Capítulo 2

Stella Venator

— Sai daí, Stella!! — Liam gritou.

Posicionei meus pés firmes no chão, girei o pulso e parei a espada com a lâmina apontada para aquela criatura. Porém, o barulho do tiro que Liam deu me tirou a concentração.

Olhei para ele e só vi o gesto de suas mãos, avisando para que eu saísse da frente do ancião. Ao retornar minha atenção à criatura, consegui avistar suas garras abertas se aproximando. Por instinto, pulei para o lado e ela passou direto.

Rapidamente o segui com os olhos e observei ele perder o controle e rolar no chão até bater contra uma árvore, que se quebrou com o impacto e a velocidade na qual ele estava. Voltei minha atenção para Liam e um lobisomem surgiu do nada e o agarrou pelas costas.

Rápido, me levantei para socorrer meu irmão, mas avistei o ancião vampiro se recompondo e ficando em pé.

— Droga, eles realmente estão nos atacando juntos!

Fiquei parada ao perceber que minha espada estava longe de mim, mas nesse meio-tempo observei o rosto daquela criatura.

Em dois pés e olhando na minha direção, seu rosto parecia o de um morcego, bem maior, com aproximadamente dois metros de altura, ou até mais. Tinha orelhas enormes e pontudas, olhos pequenos e um nariz como se fosse invertido para dentro, contendo apenas os buracos. Além das presas enormes, todos os dentes eram pontiagudos.

Suas asas eram presas entre os braços e o corpo; em suas mãos e pés havia garras enormes e afiadas. Imagine ter que lidar com isso todos os dias da sua vida, durante a noite. Respirei fundo quando notei o sangue escorrendo da sua boca pelo corpo. Ele devia ter se alimentado há poucos minutos, então estava mais forte do que um ancião não alimentado.

Me olhando ferozmente, ele correu na minha direção, quase saltando. Uma visão horrível. Qualquer pessoa normal veria isso e correria ou morreria ali mesmo.

Liam havia se libertado do lobisomem e também estava correndo na minha direção, enquanto vi o ancião vampiro se aproximar de mim. Porém, em outro salto surpresa, o lobisomem pegou Liam, arrastando-o para longe.

— Liam!!

Gritei ao tentar correr para ajudar meu irmão.

— Que merda está acontecendo aqui? Os anciões deveriam lutar entre si, não nos atacar juntos!

No meio do caminho, senti um forte impacto contra meu corpo. Meus ossos estalarem. Que dor!

Fui lançada contra uma árvore. Ela não quebrou, mas quase quebrou meus corpo, estalaram novamente. Minha expressão de dor foi nítida quando escorreguei até o chão.

Enquanto ele se aproximava de mim, grunhindo horrivelmente, esperei que chegasse mais perto e retirei minha arma da cintura, com balas de verbena. Diante de mim, ele abriu os braços, revelando suas asas uma visão aterrorizante. Senti minhas pernas tremerem, mesmo tendo experiência com essas criaturas. Ao deixar o peito à mostra, mirei rápido e atirei duas vezes.

Interrompendo suas garras que estavam prestes a me atacar, observei que ele rugiu como se estivesse sentindo muita dor. Se acertar o coração é fatal, mas, se errar, eles ainda conseguem lutar. Tentei me afastar enquanto ele dava alguns passos para trás, ainda fazendo aquele barulho grotesco, alto e horrível de se escutar.

Porém, em suas últimas forças, ele conseguiu me acertar com sua enorme mão, me arremessando contra outra árvore. Apenas senti o vento percorrer meu corpo ao fechar os olhos, esperando o impacto.

Fiquei sem ar, mas logo me recuperei ao procurar meu irmão no campo de visão. Mais distante, vi Liam por baixo do lobisomem, tentando alcançar sua arma ao lado. Porém, o ancião estava prestes a lhe dar um golpe mortal. Ao ver aquilo, senti um arrepio na espinha.

Ele estava prestes a matá-lo.

Mesmo com o corpo dolorido, me recompus rapidamente e corri na direção deles. Ao trocar as balas de verbena pelas de acônito, comecei a atirar na direção do ancião lobisomem. A cada projétil que o acertava, ele grunhia. Mas a pior cena foi vê-lo cravar suas garras no peito do meu irmão. Por um momento, parei ouvindo um zumbido nos meus ouvidos. Meus olhos se encherem de lágrimas.

Cai na real quando o animal deixou meu irmão caído ali e se voltou contra mim, bufando e babando. Procurei minha espada feita de prata, mas estava muito distante. Não teria chances de alcançá-la. Apenas minhas adagas e a arma para me defender.

O ancião ficou de quatro patas e, uivando, começou a correr na minha direção ferozmente. Mas a única coisa que eu conseguia ver era meu irmão caído lá atrás.

— Eu tenho que ajudá-lo!

Quando percebi que ele se aproximava, comecei a correr na direção oposta, ele veio atrás de mim. A neblina estava quase impossibilitando nossa visão. O barulho de galhos e árvores se quebrando com ele trombando era aterrorizante. Ao olhar para trás vi que ele estava próximo, voltei minha atenção para frente e avistei uma árvore. Pulei e subi um pouco com os dois pés, dando um mortal e parando atrás da criatura.

Não tive tempo de fazer muita coisa. Ele se virou tentando me abocanhar. Rápido, me abaixei, desviando do ataque, rolei para o lado e me levantei em seguida, começando a correr atirando nele. Um lobisomem é mais difícil de acertar, pois corre sobre quatro patas.

Merda! Ouvi o barulho da arma avisando que estava sem munição. Soltei a arma no chão e, correndo, alcancei minhas adagas. Parei, e vi que ele havia saltado para me atacar.

— Agora é tudo ou nada!

Segurei minhas adagas ao contrário nas mãos, pronta para o confronto. Quando ele se aproximou com as patas erguidas, fui interrompida por alguém que parou rapidamente na minha frente, segurando minha espada e decepando a cabeça da criatura tão naturalmente como se, em vez de ser um monstro enorme de ossos e pele, fosse um simples vegetal.

Enquanto o corpo caiu de um lado e a cabeça do outro, tive certeza de que não era Liam. O misterioso homem estava de costas para mim. Observei ele abaixando a espada, enquanto o sangue escorria pela lâmina e pingava no chão.

— Diogo! — falei quando ele se virou para me olhar. O nome saiu com um sentimento tão forte de familiaridade que parecia que o conhecia há anos.

— Maya! — ouvi sua voz rouca sair de seus lábios. Sua expressão parecia de surpresa, tanto quanto a minha.

Fiquei paralisada quando ele veio lentamente com a mão, tentando tocar meu rosto.

— S... tella!

Ouvi a voz de Liam dizer meu nome. Comecei a sentir uma forte dor de cabeça. Ajoelhei no chão, levando as mãos à cabeça. A dor interrompeu qualquer pensamento. Durante meus gemidos, imagens começaram a passar diante dos meus olhos.

A imagem que vejo é de um lugar totalmente diferente: um campo verdejante e um homem de olhos azuis, cabelos castanhos claros, extremamente lindo, estendendo a mão para alguém. Espera… estou vendo através dos olhos da pessoa que está diante dele. Vejo apenas uma mão feminina segurando a dele.

— S... tella!!

Ouvi a voz de Liam novamente. Ele parecia preocupado e fraco ao mesmo tempo. Enquanto isso, observo o rosto do homem que segura a mão da mulher através dos olhos dela.

— Ah!!

Outra forte dor, e tudo sumiu diante dos meus olhos. Agora parece que voltei à realidade, e o homem está ajoelhado na minha frente. Ele parece o mesmo homem da visão. Ele me olha preocupado. Ao perceber que olhei em seus olhos, segurou minha mão.

— Está tudo bem?

Ao ouvir sua voz novamente, outra dor se iniciou.

— Que dor terrível… sinto como se algo quisesse abrir minha cabeça!

Agora sua voz ecoava dentro da minha mente várias vezes:

— Te amo, te amo, te amo.

— Que droga é essa? Ah!...

Minha cabeça parecia que ia explodir. O homem à minha frente parecia atordoado e preocupado. Consegui ver Liam tentando se levantar, cambaleando. Segurei o ombro do homem à minha frente, e ele me ajudou a levantar. Ainda olhando em seus olhos, passei por ele, deixando-o ali, corri até Liam, tentando entender o que havia acabado de acontecer.

— Calma, maninho. Você vai ficar bem!

Apoiei ele no meu corpo para ajudá-lo a se levantar. Liam é pesado, então precisei fazer muita força para ajudá-lo a caminhar. Devagar, e aparentando sentir dor, ele me acompanhou. No caminho, procurei aquele homem, mas ele já não estava mais lá.

Por que eu o chamei de Diogo? Quem é ele? Por que tudo isso aconteceu?

Capítulo 3

Stella Venator

Mesmo que eu queira respostas, no momento eu preciso ajudar o Liam. E, pela expressão de surpresa no rosto daquele homem, ele também não iria me fornecer muita informação. A menos que pudesse me explicar o porquê de ter me chamado de “Maya”, mas provavelmente me confundiu com alguma pessoa.

Notei que o sangue escorria do peito do Liam, mas ele estava em pé. Graças a Deus, não atingiu seu coração! Porém, com a voz falha, ele me encarou e falou:

— É real, Stella… o que os outros caçadores estavam afirmando. Eles estão juntos… mas como?

Seu próximo passo deve ter lhe causado dor, pois Liam gemeu e levou a mão sobre o ferimento! Sabemos que já ouvimos os boatos de que as duas espécies estariam juntas, mas isso não nos impede de ficar surpresos, pois parece que agora eles estão cientes do que estão fazendo, e isso nos intriga! Principalmente a mim.

— Não sei! Mas vamos descobrir. Temos que descobrir, pelo bem dos humanos, que ainda não sabem direito da existência deles.

Nos encaramos. Eu estou preocupada com isso, e tenho certeza de que Liam também. Não demorou muito e já estávamos próximos do carro. Com o Liam ferido, ainda estou atenta ao redor, para que nenhuma criatura possa nos pegar desprevenidos.

Neste momento, desejo que nenhum apareça, pois se aparecer terei que proteger o Liam e ainda me defender. Isso seria terrivelmente catastrófico.

Encostei Liam no carro com cuidado, abri a porta e o ajudei a se sentar. Abri sua jaqueta e terminei de rasgar sua camisa. Ele é bem sarado, mas meu olhar não se desviou das marcas de garras profundas cravadas em seu peito.

— Está muito feio, né?

Ele me perguntou, ainda com uma expressão de dor, ao perceber minha maldita expressão de surpresa! Tenho que aprender a disfarçar minhas afeições.

— Nada que você não aguente! — sorri ao tentar disfarçar.

Me virei e caminhei até o porta-malas do carro. Enquanto abria, tive o terrível pressentimento de que tinha alguém nos observando. Voltei minha atenção em volta, porém não vi ninguém. Respirei fundo ao voltar a procurar as ervas para a cura na bolsa ali dentro.

Encontrei o pote branco com uma mistura de ervas “meio que mágicas!”. A mistura é feita por nós, caçadores, e serve para acelerar a cura. Voltei até Liam enquanto abria o pote. Peguei um pouco da mistura gelada e, sorrindo, falei para ele:

— Vai doer um pouco!

— Ah! Porra, Stella… — Liam se encolheu e sua expressão piorou com a dor. Então ele me encarou.

— Calma aí, seu frangote… você disse que era forte. Aguenta que logo melhora!

Falei rindo. Para mim, esta é a melhor parte. Liam odeia sentir dor, então para ele, que é um caçador, isso é a morte! Gargalhei ao perceber que os olhos dele se encheram de lágrimas.

— Frangote? Eu enfrentei o lobo sozinho e você… o que estava fazendo que demorou uma década? — falou o bonito, para não ficar por baixo.

— Ah! Me desculpe, vossa realeza, se eu não tive tempo de te ajudar, porque estava apanhando de um vampiro estressado. — Revirei meus olhos. — E afinal, não demorei tanto assim, senão você estaria morto neste exato momento.

Entreguei o curativo, e uma brisa gelada passou por nós. Nos olhamos na hora. Acho melhor irmos agora. Enquanto ele passava o curativo sobre o ferimento, que já não estava mais sangrando, comecei a fechar o pote.

Essas ervas são muito boas, sempre usamos, porque temos que estar preparados para novos confrontos. Ferimentos que demoram dias para se curar nos deixariam impossibilitados de lutar, mas com isso não! Leva questão de horas ou segundos, dependendo do grau do ferimento.

— Você também precisa. Passa no seu rosto.

Saí dos meus pensamentos com a voz do Liam à minha frente. Sim, claro… com o impacto na árvore, um ferimento se formou na minha testa, sem contar os arranhões pelo meu corpo.

Fechei a porta do carro com ele dentro e sorri ao ver seu rosto surpreso.

— Depois! Agora tenho um lobisomem para tirar do meio do local.

— Você ficou maluca? — Liam falou totalmente sério.

— Liam, o vampiro já deve ter virado cinzas uma hora dessas, mas o lobisomem não! Tenho que terminar e recolher as coisas. Eu já volto!

— Você pirou, só pode! Vai voltar lá sozinha? — Liam tentou abrir a porta, mas eu a segurei.

— Liam, fica aí. Eu já volto, eu sei me cuidar.

Soltei a porta e ele deve ter ficado incrédulo ao me ver se afastando do carro e seguindo na direção de onde estávamos. Porém eu não tenho escolha. Não posso deixar as coisas jogadas pelo local, e muito menos um lobisomem decapitado.

Isso viraria manchete para o mundo todo, causando pânico!

Estou sozinha, mas atenta ao meu redor. Minhas adagas estão nas minhas mãos. O cenário é de terror: o vento balança os galhos das árvores, ouço estalos de coisas quebrando e os barulhos de alguns animais. Em outra vida, eu nunca estaria aqui.

Avistei a bolsa do Liam jogada no chão. Peguei e a pendurei no ombro. Retirei duas balas de acônito e coloquei elas na arma. Me aproximei do lobisomem, que realmente estava ali, disparei dois tiros no peito dele. Como ele já estava morto, em questão de segundos seu corpo e sua cabeça viraram cinzas, se misturando na brisa que passou. Confirmei que o vampiro também havia se dizimado.

Peguei minha espada e a coloquei no suporte da minha roupa, nas costas. Recolhi e guardei todas as outras coisas.

Porém, senti um sentimento de familiaridade novamente, e então me lembrei do homem que chamei de “Diogo”. Será esse o nome dele? E por qual motivo eu sei?

Seus olhos não me são estranhos!

Ao pensar nisso, um estalo na minha mente foi ouvido. É o mesmo… sim, o mesmo homem que me ajudou há onze anos. É ele, tenho certeza. Mas o que ele é? Está com a mesma aparência, não envelheceu nada! E por qual motivo ele está novamente onde eu, particularmente, estou correndo perigo?

Quem é Maya? E, melhor ainda… quem é Diogo?

Ouvi um barulho diferente, distante. Senti que estava sendo observada. Devagar, retirei minha espada e fiquei em alerta. Meu coração gelou, mas no meu campo de visão não vejo nada.

Que merda está acontecendo?

Abaixei a espada e, ao me virar, respirei aliviada. Mas notei que algo se mexeu próximo a mim. Tem uma figura perto da árvore! Não é um ancião, porque se fosse já teria me atacado, mas está escuro demais para eu ver o que é… ou quem é.

Se fosse Liam, ele já estaria se aproximando de mim.

Devagar, ainda com a espada na mão, caminhei lentamente até aquela figura sinistra. Porém, das sombras, avistei metade de um corpo aparecer e um rosto familiar. O brilho em seus olhos me chamou a atenção.

“Diogo!”

É ele, o tal Diogo.

Parei, assim como ele. Nenhum de nós se moveu. Ele ainda estava com metade do corpo em meio às sombras, porém seus olhos cintilavam. E, à medida que faziam isso, senti minha respiração começar a ficar desregulada. Tudo em mim grita dizendo que eu o conheço, mas minha cabeça insiste que não.

Um leve sorriso lindo se formou em seu rosto, o que me deixou atordoada. Senti que ele queria me dizer algo, mas, da mesma forma que apareceu, também sumiu nas sombras. Observei em volta e não o vi mais. Meu peito soltou todo o ar que nem eu mesma sabia que estava prendendo.

O que foi isso?

Com todas as coisas, voltei a caminhar para sair dali.

Meu Deus… quem é esse homem? E por que ele some na mesma frequência que aparece?

Tenho certeza de que vou ficar louca se não descobrir o que está acontecendo!

— Eu estava indo atrás de você, pensei que tinha morrido! — saí dos meus pensamentos ao me aproximar do carro e ver Liam encostado na porta, de braços cruzados.

Não tenho o que dizer neste momento. Meus sentimentos estão confusos. Eu tô extremamente confusa. Apenas passei por ele, guardando as coisas e entrando no carro.

— O que foi? Viu um fantasma? — Liam se abaixou na janela ao dizer, entrando no carro em seguida.

— Por quê?

— Você está branca feito papel! — ele me encarou com preocupação.

— Não foi nada. Estou bem, vamos.

Falei ao pegar a chave do carro com ele. Vou dirigir, já que ele ainda está ferido. Ele me entregou e eu dei partida no automóvel. Liam está desconfiado, mas não me pressiona. Apenas encosta a cabeça no banco.

Fiz uma manobra para virar o carro, para que pudéssemos retornar. Antes de deixar o local totalmente, observei o retrovisor e, assim que a estrada ficou para trás, do nada vi pelo retrovisor o rosto daquele homem. Senti minhas pernas ficarem bambas e minhas mãos trêmulas.

Com a surpresa, movi meu corpo para olhar o banco de trás. Não havia ninguém. Então olhei o retrovisor novamente e estava normal. Respirei fundo e voltei minha atenção para Liam. Ele estava me olhando, sem entender nada.

— O que foi, Stella?

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