Capítulo 2

Meu quarto na mansão Moretti continuava exatamente como eu o havia deixado anos atrás. As paredes em tons pastéis, a cama com dossel e os móveis de design clássico italiano exalavam um conforto opulento, mas, naquela noite, a seda dos lençóis me pareceu fria. Eu mal havia terminado de desfazer a primeira mala quando batidas suaves soaram na porta.

Era Marta, a governanta, avisando que meu pai havia retornado e me aguardava no escritório.

Desci as escadas sentindo o peso familiar daquela casa, que ainda parecia tão grande quanto eu achava que era na infância. Algumas coisas nunca mudam. O escritório de Roberto Moretti ficava no fim da ala leste, tudo muito sóbrio, mogno escuro, cheiro de charutos cubanos e couro envelhecido. Quando empurrei as pesadas portas duplas, a apreensão que eu carregava se dissipou por um breve momento.

Ele estava de pé perto da lareira apagada, sem o paletó do terno, as mangas da camisa branca dobradas até os cotovelos. Apesar das sombras de exaustão sob os olhos e da tensão que a "reunião" na fronteira sul claramente havia lhe cobrado, o rosto endurecido do meu pai se iluminou assim que me viu.

— La mia principessa — ele abriu os braços, a voz rouca e calorosa.

Caminhei até ele e me deixei ser envolvida por um abraço apertado e protetor. Por um instante, fechei os olhos, sentindo o cheiro familiar da loção pós-barba misturado ao uísque e à fumaça. Ali, ele era apenas meu pai. O homem que me ensinou a andar de bicicleta nas colinas de Palisades e que costumava me trazer doces de suas viagens a negócios.

— Senti sua falta, papai — murmurei contra o ombro dele.

— E eu da minha garotinha. A casa fica vazia demais sem você e sua mãe. — Ele recuou um passo, segurando meus ombros com as mãos pesadas e calejadas, avaliando-me dos pés à cabeça com um sorriso orgulhoso. — Mas olhe só para você. A Europa lhe fez bem, Serena. Você partiu uma menina e voltou uma mulher deslumbrante. Sua avó deve ter tido muito trabalho para manter os rapazes italianos longe dos portões.

Ri fraco, uma resposta automática.

— A Nonna sabe ser mais intimidadora que os seus soldados quando quer.

Ele soltou uma risada genuína, caminhando até o pequeno bar de cristal para servir dois dedos de uísque. Mas, enquanto o líquido âmbar caía no copo, o clima na sala começou a mudar sutilmente. O sorriso do meu pai não desapareceu, mas seus olhos escureceram, assumindo aquela frieza analítica que ele reservava para a mesa de negociações.

Ele caminhou para trás de sua imponente mesa de trabalho. Não se sentou, mas apoiou uma das mãos na madeira polida e usou a outra para apontar a cadeira de couro do lado oposto.

— Sente-se, Serena.

A transição foi cirúrgica. O momento "pai e filha" havia acabado, agora, eu estava diante de Roberto Moretti, o capo. Obedeci, cruzando as pernas e mantendo a postura ereta, o rosto o mais impassível que consegui.

— Daniel foi buscá-las hoje à tarde - ele comentou, dando um gole lento na bebida.

— Sim. Ele foi muito gentil em se oferecer.

— Foi um gesto de respeito com a nossa família, e eu aprecio isso. Mas não se iluda achando que os Barone fazem favores por cortesia — ele suspirou, sentando-se finalmente em sua poltrona. — É por isso que mandei trazê-la de volta, Serena. O tabuleiro está mudando. Precisamos solidificar nossas alianças.

Meu estômago afundou, mas assenti.

— O senhor já escolheu alguém?

— Ainda não. Estou avaliando as opções. Você tem o sangue de um dos capitães mais temidos da Costa Oeste, e agora tem a beleza e a postura de uma verdadeira dama da Cosa Nostra. Você é um prêmio, Serena, e eu não vou entregá-la a qualquer um.

Ele girou o copo de uísque, parecendo pesar as palavras.

— Em um mundo perfeito — Roberto continuou, a voz baixando um tom -, um dos herdeiros seria o ideal. Unir o sangue Moretti diretamente à coroa Barone. Um casamento com Daniel ou com Enzo elevaria nossa família ao topo absoluto da hierarquia.

A menção do nome de Daniel fez a lembrança daquele olhar no retrovisor queimar a minha nuca novamente. Prendi a respiração, esperando o veredito.

— Mas? - perguntei, a voz controlada.

— Mas, os homens da família que podem e irão assumir a organização um dia não estão procurando esposas. Enzo é um cão selvagem, imprevisível demais. E Daniel... — Meu pai balançou a cabeça, um misto de admiração e cautela. — Daniel é focado no poder. Por enquanto, ele foge de compromissos oficiais. O tipo de garota que atrai a atenção dele no momento não é o tipo de garota com quem se casa, são distrações. Mulheres que não exigem uma aliança assinada com sangue. Ele não está pronto para a coleira do matrimônio, e eu não vou expor minha filha a uma rejeição tentando forçar um acordo com o Don.

Apertei as mãos no colo, o tecido do meu vestido amassando sob os meus dedos. Distrações. Outro tipo de garota. A avaliação do meu pai fazia todo o sentido tático e lógico. Era assim que os homens do nosso mundo operavam.

Mas enquanto ele continuava a falar sobre outras famílias menores de Nova York e Chicago, minha mente voltou para o interior do Bentley. Para o cheiro amadeirado. Para a tensão elétrica no ar e para a risada genuína que ele havia compartilhado com a minha mãe, momentos antes de cravar os olhos escuros em mim através do espelho.

Meu pai era o melhor estrategista que eu conhecia, mas, por um segundo, me perguntei se, talvez, ele estivesse subestimando Daniel Barone.

A batida na porta foi tão discreta que, por um instante, eu pensei ter imaginado.

— Entra — meu pai disse, sem erguer o tom, como se a casa inteira funcionasse no volume dele.

Caterina entrou como se estivesse cruzando um palco que já conhecia de olhos fechados. Minha mãe era elegância sem esforço, ela conseguiria manter sua postura até mesmo sob ameaça de morte. Ela fechou a porta atrás de si e, antes de se aproximar da mesa, pousou a mão no meu ombro, um toque breve, íntimo, como se dissesse eu estou aqui sem palavras.

— Roberto — ela começou, com a doçura calibrada. — Você voltou tarde.

Meu pai levantou os olhos, e por um segundo eles suavizaram. Não muito; só o suficiente para eu perceber que o homem diante de mim ainda era capaz de separar a família do resto do mundo… quando queria.

— Eu voltei quando pude — ele respondeu. — E agora estamos todos aqui.

A frase parecia acolhedora, mas, não conversávamos na sala, e sim em seu ambiente, seu escritório, aliás aquilo mais parecia uma reunião, do que um homem recebendo sua esposa e filha depois de anos. Eu já tinha recebido o abraço. Agora eu tinha a cadeira do outro lado da mesa.

Capítulo 3

Caterina puxou uma cadeira ao meu lado, sem pedir permissão, e se sentou com a naturalidade de quem também tinha construído aquele império à sua maneira. Ela olhou para mim com carinho, e logo para Roberto, com aquele tipo de calma que só mulheres sobreviventes têm.

— Daniel foi buscar a gente — ela disse. — Eu agradeci a ele. Foi... gentil.

Meu pai fez um som curto, quase um assentimento.

— Daniel é educado quando quer — ele respondeu, girando devagar o copo de uísque na mão. — E ele sabe quando convém.

Eu me mantive quieta. Quieta demais, talvez. Mas naquele mundo, falar no momento errado era o equivalente a se expor com o pescoço descoberto.

Caterina cruzou as pernas, postura impecável.

— Há duas coisas que precisamos alinhar, Roberto. Antes que as próximas semanas comecem a engolir a Serena.

O olhar do meu pai pousou nela com atenção real, como se Caterina tivesse puxado uma linha de raciocínio que ele respeitava.

— Fale.

Minha mãe respirou uma vez, com controle.

— Primeiro, a Signora Barone vai receber as senhoras para um chá.

Meu estômago deu uma volta em si mesmo e papai arqueou a sobrancelha.

— Ela chamou você?

— Ela chamou algumas de nós. — Caterina corrigiu, suave. — Jovens em idade de casamento, e suas mães.

Eu consegui manter o rosto impassível, mas por dentro a imagem se formou nítida demais, porcelana fina, arranjos de flores, risos educados, e olhos avaliando. Olhos que medem o valor de uma mulher do mesmo jeito que estudam uma proposta.

— A viúva do executor — meu pai comentou, como se estivesse falando de um título oficial, e não de um homem que, em vida, provavelmente tinha decidido destinos com um aceno de queixo. — Ela ainda gosta de se mostrar útil.

Caterina inclinou a cabeça, concordando apenas no essencial.

— Ela gosta de manter a casa dela como território neutro. — A voz da minha mãe ficou ainda mais educada, mais polida. — E ela gosta de observar com os próprios olhos.

Eu sabia o que aquilo significava. A mãe de Daniel e Enzo não recebia jovens e mães por capricho social. Recebia porque queria ver, pessoalmente, quem estava se aproximando do sangue dela. Quem tinha o direito de respirar perto do sobrenome Barone.

Meu pai pousou o copo no descanso de madeira, sem força, mas com um fim definitivo.

— Serena vai — ele disse.

Não foi pergunta. Não foi sugestão.

Caterina não discutiu. Ela só olhou para mim, por um segundo antes de voltar a atenção para ele novamente.

— Ela vai — minha mãe concordou. — E deve causar uma impressão. Uma boa impressão, eu espero, já que todos sabemos que a Sra. Barone é um tanto exigente, e que a opinião dela pesa consideravelmente quando se trata de alianças de casamento.

Meu pai me encarou, e ali veio o Roberto que eu conhecia desde criança: o homem que conseguia fazer um elogio soar como uma ordem.

— Você sabe se portar — ele disse, como se isso resolvesse tudo. — A Europa lhe ensinou boas maneiras. A casa Barone gosta disso.

Eu quis rir. Um riso pequeno e amargo. Boas maneiras. Como se fosse isso que eles estavam avaliando. Não o meu silêncio, não a minha obediência, não o quanto eu conseguiria sorrir enquanto alguém decidia meu futuro como se escolhesse cortinas para uma sala.

Caterina continuou, sem perder a delicadeza.

— Segundo, nas próximas semanas teremos uma ocasião na casa de Marco.

Ao ouvir o nome do consigliere, meu pai ficou pensativo. Não era medo. Era respeito. Respeito pela mente por trás de muitas decisões.

— O que ele está planejando? — Roberto perguntou.

— Um jantar — Caterina respondeu. — Uma noite... bem selecionada. Ele quer reunir algumas famílias, algumas esposas, alguns jovens. Sem muita pompa. Só o suficiente para ver como as peças se encaixam quando estão na mesma sala.

Meu pai soltou um som baixo, que poderia ser aprovação.

— Marco sempre gostou de ver a coisa funcionando ao vivo.

Meu coração apertou de leve, porque eu entendi o que aquilo significava: não era só sobre eu "aparecer". Era sobre eu ser posta ao lado de certas pessoas, perto de certos nomes, no alcance de certos olhares. O resto viria como vem em todas as histórias do nosso mundo, com sorrisos, promessas e algemas invisíveis.

Caterina virou o rosto na minha direção por um instante.

— Serena precisa entender o protocolo desses encontros — ela disse, e havia um cuidado firme na voz. — Não é só sobre vestir algo bonito. É sobre saber quando falar, quando não falar, para quem sorrir, quem evitar, e como sair de uma conversa antes de parecer desesperada. ou desinteressante.

Meu pai a observou, e eu percebi que ele ouvia minha mãe como se ela fosse uma conselheira. Não uma esposa decorativa. Caterina sabia como esse mundo funcionava, porque ela tinha vivido dentro dele por tempo demais.

— Ela vai aprender rápido — Roberto respondeu. — Ela é minha filha.

A frase deveria ter me aquecido. Em vez disso, me deu a sensação de que eu era um projeto. Um investimento.

E, ainda assim... eu queria que meu pai se orgulhasse. Isso era o mais cruel. A parte de mim que ainda era menina queria o sorriso dele, o "você fez bem", o "você é forte". Mesmo que a força que ele admirasse fosse a mesma que me prendia.

Caterina pareceu escolher as palavras com ainda mais cuidado antes de tocar no que realmente estava no ar desde o prólogo.

— Roberto... e Daniel?

Meu pai inclinou a cabeça, como se ela tivesse perguntado sobre um clima instável. Perigoso. Imprevisível.

— Daniel não está procurando esposa — ele disse, com aquela franqueza que não era brutal; era prática. — Ele está construindo outra coisa. Poder. Território. Nome.

Eu lembrei do Bentley. Das mãos dele no volante. Do jeito que ele parecia, mesmo dirigindo o carro do meu pai, estar no comando de tudo. Caterina não discordou. Ela só acrescentou, com a precisão de quem conhece homens como Daniel há décadas.

— Às vezes, homens assim se interessam por algo que não estavam procurando.

Meu pai soltou um riso curto, quase sem humor.

— Se ele se interessar, eu vou saber. — Então ele olhou para mim, e a sala pareceu diminuir. — E você vai saber também. Porque eu vou dizer a você. É de meu interesse que você tenha um bom casamento.

Eu respirei e, sem planejar, minha voz saiu.

— E se ele não se interessar?

Meu pai me encarou por um segundo longo demais. Depois, a expressão dele fico quase paciente.

— Então não será ele — Roberto respondeu, simples. — Não faltam homens querendo subir na hierarquia.

Minha mãe pôs a mão sobre a minha, debaixo da mesa, escondida. O copo de uísque do meu pai voltou para a mão dele. Ele se levantou, e o movimento foi o sinal de encerramento - como se o capítulo familiar tivesse sido fechado e guardado numa gaveta.

— Nós vamos ao chá — ele concluiu. — E vamos ao jantar do Marco. Caterina, você vai orientar a Serena sobre o que for necessário. Eu confio no seu bom senso.

Minha mãe assentiu com a serenidade de sempre.

— Claro.

Meu pai caminhou até nós, e por um segundo eu achei que ele fosse me tocar de novo, repetir o abraço, devolver alguma ternura. Em vez disso, ele apenas passou a mão de leve pelo meu cabelo, como um gesto antigo, quase automático, carinho, sim, mas sua mente já estava em outro lugar.

— Vão descansar — ele disse, e foi quase gentil. — Hoje foi um dia longo.

Eu me levantei junto com minha mãe, obediente. Já perto da porta, ouvi a voz dele mais uma vez.

— Serena.

Virei. Roberto ergueu o copo, o olhar firme.

— Bem-vinda de volta.

Foi tudo. Sem "senti sua falta" de novo. Sem palavras fáceis. Saí com Caterina, e a porta se fechou atrás de nós silenciosamente.

Do corredor, ainda pude vê-lo por uma fresta de vidro: meu pai de volta ao uísque, de volta ao silêncio, como se aquela sala fosse o único lugar onde ele pudesse existir inteiro.

E eu entendi com uma clareza dolorosa que, para Roberto Moretti, até o amor vinha com regras. E eu tinha acabado de ser colocada de volta no lugar onde essas regras importavam mais do que qualquer saudade.

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