Capítulo 2

Dante riu.

Não foi uma risada nervosa. Foi uma gargalhada alta e arrogante que ecoou pelos tetos altos da cobertura.

"A mulher de Matteo?" Ele enxugou uma lágrima falsa do olho. "Elena, querida, você precisa melhorar suas mentiras. Matteo não tem relacionamentos. Ele não tem sentimentos. Ele tem 'associados' e tem inimigos. É isso."

Ele se aproximou novamente, sua confiança restaurada. "Olha, eu entendo. Você está magoada. Quer me atingir. Mas dizer que está dormindo com o Chefão? Isso é perigoso. Se ele ouvir você usando o nome dele para me provocar, ele te mata."

"Ele sabe", eu disse. Peguei uma revista da mesa de centro, virando uma página casualmente. Meu coração martelava contra minhas costelas, mas eu não o deixaria ver.

"Claro que sabe", disse Dante, condescendente. "Assim como ele sabe que você está de favor no quarto de hóspedes dele. Olha, Matteo disse à Família que vai levar uma noiva para o baile de gala. Uma órfã que ele encontrou na Europa. Uma zé-ninguém. Ele precisa de uma esposa para manter as aparências, uma decoração muda que não fará perguntas."

Meus dedos se apertaram no papel brilhante. Uma órfã. Uma zé-ninguém. Essa era a história de fachada que Matteo havia criado para mim?

"Ele me pediu para entregar a noiva", continuou Dante, checando o relógio. "Já que ela não tem família. Você pode imaginar? Eu, levando uma estranha ao altar enquanto você fica sentada nos bancos, emburrada."

Ele não sabia. Matteo não lhe dissera o nome da noiva.

A crueldade da ironia quase me fez sorrir.

"Você deveria ir, Dante", eu disse. "Sofia provavelmente está se perguntando onde você está."

"Não seja assim", ele suspirou. "Estou fazendo isso por nós. Assim que ela se lembrar, posso dispensá-la com delicadeza. Então voltamos ao plano."

"O plano", repeti, sem expressão.

"Sim. Você, eu, o casamento. Só... mais tarde." Ele pegou o celular que vibrava. Seu rosto se suavizou instantaneamente. "Tenho que ir. Ela está pedindo sorvete."

Ele foi até a porta. "Pare com essa farsa, Elena. Volte para o seu apartamento. Eu te mando uma mensagem."

Ele saiu.

Eu não voltei para o meu apartamento.

Em vez disso, liguei para Luca, o Consigliere de Matteo.

"Srta. Vitti", Luca atendeu no primeiro toque.

"Preciso das medidas de Matteo", eu disse. "E o endereço do alfaiate dele."

"O Chefão não requer-"

"Eu sou a noiva dele", cortei-o, minha voz se tornando aço. "Estou comprando um terno para ele para o casamento. A menos que você queira explicar a ele por que a noiva dele está infeliz?"

Uma pausa. "Vou te mandar os detalhes por mensagem."

Passei a tarde em um ateliê sob medida em São Paulo, passando as mãos por lã italiana e seda carvão. Escolhi um terno que era afiado, escuro e perigoso. Assim como Matteo.

Quando voltei para a cobertura, meu celular apitou com uma notificação do sistema de segurança do meu antigo apartamento — aquele que eu dividia com Dante, embora ele raramente dormisse lá.

Movimento Detectado: Portão da Frente.

Abri a câmera.

Dante estava lá. Ele estava jogando sacos de lixo na calçada.

Meu estômago despencou. Dei um zoom.

Eram minhas roupas. Meus livros. A pintura que eu fiz para o aniversário dele.

Meu celular tocou. Era Dante.

"Tive que esvaziar o quarto principal", ele disse, parecendo sem fôlego. "Sofia está vindo. Se ela vir suas coisas, pode desencadear um episódio de confusão. Eu só as coloquei na garagem."

"Estou olhando a câmera, Dante", eu disse, encarando a imagem granulada da minha vida sendo tratada como lixo. "Elas estão na calçada."

"A garagem estava cheia", ele mentiu suavemente. "Eu compro coisas novas para você. Coisas melhores. Gucci, Prada, o que você quiser."

"Deixe-as apodrecer", eu disse. "Menos bagagem."

Desliguei.

Dois dias depois, eu estava saindo de uma boutique na cidade quando uma voz chamou.

"Cunhada!"

Eu congelei.

Sofia estava lá, agarrada ao braço de Dante. Ela parecia angelical em um vestido de verão branco, um curativo ainda na têmpora. Ela sorria para mim.

Dante parecia que ia vomitar.

"Elena!", Sofia cantou, arrastando Dante. "Dante me contou tudo! Que você é a garota do Matteo! Meu Deus, vamos ser família!"

Os olhos de Dante me imploravam. Entre no jogo. Não a quebre.

"Olá, Sofia", eu disse.

"Estávamos indo comemorar", ela disse. "Lembrei da minha cor favorita hoje! É azul! Vamos àquele restaurante japonês. Você tem que vir!"

"Eu não acho que-" Dante começou.

"Besteira!", Sofia agarrou minha mão. Seu aperto era surpreendentemente forte. "Matteo está ocupado, certo? Você não deveria comer sozinha."

Olhei para Dante. Ele estava suando através da camisa.

"Claro", eu disse, uma curiosidade sombria tomando conta de mim. "Eu adoro comida japonesa."

O restaurante era uma fachada conhecida para a Yakuza, mas a comida era excelente. Conseguimos uma sala privada.

Sofia pediu o caldo. "Extra picante! Lembro que eu adorava quando minha boca queimava!"

Dante ficou pálido.

Dante tinha uma úlcera severa. Comida picante era como lâminas líquidas para ele. Ele costumava me fazer cozinhar tudo sem tempero.

"Dante também adora comida picante, não é, amor?", Sofia perguntou, olhando para ele com olhos grandes e cheios de adoração.

Dante engoliu em seco. "Sim. Adoro."

A panela chegou, borbulhando como um caldeirão de óleo vermelho e pimentas.

Sofia empilhou carne no prato de Dante. "Coma!"

Dante comeu.

Eu o observei. Observei o suor brotar em sua testa. Vi sua mão se fechar sob a mesa até os nós dos dedos ficarem brancos. Vi a careta que ele tentava esconder toda vez que engolia.

Ele estava se envenenando para mantê-la feliz. Para manter a mentira viva.

Ele olhou para mim. Eu estava comendo do lado não picante.

Ele me mandou uma mensagem por baixo da mesa.

Só estou interpretando. Não leve a mal.

Olhei para a mensagem, depois para ele.

Ele estava sentindo dor física por ela. Ele nem sequer suportaria uma conversa estranha por mim.

"Ah, não!", um garçom tropeçou perto da nossa mesa.

Ele carregava uma jarra de reposição de caldo picante fervente.

Ele tropeçou. A jarra voou.

Estava indo direto entre mim e Sofia.

O tempo pareceu desacelerar em um borrão de movimento.

Vi os olhos de Dante se arregalarem. Vi seus músculos se contraírem.

Ele não olhou para mim.

Ele se lançou.

Capítulo 3

O som de líquido fervente atingindo a pele é algo que você nunca esquece. É um silvo úmido e crepitante, imediatamente seguido pelo cheiro enjoativo de carne cozida.

Dante se moveu antes que eu pudesse piscar. Ele jogou seu corpo sobre Sofia, protegendo-a completamente como uma muralha humana.

A jarra se estilhaçou em suas costas, lançando um spray de óleo vermelho escaldante pela mesa.

"Dante!", Sofia gritou.

Ele grunhiu, o rosto contorcido em agonia, mas seu primeiro instinto — seu único instinto — foi segurar o rosto de Sofia entre as mãos.

"Você está bem?", ele ofegou, seus olhos a examinando freneticamente. "Te atingiu?"

"Minha mão!", ela chorou, mostrando um dedo. Havia uma pequena marca de respingo vermelha, mal do tamanho de uma moeda de dez centavos.

"Precisamos de um médico!", Dante rugiu para o garçom aterrorizado. Ele pegou Sofia no colo, ignorando o vapor que subia de sua própria camisa encharcada.

Ele correu em direção à porta.

Ele passou correndo por mim.

Eu estava sentada na cadeira, congelada.

Meu braço esquerdo estava em chamas.

O respingo não atingiu Sofia porque Dante o bloqueou. Mas o desvio enviou uma onda de óleo fervente em arco pelo meu antebraço e ombro.

Minha pele já estava formando bolhas, o tecido da minha blusa derretendo na carne.

"Dante", sussurrei.

A porta do restaurante se fechou atrás dele. Ele não me ouviu. Ele já tinha ido, acalmando Sofia para que ficasse com ele.

A dor me atingiu um segundo depois. Foi um grito branco e quente que fez minha visão se afunilar em um ponto de escuridão.

Levantei-me, minhas pernas tremendo. O garçom chorava no canto.

"Saia do meu caminho", sibilei.

Saí do restaurante. Não chamei uma ambulância. Não liguei para Dante.

Entrei no meu carro e dirigi com uma mão só até o médico da Família, cerrando os dentes com tanta força que pensei que eles rachariam sob a pressão.

O médico, um velho chamado Dr. Rossi que já havia costurado metade dos mafiosos da cidade, olhou para o meu braço e praguejou baixinho em italiano.

"Segundo grau, beirando o terceiro em alguns pontos", ele murmurou enquanto cortava a camisa. "Isso vai deixar cicatriz, Elena."

"Faça", eu disse. Não aceitei os analgésicos que ele ofereceu. Eu queria sentir. Eu precisava me lembrar disso.

Voltei para a cobertura. Matteo não estava lá.

Sentei-me na beira da cama, lutando para ajustar os curativos novos com uma mão. O silêncio do apartamento era pesado, pressionando meus ouvidos.

Abri meu celular.

Sofia havia postado no Instagram há dez minutos.

Uma foto de Dante em uma cama de hospital, deitado de bruços. Ele parecia pálido, com dor. Sofia segurava sua mão. Seu dedo tinha um pequeno curativo.

Legenda: Meu herói. Ele me salvou do fogo. O verdadeiro amor é sacrifício. <3

Olhei para o meu braço. Os curativos já estavam vazando sangue.

Ele nem sequer olhou para trás.

Percebi então que não era apenas sobre o passado. Não era sobre a memória dela.

Ele a amava. Ele a amava com um desespero que o deixava cego para todo o resto.

Eu era apenas a opção segura. A noiva arranjada. O dever.

Ela era a escolha.

Na manhã seguinte, a campainha tocou.

Dante.

Ele parecia péssimo. Seus movimentos eram rígidos, suas costas obviamente muito enfaixadas sob a camisa larga.

"Elena", ele disse quando abri a porta. "Eu... percebi que não verifiquei como você estava."

Ele viu os curativos no meu braço. Eles iam do meu cotovelo até o meu pescoço.

Seu rosto desmoronou. "Oh, meu Deus. Elena."

Ele entrou, tentando me alcançar. "Por que você não disse nada? Pensei que não tinha te atingido."

"Você não olhou", eu disse simplesmente.

"Eu entrei em pânico", ele gaguejou. "Sofia... ela é tão frágil. O médico disse que o choque poderia resetar a memória dela de novo. Eu apenas reagi."

Ele pegou o celular. "Estou ligando para o melhor cirurgião plástico. Vamos consertar isso. Eu prometo."

Ele tentou tocar meu ombro bom.

"Não toque." Dei um passo para trás, colocando distância entre nós.

"Eu trouxe isso para você." Ele tirou uma caixa de veludo do bolso e a abriu. Um colar de diamantes brilhava lá dentro. "Me desculpe. Vou compensar você. Da próxima vez, eu te protegerei."

"Próxima vez?", eu ri, um som seco e sem humor que arranhou minha garganta. "Você deveria salvá-la, Dante. Você é o amante dela."

"Elena, pare."

"Eu sou a mulher do Chefão", eu disse. "Não preciso da sua proteção. E não quero seus diamantes de culpa."

Peguei a caixa da mão dele e a joguei no corredor.

"Saia."

"Você está com ciúmes", ele disse, balançando a cabeça, fazendo uma careta de dor nas costas. "Você está agindo de forma irracional porque eu a salvei primeiro. É instinto, Elena! Ela é menor, é mais fraca!"

"Ela é quem você quer", eu disse. "Vá para ela."

Bati a porta na cara dele.

Encostei a testa na madeira fria, respirando o silêncio.

Meu celular vibrou. Uma mensagem de Matteo.

Soube do acidente. O garçom já foi resolvido. Você se queimou?

Digitei de volta com um polegar.

Estou bem. Apenas uma cicatriz.

Cicatrizes são lições, ele respondeu. Use-a.

Dante não voltou. Ouvi pelos corredores que ele passou os dois dias seguintes ao lado da cama de Sofia, dando-lhe sopa porque o dedo dela "doía demais para segurar uma colher".

Sentei-me na cobertura, observando as luzes da cidade, sentindo a queimadura latejar no ritmo do meu coração.

A indiferença estava se instalando. Era fria e entorpecente, como anestesia.

Eu não estava mais com raiva.

Eu tinha acabado.

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