A mudança começou há seis meses. Tiago me apresentou a Kátia Campos em uma gala de caridade que eu estava organizando. Ele disse que ela era uma artista talentosa que ele estava patrocinando, uma garota pobre de um lar desfeito.
Seu estilo era agressivo, feito para chocar. Achei de mau gosto, mas guardei minha opinião para mim.
Então, ela se candidatou a uma bolsa da fundação de arte da minha família. Sua proposta envolvia usar sua própria avó doente como uma escultura viva, alegando que era uma declaração sobre a mortalidade. O conselho, que eu presidia, rejeitou por unanimidade.
Kátia me encurralou após a reunião. Ela me acusou de ter ciúmes, de estar a impedindo.
"Você não sabe como é fazer o que for preciso pelo seu sonho!", ela cuspiu. "Eu sacrificaria qualquer coisa, qualquer um!"
Na época, Tiago ficou furioso em meu nome. Ele a chamou de monstro, de aproveitadora. Ele me abraçou e me disse que nunca deixaria ninguém como ela perto de nossa família novamente.
Alguns meses depois, Kátia Campos era um "gênio" aos olhos dele.
Eu o questionei, confusa. "Tiago, você disse que ela era um monstro."
"É só um investimento, Helena", ele disse, descartando minhas preocupações. "O trabalho dela tem valor de choque. Vai vender."
Ele me puxou para seus braços, seus lábios encontrando os meus. Ele era tão convincente, seu toque tão familiar e amoroso. Ele sussurrou que eu era a única, que me amava mais que a própria vida.
Eu acreditei nele. Fui uma tola.
O nome "Kátia" começou a aparecer cada vez mais. Um jantar com ela para discutir estratégia. Um voo para a SP-Arte para ver sua nova peça. Ele sempre tinha uma desculpa perfeita, sempre seguida por reafirmações apaixonadas de seu amor por mim.
Eu nunca suspeitei da profundidade de sua obsessão, da realidade arrepiante de que ele sacrificaria meu irmão, minha carreira e nosso filho ainda não nascido por ela.
Agora, parada em nossa sala de estar, a verdade era um golpe físico. Eu tremia, meu corpo sacudido por soluços. Eu concordei com seus termos. Eu tinha que concordar. Precisava proteger Caio.
Entreguei as provas que meu advogado havia reunido e assinei o acordo de confidencialidade que ele havia preparado.
Enquanto eu saía cambaleando de casa, o céu se abriu. Uma chuva fria e miserável começou a cair, me encharcando até os ossos em segundos.
Meu telefone tocou. Era Irene, sua voz frenética e embargada de lágrimas.
"Helena! É o Caio! Ele se jogou!"
O mundo girou. Minhas pernas cederam e eu desabei no asfalto molhado. Uma dor aguda e uma cãibra atravessaram meu abdômen.
Não. Agora não.
Ignorando a dor, voltei correndo para o carro e acelerei em direção ao hospital, minhas mãos tremendo tanto que mal conseguia segurar o volante.
Corri para a emergência e o vi. Caio estava em uma maca, o rosto pálido, o corpo quebrado. Irene estava de joelhos, implorando a um médico para fazer alguma coisa.
"Por favor! Você tem que salvá-lo!"
O médico apenas ficou parado, o rosto uma máscara de relutância sombria. "Sinto muito, senhora. Não há nada que possamos fazer."
"Como assim não há nada que vocês possam fazer?", gritei, agarrando seu braço. A dor no meu estômago era um fogo violento, mas eu a ignorei. "Ele ainda está respirando! Faça o seu trabalho!"
As pessoas começaram a olhar. Eu podia sentir seus olhos em mim, ver o sangue que agora manchava a frente do meu vestido.
"É assim que este hospital trata os pacientes?", um homem na multidão gritou. "Todos nós temos celulares! Isso vai estar em todas as notícias em cinco minutos!"
O médico se encolheu. Ele baixou a voz. "Olha, minhas mãos estão atadas. Eu tenho minhas ordens."
"Ordens? Ordens de quem?"
Ele não me encarou. "Do Sr. Slater. Ele é o principal benfeitor deste hospital. Ele disse... ele disse para não desperdiçar recursos."
"Desperdiçar recursos?", eu mal conseguia falar. "Os ferimentos dele... nem são tão graves. Um cirurgião competente poderia consertar isso!"
"As ordens do Sr. Slater são absolutas", disse o médico, com a voz trêmula. "Eu tenho uma família. Não posso perder meu emprego."
Minha mão caiu de seu braço. Senti uma onda de náusea.
Gritei por ajuda, por outro médico, por qualquer um, até minha voz ficar rouca. Tentei encontrar um telefone para pedir uma transferência, mas era tarde demais.
Olhei para o rosto imóvel de Caio. A vida havia se esvaído dele enquanto discutíamos.
Ele se foi.
Tiago tinha feito isso. Ele havia assassinado meu irmão com um único telefonema.
A dor no meu abdômen tornou-se insuportável. Agarrei meu estômago, ofegando por um ar que não vinha. Meu bebê. Nosso bebê.
A culpa foi minha. Eu assinei aquele papel. Eu confiei nele. Eu matei meu irmão. Eu matei meu bebê.
Irene correu para o meu lado, seu rosto um borrão de lágrimas. "Helena, não é sua culpa. Temos que sair daqui. Temos que sair desta cidade."
Acordei em um hospital diferente, uma clínica particular que Irene havia arranjado. Minha mão foi para o meu estômago. Estava liso. Vazio. O peso esmagador da perda se instalou sobre mim, uma coisa física.
Irene dormia em uma cadeira ao lado da minha cama. Quando viu meus olhos abertos, ela pulou, o rosto manchado de lágrimas de alívio.
"Helena, você acordou."
"Caio", sussurrei, e a represa se rompeu. Novas lágrimas escorreram pelo meu rosto. "Onde ele está?"
"Eles estão segurando o corpo dele no necrotério da cidade", disse Irene suavemente, sua mão acariciando meu cabelo. "Tiago não o liberou."
A ideia do meu irmão, sozinho e frio em uma gaveta de necrotério, foi outra facada no meu coração. Ele merecia um enterro decente, um descanso pacífico.
"Obrigada, Irene", solucei. "Por tudo."
"Nós vamos te tirar daqui", disse ela, com a voz firme. "Meu filho, Léo, ele é terapeuta em Ubatuba. Ele já encontrou um lugar para você ficar. Uma cidade tranquila na costa. Você pode se curar lá."
Eu assenti, um lampejo de calor se espalhando pelo meu peito. A ideia de escapar era a única coisa que me impedia de afundar.
Meu telefone vibrou na mesa de cabeceira. Uma mensagem de Tiago.
*Soube o que você fez na galeria da Kátia. Você vai pagar por isso.*
A raiva, pura e quente, queimou através da dor. Ele estava me culpando? Depois de tudo que ele fez?
Comecei a digitar uma resposta furiosa, meus dedos desajeitados e fracos. Então apaguei. Qual era o sentido?
Outra mensagem chegou. Era um vídeo. Meu estômago se contraiu. Eu sabia o que seria.
Era Kátia, no meu ateliê, meu espaço sagrado. Ela estava usando meus aventais, usando minhas facas feitas sob medida, rindo enquanto massacrava um pedaço de carne nobre. O vídeo foi filmado para ser deliberadamente humilhante, um dedo do meio para toda a minha carreira.
Agarrei o telefone, meus nós dos dedos brancos. Eu queria esmagá-lo, gritar, mas tudo o que saiu foi um soluço engasgado. Eu não sabia o que fazer.
Irene viu a tela por cima do meu ombro. Seu rosto endureceu.
"Aquele monstro", ela rosnou. "Aquele monstro absoluto."
Ela pegou o telefone da minha mão. O nome do contato, "Meu Mundo Inteiro", parecia uma piada doentia.
"Não se preocupe com ele", eu disse, tentando parecer mais forte do que me sentia. Eu precisava que ela ficasse calma. "Apenas se concentre em me tirar daqui."
Ela saiu para fazer os arranjos. Sozinha no quarto silencioso, deixei as lágrimas caírem novamente. Eu só tinha que aguentar um pouco mais. Em breve, eu estaria livre.
A porta do meu quarto se abriu. Era ele.
Tiago estava lá, um olhar presunçoso e triunfante no rosto. Seus olhos continham a mesma crueldade brincalhona que eu tinha visto no homem que havia agredido meu irmão naquele vídeo.
Eu finalmente vi. O homem no vídeo, aquele que dirigia a "performance", era Tiago o tempo todo.
Um grito gutural rasgou minha garganta. Eu me lancei sobre ele, minhas unhas mirando seus olhos.
Ele me pegou facilmente, sua força esmagadora. Ele me jogou no chão como uma boneca de pano. Aterrissei com força, o impacto sacudindo meu corpo já dolorido.
Kátia apareceu na porta atrás dele, um sorriso de escárnio no rosto. Ela se encostou no batente, aproveitando o show.
"Ora, ora, se não é minha querida cunhada", ela ronronou. "Ou devo dizer, ex-cunhada?"
Tiago riu, olhando para mim. "Ainda tem um pouco de luta em você, hein? Eu gosto disso."
"Saia!", cuspi, minha voz cheia de veneno.
Ele apenas deu de ombros, despreocupado. Ele gesticulou para Kátia.
"Esta mulher", disse ele, sua voz escorrendo falsa sinceridade, "é minha salvadora. Ela abriu meus olhos para um mundo de arte real, de paixão real. E você", ele zombou, "tentou arruiná-la. Eu tenho consciência. Tenho que defender o que é certo."
Ele fez uma pausa, deixando o absurdo de suas palavras pairar no ar. "E o advogado dela? Bem, sou eu, é claro."
Cada palavra era um golpe calculado, projetado para me quebrar. Ele estava gostando disso.
Ele se ajoelhou, o rosto perto do meu. "Você foi uma menina má, Helena. Você machucou a Kátia. Você precisa ser punida."
A raiva transbordou. Eu avancei novamente, mordendo com força sua perna.
A porta se abriu novamente. Era o filho de Irene, Léo. Ele parou de repente, absorvendo a cena - eu no chão, agarrada à perna de Tiago como um animal selvagem, Kátia olhando com diversão.
Mas os olhos de Tiago não estavam em mim. Estavam em Kátia, um olhar de pura adoração em seu rosto.
Uma risada amarga e quebrada escapou dos meus lábios. Era tudo um jogo para ele. Eu era apenas um brinquedo do qual ele havia se cansado.
Soltei a perna dele. "Eu não fiz nada com ela", eu disse, minha voz vazia. "Foi ela quem matou meu irmão."
O rosto de Tiago escureceu. Ele me ignorou, virando-se para Kátia com um olhar de preocupação. "Você está bem, meu amor? Ela te machucou?"
Ele a ajudou a se levantar, seu toque gentil. Então ele se virou para mim, sua expressão fria como gelo.
"Peça desculpas a ela. Agora."
"Não", eu disse, minha voz tremendo de fúria.
Kátia se afastou do abraço de Tiago, seu rosto uma máscara de indignação justa. "Tiago, querido, você tem que fazer alguma coisa. Ela me atacou. Eu preciso de justiça."
Ele acariciou o cabelo dela, sua voz um murmúrio suave. "Claro, meu amor. Eu vou te dar justiça."