"Vou à festa esta noite", declarei, a minha voz era de uma calma surpreendente, quase como um sussurro de morte. Ele estava no closet, a escolher uma gravata, a sua rotina matinal tão imutável quanto o nascer do sol. A minha voz parou-o. Ele virou-se, os olhos ligeiramente arregalados, mas recuperou a compostura num piscar de olhos. O sorriso habituado à perfeição surgiu nos seus lábios. "Claro, meu amor. Mas a festa estará cheia. Deixa o presente e podemos ir embora. Não quero que te canses." O seu cuidado era um veneno disfarçado de mel. Eu assenti, uma pontada de curiosidade a perfurar a minha armadura. Seria a última vez que participaria num evento como sua esposa.
A mansão da família estava um mar de luzes, os convidados da alta sociedade a transbordar pelos salões. Todos os olhares, todos os sorrisos, eram para a personagem feminina secundária. "Parabéns pela gravidez!", "Parabéns por assumir a agência!", os sussurros e os louvores eram como agulhas a picar-me. Eu passeava entre a multidão, a taça de champanhe na mão, a observar. No centro da sala, um ecrã gigante exibia um projeto arquitetónico deslumbrante. "O mais novo plano genial da personagem feminina secundária!", alguém exclamou. Ela sorria, um brilho de triunfo nos olhos, absorvendo cada palavra de elogio. Por um breve instante, os nossos olhos cruzaram-se, e vi uma sombra de culpa no seu rosto, rapidamente substituída por um sorriso condescendente.
"Estás tão pálida, querida", ela disse, forçando uma falsa preocupação. "Mas agora podes descansar. Eu vou cuidar de tudo na agência." Ela pensava que eu era cega. Eu ignorei-a, os meus olhos fixos no ecrã. O projeto. O meu projeto. O meu corpo ficou rígido, a respiração presa na garganta. Eu conhecia cada linha, cada curva, cada detalhe daquele plano. Era a minha criação, um projeto tão pessoal que eu nem sequer o tinha revelado ao personagem masculino principal. Eu pretendia apresentá-lo ao conselho no nosso aniversário. Aquilo era a minha alma, e estava a ser apresentada como a "ideia genial" dela. Como?
"Não vais invejar-me, pois não?", ela sussurrou ao meu lado, a voz pingando veneno. Eu tremia de raiva. Antes que eu pudesse responder, ela soltou um gemido e desabou no chão, a mão na barriga. "Ela atacou-me! Ela atacou o meu bebé!", ela gritou, os olhos marejados de lágrimas falsas. O caos irrompeu. "O que aconteceu?", "Ela agrediu uma grávida!", os gritos enchiam o salão. Alguém chamou uma ambulância. O personagem masculino principal abriu caminho pela multidão, o rosto pálido. Ele ignorou-me completamente, os seus olhos fixos na personagem feminina secundária enquanto a levantava nos braços. "Estás bem?", ele perguntou, a voz cheia de desespero. Ela gemeu, apertando-o.
Ele olhou para mim, os olhos frios como gelo. "Como pudeste fazer isto em público?", a voz dele era um sussurro perigoso. Eu mal o ouvia, a minha mente num nevoeiro. "Como é que ela... como é que ela sabia do meu projeto?", perguntei, a voz fraca mas firme. Ele desviou o olhar, a hesitação a manchar o seu rosto perfeito. "Coincidência, talvez? Vocês são primas, afinal." Coincidência? Eu guardava aquele projeto num arquivo protegido por password, que só ele e eu conhecíamos. Não era uma coincidência. Era uma traição. Era o meu presente de aniversário para ele, a prova do meu valor, e ele tinha-o roubado.
Uma risada amarga escapou dos meus lábios, as lágrimas a escorrerem pelo meu rosto. Ele franziu a testa, a preocupação a cintilar nos seus olhos. "Não te sentes bem? Vou levar-te para casa." Eu balancei a cabeça. "Não. Estou bem." Ele suspirou de alívio. "Quero fazer um último pedido", eu disse, o sorriso nos meus lábios era um segredo. "Quero voar num balão de ar quente ao amanhecer, contigo. É o meu desejo de aniversário." Ele assentiu, aliviado por eu não estar a fazer perguntas, a minha última vontade parecendo inocente. No entanto, aquele pedido era o meu adeus.
A viagem para o parque do balão de ar quente foi feita em silêncio. A mão dele apertava a minha com uma intimidade que já não sentia. Ele falava sobre os planos para o meu aniversário, os presentes caros, as roupas personalizadas que tinha encomendado. A sua voz era suave, cheia de falsas promessas de um futuro que nunca existiria. Ele até mencionou ter bebés, dizendo que sempre soube o quanto eu queria uma família. Ele não tinha ideia do que já tínhamos perdido. Ele não sabia, e nunca saberia, que o nosso filho, o nosso bebé, tinha morrido devido às suas ordens, para salvar a personagem feminina secundária.
Assim que o carro saiu dos portões da propriedade, o telefone dele tocou. Ele atendeu, falando em voz baixa, e depois virou-se para mim com um olhar de desculpas. "Há um problema no porto, preciso ir resolver pessoalmente. É urgente." O meu coração bateu forte, mas eu assenti calmamente. "Vai. Os assuntos da família são mais importantes." Ele hesitou, parecendo querer dizer mais alguma coisa, mas eu insisti. "Vai. Mas... prometeste que iríamos ver o nascer do sol juntos. Não te esqueças." Ele sorriu, a culpa aliviada nos seus olhos. "Claro, meu amor. Eu volto."
Cheguei sozinha ao parque do balão de ar quente. Abracei o meu telefone, e a dor rasgou-me o peito: a personagem feminina secundária tinha acabado de postar uma foto. Uma foto dela no hospital, pálida e frágil, com uma legenda de agradecimento ao "herói que nunca a abandona". Mal se via a silhueta dele ao lado da sua cama. Mas eu sabia. Liguei para ele, uma vez, duas vezes. Finalmente, ela atendeu. A sua voz, cheia de triunfo, ecoou pelo telefone. "Estás à procura dele? Ele está aqui, a perguntar pelos médicos. Ele é tão preocupado comigo. Nem sabes o que ele fez quando eu 'caí' há três anos. Ele moveu céus e terras para me salvar! És tão ingénua, como podes competir comigo?" Ela gargalhou, uma risada demoníaca que me gelou até os ossos.
Três anos. A noite em que perdi o nosso filho. A noite em que ele desviou a equipa de resgate médico para atender a um falso alarme de emergência dela. O meu mundo desabou. Tremi, derrubando o telefone. Olhei para o céu, as lágrimas a escorrerem pelo meu rosto. Eu esperei a noite toda, mas ele nunca apareceu.
Quando o sol começou a espreitar no horizonte, eu entrei na cesta do balão. "Suba", ordenei calmamente ao soldado. Ele hesitou. "Não vai esperar mais ninguém?" Eu balancei a cabeça. "Não. Eu mesma vou pilotar." Ele olhou para mim, mas obedeceu. O balão começou a subir lentamente, levando-me para longe daquele mundo. Eu encostei-me à borda da cesta, observando a cidade a encolher sob os meus pés. As suas palavras suaves, as suas promessas, eram apenas ecos distantes. Elas já não me tocavam. Eram insignificantes, comparadas às verdades cruéis que eu tinha descoberto nos arquivos secretos.
Pela última vez, o sol nasceu. Peguei no meu telefone e liguei para ele. Desligado. A minha mão tremeu enquanto eu olhava para o email agendado para ser enviado. Continha fotos dos arquivos secretos, relatórios médicos, e a gravação da voz dela a confessar a sua mentira. Tudo estava pronto. Olhei para o céu pela última vez. Peguei na arma escondida na minha bolsa. Sem hesitar, disparei contra o balão.