Capítulo 2 - Regras Queimam
POV Isabela
O sol da manhã atravessava as cortinas pesadas do quarto, iluminando meu corpo exausto. Eu não havia dormido bem. Cada barulho da casa parecia um lembrete de que não estava no meu lar, mas sim na mansão Duarte, no território inimigo.
Levantei-me devagar, ainda com o vestido de seda que minha mãe insistiu que usasse na noite de núpcias. Ri sozinha da ironia: a tal "noite de núpcias" havia terminado em um pacto silencioso, cheio de veneno e regras.
Lavei o rosto, encarei meu reflexo no espelho e sussurrei:
- Você não vai se quebrar, Isabela.
Desci as escadas da mansão, e encontrei Alejandro já à mesa do café. Perfeito como sempre: terno impecável, gravata cinza escura, cabelo penteado para trás. Ele parecia pronto para governar o mundo antes mesmo das oito da manhã.
- Bom dia, esposa - disse, erguendo a xícara de café como um brinde.
- Bom dia. - Sentei-me à mesa, tentando não me intimidar pela forma como ele me observava.
Um silêncio desconfortável se instalou até que ele colocou a xícara no pires, inclinando-se levemente para mim.
- Hoje você vai comigo.
Franzi o cenho.
- Como assim?
- Para a empresa. - Ele sorriu de canto, o tipo de sorriso que nunca prometia coisa boa. - Você agora é uma Duarte, Isabela. E uma esposa de fachada perfeita precisa aparecer também nos negócios.
- Não sei nada sobre seus negócios.
- Então vai aprender. - A voz dele era firme, sem espaço para objeção. - Já que vamos fingir que somos um casal unido, nada mais justo do que dar a você um cargo de destaque.
O coração disparou. Aquilo não era um presente, era uma armadilha.
- E qual seria esse cargo? - perguntei, desconfiada.
- Vice-presidente de relações institucionais. - Ele saboreou cada palavra, como se fosse uma provocação. - Vai lidar com eventos, imprensa, filantropia... coisas que uma herdeira Montoya sabe fazer bem. Aparência.
Arqueei uma sobrancelha.
- Então você quer me usar como rosto bonito da sua empresa?
- Quero que mostre ao mundo que estamos juntos em tudo. - Seus olhos me prenderam. - E quero ver até onde você aguenta.
Não respondi. Apenas mantive o olhar firme, engolindo o gosto amargo da provocação.
*
A sede do império Duarte era uma torre de vidro que refletia o céu da cidade. Luxuosa, intimidadora. Ao entrar, percebi os olhares curiosos dos funcionários, cochichos, sussurros. Eu era a "nova senhora Duarte", a esposa de contrato que virara notícia em todos os jornais.
Alejandro caminhava ao meu lado, imponente, como se me exibisse. Seu braço roçava no meu, e mesmo sem me tocar de verdade, eu sentia o calor dele queimando.
Entramos na sala da presidência. Gigantesca, com janelas panorâmicas e uma mesa de madeira escura imponente. Eu mal tive tempo de observar quando uma mulher se aproximou.
Alta, elegante, cabelos loiros presos em coque, saia justa, salto agulha. A típica executiva que sabia o poder que tinha.
- Senhor Duarte - ela disse, sorrindo com demasiada intimidade. - Bom dia.
- Bom dia, Carla. - Alejandro respondeu, com aquele tom rouco que eu já aprendia a decifrar: charme calculado.
Ela me lançou um olhar rápido, avaliador, antes de se virar de volta para ele.
- A reunião com os investidores foi confirmada. E... - sua voz baixou levemente, quase insinuante - ...os relatórios estão em cima da sua mesa.
Ela tocou de leve no braço dele. Toque que não passou despercebido.
Meu estômago revirou. Não era ciúmes... eu me recusei a admitir que fosse. Era humilhação. Ali estava a prova do que eu já sabia: nosso casamento era uma farsa, e ele podia muito bem ter qualquer mulher que quisesse.
Alejandro percebeu meu olhar. Sorriu.
- Isabela, esta é Carla, minha assistente. Muito competente.
- Competente, claro. - Respondi seca, cruzando os braços.
Carla sorriu com falsidade.
- É um prazer conhecê-la, senhora Duarte.
"Senhora Duarte." As palavras me soaram como uma sentença de prisão.
Enquanto Alejandro se sentava em sua mesa, Carla permanecia perto demais. Inclinava-se sobre os relatórios, apontava dados, seus dedos roçando propositalmente nos dele. Eu assistia, cada fibra do meu corpo em chamas, tentando manter a máscara de frieza.
Alejandro percebeu. E ao invés de afastá-la, fez questão de prolongar a cena.
- Excelente trabalho, Carla. - Sua voz soava ainda mais grave, quase sedutora. - É bom saber que posso contar com você.
Ela sorriu, satisfeita.
- Sempre, senhor Duarte.
Meu sangue ferveu. Respirei fundo, engoli a raiva. Eu não tinha o direito de me importar. Afinal, tínhamos estabelecido regras, e eu mesma não havia dito nada sobre outras mulheres.
Mas quando Carla saiu, Alejandro se recostou na cadeira, os olhos fixos em mim.
- O que foi, esposa? - perguntou, com aquele sorriso diabólico. - Não gostou da recepção calorosa da minha assistente?
- Se você precisa que outra mulher se jogue sobre você para inflar o ego, Alejandro, isso é problema seu.
- Ah, não. - Ele se levantou devagar, aproximando-se de mim. - É problema nosso.
- Nosso?
- Porque eu vi a forma como você reagiu. - Ele parou à minha frente, tão próximo que tive de levantar o queixo para encará-lo. - Não gostou de ver outra mulher me tocando.
- Eu não sou ciumenta. - Forcei a voz a sair firme. - Apenas não gosto de palhaçadas no ambiente de trabalho.
Ele riu baixo, rouco, perigoso.
- Continue repetindo isso para si mesma, Isabela. Talvez um dia você acredite.
Dei um passo para trás, tentando respirar.
- Você está quebrando as regras.
- Quais? - Seu olhar me queimava. - Você disse que não queria que eu tocasse em você sem permissão. Mas não disse nada sobre outras mulheres.
Meu coração disparou. Ele estava certo. Eu havia esquecido desse detalhe.
- Então talvez seja hora de acrescentar uma nova regra - murmurei, a raiva me dando coragem.
Ele arqueou uma sobrancelha.
- Qual?
- Nada de exibir amantes diante de mim. - Cruzei os braços, firme. - Se vai brincar com sua assistente, que seja longe dos meus olhos.
O silêncio caiu. O olhar dele escureceu, profundo, indecifrável. Por um segundo, achei que ele fosse explodir. Mas então sorriu.
- Está aprendendo a jogar, Isabela. - Sua voz era quase um elogio. - Gosto disso.
Eu não respondi. Apenas sustentei o olhar, mesmo com o coração batendo descompassado.
Ele se virou, voltando à mesa como se nada tivesse acontecido.
- Reunião em quinze minutos. - Disse, frio. - Quero que você esteja ao meu lado.
Capítulo 3 – O Assistente
POV Isabela
Os corredores da sede Duarte eram longos, frios e cheios de olhares. Cada funcionário que passava me observava com uma mistura de curiosidade e julgamento.
Caminhava ao lado de Alejandro, a passos firmes, tentando ignorar o peso de cada olhar. Ele parecia não se importar. Sua presença dominava o ambiente como se fosse dono não apenas do prédio, mas da cidade inteira. E de certo modo, era.
Entramos em uma sala de reuniões ampla, paredes de vidro, mesa comprida de mármore polido. Vários executivos já estavam lá, de ternos alinhados, laptops abertos. Quando me viram, levantaram-se em respeito.
- Senhores - Alejandro disse, a voz grave preenchendo o espaço. - Esta é minha esposa, Isabela Montoya Duarte. A partir de hoje, vice-presidente de relações institucionais.
Aquelas palavras ecoaram como pedras lançadas na água. Vi alguns olhares discretamente desconfiados, outros abertamente contrariados. Eu era uma intrusa ali, uma Montoya no império Duarte.
- Isabela ficará ao meu lado em todos os eventos e projetos de imagem da empresa. - Alejandro prosseguiu, ignorando as expressões. - E terá o próprio assistente para dar suporte.
Ele fez um sinal, e a porta se abriu. Um homem entrou.
Alto, magro, de terno azul-marinho impecável. Cabelos castanhos escuros penteados de forma elegante, olhos claros que contrastavam com a pele morena. Um sorriso discreto, educado, mas com uma fagulha de ousadia escondida.
- Senhora Duarte. - Ele se aproximou e estendeu a mão. - É uma honra. Sou Gabriel Mendes, seu novo assistente pessoal.
Apertei sua mão, firme. Ele tinha um aperto seguro, sem hesitação. Gostei disso.
- É um prazer, Gabriel.
- Gabriel já trabalha conosco há alguns anos. - Alejandro explicou, o olhar avaliando a cena com atenção. - Formado em Relações Internacionais, especialista em protocolo e eventos. A pessoa certa para cuidar de você nesse... novo papel.
Gabriel sorriu, mas seus olhos me analisaram com mais intensidade do que eu esperava.
- Pode contar comigo, senhora Duarte. - A forma como disse parecia carregar um subtexto: sei que está sozinha nessa guerra, mas não precisa estar totalmente desarmada.
Sentei-me ao lado de Alejandro, consciente de cada olhar que nos observava. Os executivos começaram a apresentar relatórios sobre projetos, lucros, parcerias. Eu tentava acompanhar, anotando mentalmente o que podia, mas a linguagem era quase um campo de batalha próprio.
De vez em quando, Gabriel inclinava-se discretamente para mim, explicando em voz baixa termos técnicos.
- Esse projeto é sobre um resort em Cancún, parceria milionária. - sussurrou em meu ouvido.
- Essa cláusula fala sobre impostos internacionais, mas é puro teatro. Eles querem mostrar que estão no controle.
Sua voz era baixa, calma, precisa. Graças a ele, consegui entender o que estava em jogo.
Percebi Alejandro observando nossa interação. Seus olhos escureciam levemente a cada vez que Gabriel se aproximava demais.
No meio da reunião, um dos executivos, um homem grisalho, arrogante, lançou uma provocação velada:
- Com todo respeito, senhor Duarte... colocar uma Montoya em posição de vice-presidente não seria... arriscado?
O silêncio caiu. Todos esperaram a reação.
Antes que Alejandro respondesse, eu me endireitei na cadeira.
- Arriscado seria continuar repetindo os mesmos erros que quase levaram esta empresa à falência no último trimestre. - Minha voz saiu firme, surpreendendo até a mim mesma. - Não se preocupem, senhores. Sei muito bem o que significa carregar um sobrenome que incomoda. Estou aqui para provar que sei jogar este jogo.
O grisalho arregalou os olhos, pego de surpresa. Alejandro sorriu discretamente, satisfeito.
- Como podem ver - ele disse, a voz carregada de sarcasmo -, minha esposa não precisa que eu a defenda.
A reunião prosseguiu com menos resistência, e senti uma ponta de orgulho.
Quando a reunião terminou, fui conduzida ao meu novo escritório, um espaço elegante, com vista para a cidade. Sobre a mesa, flores frescas e uma placa dourada: Vice-presidente Isabela Duarte.
Sorri com amargura. Um título bonito para uma gaiola dourada.
Gabriel entrou logo depois, trazendo uma pasta.
- Esses são os compromissos da semana: coletiva de imprensa amanhã, gala beneficente no sábado. - Ele organizou os papéis com eficiência. - Também preparei um resumo dos principais acionistas e suas... preferências. Vai facilitar lidar com eles.
- Você parece saber tudo. - Comentei, impressionada.
Ele sorriu, um sorriso rápido, quase cúmplice.
- Faz parte do trabalho prever o próximo movimento.
Seus olhos encontraram os meus por um segundo longo demais. Havia algo nele... inteligência, sagacidade, talvez até perigo.
Antes que eu pudesse dizer qualquer coisa, Alejandro entrou sem bater. Seu olhar percorreu a cena: eu e Gabriel frente a frente, próximos demais.
- Já se adaptando, esposa? - perguntou, o tom carregado de ironia.
- Sim. Gabriel é... eficiente.
- Ótimo. - Alejandro caminhou até minha mesa, apoiando as mãos no tampo. - Espero que seja leal.
- Sempre fui leal à empresa, senhor Duarte. - Gabriel respondeu, tranquilo. - E agora, à senhora Duarte.
As palavras pairaram no ar, pesadas. Eu vi o maxilar de Alejandro se contrair.
- Veremos. - murmurou, antes de se virar e sair da sala.
Fiquei em silêncio por um tempo, encarando a porta fechada. Gabriel organizava os documentos sem comentar, como se não tivesse percebido a tensão.
Mas eu percebi. Alejandro estava irritado. Não apenas com a ousadia dos executivos... mas com a presença de Gabriel ao meu lado.
Sorri sozinha, amarga.
- Parece que minhas regras já começaram a queimar, não é, Alejandro?