- Lorde Lonford..._ a voz de Yan, o terceiro filho de tia Helena, e irmão de Ambar, fez algo percorrer minha espinha. _ Parece que não fomos os únicos a querer dar uma espiadinha por ai, e ter noção do que nos aguarda em dois dias...
Eu podia sentir o olhar de alguém queimando em minhas costas, e quando o barulho de algo atravessando a água sobre a parte mais rasa e cheia de cascalho, meu corpo congelou no lugar entre as ondulações e respingos e olhei de soslaio, amarga, para Noah atravessando o rio ainda em cima de seu cavalo. Seu olhar estava duro, naquele tom dourado intenso como uma moeda de ouro ao sol, e rolei meus olhos para atrás dele onde Yan fez uma careta nos repreendendo em silêncio.
- Bom, eu já estava de saída de toda forma! Apenas encontrei as educadas moças, e a conversa fluiu de forma fácil.
- É melhor sairmos daqui. Se o rei nos pega espiando sua floresta, nossos pescoços vão para a forca!_ Yan continuou, mas o silêncio de Noah era duro, frio, e seu olhar distante e sem interesse em nossos rostos.
Se ele estava fazendo isso para me provocar, estava conseguindo me tirar do sério. Sorri abertamente, erguendo meu queixo encarando nos olhos lorde Lonford.
- Espero que seja o ganhador, mi'lord! Perdoe-me minha falta de modos em chamá-lo de Sire...
- Vindo de uma moça tão bonita, eu não queria deixa-la constrangida com algo tão pequeno...
Sorri acenando, abaixando levemente minha cabeça, e finalmente os olhos de Noah vieram como flechas em minha direção, afiado e de mal humor.
- Vossa alteza está se divertindo? _ sua voz veio áspera como língua de um gato. Meu rosto se moveu graciosamente em sua direção com tanto desdém que vi algo em suas íris douradas fervilhar, e meu sorriso felino o fez apertar as mãos na rédea de seu cavalo, que seus dedos ficaram brancos.
- É claro! Essa é a floresta de meu pai. E eu gosto de me divertir por essas terras calmas.
Os olhos de lorde Lonford se arregalaram e seus lábios ficaram pálidos. Não o culpo por não me reconhecer, sempre apareci de forma apresentável diante dos lordes, não com cabelos escorridos e de camisola. Quanto a Âmbar, raramente ela se interessava em aparecer a festejos e bailes.
Yan moveu seu cavalo o colocando a nossa frente, cobrindo nossa imagem dos olhos do senhoril.
- Suma!_ Yan sussurrou em um sopro, e apenas ouvimos o cavalo ser montado e o lorde se ir sob supervisão do olhar atento de Yan e Noah.
Yan se virou sobre a sela de seu cavalo, de um jeito apressado, suas sobrancelhas apertadas de forma furiosa.
- Sua desmiolada! Vamos! Saia logo daí e vamos embora! _ claro que o terceiro filho do duque iria se referir de tal forma a irmã. A mim, nenhuma palavra seria lançada de forma imprudente.
Podíamos ter crescidos juntos, mas sempre fomos cientes de nossas posições de hierarquia.
Noah virou o rosto para outra direção, dando privacidade para Ambar, que se apressou a mando do irmão.
- Desculpe Noah! Terei que levar Ambar para casa... Nos vemos depois. _ Yan disse firme e olhou para mim dentro dos olhos, acenou sutilmente em despedida silenciosa.
- Apenas a leve em segurança. Parece que terei que lidar com minha noiva..._ o jeito raivoso e frio qual Noah se referiu a mim, fez meu sangue me subir a cabeça.
Apertei as mãos em punhos escondidos de baixo d'água e apenas desviei meu rosto para outra direção com indiferença. Ele esperava, provavelmente, que isso fosse como uma faca envenenada cravando em suas entranhas.
- Te vejo depois, Mia._ Ambar sussurrou saindo na margem ensopada. Torcendo a barra de sua camisola que se ajustou ao corpo, revelando com transparência suas curvas. Ela correu até seu vestido no galho, o vestindo de forma apressada e desengonçada. Voltando ao irmão que parou de olhar para outra direção qualquer, aceitando a mão que ele a estendeu para ajudá-la a subir na sela do cavalo.
Yan acenou para mim em uma pequena reverência, batendo seus calcanhares e fazendo seu cavalo galopar para dentro da floresta.
O silêncio ficou pesado, amargo, e sufocante entre Noah e eu. O som da água correndo entre pedras, o canto dos pássaros e chacoalhar das copas das árvores pelo vento se fazia presente, e muito bem-vindo. Sempre foi assim depois daquela primeira briga. Não havia mais vontade entre nós de manter uma boa relação. Pelo menos não dá parte dele. Eu queria cumprir meu dever, mas não queria me casar com alguém que não me suportava mais.
- Está esperando um convite para sair daí?_ ele rosnou entre os dentes e soltei uma risada nasal debochada, voltando a nadar para provoca-lo.
- Estou muito bem aqui! Pode ir embora se quiser.
- Saia já daí! Não me faça descer desse cavalo e te arrancar daí a força!_ ele me encarou furioso dentro dos olhos e sorri abertamente aceitando o desafio.
- Ouse me tocar, e eu vou garantir que perca a mão por isso!
- Ah! _ ele sorriu com amargor, maneando a cabeça e descendo de seu cavalo. Continuei tranquila, queria vê-lo tentar. _ Ótimo! Sua ingrata miserável! É assim que você quer? Assim vai ser!
- Eu não pedi a sua ajuda!_ murmurei nadando mais a dentro, e ele parou a margem, sem ainda molhar suas botas. Meu peito subia e descia quando sai finalmente da água, do outro lado, e _ Quem você pensa que é para me dar ordens? Quem você pensa que é, Noah?
- Eu sou seu noivo!_ ele rosnou parecendo com nojo dessas palavras._ E querendo ou não... Eu sou essa pessoa, e acredite eu tenho essa autoridade para arranca-la daí!
- Para o inferno com essa sua autoridade! Por que não vai foder com alguma puta e me deixe em paz? _ rosnei o olhando por cima do ombro, vendo seus olhos em outro lugar.
Uma brisa fria soprou levando um arrepio pelo meu corpo molhado.
- Você é uma garotinha imprudente e mimada! Ingrata e ridícula! Em seu lugar estaria dizendo "obrigado"! Mas se você é tão auto suficiente, certamente conseguiria se livrar das forças de um senhoril sobre você enquanto te forçava a margem desse rio! Ou sobre Ambar... O que é pior, você ou sua melhor amiga?
Ele lançou seus olhos em minha direção, encarando meus olhos profundamente. Desviei com raiva. Sabia que ele estava certo, apenas não queria admitir isso em voz alta. Seria humilhante o dar uma vantagem sobre meu ego, ou algo para usar contra mim e me cutucar a ferida.
Senti as gotas fartas de água escorrendo de minha cabeça pelo meu rosto. Peguei meu vestido na galha, murmurando inaudível.
- Seja rápida! Eu tenho mais o que fazer...
Fechei meus olhos, respirando fundo, bem fundo, prendendo o ar por alguns segundos antes de solta-lo devagar. Eu o ouvi se virar e apertei com força o tecido do vestido, me contendo para não grunhir pela irritação.
Noah
Respirei fundo tentando me acalmar, enquanto segurava a rédea de meu cavalo sem ainda subir. Ela conseguia tirar minha paz com um único maldito olhar.
- Ah! Ah! _ ela protestou e voltei a olhar em direção ao outro lado do rio onde ela estava parada perto de uma rocha maior_ Tem uma cobra aqui...
Soltei as rédeas e atravessei o rio, na parte mais rasa, saltando sobre as pedras e rapidamente cheguei a ela, parando ao seu lado e e encontrando o que ela tanto olhava.
- É... É uma cobra! Então tente ser rápida enquanto eu fico de olho nela! _ disse sério e a olhei de soslaio. Eu lutei para manter meus olhos em seu rosto, e não descer um centímetros abaixo dele.
Algo se torceu dentro de mim quando nossos olhos continuaram mantendo um olhar com um algum silêncio. Seus cabelos estavam escorridos, ainda mais escuros graças a umidade, e heus labios um tom rosado e aveludado. E aqueles olhos... Eu nunca conseguia ler através deles quando ela se mantinha em silêncio e com aquela expressão
— Eu não vou fazer isso com você aqui!_ ela protestou apontando para a cobra!_ Dê um jeito nela primeiro!
— Ela está quieta em sua casa! Você que tem que dar jeito de se mover para fora daqui antes que a irrite!_ praguejei mostrando meus dentes
Merlia abriu a boca querendo me contestar, suas sobrancelhas apertadas e acabei mapeando os detalhes de seu rosto.
- Está preocupada que eu te veja nua?_ ri com desdém e ela apertou as sobrancelhas ainda mais e seus olhos se tornaram ferozes_ Oh! Não se preocupe! Uma garota sem graça como você não vai me fazer me sentir atraído nem um pouco!
Eu vi a raiva brilhar em seus olhos esverdeados enquanto ela encarava meu rosto.
- Seu..._ resmungou se virando e procurando outro lugar para se trocar. olhei de soslaio rápido e voltei a vigiar a cobra enrolada e adormecida sobre a pedra. _ Como se ele também fosse grande coisa...
A ouvi resmungando e arqueio a sobrancelha.
- Resmungona!_ Sussurrei sem que ela pudesse me ouvir.
- Como o meu pai permitiu que meu noivo fosse um homem tão desagradável, grosso e feio? Argh! Eu merecia coisa melhor!
Olhei desaforado por cima do ombro no exato instante em que ela terminava de retirar sua chamise molhada pelos braços, deixando o tecido cair no chão com raiva, quase o jogando.
Voltei a olhar para a cobra, piscando algumas vezes e respirando fundo, mas a imagem da curva de suas costas delicada, seus ombros pequenos, a cintura fina e o quadril levemente mais farto com sua bunda avantajada e coxas grossas...
Fechei meus olhos, me amaldiçoando por ter visto. Isso faria minha cabeça tentar me convencer que por ser bonita, Merlia seria mais tolerável... Até mesmo aceitável. Maneio a cabeça, resmungando pela minha camisa molhada nas costas grudando em minha pele de um jeito desconfortável devido ao suor.
- Argh! _ Resmunguei me contorcendo tentando faze-la desgrudar. _ Eu odeio esse lugar!
- Então vá embora!_ ela me retrucou de lá.
- Anda logo! Eu quero continuar olhando a floresta!
— Trapaceiro!_ ela rosnou e revirei os olhos. _ Você só consegue ganhar porque faz trapaça atrás de trapaça!
— Ressentida?_ debochei e a ouvi bufar. _ Ah! Aquele vinho estava bom!
— Não... Até porque o único jeito de você ganhar alguma coisa é roubando!_ ela retrucou e trinquei os dentes e a encarei por cima do ombro. Merlia sorriu afiada mostrando os dentes, talvez ela fosse tão venenosa quanto aquela cobra.
Merlia se moveu, atravessando o rio saltando sobre as pedras e soltou um assobio agudo. Segundos depois de dentro da floresta, Escuridão, seu cavalo saiu.
Merlia saltou para a margem, torcendo sua chamise molhada e jogou dentro de uma bolsa presa a sela. Ela pisou no estribo, se lançando para cima, e inclinou reunindo as rédeas.
Voltei para perto de meu cavalo, fazendo o mesmo caminho de volta, e o montei, subindo meus olhos para encarar Merlia que estava em silêncio.
— É um cavalo grande de mais para uma criança mimada._ Murmurei. Ela parecia minúscula sobre Escuridão. Merlia apenas arqueou a sobrancelha, re irou os olhos, batendo sutilmente seus calcanhares e o cavalo se moveu se virando de banda.
— Quando você crescer, eu deixo você andar nele! _ Ela sussurrou, balançando as rédeas e com apenas um solavanco, ela foi lançada para atrás pela força de seu próprio cavalo. Ela se manteve em cima da sela como se fosse parte dela e o som dos passos pesados nas pedras e folhas ecoou no ar.
Movi as rédeas de meu cavalo, indo na direção contrária.
Merlia
Escuridão cavalgou na floresta, subindo com facilidade os declínios. O parei em uma área plana, rolando meus olhos ao redor, procurando por tocas. Mas eu não seria uma trapaceira como os outros.
Um novo trotar me fez arquear a sobrancelha e Joseph ergueu sua mão acenando para mim.
— Hey! Estava a sua procura!
— O que há?
Fiz Escuridão galopar até meu irmão mais novo, e puxei as rédeas, o fazendo afundar as patas contra a terra, deslizando ao fazer isso. Ele trocou o peso nas patas e Joseph alisou os cabelos para atrás.
— Nosso pai lhe convocou. Parece urgente!
Rolei meus olhos ao redor e suspirei fundo.
— Problemas?
— Não sei dizer. Ele não disse nada para ninguém.
— É melhor irmos logo então!_ disse firme dando um comando sutil e Escuridão galopou, e Joseph me seguiu.
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Boa leitura!
❤️
— Onde você estava? _ papai perguntou sério, parado diante da janela de sua sala particular.
Fechei a porta atrás de mim, curiosa sobre os motivos de ter sido chamada com tanta urgência.
— No rio. O dia está muito quente.
Meu pai me olhou por cima do ombro, seus olhos verdes como esmeraldas cairam em meus cabelos ainda escorridos.
— Sozinha?
— Estava com Ambar. Então Yan e Noah apareceram, e Yan a levou para casa.
Papai ficou em silêncio por um momento, como se ja soubesse o que teria vindo depois disso. Ele arqueou a sobrancelha e maneio a cabeça confirmando a pergunta em seus olhos. Claro que Noah e eu tínhamos brigado como cão e gato.
— Tenho uma tarefa para você!
Me aproximei ainda segurando as saias de meu vestido e desviando do sofá carmesim no meio do caminho.
— Para mim? Raramente você me da tarefas, papai. Geralmente as da para tio Nicolas, Leon ou Gideon. Até mesmo as minhas irmãs..._ Sussurrei a última baixinho e ele me avaliou baixo a cima.
— Pessoas devem ser colocadas nas tarefas certas, querida. _ ele tocou meu queixo, erguendo meu rosto para me encarar nos olhos. _ Não mandaria você fazer algo que eu sei que não é seu ponto forte.
— Meu ponto forte parece ser discutir com o futuro rei de Midorina, papai. _ ri amarga e meu pai sorriu abertamente. _ Vamos diga logo o que tem para mim! Estou curiosa...
— Tenho desconfiado que Avarya possa estar se tornando uma ameaça. _Meu sorriso morreu e o encarei séria, apertando levemente as sobrancelhas _ Eles darão um baile muito em breve e você irá.
— O que eu tenho que fazer?
— Será meus olhos e ouvidos! Não posso confiar isso a mais ninguém.
— Darei o meu melhor!_ acenei com convicção, e a mão de meu pai pousou em meu ombro, seus olhos tinham um brilho preocupado. _ Vou descobrir tudo que o rei estiver tentando esconder de nós, e cada uma de suas intenções!
— Precisa ir casualmente, levando um pequeno acordo em meu nome. Isso exigirá que sua viagem seja sigilosa.
Acenei fervorosamente ainda o encarando nos olhos e meu pai abriu a boca, como se quisesse dizer algo, mas as palavras estariam presas em sua garganta.
— Eu quero mandar alguém com você... Não é que eu não confie que você seja capaz de lidar com tudo sozinha... É que... Bailes... _ meu pai respirou fundo, apertando os olhos por um momento _ Você cresceu minha filha, e se tornou uma mulher muito bonita. Manda-la sozinha seria como mandar um cordeiro para lobos.
Sorri estreito com sua preocupação e o abracei forte abruptamente o pegando de surpresa. Meu pai me abraçou, colocando seu queixo sobre o topo de minha cabeça,sem se importar se acabaria se molhando por minha causa.
— Vou cumprir com honra essa tarefa, pai! E voltarei segura para casa!
— Eu sei, querida! Eu sei... Vou mandar alguém de confiança. Alguém que não vai tirar os olhos de você. Pode ser que seja um pouco incômodo, mas é o mais seguro...
— Quando devo partir? _ perguntei erguendo minha cabeça, enquanto ainda estava embalada em seus braços.
— Amanhã antes da alvorada.
Meu corpo paralisou enquanto o encarava atonita. Sua mão percorreu por meus cabelos molhados e ele deu um sorriso ladino abatido.
— Tão rápido? _ Ele acenou tranquilo, e me afastei um pouco. _ Então devo preparar minhas coisas...
— Já estão prontas, Merlia. Eu ja mandei prepara-las. _ ele acenou com a cabeça para fora. _ Helena também está a sua procura.
— Pai, posso fazer uma pergunta?
— É claro!
— Seus olhos e ouvidos sempre foram o tio Nicolas. Então por que eu?
— Seu tio Nicolas precisou ir a um lugar por mim averiguar algo também. E você herdou algo de sua mãe... Sagacidade! _ ele apertou a ponta de meu nariz e ri baixinho.
Ele sempre fazia isso quando eu era uma menininha, e continuou com o tempo. Quando papai faz isso, sinto como se voltasse a ter cinco anos novamente, tentando convence-lo a me dar o que eu queria.
O dei um beijo na bochecha apressado e sua mão deslizou pelas pontas de meus dedos enquanto me afastei em direção a porta. Parei abruptamente o olhando por cima do ombro, pensando se deveria conversar com ele a respeito do noivado, mas foi seu olhar preocupado em mim que me fez desistir, por enquanto.
— Você terá que me conceder um desejo quando eu voltar para casa, pai! Vou perder a caçada! Isso não é nem um pouco justo...
Ele gargalhou acenando com a mão para que eu fosse logo.
— Eu vou pensar.
— Não me faça começar a cantar, papai...
— Isso não funciona mais em mim! Aprendi a ignorar as cantorias de piratas.
Ri rouca balançando minha cabeça em negativa e sai.
— Te vejo no jantar, papai.
***
— Você teve problemas?_ perguntei baixinho atravessando o salão da casa dos Bonthor, com Ambar enroscada em meu braço.
— Um pouco de sermão durante o caminho até aqui. E você?
— Acho que ninguém informou meu pai sobre, ainda. _ Sussurrei e seus olhos azuis vasculharam meu rosto de forma tensa. Mas sabia o que ela estaria me perguntando _ É! Como sempre.
Yan surgiu em nosso campo de visão, lendo um livro. Ao ouvir nossas vozes, seus olhos azuis subiram abruptamente, e ele se curvou em reverência.
— Não esperava você por aqui tão cedo, alteza...
— Você continua com as formalidades, Yan. Achei que tínhamos crescido todos juntos para que essas coisas não fossem necessárias entre nós. _ comentei o tocando no braço. _ Obrigada pela ajuda mais cedo.
— É melhor ficarem longe do rio por enquanto. Com a caçada, todos querem arrumar uma vantagem. Noah e eu estávamos justamente procurando por tocas próximas... Pela segurança de vocês, é melhor se refugiarem em casa. Lordes bêbados realmente se tornam uma pedra no sapato.
Acenei em concordância e os olhos azuis de Yan me vasculharam com cuidado. Certamente se perguntando se eu teria fugido para o ducado para falar com Ambar ou havia outro motivo.
— Preciso falar com Helena. _ comento e ele aponta para fora.
— Ela está na estufa. Vossa alteza conhece o caminho ou gostaria que eu a acompanhasse?
— Eu sei o caminho. _ acenei e segui o corredor, deixando Ambar para atrás com seu irmão. Os ouvi cochichar algo, mas não dei importância.
O caminho até a estufa foi longo e silencioso. Abaixei a maçaneta de prata talhada e empurrei a porta, revelando um cômodo bonito de vitrais incolor e madeira, havia tantas plantas e flores que o verde era intenso, o que destacava de longe os cachos ruivos de tia Helena, sentada sobre uma escrivaninha com uma bolsa de couro ao seu lado.
— Desculpe a demora. _ comentei e ela tirou seus olhos de alguma erva que em suas mãos.
— Bem-vinda, Mia!
Sorri acenando e ela acenou para que eu me aproximasse. Meus olhos vagaram nas samambaias brotando as margem de um pequeno chafariz ao centro da enorme estufa. Certamente esse é o lugar favorito da duquesa, assim como minha mãe gosta da biblioteca.
— Você anda colecionando muitas plantas por aqui... Parece que há mais do que me lembro.
— O duque sempre me presenteia com alguma que nós não tenhamos aqui.
Ri baixinho tombando a cabeça. Isso era a cara de Dylan, mimar Helena com coisas que ele sabia que a faria feliz. Raramente entrei aqui, mas podia jurar que se fechasse meus olhos, conseguiria os imaginar juntos, com as mãos na terra, plantando algo e conversando de um jeito que só tia Helena sabia para arrancar as melhores gargalhadas do duque.
Parei diante da escrivaninha ao seu lado e ela me estendeu um pote.
— Seu pai me procurou alguns dias atrás... Você precisa levar isso com você. Tome sempre que comer algo, logo imediatamente após, ou antes ... É melhor que seja antes para que o efeito seja mais eficaz.
— E o que é?
— Mesmo que vossas altezas reais tenham resistência a veneno, não são completamente imunes. Eles ainda podem matar você. Sinceramente eu fiquei surpresa quando sua mãe começou a envenena-los e trata-los com antídotos._ ela sussurrou ainda vasculhando a bolsa. _ Se você sentir algo após comer, certamente estava envenenada. Não preciso dizer o que isso significa, certo?
— Se eu sentir virei o mais rápido possível para a senhora!
— Faz bem! Na bolsa tem tudo que você precisa... Está tudo especificado no livreto, então você ficará bem._ Peguei a bolsa e tia Helena me encarou por um momento e sorriu ladino._ Olhar para você é como olhar para sua mãe nessa mesma idade. Seus olhos são verdes como os de seu pai no entanto, e seus cabelos mais escuros também... Mas as semelhanças são realmente notáveis.
— Acho que isso é um bom elogio, já que homens continuam a brigar pela atenção de minha mãe.
Tia Helena riu concordando e me deu tapinhas em meu ombro.
— Se você não fosse noiva de Noah, certamente eu a faria ser esposa de Yan.
Dei um sorriso envergonhado, sentindo minhas bochechas corarem. Yan era realmente bonito. Suas feições eram parecidas com a do Duque. Seus cabelos eram uma mistura entre loiro e ruivo, como cobre claríssimo e polido. Seus olhos eram intensamente azuis nas bordas e mais claros ao centro como o céu do inverno como os de Dylan. Além de ser alto e forte.
Mas sempre que eu me lembro de Yan, a imagem de Noah me vêem a mente. Os dois estão constantemente juntos, e quando nos aproximamos enquanto conversam, se calam imediatamente. Ainda vou ouvir o que eles tanto conversam que é segredo.
— Bom, se Noah não quiser se casar comigo depois de espantar meus pretendentes devido ao noivado... Eu certamente me casaria com o melhor amigo dele como vingança._ maneio a cabeça com uma sobrancelha arqueada e tia Helena gargalhou.
— Esse é o espírito! _ ela se recompôs com animação_ Você precisa ir agora. Tome cuidado!
— Obrigada! Ficarei atenta! _ aceno e me apresso para ir embora. Ainda havia uma pessoa para ver, e certamente ela me daria alguma informação extremamente importante. Minha mãe...
***
A porta da velha biblioteca rangeu, deixando no ar um som grotesco. Meus olhos vagaram pelas enormes prateleiras de livros, colecionados ao longo dos anos tanto por meu pai quanto por minha mãe.
Esse lugar sempre foi silencioso e vazio. Não era o mais frequentado no castelo, mas aqui sempre se acharia duas figuras importantes desse reino: a rainha, e o conselheiro do rei.
— Mãe?_ a chamei vagando entre duas prateleiras robustas que iam até o teto.
— Está atrasada..._ sua voz foi doce enquanto ela trocava a página de um livro que ecoou o som no ar de forma simplória. Dobrei o corredor de prateleiras, a encontrando de pé com o libro aberto em mãos e seus olhos correndo pela página.
— Tive alguns imprevistos..._ murmurei baixinho.
— Serei direta querida. Seu tempo está passando... Não aceite a generosidade de ninguém. Isso não significa ser rude!
— Entendido.
Ela trocou a página na mesma paciência, antes de soltar um breve suspiro.
— Você sabe como deve agir, como deve se referir ... Não precisa que eu liste tudo aquilo que você já sabe. _ seu livro foi fechado e ela se voltou para mim com um sorriso ladino terno. _ Tome cuidado!
Acenei com um sorriso tranquilo surgindo, e me aproximei abaixando minha cabeça. Minha mãe deixou um beijo terno em minha testa e ergui meus olhos para encarar seu rosto.
— Mãe...
— Hum?
— E se... _ mordi o lábio contendo as palavras e ela arqueou a sobrancelha intrigada_ e se Noah não quiser prosseguir com o noivado? O que aconteceria comigo?
O silêncio se fez presente enquanto ela vasculhou meu rosto indecifrável. Minha mãe apenas voltou a abrir seu livro e se voltar para a prateleira.
— Você decide o que aconteceria com você, Merlia. Nós te damos a chance de ser uma rainha... Se você vai quere-la ou não, é de sua escolha, juntamente de suas demais consequências.
Acenei em positiva, entendendo sua resposta. Independente da decisão, teríamos que lidar com as consequências do rompimento do noivado. O que significava conversas se espelhando pelos reinos, e movimentações de lordes ou outros reis tentando arrumar um matrimônio vantajoso. Eu teria que lidar com bailes, jantares e cortejos com frequência. O que iria rapidamente me tirar do sério...
— Eu entendo...
— Mas e se não for Noah querendo romper o noivado?_ Minha mãe sussurrou e abaixei meus olhos para minhas sapatilhas.
— Bom ... É que ... As coisas não são boas entre nós.
— Sabia que, quando vocês eram pequenos, Noah vivia atrás de você? Voces eram bem unidos...
— Parece que as coisas mudam, não é? Não nos suportamos no mesmo ambiente. Imagino o fracasso que será reinarmos juntos.
— Hum._ minha mãe maneou a cabeça com seus fios grisalhos se destacando em seus cabelos castanhos perfeitamente alinhados. _ Talvez vocês precisem vocês precisem resolver essa desavença de uma vez. Pelo menos para manterem uma boa convivência entre os reinos se resolverem romper com o noivado.
— Eu irei pensar nisso. Mas não é fácil... Não é fácil para mim apenas dialogar com Noah.
— Então tente mais uma vez. Pelo menos só mais uma vez..._ ela repetiu um pouco mais baixo trocando a página de seu livro _ Mande uma carta se precisar de ajuda com algo...
— Tudo bem, mãe. Obrigada pelos conselhos.
Ela acenou e voltei a caminhar em direção a gigantesca porta da biblioteca.
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