com ela, e como babaca que fui, convenci a minha eles que ela era uma boa moça. Porém, me enganei, me casando com uma vagabunda. Agora estou prestes a pagar um alto preço. Quando ela roubou, traiu e me abandou. O pior foi ter abandonado a nossa figlia, não deixei o escândalo envolver os Pasini. Não poderia fazer isso com eles. Coisa que não foi fácil, já que a mídia está sempre no nosso pé, tento me manter afastado dos urubus da mídia, mas é difícil. Essas pessoas são como urubus farejando carniça, principalmente, quando se trata de tentar descobrir algo sobre nós os Pasini. Afinal, minha famiglia e eu somos o que muitos chamam de: o meio termo entre o céu e o inferno. Na verdade, todos borram as calças ao ouvir o nosso nome. Especialmente, o meu nome e dos meus primos. Mas não ligo. Sei que ninguém tem reais provas contra nós. Nós é claro por ora estamos seguros dos urubus, assim como os escândalos e tudo que vem com eles. Por isso, não cacei e matei a vadia e seu amante, tudo porque sou o capo responsável pela segurança da famiglia. E este, tem que se fazer respeitado e para isso, muitas vezes tem que abrir mão do que queria para fazer a segurança e o bem-estar de todos. Não matar Estefani e o figlio di puttana, foi um “mal necessário”, este garantiria a todos nós saímos ilesos. Sem escândalos e seus efeitos colaterais, mas não evitaria uma vida de pobreza e humilhação para a vadia. Afinal, um dia o dinheiro acaba e o valor não era grande coisa, comparado ao estilo de vida que ela gostava de levar. O que deixou meu papa Arthur Pasini muito contente, não é para menos ele nunca se descuida de tudo ao nosso redor assim como dos negócios. E por ele ser o patriarca dos patriarcas, todos nós devemos obedecer a ele. Sempre e sem hesitar, afinal, ele é um dos mais velhos membros da famiglia. Sendo assim, obedecemos ao patriarca dos patriarcas sem pestanejar, assim como os anciões. Jamais, nem um deles deve ser desrespeitado.
Primeiro ensinamento da famiglia é: Respeitar e obedecer aos mais velhos sem contestar. Mesmo eu sendo quem sou, jamais desobedeci qualquer um dos patriarcas. Muito menos o patriarca dos patriarcas, ou qualquer um deles. O que me lembra a maldita palavra que dei ao meu papà. Olho Irina sentada do meu lado, e a única coisa que realmente penso neste instante é: Onde eu estava com a cabeça quando aceitei me casar com ela. Ao mesmo tempo penso. A união da famiglia depende de honrar a palavra que damos uns aos outros, e a nossa união está acima de tudo. Enfim, somos o diabo na terra, os intermediários della morte e a tábua da salvação de muitos. Sem piedade é o meu lema. Agora estou a caminho da escolinha Esmeralda, vou pessoalmente buscar a minha pequena Clara. Minha bambina tem apenas dois aninhos e já está sem a mamma. Talvez meu papà tenha razão em dizer que Irina daria uma boa mamma para minha figlia. Por outro lado, minha mamma acha que ela é uma mulher fria demais para isso. A minha cabeça de cima anda indecisa, meu coração fechado e meu pinto quase satisfeito. Quase...que merda!! Olho através do vidro do carro, noto o mal tempo e com certeza não demorar começar a cair uma forte chuva. O inverno em Roma ainda sequer começou, todavia, chuvas fortes e frias já se mostram. O carro parou no sinal vermelho e vejo arruaceiros e arruaceiras. Jovens homens e mulheres andando de skate. Uma coisa rara para a nossa querida Roma. Provavelmente, são imigrantes. Olho mais à frente e vejo a escolinha da minha bambina. Volto o olhar a mulher ao meu lado e penso em jogar ela para fora do carro. Assim, me livraria da maldita palavra, porém, me contenho quando lembro que meu papà não ia acreditar em um acidente. Se caso não viesse a óbito, teria que cumprir a maldita palavra, mesmo com ela danificada, como diria Fred meu primo. O sacrifício será grande ao cumprir uma palavra mal pensada. Uma palavra, que o patriarca dos patriarcas não vai permitir ser quebrada. Ao mesmo tempo, talvez ele tenha razão, e volto a olhar pelo vidro vendo a chuva que agora sim começa a cair. Voo com o skate por cima de um Maybach Exelero preto, um carro de luxo a julgar pela aparência. As pontas dos meus dedos tocam o teto do tal carro, e já só ouço alguém me xingando. Não vejo quem, mas como a boa adulta que sou, mostro meu dedo do meio para o tal. O cara é cego? Só pode para não ter visto uma criança parada no meio do trânsito. O stronzo não viu a bambina e ainda me xinga?! É cego filho de uma égua! Mil vezes stronzo!!!! Salto na frente da pequenina, que mesmo assustada me dá os bracinhos. Ela chorava parecendo muito amedrontada. A pego nos braços e sem hesitar corro com ela até a calçada. Ela chora e se agarra no meu pescoço. — Oi docinho. — Oi doçula. — Fala soluçando, acho graça da careta que a pequena faz. Dou risada e ela gargalha lindamente se acalmando. Nesse instante sinto como se o meu coração se abrisse e dele desabrochasse um sentimento inexplicável... Limpo suas lágrimas, tadinha estava tão assustada. Dou um sorriso, com certeza um belo sorriso. — Bom eu sou a Micaela. E você docinho, como se chama? — Clala. Tala...não sei fala dileitinho. — Bom eu entendi. — Ela acaricia meu rosto e dá sorriso mais lindo e puro que já vi. — Prazer docinho de Clara. — Pazei mimica. Dou beijinho no rosto dela, e a protejo da chuva com meu corpo e a minha mochila. Ela me dá um beijo na minha face e faz minha bochecha sorrir. — Onde estão seus pais? — Não sabolo onde tá mamma. E o meu papà tá a tais boce. Antes que eu me vire, sinto uma mão grande agarrar meu braço.E, antes que eu possa olha quem é, sou jogada para o lado, caindo na calçada de costas no chão molhado. Que filho da puta! Caramba!! Vejo a delinquente que passou por cima do meu carro, provavelmente arranhando o teto. E como se não bastasse, depois que eu a xinguei em minha total razão. Ela como a mal-educada que apareceu ser, mostrou o dedo do meio para mim. E agora, estava tentado algo contra minha filha. Saltei do carro, ergui ela pelo braço arremessando a tal para longe da minha filha. — Nunca mais chega perto da minha figlia. — Falo furioso, poderia matar ela aqui e agora. Me calo quando Clara chorando corre e abraça a tal. Fico pasmo fora de mim. Clara não vai para os braços de mais ninguém. Ah o que essa cadela fez com a minha filha? Desgraçada. Não bastasse ser cadela, é gostosa...meus olhos correm, pelo corpo gostoso da loira sem noção do perigo. Volto a si, quando minha bambina fala com a loira dos infernos. — Mimica tá dodói?