Ponto de Vista de Catarina De Luca
Eu estava sentada à cabeceira da longa mesa de jantar de mogno, o sol da manhã filtrando pelas janelas altas em arco. Partículas de poeira dançavam nos feixes de luz, alheias à tensão que se apertava na sala.
Donato De Luca, o Don da família e meu sogro, sentava-se na extremidade oposta. Ele cortava seu bife com precisão cirúrgica, a faca raspando na porcelana em movimentos rítmicos e deliberados.
"Catarina," ele disse, sua voz rouca, como pedras se moendo. "Você parece quieta esta manhã."
Tomei um gole lento do meu café preto. Era amargo, espelhando o gosto de bile que eu vinha engolindo há semanas.
"Estive revisando as contas da fundação de caridade da família, Donato," eu disse, mantendo minha voz suave, desprovida de emoção. "Notei algumas... irregularidades. Despesas parasitárias que estão sangrando o fundo."
Donato parou, sua faca pairando no ar. Ele ergueu o olhar, seus olhos escuros e pesados perfurando os meus. Ele era um predador por natureza, e reconheceu a mudança na pressão atmosférica. Ele não via a nora submissa e enlutada hoje. Ele via uma jogadora sentada à mesa.
"É mesmo?" ele perguntou, seu interesse aguçado.
"Acho que é hora de cortarmos o peso morto," afirmei, sustentando seu olhar. "Começando pelas mesadas discricionárias para membros não essenciais da família. Precisamos priorizar o legado, não financiar os hobbies de aproveitadores."
Ele me encarou por um longo e tenso momento. Então, um sorriso pequeno, quase imperceptível, tocou os cantos de seus lábios. Era um olhar de aprovação.
"Marcos," ele chamou seu Consigliere, que se misturava às sombras perto da parede. "Faça como ela diz."
Marcos assentiu uma vez e começou a digitar em seu tablet.
Duas horas depois, a onda de choque atingiu a mansão.
As notícias viajavam rápido em nosso mundo. Sofia tentou comprar uma bolsa de grife de edição limitada na cidade, apenas para ter seu Cartão Black recusado. O boato era que os vendedores não foram nada discretos sobre a rejeição.
Eu estava sentada no jardim da família, um livro aberto no meu colo, embora não tivesse virado uma página em vinte minutos. O ar estava perfumado com jasmim, mas a paz estava prestes a ser quebrada.
Ouvi a comoção antes de vê-la.
Sofia marchava pelo gramado bem cuidado, seu rosto corado de um vermelho manchado. Ela parecia pronta para gritar, para me despedaçar. Mas no momento em que me viu, sua expressão mudou instantaneamente.
A raiva desapareceu, substituída por uma máscara de preocupação doce e de olhos arregalados. Foi uma troca terrivelmente praticada.
Estávamos perto dos estábulos da família. Era um dia de reunião, o que significava que várias esposas de Capos estavam presentes, bebendo champanhe sob o pavilhão branco e observando os puro-sangues.
Sofia se aproximou de mim. Ela usava um traje de montaria personalizado que provavelmente custava mais que o PIB de um pequeno país.
"Catarina," ela arrulhou, estendendo a mão para entrelaçar seu braço no meu. "Está tudo bem? Ouvi dizer que houve uma falha terrível com as contas."
Ela estava me testando. Ela queria uma reação, uma cena pública que pudesse manipular.
Senti uma repulsa física ao seu toque. Era como ter uma víbora se enrolando no meu bíceps.
Eu me afastei. Não a empurrei. Não a golpeei. Simplesmente recuei, desengajando meu membro do dela como se ela fosse contagiosa.
"Espaço pessoal, Sofia," eu disse, minha voz caindo para um registro gélido.
Os olhos de Sofia se arregalaram. Ela tropeçou para trás, embora não houvesse nada para tropeçar. Ela jogou os braços para fora, desequilibrou-se de propósito e caiu para trás na grama lamacenta com um suspiro teatral.
"Oh!" ela gritou, agarrando o tornozelo e fazendo uma careta de dor fingida. "Catarina, por que você me empurrou?"
A conversa sob o pavilhão parou instantaneamente.
As esposas correram, seus saltos afundando na grama, cacarejando como um bando de galinhas agitadas.
"Como você pôde?" uma delas sibilou para mim, ajoelhando-se ao lado de Sofia. "Ela é apenas uma garota."
"Tão sem coração," outra sussurrou alto o suficiente para todos ouvirem.
Eu fiquei ali, congelada no centro da tempestade. O gaslighting foi instantâneo. Coletivo. Elas viram o que queriam ver.
Então vieram os passos pesados e urgentes.
Alexandre veio dos estábulos, suas botas batendo na terra. Ele não olhou para mim. Ele foi direto para Sofia, pegando-a nos braços como se ela fosse feita de vidro fiado.
"Você está machucada?" ele perguntou, sua voz pingando uma ternura que fez meu estômago revirar.
"Estou bem," Sofia choramingou, enterrando o rosto na curva do pescoço dele, escondendo seu sorriso de escárnio. "Ela não quis. Eu provavelmente só... tropecei."
Alexandre virou a cabeça. Seus olhos encontraram os meus, e eram cacos de gelo azul.
"Peça desculpas," ele ordenou.
Eu olhei para ele. Olhei para a mulher encenando uma tragédia contra seu peito.
"Não," eu disse.
"Catarina," ele avisou, sua voz um rosnado baixo.
"Eu não a toquei," afirmei calmamente, recusando-me a recuar.
Ele zombou, o nojo curvando seu lábio. "Você está com ciúmes. É patético."
Ele virou nos calcanhares e a levou para a casa principal. As esposas me encararam, balançando a cabeça em julgamento, antes de segui-los como uma procissão fúnebre.
Fiquei sozinha na lama, o silêncio ensurdecedor.
Mais tarde naquela tarde, um anúncio foi feito. Para "compensar" Sofia por seu sofrimento, Alexandre daria pessoalmente a ela aulas particulares de equitação.
Eu observei da varanda do segundo andar.
Lá embaixo, no picadeiro, Alexandre ajustava a pegada de Sofia nas rédeas. Ele estava de pé atrás dela, seu peito pressionado contra as costas dela. Ele sussurrou algo em seu ouvido, e ela riu, jogando a cabeça para trás, expondo sua garganta.
Ele entregou a ela as rédeas de *Obsidiana*, seu garanhão favorito. Ele nunca deixava ninguém montar aquele cavalo. Nem mesmo eu.
Uma memória brilhou — eu, pedindo a ele para vir aos meus ensaios de balé. O assento vazio na primeira fila, noite após noite, zombando de mim.
"*A dignidade é mais importante que a vida,*" Donato me disse uma vez.
Neste momento, minha dignidade estava sendo pisoteada na terra daquele picadeiro junto com as pegadas dos cascos.
Alexandre não estava apenas me traindo. Ele estava me apagando.
Afastei-me da varanda, a imagem deles gravada em minhas retinas. Eu precisava de uma nova estratégia. Eu era uma rainha em um tabuleiro de xadrez onde o rei havia desertado para o outro lado.
Era hora de parar de jogar na defesa.
Ponto de Vista de Catarina De Luca
Eu estava andando pelo corredor que levava à sala de arreios quando vi.
Alexandre estava lá, segurando uma caixa de veludo preto. Com um movimento lento e deliberado, ele tirou um capacete de montaria feito sob medida.
Era preto, elegante e polido até um brilho espelhado, com o brasão dos De Luca gravado em prata na lateral.
Ele o colocou gentilmente na cabeça de Sofia, prendendo a alça sob o queixo dela. Seus dedos demoraram em sua mandíbula, um toque que era íntimo demais para um simples presente.
"Perfeito," ele disse suavemente.
O ar saiu dos meus pulmões.
Três anos atrás, ele havia encomendado um capacete semelhante para mim. Era um símbolo da minha aceitação no círculo íntimo. Deveria significar que eu pertencia.
Fui até meu armário. Meu capacete estava na prateleira de cima, coberto por uma fina camada de poeira.
Uma dor aguda e irregular cortou meu peito. Não era apenas sobre os objetos. Era a transferência de privilégio. A transferência de status.
Peguei meu equipamento. Eu precisava cavalgar. Precisava sentir o vento no meu rosto, para fugir da sufocação desta casa antes que ela me esmagasse completamente.
Selei a égua mais temperamental do estábulo, uma fera negra chamada Fúria. Os cavalariços me olharam com preocupação, dando um passo à frente para ajudar, mas eu os dispensei. Minhas mãos tremiam de raiva enquanto eu apertava a cilha, cega demais pela raiva para verificar novamente o equipamento.
Entrei na arena de saltos. Alexandre e Sofia estavam na extremidade oposta, rindo. Eles não olharam para cima.
Incitei Fúria a galopar. O ritmo de seus cascos batia na terra, combinando com a batida frenética do meu coração.
Havia um salto oxer alto à frente. Era perigoso. Era exatamente o que eu precisava.
"Voe," eu sussurrei.
Nós nos lançamos no ar. Por um segundo, me senti sem peso. Me senti livre.
Então, ouvi um estalo.
A correia da cilha que segurava minha sela cedeu.
A gravidade assumiu o controle. A sela deslizou violentamente para o lado. Perdi meus estribos.
Caí no chão com força.
O impacto me deixou sem ar. Um estalo doentio ecoou da minha perna direita.
A dor explodiu. Era um fogo branco e quente consumindo meu corpo, me cegando, roubando minha voz.
Deitei na terra, ofegando por ar. Através da névoa de agonia, olhei para a outra extremidade da arena.
Alexandre não havia se movido.
Ele ainda estava conversando com Sofia. Ele nem mesmo virou a cabeça.
Percebi então que eu poderia morrer aqui mesmo, e ele não notaria até que o silêncio se tornasse inconveniente.
"Socorro!" eu gritei, minha voz rouca e quebrada.
Um cavalariço correu, seu rosto pálido.
*
Uma hora depois, eu estava na ala médica particular da família. Minha perna estava engessada, elevada em travesseiros rígidos.
Alexandre finalmente entrou. Ele segurava um buquê de lírios genéricos. O tipo que você compra em um posto de gasolina como um pensamento tardio.
"Você deveria ser mais cuidadosa," ele disse, colocando as flores na mesa de cabeceira. Ele não se sentou.
"A sela quebrou," eu disse, minha voz desprovida de emoção.
"Equipamentos falham." Ele encolheu os ombros, um rolar displicente de seus ombros largos. "Vou mandar os cavalariços verificarem."
Ele ajustou o cobertor sobre meus pés. Seu toque era mecânico. Ele estava cumprindo um dever. Não havia preocupação em seus olhos, apenas irritação por sua tarde ter sido interrompida.
"Descanse," ele disse. "Tenho negócios."
Ele saiu.
Naquela noite, a dor me manteve acordada. Fiquei olhando para o teto, contando as rachaduras no gesso.
Ouvi vozes no corredor.
"É só uma perna quebrada, Marcos," a voz de Alexandre flutuou pela porta. "Ela já teve piores. Pare de agir como se fosse uma tragédia."
"A fivela foi lixada, Alexandre." A voz de Marcos era baixa, urgente. "Não foi um acidente. Sofia foi vista perto do armário de arreios dela esta manhã."
Meu coração parou.
Houve um silêncio. Um silêncio longo e pesado.
"Ela só estava tentando ensinar uma lição a Catarina," Alexandre disse finalmente. "Catarina a envergonhou com a coisa do cartão de crédito. Deixe para lá."
"Mas chefe—"
"Eu disse para deixar para lá."
Frio.
Um frio absoluto e congelante me invadiu. Começou nos meus dedos dos pés e subiu até meu couro cabeludo.
Ele sabia.
Ele sabia que ela havia sabotado minha sela. Ele sabia que ela poderia ter me matado.
E ele não se importava.
Ele a estava protegendo. Ele estava permitindo que ela me caçasse.
Fechei os olhos. Uma única lágrima vazou, quente contra minha pele fria.
Não a enxuguei. Deixei secar.
Não gritei. Não joguei o vaso de lírios contra a parede.
Fiquei ali no escuro e fiz uma promessa ao teto.
Eu não diria mais uma palavra sobre isso. Não reclamaria. Eu suportaria.
Porque o silêncio é o grito mais alto de uma mulher que já se cansou.