O vento gelado bateu no meu rosto quando entrei na varanda de meu quarto, deixando-me arrepiado. Era uma típica manhã de segunda-feira — que possivelmente seria monótona e nada agradável — quando acordei com uma leve ressaca da noite anterior. A garrafa de Bourbon vazia jogada no chão do quarto era a responsável pela leve dor de cabeça, sorri ao lembrar da pequena festa dada pela minha assistente, Anita. Deixei os pensamentos de lado quando escutei "toc toc"
— Sr. Bianchi? — a voz de Carmen ecoou pelo corredor. A mulher sempre gritava quando se tratava de algo urgente.
Me aproximei da porta e a abri com rapidez. Um rosto comum e rechonchudo me olhou com o semblante aflito.
— O que aconteceu?
— O seu pai está lá na sala e não aparenta estar feliz. — entendi o que ela quis dizer e bufei.
— Estou descendo. Obrigada, Carmen! — a mulher que praticamente me criou durante todos os anos de minha vida, me soltou um olhar de "Tome cuidado, por favor" assenti e ela respirou aliviada.
Me preparei mentalmente para enfrentar meu pai e assim fiz, andando firme até a sala ampla da mansão, tão grande e ao mesmo tempo tão pequena... Giancarlo Bianchi Gali estava impaciente ao telefone. Andei devagar até o cômodo em que ele se encontrava e o homem percebeu a minha presença, desligando o telefone no mesmo instante em que me viu.
— Achei você, ainda bem. Preciso que viaje à Las Vegas para o Hotel Bianchi Gali. Consegui mais um sócio e preciso de alguém de confiança para as reuniões.
— Como quiser, pai. Quando irei? — coloquei as mãos nos bolsos da calça.
— Na quinta-feira pela manhã. O jatinho particular irá levá-lo, por favor sem atrasos. Sabe que priorizo a pontualidade em meus negócios. — assenti, o olhando preocupado.
— E por que está tão preocupado? — questionei e em resposta ele respirou fundo.
— Lembra da loja de cosméticos que Carlota resolveu abrir em Manhattan?
— Cosméticos Gali. — lembrei de imediato.
A minha madrasta não era nem um pouco inteligente em relações a negócios e vivia em constante disputa — que só existia na cabeça dela — com a minha mãe. Abriu uma loja de cosméticos com a promessa que deixaria meu pai mais rico, porém só tínhamos problemas e dores de cabeças em relação à isso. Carlota só se preocupada com bolsas da Gucci e sapatos caros.
— Exato. Sua madrasta fez um sorteio de uma viagem para Vegas, em nosso hotel. Um sorteio nada organizado e que já tem dois vencedores, sabe-se lá de onde são. A loja está indo a falência e ela achou que fazendo tal coisa mudaria algo, mas piorou. Irei viajar para Manhattan e ver como anda a situação.
— Já disse para o senhor colocar Carlota no lugar dela, pai. Ela vai acabar te levando a falência. — aconselhei e ele fez pouco caso.
— Enfim. Quinta-feira, não esqueça! Preciso ir. — andou apressado até a porta e voltou a telefonar.
Horas mais tarde, estava sentado em minha mesa na empresa. Depois de mil assuntos pendentes, consegui respirar fundo e almoçar. Minha cabeça estava doendo e piorou com a mensagem de minha mãe.
"Filho, estou em Paris com o seu padrasto. Gostaria de nos acompanhar? Sua irmã apareceu com uma notícia excelente... Ela está noiva de Pietro!"
Não acredito que Paola aceitou o pedido de casamento daquele idiota. O cara era o maior babaca e sempre a colocava para baixo, não acrescentava nada em sua vida.
"Sinto muito, mãe. Tenho uma viagem de negócios essa semana e estou atolado de trabalho. Mande minhas felicitações"
Assim que enviei a mensagem, ouço uma voz conhecida acompanhada de "toc toc" na porta do escritório.
— Pode entrar! — falei alto e então a porta se abriu, revelando um Adam Jones com um sorriso debochado.
— Estava comprando alguns móveis para o meu apartamento novo e passei aqui para ver o meu melhor amigo sumido. O que diabos aconteceu com você ontem? — sentou despojado no sofá de couro do escritório.
— Levei a garota loira para casa e as coisas esquentaram. — cruzei os braços sorrindo e Adam esfregou as duas mãos em felicidade.
— Pelo menos alguém terminou o domingo bem. — assenti, ainda sorrindo.
— Mas felicidade dura pouco quando se trata da minha. Tenho uma viagem de negócios para Vegas na quinta-feira. Meu pai está completamente maluco com as aventuras de Carlota. — debochei, fazendo o meu amigo rir alto.
— Aquela mulher tem um parafuso a menos, isso é fato. Mas... Pera aí, você está falando de Vegas? Caralho, Henry! Podemos passar o final de semana inteiro no hotel, curtindo, bebendo e tudo de graça. O que acha? — franzi o cenho com incredulidade.
— Ouviu a parte de "viagem de negócios"? Não estou indo para me divertir e não existe "nós" quando se trata de trabalho.
— Por favor, Henry. Você tá ficando um velho chatão e sem expectativas de vida... Resolva as pendências do trabalho e logo depois iremos nos aventurar pelos cassinos e festas de Vegas. — ergui a sobrancelha.
— Ok, já que você faz tanta questão. Preciso que esteja em minha casa na manhã de quinta-feira, sem atrasos. Iremos no jatinho de meu pai e sabe que ele preza pela pontualidade.
— Excelente. Eu levo uma garrafa de Bourbon para bebermos durante a viagem.
Bufei e depois dei uma risada da maluquice do meu amigo. Para Adam, tudo se resolvida com festas e mulheres.
Olívia Miller
As malas estavam feitas e devidamente organizadas na pequena sala do apartamento e uma Emily ansiosa cantava no banheiro enquanto tomava banho para embarcamos para Las Vegas. Quitei o aluguel desse mês depois de pedir emprestado para Josh e estava bem tranquila em relação à isso, pelo menos irei me concentrar na diversão que essas férias irão proporcionar. Era quase madrugada de quinta-feira, possivelmente chegaríamos em nosso destino pela manhã.
Olhei mais uma vez no espelho da sala e fiquei contente com o que vi, meus cabelos estavam preso em um rabo de cavalo alto e eu usava uma calça jeans de lavagem escura e um moletom preto confortável. Pensamentos ansiosos rondavam a minha cabeça, estava nervosa para conhecer aquela cidade e pesquisei um pouco sobre o hotel que ficaríamos. O Hotel Bianchi Gali era conhecido pela melhor hospedaria da cidade e bem avaliado pelo luxo e seus cassinos. O dono do hotel recebeu inúmeras visitas de famosos e ostenta uma fortuna imensurável.
— Vai ser divertido. — murmurei consigo mesmo e torci para que realmente fosse, eu merecia um pouco de paz e diversão.
— Estou pronta! — Emily apareceu já vestida e com o cabelo seco. Por ser curto era menos trabalhoso, porém bastante bonito.
— Vamos? — estendi a mão um pouco nervosa.
— Vamos! — disse animada.
A viagem foi ótima, dormimos boa parte dela e chegamos no destino pela manhã, com um sol caloroso fazendo nossa recepção. Trocamos de roupas no banheiro do aeroporto devido ao calor e pegamos um táxi para irmos diretamente para o hotel.
O Hotel Bianchi Gali nos deixou surpresa pela ótima localização e seus luxos encantadores. Pessoas aparentemente podres de ricas andavam de um lado para o outro, sempre com o nariz empinando, demonstrando todo o seu desprezo por meros mortais. Emily se apressou indo até o balcão da recepção e trocou algumas palavras com a funcionária, alegando que havíamos ganhado o sorteio.
— Verifiquei seus dados e realmente ganharam o sorteio. O quarto das senhoritas ficam no 4° andar do hotel. Antes de seguirem para os seus aposentos, quero lhes explicar sobre o sorteio. Acompanhe-me! - sorriu simpática.
Fizemos um pequeno percurso até nosso quarto visto que o hotel era gigantesco e deveria ter vários andares. A moça cujo nome era Diana explicou perfeitamente as regras do sorteio
1° O café da manhã era servido de 7 às 9 da manhã.
2° a entrada para o cassino era feita através da recepção por pulseiras que não podem ser perdidas ou tiradas do pulso.
3° Piscina era liberada somente depois do almoço.
4° A viagem acaba em quatorze dias, logo após será cobrado a diária do hotel.
5 ° É recomendado estar no Hotel até às 3h da madrugada. Passando do horário teremos que esperar a recepcionista trocar de turno.
6 ° Ter organização com o quarto e cuidados com os produtos liberados pelo sorteio.
7 ° Não cumprimente/ se aproxime de nenhum Bianchi Gali. É extremamente proibido.
E mais umas dez regras bobas que nem fiz questão de ouvir. Ora, não estava com vontade de me estressar...
Depois que Diana nos deixou sozinhas em nosso quarto, arrumamos nossas malas, tomamos banho e decidimos dormir por conta da viagem. Não passava das 10h quando acordamos juntas.
— O que iremos fazer hoje? Estou com vontade de passear por Las Vegas e beber vinho durante a noite. — falei ao levantar da cama e me espreguiçar.
— Nós faríamos esse programa tosco caso estivéssemos em Nova York. Acorda, Olívia! Olha o tamanho desse hotel, imagina o quão impactante seria se conseguíssemos um suggar dady. — Emily disse me olhando animada.
— E o que você sugere? Temos duas semanas para curtimos tudo isso de graça.
— O almoço é servido meio-dia. Nós comemos, colocamos nossos biquínis e vamos sensualizar um pouco na piscina... Quem sabe aparece alguém interessante e transforme essas duas semanas em meses, anos... Não custa nada sonhar! — riu alto, se jogando na cama.
Concordei com um pé atrás e assim foi feito, almoçamos no restaurante chiquérrimo do hotel e em seguida fomos para a piscina. Era uma área grande, com uma piscina enorme e algumas pessoas aproveitavam o sol, deitadas em espreguiçadeiras.
— Pouquíssimas pessoas estão curtindo essa piscina maravilhosa, que povo maluco! Onde estão os homens bonitões daqueles filmes da Netflix? — Emily disse irritada.
Sentamos em duas espreguiçadeiras e comecei a passar o protetor solar no corpo. Ninguém merece ficar toda ardida durante essa viagem espetacular. Aproveitei para postar fotos no Instagram.
— As pessoas trabalham, Emily. Não esqueça que estamos em plena quinta-feira.
— Pessoas ricas não trabalham. — disse concentrada no celular.
— Claro que sim. É por isso que são ricas, não ficam a toa. — ela ficou em silêncio e continuou olhando o celular.
O dia passou rapidamente e logo estávamos em nosso quarto, nos arrumando para curtir a noite.
Optei por um vestido vermelho e bem decotado, passei um batom nos lábios da mesma cor, os cabelos ondulados pelo babyliss caíam pelos meus ombros deixando-me bonita.
— Uau! Você tá muito gata, amiga! — Emily saiu do banheiro sorridente.
Ela usava um vestido azul escuro de seda, que tinha uma fenda na perna direita e um pequeno decote no busto. O cabelo extremamente liso e partido no meio deixava a cor mais evidente. Ambas estávamos de salto alto e sorri ao pensar que finalmente poderia curtir uma noite de diversões, depois de tanto tempo me martirizando pelos fracassos da vida.
— Você está muito mais! Pronta? — estendi a mão e ela assentiu, segurando-na.
Pegamos o elevador e paramos na recepção. Estava lotada de seguranças, aquilo me assustou um pouco. Nós resolvemos ficar no bar esta noite, pois ficamos sabendo por alto que esse final de semana seria regado de festas.
— O que está acontecendo? — perguntei, olhando para a entrada do hotel.
— Eu não sei. — Emily olhava na mesma direção.
E então aconteceu. Dois homens entraram no hotel acompanhado dos seguranças. Um deles estava de terno preto perfeitamente alinhado e falava sério ao telefone, o outro usava uma roupa mais despojada, olhando cada rabo de saia que passava por ele.
O de terno parecia não estar se sentindo a vontade, ele trocou poucas palavras com a recepcionista e continuou andando pelo hall do hotel. Que homem bonito! Ele tinha um jeito que me deixou estranhamente arrepiada e quando sorriu, quase tive um pequeno infarto. Era bonito, charmoso e sombrio.
Sim, aquele homem tinha algo obscuro no olhar. Algo que me intrigou no exato momento que pus os olhos nele. Não o conhecia, sequer sabia seu nome, mas estava intrigada e assustadoramente encantada.
Antes que ele pegasse o elevador e sumisse da minha visão, seu rosto virou-se em minha direção rapidamente, como se alguma tipo de conexão tivesse puxado-o para mim e pelo seu olhar, o impacto também caira sobre ele.