Ponto de Vista de Alana:
A notícia me atingiu como um golpe físico. Vale da Rocha. Minha casa. Sendo demolida. A memória do meu pai, ainda mais desrespeitada. O mundo girou. Eu tinha que ir. Agora.
Saí correndo da cobertura, ignorando as chamadas de Caio, as mensagens zombeteiras de Kiara. Minha infância. Minha família. Estava sendo apagada.
A viagem foi um borrão de ansiedade frenética. As estradas da serra eram familiares, sinuosas e estreitas. Cada curva me aproximava do coração da minha dor. Mais perto do pouco que me restava.
Quando cheguei, o caos reinava. O barulho de máquinas pesadas ecoava pelo vale. Minha pequena casa de madeira, aquela que meu pai construiu com as próprias mãos, permanecia desafiadora em meio à poeira rodopiante. Mas não por muito tempo. Uma escavadeira enorme já estava arrancando as fundações da casa ao lado.
Minha mãe. Minha mãe surda-muda. Ela estava parada na frente da nossa casa, seu pequeno corpo rígido, braços estendidos. Um protesto. Um grito primal que ninguém ouvia. Ela não podia ouvir o rugido das máquinas. Mas podia sentir a terra tremer. Podia ver a destruição.
Seu rosto era uma máscara de terror e dor. Ela parecia tão completamente perdida, tão vulnerável.
Um operário, um homem corpulento com o rosto vermelho, estava gritando com ela. Ele não entendia seus apelos silenciosos, seus gestos frenéticos com as mãos. Ele agarrou seu braço, tentando puxá-la para longe.
"Saia da frente, velha!", ele berrou. "Isso agora é propriedade privada!"
A raiva, fria e pura, surgiu dentro de mim. Minha mãe. Minha mãe quieta e gentil. Sendo maltratada.
Eu corri. Meus pulmões ardiam. Minhas pernas doíam.
"Deixe ela em paz!", gritei, minha voz rouca.
Empurrei o operário para longe da minha mãe. Ele cambaleou para trás, surpreso.
"Quem diabos é você?", ele rosnou, esfregando o braço.
"Eu sou Alana Monteiro", eu disse, me endireitando, embora meu coração estivesse batendo como um tambor. "E esta é minha mãe. Você não vai tocar nela."
Ele zombou. "Monteiro, hein? Bem, Sra. Monteiro, seu marido vendeu esta terra. Não é mais sua."
Meus olhos se voltaram para minha mãe. Ela estava chorando agora, lágrimas silenciosas escorrendo por seu rosto. Suas mãos se agitaram, fazendo sinais para mim. *Nossa casa. Nossas memórias. Foram-se.*
Uma dor súbita e aguda atravessou meu braço. O operário me agarrou. Ele era mais forte do que eu. Ele me puxou bruscamente, tentando me arrastar para longe da casa.
"Eu disse para sair!", ele rugiu.
Eu lutei contra ele, chutando e me debatendo. Minha mãe, vendo meu desespero, soltou um grito sufocado. Ela se lançou contra o operário, seus pequenos punhos se agitando.
Ele a empurrou violentamente. Ela caiu, batendo a cabeça em um pedaço de madeira solto. Seus olhos reviraram. Ela ficou imóvel.
"Mãe!", gritei, um som cru, animal.
Soltei-me do operário, correndo para o lado da minha mãe. Sua testa estava sangrando. Sua respiração era superficial.
O pânico me dominou. Aconcheguei sua cabeça. "Mãe, por favor. Acorde."
O operário pareceu momentaneamente atordoado. Então ele apenas resmungou. "Ela não deveria estar aqui."
O rugido da escavadeira ficou mais alto. Estava virando, indo diretamente para nossa casa.
Minha casa. Minha mãe. Tudo.
Nesse momento, um SUV preto e elegante parou. Caio. E Kiara. Claro. Eles vieram para se gabar. Para assistir à destruição final.
Caio saltou para fora, seu rosto uma máscara de irritação. "Que comoção é essa?", ele exigiu, vendo a cena. "Alana, o que você está fazendo aqui?"
Kiara saiu atrás dele, um sorriso cruel no rosto. Ela parecia perfeitamente arrumada, totalmente fora de lugar na poeira e na devastação. "Oh, olhe, Caio. Sua esposinha está tendo um colapso. E a mãe dela. Que... pitoresco."
Meus olhos queimaram nos de Caio. "Você fez isso", sussurrei, minha voz tremendo de fúria. "Você a deixou fazer isso."
Ele franziu a testa. "Não seja dramática, Alana. É só uma casa. Nós construiremos uma nova para ela. Uma muito mais bonita. Na cidade."
"Não é só uma casa!", gritei, o som rasgando minha garganta. "É o legado do meu pai! É nosso lar! Nossa história! Como você pôde?"
Kiara riu. "Ah, por favor. Era uma monstruosidade. Uma mancha na paisagem. Isso é uma melhoria, querida. Um toque moderno."
Caio colocou a mão nas costas de Kiara, um gesto possessivo. "Kiara queria este lugar. É uma localização privilegiada para o resort. Vamos compensar sua mãe generosamente, Alana. Mais do que generosamente."
Compensar. Como um brinquedo quebrado. Como um incômodo.
Minha mãe gemeu, mexendo-se ligeiramente.
"Tirem-nas daqui", disse Caio, sua voz fria. Ele gesticulou para os operários. "E coloquem essa escavadeira para funcionar. Tempo é dinheiro."
Dois homens corpulentos me agarraram, me puxando para longe da minha mãe. Eu lutei, mas eles eram muito fortes. Eles me seguraram, me forçando a assistir.
A escavadeira virou sua lâmina maciça em direção à nossa varanda. O balanço da varanda, ainda lá. A cadeira de balanço da minha mãe. A bancada de trabalho do meu pai.
A máquina rugiu. Então, com um estrondo ensurdecedor, rasgou a madeira. Lascas voaram. A poeira explodiu.
Minha casa. Desapareceu. Em um instante.
Minha mãe soltou um som sufocado. Seus olhos se fecharam. Ela desmaiou de novo.
"Não!", gritei, me debatendo contra meus captores. "Me soltem! Minha mãe!"
Eles me arrastaram para o lado, longe do perigo imediato. Eu assisti, impotente, enquanto a casa desmoronava. Pedaço por pedaço. Todas as minhas memórias. Enterradas sob escombros.
Caio e Kiara ficaram ali, assistindo também. Kiara, um sorriso triunfante no rosto. Caio, sua expressão indecifrável.
Depois de alguns minutos brutais, acabou. Apenas uma pilha de madeira e poeira.
Minha mãe foi levada às pressas para o pequeno posto de saúde local. Sentei-me ao lado de sua cama, segurando sua mão, a raiva crua uma brasa ardente em meu peito. Caio e Kiara tinham ido embora, provavelmente para celebrar sua vitória.
Meu corpo doía. Meu coração parecia oco. Eu nem tive tempo de lamentar totalmente meu pai, e agora isso.
Minha mãe acordou. Seus olhos, geralmente tão expressivos, estavam cheios de uma tristeza profunda e silenciosa. Ela viu meu rosto manchado de lágrimas.
Sua mão se ergueu, tocando suavemente minha bochecha. Ela fez sinais, devagar, dolorosamente. *Não é sua culpa, meu amor.*
Eu balancei a cabeça. "É sim, mãe. Eu o trouxe para nossas vidas."
Ela fez sinais novamente. *Ele nunca te amou. Não de verdade. Ele só amava a si mesmo.*
As palavras me cortaram. Mas eram verdadeiras. Eu sabia. Eu só não queria admitir.
"Eu sei", sussurrei, a admissão com gosto de cinzas. "Eu também nunca o amei. Não de verdade. Eu só... queria sair. Queria uma vida melhor. Segurança. Estabilidade."
Ela apertou minha mão. *Você merece. Agora, vá buscar.*
Sua força, mesmo agora, me humilhava. Ela estava certa. Eu tinha que ir. Tinha que terminar o que comecei.
Liguei para o médico do posto. Minha mãe ficaria bem. Uma concussão, alguns hematomas. Ela precisaria de tempo. E de um novo lar.
Eu me certificaria de que ela tivesse um novo lar. Um seguro. Longe de tudo isso.
Saí do posto de saúde, minha determinação fria e afiada. Kiara. Caio. Eles me levaram longe demais.
Meu divórcio já estava em andamento. Os papéis seriam finalizados em breve.
Eu precisava voltar para São Paulo. Para minha gaiola dourada. Uma última vez. Eu tinha a sensação de que Kiara não tinha terminado seus jogos. Ela iria querer ver o ato final.
E eu daria a ela.
Ponto de Vista de Alana:
O frio se infiltrou nos meus ossos. Meu vestido, ainda úmido da bebida derramada, grudava em mim como uma segunda pele. Arrepios surgiram nos meus braços.
"Vamos, Alana", a amiga de Kiara, Bruna, arrastou as palavras, sua voz pingando falsa simpatia. "É a sua vez. Apenas diga a frase. 'Me desculpe, Kiara, eu sei que ele te ama mais.'"
Eu fiquei paralisada. Minha mente estava em branco. As palavras não vinham. O túmulo do meu pai. A queda da minha mãe. Minha casa, desmoronando. Tudo girava dentro de mim, um turbilhão de dor e fúria.
Kiara deu um passo à frente, seu rosto perfeitamente esculpido uma imagem de desdém. "Oh, a bonequinha do interior quebrou", ela zombou. "Que pena. Eu estava gostando da nossa pequena encenação."
Sua mão disparou. Suas unhas longas e pintadas cravaram no meu braço. Ela torceu. Uma dor aguda me atravessou.
"Você realmente acha que pertence a este lugar, Alana?", ela sussurrou, seu rosto a centímetros do meu. Seu hálito cheirava a champanhe caro e veneno. "Você não é nada. Uma pobre coitada, um caso de caridade, se aproveitando do dinheiro do Caio. Você nunca será uma de nós."
Algo estalou dentro de mim. Os anos de resistência silenciosa se dissolveram.
Tentei me afastar. Mas Bruna e outra das comparsas de Kiara, uma loira chamada Tiffany, agarraram meu outro braço. Elas me seguraram com força.
"Segurem-na!", Kiara sibilou.
A encenação. Isso não era um jogo. Era uma execução pública. Elas estavam encenando todas as vezes que Kiara me humilhou em público. O vinho derramado. As palavras cruéis. Mas desta vez, era real.
A mão de Kiara foi para o meu cabelo. Ela agarrou um punhado, puxando minha cabeça para trás. Meu pescoço queimou.
"Você realmente achou que alguns vestidos bonitos e um anel mudariam quem você é?", ela cuspiu, seus olhos brilhando com alegria maliciosa. "Você ainda é apenas aquela bolsista patética, implorando por migalhas."
Meu peito arfava. A dor era excruciante. Não apenas de seu aperto, mas da humilhação crua. A memória de suas palavras no evento da universidade, o vinho encharcando meu vestido barato, ecoava em meus ouvidos.
Eu vi Caio então. Do outro lado da sala lotada. Seus olhos encontraram os meus. Por uma fração de segundo, vi algo piscar neles. Preocupação? Arrependimento?
Ele deu um passo à frente.
Mas então, seu amigo, Marcos, colocou a mão em seu ombro. "Não, cara", ele murmurou, alto o suficiente para eu ouvir. "A Kiara está chateada. E a Alana... bem, ela procurou por isso. É só uma brincadeira."
Caio hesitou. Seu olhar mudou de mim para Kiara. Kiara, parecendo frágil e injustiçada. Ele parou. Seus ombros caíram.
Meu coração, já uma casca oca, rachou um pouco mais. Ele não me ajudaria. Não por mim. Nunca por mim.
Meus olhos encontraram Kiara novamente. Seu rosto, triunfante. Suas unhas, cravando mais fundo.
Eu revidei. Um instinto primal. Eu não os deixaria me quebrar. Não assim.
Torci minha cabeça, me debatendo. Meus dentes encontraram carne. Um grito agudo. Kiara gritou.
"Ela me mordeu, sua psicopata!", Kiara berrou, segurando a mão. Sangue brotou em seu dedo.
Caio estava instantaneamente ao lado de Kiara. "Kiara! Você está bem?" Sua voz, cheia de preocupação, foi uma faca em meu estômago.
Bruna e Tiffany ainda me seguravam, seus apertos como aço.
"Ela é um animal selvagem!", Tiffany gritou, seus olhos arregalados com indignação fabricada. "Ela mordeu a Kiara!"
"Eu não estou jogando o seu jogo!", eu ofeguei, minha voz rouca. "Eu nunca concordei com isso!"
"Oh, a coitadinha acha que tem escolha", Bruna zombou, revirando os olhos. "Você está na nossa casa, Alana. Você joga pelas nossas regras."
Kiara, agora com o dedo enfaixado por um Caio frenético, me fuzilou com o olhar. "Caio, ela precisa aprender uma lição. Uma de verdade."
O rosto de Caio endureceu. Seus olhos, quando encontraram os meus, estavam frios e distantes. "Levem-na." Sua voz era desprovida de emoção. "Levem-na para a ala oeste. E certifiquem-se de que ela entenda as regras."
Meu sangue gelou. "Caio", eu implorei, minha voz falhando. "Por favor. Você prometeu. Você prometeu que me protegeria." As palavras tinham gosto de poeira. A promessa que ele fez no dia do nosso casamento. De cuidar. De proteger. Uma mentira.
Ele desviou o olhar. "Kiara está chateada, Alana. Você a insultou. Você a machucou. Os sentimentos dela importam."
Minha respiração prendeu. Os sentimentos dela. Meu corpo quebrado. Minha casa destruída. Meu coração partido. Não importavam.
Elas me arrastaram, Bruna e Tiffany, por uma porta lateral. Por um corredor longo e mal iluminado. Meu braço ainda latejava onde Kiara tinha me mordido. Meu corpo doía da luta.
Elas me jogaram em um quarto pequeno e sem janelas. A porta bateu atrás de mim.
Então, a surra começou. Punhos, pés. Uma chuva de golpes. Por toda parte. Minha cabeça, meu estômago, minhas costelas.
Eu me encolhi em uma bola, tentando me proteger. Mas não havia proteção. Apenas dor. Dor implacável e brutal.
Elas não pararam até que Kiara, sua voz abafada através da porta, gritou: "Já chega. Ela aprendeu a lição."
Elas me deixaram lá. No chão frio e duro. Machucada. Quebrada. Sangrando.
Sozinha.
A dor era uma coisa viva. Ela me consumiu. Meu corpo gritava. Mas uma nova sensação, fria e clara, me invadiu. Clareza.
Ele não me amava. Ele não se importava. Nunca. As promessas eram vazias. A proteção, uma fachada. Eu era um peão. E agora, eu era um peão quebrado.
Mas um peão quebrado ainda pode se mover. E um peão quebrado, sem nada a perder, é o tipo mais perigoso de todos.