Maria Julia passou toda a semana sem conhecer o novo chefe. Jhonny ainda não tinha voltado. Sheila disse que ele faz essas saídas a cada dois ou três meses, pra passar mais do que um final de semana com a esposa, que mora em um condomínio de luxo em Mairiporã. Embora a licença dele se estendeu mais do que o costume, pois ele sempre volta pra fechar a semana do escritório.
No seu segundo dia, conheceu Eleanor, que não disfarçou seu descontentamento em ter uma moça nova e bonita trabalhando na mesma sala que Jhonny. Sua mãe a repreendeu e disse pra ela não se esquecer que Jhonny era um homem casado.
Patrícia depois lhe contou que ela nunca aparecia no escritório enquanto o senhor Paulo Gustavo era vivo, mas depois se aboletou lá e vivia grudada em Jhonny. Todos acreditavam que a noiva nunca viria da França e eles acabariam por se casar mesmo. Maria Júlia não gostava de fazer perguntas e se envolver nas fofocas da secretária, mas não conseguiu evitar de perguntar se eles não eram irmãos.
— Não. Dona Sheila engravidou muito nova e o pai da Eleanor a abandonou. Ela era a secretária do senhor Paulo, que era um homem muito bom e a ajudou. Ele criava Jhonny sozinho e os dois acabaram se envolvendo e se casaram. Quando isso aconteceu, Jhony tinha 12 anos e Eleanor 10. Foram criados juntos, praticamente, mas não são irmãos. Quando Jhonny terminou o ensino médio, foi fazer faculdade na França e um estágio na filial francesa Global. Lá ele conheceu a noiva que não sabemos nem o nome e fixou residência. Mas o Sr Paulo teve Covid na primeira leva e ele teve que voltar. Quando reabriram as fronteiras, a noiva dele veio e eles se casaram numa cerimônia muito simples para evitar aglomerações e não fizeram nenhuma comemoração.
Quando chegou em sua cobertura depois da faculdade na sexta-feira, Maria Júlia não conseguiu deixar de pensar nessa história, e em como o seu casamento aconteceu do mesmo jeito.
Se obrigou a tentar se lembrar de tudo o que aconteceu nos últimos dois anos em sua vida...
Ela era filha única. Viviam em Mairiporã, interior de São Paulo, e tinham uma vida confortável. O pai era dono de uma empresa de programação e um homem extremamente inteligente. Dona Lúcia e Sr Geraldo se conheceram na faculdade, e o pai então desistiu da vida desregrada que vivia. Ele e seu melhor amigo Thomas eram hackers e tinham o costume de fazer algumas coisas ilegais. Geraldo conheceu Lúcia e resolveu se afastar disso, dar sequência na faculdade e montar sua própria empresa de software e convidou Thomas para fazer parte.
Thomas achava que trabalhar e pagar impostos era uma grande besteira. Como resultado, foi preso quando Maria Júlia tinha 5 anos e Geraldo deu assistência para ele nos 6 anos que cumpriu. E quando saiu, lhe deu um emprego de confiança na empresa. Maju se lembrava do tio Thomas por toda a sua vida. Quando entrou no ensino médio, teve sua fase de rebeldia. Vivia de baladas, bebia. Estava deixando os pais de cabelo em pé, e tio Thomas até ajudou algumas vezes com isso. A buscou, a socorreu e era até um bom amigo. Lhe ensinou a pilotar e dirigir com 16 anos.
Quando estava terminando o ensino médio, decidiu fazer faculdade na capital e os pais lhe compraram aquela cobertura. Até passaram as festas de final de ano com ela na capital , mobiliaram o apartamento e seu pai lhe deu um carro de presente de Natal, mesmo que ela só poderia começar a se habilitar dez dias depois, quando faria 18 anos.
Mal começou a universidade e a pandemia começou. Como teria que fazer a distância, voltou para casa e fizeram isolamento social juntos.
Depois de um ano, começou semipresencial, então voltou pra capital. Na mesma semana que voltou, os pais fizeram uma chamada de vídeo contando a novidade.
Durante o Lockdown, ele teve tempo de trabalhar em um grande projeto. Desenvolveu o software da vida dele, e iria vender para uma empresa poderosa. Mas não quis dar detalhes até que tudo estivesse resolvido. Eles estavam tão felizes! Se fechassem o contrato como esperavam, deixariam de ser uma microempresa para serem tops e estava até cogitando se mudar para a capital para gerenciar tudo o que estava por vir.
Não que eles não tivessem dinheiro. Sempre tiveram uma vida muito confortável e a empresa saiu muito melhor do que eles esperavam. Mas a mãe dizia que ela seria grande, muito grande, e uma empresa familiar de pequeno porte não comportaria o tamanho que ela teria.
Maju achava os pais dois fofos. Se amavam tanto, contaram para ela as coisas ilegais que o pai fazia, para lhe mostrar que não precisaria fazer nada parecido. Lhe deram boa educação, foram descolados, foram amigos e estavam sempre lá pra ela. Ela nunca se envolveu com ninguém, justamente porque esperava uma relação igual a dos pais. De parceria e cumplicidade e muito, muito amor. Então ela às vezes dava uns beijos, mas nunca se envolvia com ninguém. Não via sentido em namorar se fosse pra ter menos do que os pais tinham.
Pela criação que teve, tinha total devoção a eles. Por isso estava torcendo muito pelo negócio do pai. Se desse certo e ele viesse pra capital, poderiam viver juntos de novo. Marcou um final de semana com alguns colegas de faculdade no clube, mas na sexta feira recebeu a visita surpresa deles.
Contaram que teriam uma reunião na segunda, na hora do almoço com o chefão da empresa que não quiseram lhe contar o nome e resolveram passar o final de semana com ela e não permitiram que ela cancelasse o final de semana com os amigos.
— Tem certeza, mãe? Eu só consigo voltar na segunda de manhã...
— Vai, filha, você tem todo o direito de se divertir. Vou ajudar você a arrumar a mochila. Coloque aquele seu biquíni pink maravilhoso que deixa seu corpinho magnífico.
E ela foi! Despreocupada e feliz, gastando o dinheiro deles, sabendo que quando voltasse sua mãe teria congelado várias refeições pra ela e ajeitado mais um monte de coisas em seu apartamento.
Curtiu mais uma manhã de sol com sua amiga Laila e entregaram o chalé ao meio dia, pararam pra almoçar e depois seguiram de volta pra casa. Eram as únicas duas que não trabalhavam, por isso se deram a esse luxo.
Quando iam começar a dirigir de volta, resolveu ligar pra mãe pra avisar, depois de duas tentativas sem sucesso, achou que a mãe ainda estava na reunião importante deles e desistiu.
Estava dirigindo há uns 15 minutos quando seu telefone tocou, Laila viu que era "mamãe", baixou o som e atendeu, toda sorridente. De repente, fechou a cara, desligou o celular e mandou ela encostar.
Maria Júlia não entendeu, mas quando encostou, perguntou o que estava acontecendo.
— Desce. Eu vou pro piloto. - Laila já foi tirando o cinto e descendo. Maria julia tirou o cinto e quando abriu sua porta, só perguntou:
— Eles estão vivos?
— Não sei. Disse apenas que houveram quatro vítimas no local e todas foram encaminhadas para o hospital.
Laila dirigiu enlouquecida, devem ter conseguido pelo menos umas duas multas de trânsito. Mas quando chegaram, receberam a notícia de que o acidente foi grave demais. Seus pais morreram no local, tinha uma moça jovem em coma e o outro motorista estava com escoriações.
E Maria Júlia foi obrigada a crescer, de uma hora pra outra, sem nada.
Jhonny olhava sua linda Juliete em uma clínica em estado vegetativo. Os médicos diziam pra ele não vir mais, mas todos os finais de semana dirigia até Mairiporã e passava com ela.
A cada dois ou três meses, tirava ela da clínica e a levava pra casa que ele comprou pra ela. A casa era toda adaptada com rampa de acesso para a maca, ele dispensava as enfermeiras que a acompanhavam na clínica. Pagava 4 só para acompanhá-la, para ela não se sentir sozinha.
Estava levando ela de volta naquele domingo. Depois de ajeitá-la, aguardava a acompanhante chegar pra ele poder voltar para casa, se lembrando de como foi essa semana com ela.
Ele tinha perdido o controle e gritado com ela, bêbado, enquanto se lembrava de como chegaram àquela situação. Normalmente, ele era calmo, lhe dizia coisas boas, mostrava fotos que a família dela mandava da França. A casa era calma, aconchegante, e ele tinha muitas esperanças de ela sair daquela situação.
Os médicos diziam que ela tinha menos de dez por cento de condições de voltar a ter atividade cerebral, e ele confiava nessa porcentagem. Precisava dela. Precisava se redimir do que fez com ela e com aquela família.
Se lembrou de quando a conheceu, como foi simples começarem a namorar e fazer planos.
Ele tinha ido para França fazer faculdade, fugindo do que aconteceu em casa. Sua mãe era uma mulher doce e gentil, mas teve câncer quando ele tinha 6 anos e perdeu a batalha antes de ele completar 8. O pai, sempre muito rígido, sofreu demais a perda, mas não perdeu a mão com sua educação. O luto durou bastante tempo, até que ele resolveu se juntar com Sheila. Devagar, introduziu mãe e filha na família, até que decidiram se casar quando Jhonny tinha 12 anos.
Ele gostou muito da idéia. Uma nova mãe e uma irmã, e Sheila sempre o tratou com muito carinho e cuidado. Mas Eleanor era mais complicado. Teve crises, era mimada, tinha o temperamento forte. Os próximos 4 anos do casamento dos pais foi de luta constante para a menina se adequar.
Jhonny tentava de todas as maneiras contornar a situação, mas Eleanor era complicada. Ruim até. Tratava mal os empregados, era cheia de vontades, fazia birra.
Com 14 anos, decidiu que estava apaixonada por Jhonny e que iriam se casar e ela seria a senhora daquela casa quando Paulo Gustavo morresse. Ela simplesmente planejou que a mãe seria o fardo que ela carregaria, e deixaria de ser a senhora da casa e da empresa. Jhonny teve toda paciência do mundo com isso, mas disse a ela que não tinha a menor pretensão de se casar com 16 anos e ela era sua irmã, não sua namorada.
Durante todo o ano seguinte, surpreendentemente, Eleanor parou de fazer investidas. Começou a agir com ele como irmã, estudava com ele, pedia até conselhos sobre meninos e pesquisava as melhores universidades. Ele se afeiçoou muito à nova personalidade dela e até começou a levar ela em alguns rolês, com os amigos dele e os dela.
Quando chegou sua formatura, ainda não tinha decidido qual universidade se matricular, mas não estava encanado, o pai o ajudaria depois. Eleanor foi sua acompanhante de formatura e estava linda. Na volta, foi até o quarto dele para ajudá-la com o vestido e uma garrafa de champanhe.
— Eu sei que seu pai e minha mãe não me deixam beber, então pensei que você me ajudaria a brindar sua formatura com meia tacinha...
— Não conto nada se você não contar...
Jhonny abriu a champanhe e ela tomou das mãos dele e pediu para abrir os botões do vestido atrás. Depois que ele abriu, ela serviu duas taças do líquido. E ele não lembra de mais nada até o dia de hoje.
Apenas de acordar com Eleanor nua em seus braços em sua cama. Sheila entrou enquanto ele ainda olhava pra ela, confuso.
Foi um fuzuê na casa, seu pai pela primeira vez deu-lhe um tapa no rosto. Sheila não estava realmente chateada com ele, mas os três juntos decidiram que seria melhor ele se afastar por um tempo, para tudo não virar um escândalo e eles dois ter que se casar aos 17 e 15 anos.
Então o pai buscou alguns de seus contatos no exterior e conseguiu vaga em universidade e estágio na França. Eleanor ficou desesperada e ameaçou se matar se ele saísse do país, o pai se trancou com ela por horas no escritório. Depois que saíram, ela estava calma e até feliz e deixou ele ir.
Ele foi pra França com bastante mágoa, mas dois meses depois já estava achando que tinha feito a melhor coisa da vida dele. Adorava seus novos amigos, a universidade. Ali ele não era o filho de um homem poderoso, era só ele. Um menino de quase 18 descobrindo a vida. Estava apaixonado por essa vida nova quando Sheila e o pai vieram lhe visitar.
Sheila contou que marcou consulta para a filha no ginecologista, para saber se o estrago não era ainda maior do que eles esperavam. Ela conseguiu adiar o quanto pôde, mas na semana passada, enfim, descobriram que realmente Jhonny não fez nada com ela, que ainda era virgem. Então ele poderia voltar pra casa, pra sua família.
— Vocês estão loucos? Primeiro, já comecei a universidade e estou gostando daqui. Não tenho mais mágoas de você, papai, por ter me tirado de casa e não ter acreditado em mim. Gosto daqui, gosto dos meus amigos e do meu trabalho. E segundo, não vou voltar para aquela pirralha armar de novo contra mim.
— Eu entendo, filho. Mas temos um problema. Quando convenci Eleanor te deixar partir pra evitar o escândalo, foi com a promessa de que você viria, se formaria e voltaria para assumir sua responsabilidade.
— Como não tem nada pra assumir, você não está voltando atrás em sua palavra.
— Sim, mas Eleanor é muito esperta e me pediu garantias. Então redigi um novo testamento. E ele diz que se você não for casado um ano depois de minha morte, ela assume todo meu patrimônio.
— Com ela? Você disse que eu me casaria com ela?
— Não sou tão idiota, e ela não percebeu o termo, ou ficou emocionada demais que o plano dela deu certo que não notou esse detalhe. Apenas disse que você tem que ser casado.
— Então deixa como está, papai. E se cuida até pelo menos eu me casar.
— Eu preferia que o testamento fosse mudado novamente. Ela teve a mente capciosa para planejar o golpe, e para segurar de descobrirmos a verdade até que o novo testamento fosse registrado - Sheila disse, evidentemente muito nervosa.
— Relaxe, mamãe. Eu não vou me casar com ela, nunca. E também não vou me importar de dividir meu patrimônio com ela depois que o papai ir pra terra dos pés juntos.
E assim o tempo passou, Jhonny estava quase formado quando conheceu a garçonete que mudou sua vida. Juliete era linda, pequenininha, loira, olhos azuis, um espetáculo de mulher. Rapidamente começaram a namorar, ele se formou e arrumou uma vaga pra ela na empresa, onde foi efetivado. Nunca teve oportunidade de trazê-la em nenhuma das visitas ao Brasil, mas os pais falavam com ela ao telefone e por chamadas de vídeo.
Seu melhor amigo, Alain, o ajudava em tudo e conseguiu um imóvel para ele comprar. Juliete se apaixonou pela arquitetura do lugar e projetou a reforma. Ele pagava a universidade dela. Quando terminou a reforma, ele a pediu em casamento e a levou para morar com ele, mas ela só aceitava se ele esperasse ela terminar a faculdade, ainda faltavam 3 anos. Ele estava com 26, achava que seria bom aguardar. Era um acordo perfeito. Mas no ano seguinte, seu pai pegou a maldita doença e ele viajou pro Brasil para acompanhar. Depois que o pai morreu, as fronteiras já estavam fechadas. Ele ficou longe de sua amada, fazendo Lockdown com Sheila e Eleanor e cumprindo o luto, enquanto Juliete fazia Lockdown sozinha naquela casa enorme que eles projetaram para ter três filhos.