Capítulo 2

Atlas nunca me amou. Ele deixou isso claro desde o início. Seus olhos, antes tão cheios de um brilho brincalhão, agora continham apenas um desprezo frio quando pousavam em mim. Era um olhar que eu conhecia bem, um cobertor pesado que sufocava qualquer chama de esperança que eu ousasse manter.

— Amor? — ele zombou uma vez, depois que perguntei timidamente se ele poderia sentir algo por mim, qualquer coisa. — Você acha que isso é sobre amor, Elisa? Isso é sobre uma dívida. Uma obrigação. Sua mãe garantiu isso. — Suas palavras eram como pedaços afiados de gelo, estilhaçando qualquer pequeno sonho frágil que eu tivesse construído. — Você é uma algema, Elisa. Um lembrete de um passado que eu quero esquecer.

Eu tinha acreditado na Mamãe. Acreditei quando ela disse que ele tinha que me amar, que era o destino. Mas Atlas tinha rasgado essa crença, pedaço por pedaço doloroso. Minha inocência, meu coração confiante — eles não eram páreo para o ressentimento amargo dele. Eu era apenas um dano colateral, um monumento vivo a uma tragédia esquecida.

Dez anos atrás, o mundo parou de girar para mim. O guincho dos pneus, o cheiro de borracha queimada, o som de metal se rasgando. Foi um borrão de terror. Atlas, jovem e imprudente, tinha desviado para evitar um animal na pista. Nós batemos. Eu lembrava do impacto, do solavanco repentino e violento. Então, luzes brilhantes, piscando e cegando. Atlas, sangrando, preso sob o painel. Eu era apenas uma criança, mas algo dentro de mim surgiu. Eu puxei. Puxei com toda a minha força, uma força que eu não sabia que possuía, até que ele estivesse livre. Assim que o arrastei para fora dos destroços, o carro explodiu.

Acordei meses depois em uma cama de hospital, o mundo um lugar nebuloso e abafado. Minha cabeça doía o tempo todo. Os médicos usavam palavras grandes como "Traumatismo Cranioencefálico". Diziam que meu cérebro não funcionava mais do mesmo jeito. Que eu era como uma criança de seis anos, presa em um corpo que crescia. Mamãe chorava muito. Ela dizia que eu era seu anjinho, quebrada, mas ainda preciosa.

A família Ferraz, os pais de Atlas, ficaram gratos. Excessivamente gratos. Ofereceram dinheiro, o melhor tratamento. Mas Mamãe, Dona Ida, viu mais do que apenas gratidão. Ela viu uma oportunidade, uma maneira de garantir meu futuro quando ela se fosse. Ela já estava doente, definhando com câncer, seu prognóstico era sombrio.

Ela encurralou o pai de Atlas, o Sr. Ferraz.

— Minha Elisa salvou seu filho — implorou ela, a voz fina e desesperada. — Ela deu a mente dela por ele. O que será dela quando eu me for? Quem protegerá minha menina inocente?

Ela não pediu dinheiro. Ela pediu uma promessa. Um casamento. Para prender Atlas a mim, para garantir que eu sempre tivesse um lar, um protetor. O Sr. Ferraz, sobrecarregado pela culpa e pelo senso de dever, concordou. Atlas, mal saído da adolescência, recém-recuperado, foi forçado ao acordo.

Ele odiou. Ele me odiava.

Às vezes ele agarrava meu braço, os dedos cravando na minha pele.

— Olha o que você fez — ele sibilava, os olhos queimando de fúria. — Olha o que sua mãe fez! Você arruinou minha vida, Elisa. Você me prendeu.

Eu chorava, meu coração pequeno e simples incapaz de entender a raiva dele.

— Mas a Mamãe disse... a Mamãe disse que você me amaria — eu soluçava, minha visão embaçada pelas lágrimas. — Ela disse que você era meu príncipe corajoso.

Ele jogava a cabeça para trás e ria, um som áspero e amargo.

— Príncipe? Eu sou seu carcereiro, Elisa. E você, você é a prisioneira.

Uma noite, depois de mais um de seus surtos de raiva, corri para a Mamãe.

— Mamãe, por favor — implorei, segurando a mão dela, já frágil e fria. — Eu não quero ser esposa dele. Ele me odeia. Ele me machuca.

Os olhos da Mamãe, nublados pela dor e por uma luz feroz e moribunda, olharam para mim.

— Você deve, minha filha — sussurrou ela, a voz rouca. — É para o seu próprio bem. Quando eu me for, ele será tudo o que você terá. Ele te deve isso. Ele vai te proteger. Você só tem que ser boazinha. Seja sempre boazinha. E um dia, ele vai ver.

Ela morreu algumas semanas depois. E eu, a boa menina, tentei realizar seu último desejo. Tentei ser boazinha. Limpei o escritório dele, embora muitas vezes quebrasse coisas. Cozinhei refeições queimadas para ele, embora ele nunca comesse. Deixei bilhetinhos no travesseiro dele, rabiscados com desenhos infantis e palavras desajeitadas de afeto. Ele os triturava.

Ele manteve Cátia escondida no início. Depois, parou de se importar. Ele me fazia sentar na sala de estar, quieta como um rato, enquanto ele e Cátia riam, se tocavam e se beijavam no sofá.

— Olha, Elisa — dizia Cátia, a voz doce como açúcar, os olhos brilhando com malícia. — O Atlas me ama. Não você. Você é apenas... a obrigação dele.

Meu coração doía, um latejar surdo e constante. Mas eu ainda me agarrava às palavras da Mamãe. Seja boazinha. Ele vai ver.

Uma vez, depois que quebrei acidentalmente um vaso enquanto tentava tirar o pó, Atlas me arrastou para o porão. Era escuro, frio e cheirava a terra úmida.

— É para cá que as coisas inúteis vão, Elisa — ele rosnou, trancando a pesada porta de madeira atrás de si. — Assim como você.

Chorei por horas, encolhida no canto, segurando meu medalhão. Mas mesmo assim, uma parte pequena e tola de mim ainda tinha esperança. Talvez ele voltasse. Talvez percebesse que precisava de mim. Talvez me trouxesse um cobertor. Ele nunca trouxe.

Então veio o dia em que Cátia anunciou sua gravidez. Ela exibia sua barriga crescente, seu sorriso triunfante direcionado diretamente a mim.

— O Atlas vai ser pai — ela cantou. — Uma família de verdade. Não esse... arranjo.

Atlas, preso entre nós duas, tornou-se ainda mais volátil. Ele me disse que ia me levar para uma clínica, um "lugar especial" onde eu poderia ser "feliz". Eu sabia o que aquilo significava. Abandono.

Cátia, vendo sua chance, capitalizou a decisão dele. Uma noite, ela me encurralou na cozinha.

— Elisa — disse ela, a voz estranhamente gentil, quase amigável. — O Atlas está preocupado com suas dores de cabeça. Ele comprou essas vitaminas especiais para você. Tome. Elas vão fazer você se sentir melhor para a viagem. — Ela pressionou um pequeno frasco sem rótulo cheio de pílulas brancas na minha mão. — Apenas uma, toda manhã. Promete?

Eu acreditei nela. Eu queria acreditar nela. Eu queria ficar bem para o Atlas.

As pílulas me deixavam doente. Minha barriga doía. Mas Cátia apenas sorria.

— Significa que estão funcionando, querida. Você está ficando mais forte.

Logo antes de partirmos para a serra, Cátia teve uma "queda" dramática na escada. Ela gritou, segurando o estômago. Atlas correu para o lado dela, o rosto pálido de medo.

— Meu bebê! — ela chorou, olhando para mim com olhos arregalados e cheios de lágrimas. — A Elisa me empurrou! Ela está com ciúmes!

Os olhos de Atlas eram uma tempestade furiosa quando ele olhou para mim.

— Sua monstrinha — ele rugiu. — Como você ousa?

Ele não me bateu, não naquele momento. Mas as palavras dele foram piores. Eram marretas, destruindo os últimos vestígios da minha esperança. Ele tinha decidido, ali mesmo, que eu não era mais apenas um fardo, mas uma ameaça. Ele precisava que eu desaparecesse. Permanentemente.

Mais tarde, enquanto dirigíamos, Cátia descansou a cabeça no ombro de Atlas, uma imagem de felicidade doméstica.

— Não acredito que ela tentou machucar nosso bebê — murmurou ela, a voz trêmula. — E se algo acontecer? E se eu perder?

Atlas acariciou o cabelo dela, o olhar fixo na estrada, mas seus dedos apertavam o volante com tanta força que os nós estavam brancos.

— Nada vai acontecer com nosso bebê, Cátia — jurou ele, a voz tensa de determinação. — Eu prometo a você. Ela nunca mais vai ficar entre nós. — Ele olhou pelo espelho retrovisor, os olhos queimando com um fogo frio que me atravessou, mesmo como fantasma. — Nunca mais.

E então, ele aumentou a música. E eu, a esposa esquecida, o fardo, o monstro, fui deixada para morrer no porta-malas frio e escuro, minha vida se esvaindo, sem ser ouvida, sem ser vista.

Capítulo 3

A SUV parou completamente, o silêncio repentino após o rugido do motor parecendo estranhamente alto. Atlas se espreguiçou e abriu a porta, uma rajada de ar frio da montanha invadindo o veículo.

— Finalmente — resmungou ele, esfregando as têmporas. — Essa viagem foi interminável. Ela ainda está lá atrás? — Ele nem olhou para o porta-malas, o tom mais irritado do que curioso.

Eu não sou apenas "ela", meu eu fantasmagórico pensou, pairando perto do ombro dele. Eu sou Elisa. Sua esposa. Aquela que morreu no seu porta-malas. Aquela que você matou. Mas as palavras não tinham som, sem sentido para os vivos.

Cátia saiu do lado do passageiro, tremendo dramaticamente, embora seu sorriso fosse largo e vibrante.

— A serra! — exclamou ela, abrindo os braços, alheia à tragédia que acabara de acontecer a poucos metros atrás dela. — É ainda mais mágico do que eu lembrava, Atlas querido. As luzes de inverno, o ar puro... é perfeito para nós.

Torres, o segurança de rosto sombrio, aproximou-se da SUV.

— Chefe, a equipe vai descarregar a bagagem. Devo mandar eles... buscarem ela? — perguntou ele, os olhos desviando para a traseira do veículo, uma leve hesitação na voz.

Atlas acenou com a mão, dispensando o assunto.

— Apenas diga para levarem ela direto para o quarto. E certifique-se de que ela fique lá. Não quero ela vagando por aí e fazendo cena. Ela deveria estar descansando, lembra? — Ele nem especificou qual quarto, apenas "o quarto dela", como se qualquer canto servisse.

Torres assentiu, uma expressão estranha cruzando seu rosto. Ele olhou para Cátia, que apenas deu de ombros, a atenção já focada no chalé luxuoso.

— Entendido, chefe.

Mas Torres não disse à equipe para me buscar. Ele apenas disse para descarregarem a bagagem. O equipamento de esqui, as malas, as caixas. E eu. Meu corpo permaneceu, um segredo silencioso e congelado, aninhado entre as coisas esquecidas.

Atlas e Cátia entraram no saguão opulento, suas risadas ecoando pelo grande espaço. Eram a imagem da riqueza e felicidade, completamente inconscientes do contraste arrepiante que sua alegria formava com a forma sem vida ainda no carro.

— Estou exausta — reclamou Cátia, apoiando-se pesadamente em Atlas. — E um pouco triste, ainda, sobre... você sabe. — Ela fez bico, os olhos se enchendo de lágrimas convenientes.

Atlas imediatamente passou um braço ao redor dela.

— Eu sei, amor. Está tudo bem. Vamos esquecer tudo isso. — Ele deu um beijo suave na testa dela. — Tenho algo para você. — Ele tirou uma pequena caixa de veludo do bolso. Dentro, um pingente de diamante brilhava sob as luzes do lustre. — Para um novo começo. Para o nosso bebê.

Cátia engasgou, as lágrimas instantaneamente esquecidas.

— Atlas! É lindo! Você é o melhor. — Ela jogou os braços ao redor dele, cobrindo o rosto dele de beijos.

Eu assisti, uma memória fraca se agitando dentro da minha forma espectral. Mamãe costumava me dar coisas, pensei. Coisas pequenas. Uma pedra pintada. Um botão brilhante. Ela dizia que eram símbolos do amor dela. O amor da Mamãe era quente e macio, como seu velho cobertor de lã. Os gestos de Atlas eram frios e duros, como os diamantes que ele dava a Cátia.

A lembrança do porão, das palavras cruéis de Atlas, da escuridão, do frio, ressurgiu. Eu odiava o escuro. Ele trazia de volta as piores coisas. Não apenas a solidão, mas ele. O homem que Torres às vezes trazia para a casa. Aquele com mãos frias e olhos que não sorriam. Ele vinha quando Atlas estava fora, quando Cátia saía. Ele vinha para o porão.

Ele me tocava. De maneiras que me assustavam. De maneiras que doíam. E eu chorava, silenciosamente, porque Atlas tinha me dito para ficar quieta. "Boas meninas não fazem barulho, Elisa", ele tinha dito. "Especialmente quando você está encrencada."

Eu não entendia o que estava acontecendo. Só sabia que era ruim. E a escuridão do porão, era exatamente como a escuridão do porta-malas. Exceto que não havia ninguém para me ouvir no porta-malas. Ninguém para me machucar mais. Nem o homem estranho. Nem Atlas. Nem Cátia.

Minha forma fantasmagórica tremeu. Por que ele não tinha me amado? Foi porque eu quebrava coisas? Porque minhas palavras às vezes saíam emboladas e erradas? Eu o amava. Mamãe disse que eu tinha que ser boazinha, e ele me amaria. Eu tentei tanto. Tanto, tanto. Mas nunca foi o suficiente.

Dentro do calor aconchegante do chalé, Atlas e Cátia estavam se acomodando na suíte.

— A Elisa não deveria estar aqui a essa hora? — perguntou Cátia, um sorriso malicioso brincando nos lábios. — Talvez ela tenha se perdido no caminho para o quarto. Ela sempre foi um pouco... confusa.

Atlas bufou, tomando um gole de champanhe.

— Deixe ela se perder. Melhor ainda, deixe ela ficar onde quer que o Torres a tenha colocado. Ela não é mais problema meu. Ela é problema de um cuidador agora. Ou problema de uma clínica. — Ele parecia aliviado, quase tonto com o pensamento de sua recém-descoberta liberdade.

Um funcionário do hotel, um jovem com olhos nervosos, bateu na porta.

— Sr. Ferraz, terminamos de descarregar a SUV. Mas... não conseguimos encontrar toda a bagagem. E... sua esposa?

Atlas franziu a testa, a irritação nublando suas feições.

— O que você quer dizer com "não conseguimos encontrar"? Ela deveria estar no quarto dela. E toda a bagagem deveria estar aqui. Verifique de novo! — Ele retrucou, a voz afiada.

— Senhor, verificamos o quarto que o senhor especificou para ela, está vazio. E vasculhamos o veículo completamente. Algumas das malas menores estão faltando. E... não havia ninguém no porta-malas quando descarregamos os esquis. — O jovem gaguejou, o rosto pálido.

Cátia riu, um som quebradiço e zombeteiro.

— Ah, pelo amor de Deus. Ela provavelmente está apenas jogando um de seus joguinhos bobos. Escondida em algum lugar. Tentando chamar atenção. — Ela revirou os olhos. — Ela sempre fazia isso. Lembra quando ela fingiu estar doente só para você carregá-la?

Eu não estava fingindo, eu queria gritar. Minha cabeça doía. Minha barriga doía. Vocês fizeram doer! Mas as palavras nasceram mortas, ecoando apenas no vazio silencioso onde minha vida costumava estar.

O maxilar de Atlas endureceu.

— Ela é um maldito estorvo — murmurou ele, pegando o celular. — Sempre. Eu disse para ela ir direto para o quarto. Agora ela provavelmente está vagando pelos corredores, fazendo um espetáculo. — Ele discou um número, os dedos socando os botões com força raivosa. — Elisa, se você estiver aprontando uma das suas, vai se arrepender! Atenda o telefone!

Ele segurou o telefone no ouvido, ouvindo. Apenas o toque distante, abafado e solitário, respondeu a ele.

— Droga, Elisa, me atenda! — ele rugiu, sua frustração transbordando. Ele olhou ao redor da suíte luxuosa, como se esperasse ver meu rosto infantil espiando por trás de uma cortina. — Onde diabos você está?

Nesse momento, o telefone dele vibrou com uma chamada recebida. Não de mim. Era Torres. Atlas olhou feio para a tela, depois atendeu, a voz curta.

— Torres, onde ela está? A equipe não consegue encontrá-la. Ela já está na clínica?

Uma pausa. Então, a voz de Torres, baixa e urgente, veio pelo telefone, alta o suficiente para eu, a observadora espectral, ouvir.

— Chefe... temos um problema. Um grande problema. O manobrista... ele acabou de encontrar algo no porta-malas. Algo... inesperado.

O rosto de Atlas empalideceu. Ele olhou para o telefone, os olhos arregalados com um horror súbito e crescente.

Continue lendo
Apoie o autor e inspire mais histórias incríveis Moboreader
Desbloquear todos
Capítulo
Personalizar
Próximo Capítulo
Minishorts Logo
Leia web novels, ficção online e histórias românticas em alta no MiniShorts. Descubra romances de bilionários, fantasia de lobisomens, drama e novelas de fantasia, além de conteúdos selecionados de dramas curtos inspirados nas tendências de narrativa mais populares.
MiniShorts YouTube
PRODUTOS E SERVIÇOS
Sobre nós
support@minishorts.com
©2026 MiniShorts Todos os direitos reservados. CHASINGTOP HK LIMITED