Capítulo 2

A semana passou rápido demais para o meu gosto. Era o maldito dia que o baixinho voltaria aqui e ainda não tenho certeza para que. Isso ao mesmo tempo que me irrita, me deixa muito nervosa e ansiosa. Meu pai não fala nada! Absolutamente nada! Nem para me dizer o que ele vem fazer, se já está certo ou não essa merda que ele inventou. Que droga!

— Ele chegou — disse Maria.

Estava sentada no chão do estábulo. Não queria aparecer em casa, mas claro que eu não tinha opção.

— Eu tenho que ir agora?

— Seu pai disse para te chamar, querida.

— Diga que já vou.

Maria saiu dali e eu encostei na parede e suspirei profundamente. Queria tanto que minha vida fosse minha! Mas o que posso fazer contra isso? Se não dependesse dos meus pais, poderia sumir daqui.

Talvez seja uma boa ideia ir com esse cara. Ele mora na cidade grande e lá posso arrumar um trabalho, sei lá! Qualquer coisa que me dê liberdade e total controle da minha própria vida.

Levantei sem vontade e passei a mão na calça limpando a sujeira por ter sentado no chão. Segui lentamente até a casa e quando entrei, meu pai se aproximou e me levou até o homem baixinho. Ele sorriu para mim.

— Olá, Lara.

— Oi — respondi sem vontade.

— Seu pai estava me falando um pouco de você.

— Aposto que não foram elogios.

O homem riu e meu pai me lançou um olhar severo.

— Na verdade, estava falando sobre sua paixão por cavalos.

— Ah...

— Estava no estábulo? — Me olhou de cima para baixo. Olhei também e vi um pedaço de feno agarrado na calça.

— Sim. Eu passo o dia todo lá.

— É bom saber que gosta.

— É? Por quê?

— Tenho um Haras.

Fiquei em silêncio olhando o homem, que sorria largamente. Olhei meu pai e ele estava com cara de paisagem. Talvez essa notícia não tenha agradado ele.

— Já que meu pai adora guardar segredos de mim... — Não ousei olhar meu pai agora, pois sei que se pudesse, me matava com o olhar. — Posso perguntar o que vocês dois combinaram a meu respeito?

O baixinho olhou meu pai com a testa franzida.

— Não contou a ela?

— Não.

— Bom. Eu vim te buscar.

Desviei o olhar.

— Posso saber pra quê?

— Seu pai disse que está cuidando de seu futuro e quer que se case com alguém de confiança.

— Você acha isso normal?

— Lara! — meu pai repreendeu.

— Deixe a menina falar — disse o baixinho.

— Acha normal ele querer escolher isso pra mim nos tempos de hoje?

— Confesso que é um pouco arcaico isso, mas também necessário.

— Necessário?

— Sim. Tanto para sua família, quanto para a minha.

— O que isso quer dizer?

— Essa parte não é importante para você.

— Então qual é?

— Você está noiva.

— Contra vontade.

— Fique calma. Depois que tudo for resolvido, você pode se divorciar se quiser.

— É mesmo? E o que tem que ser resolvido?

— Já disse que isso não importa para você.

— Mas não entendo... Se posso me divorciar depois, que droga de futuro é esse?

— Lara! Fale direito! — meu pai brigou.

Dei de ombros e o baixinho riu.

— Eu explico para você depois.

— Posso levar a Teci?

— Está pedindo demais, Lara! — meu pai falou estressado.

— Eu não posso deixá-la aqui! Vai entrar em depressão! — falei nervosa.

— Ela é uma égua, não entra em depressão.

— E você é especialista agora? É veterinário? — perguntei furiosa. Meu pai começou o olhar intimidador e eu mordi a língua.

— Claro que pode levar a égua.

Olhei o homem com surpresa.

— Jura?

— É claro! Eu vi acontecer depressão em cavalos que eram apaixonados pelo dono. Se essa égua é assim tão importante para você, com certeza você é muito importante para ela.

— Eu agradeço! Não sei o que seria dela sem mim.

— Vou preparar tudo para levá-la. — Ele sorriu.

— Hoje?

O homem riu longamente.

— Não sabia que ia levar a égua. Seu pai não me disse que tinham essa afinidade. Mas assim que chegarmos, vou providenciar para que a busquem.

— Obrigada.

— Não precisa agradecer, menina.

Disse bem: menina. Ele deve ser uns quarenta anos mais velho do que eu! Será que só eu acho isso absurdamente errado?

— Arrume suas coisas, Lara.

— Tudo bem.

Segui para o meu quarto. Minha mãe e Maria estavam nele. Duas malas grandes estavam em cima da cama e elas arrumavam minhas coisas dentro delas.

— Alguma de vocês sabe para onde vou?

— Sr. Lorenzo tem uma casa na Itália.

Fiquei de boca aberta um longo momento. Elas não pararam de arrumar as coisas mesmo com minha cara de horror.

— O que?

— Você vai para a Itália, minha filha. Só não sei se vai morar lá ou passar uns dias.

— Mas eu não vou mais ver vocês? — perguntei chateada. — Espera! Como ele vai levar a Teci para lá?

— Ele é um homem rico. Vai dar um jeito.

Pelo menos ele vai levá-la. Isso que importa.

***

Os ajudantes ou empregados do Lorenzo levavam minhas coisas para o carro enquanto me despedia dos meus pais e de Maria.

— Se cuide, minha filha.

— Será que vou poder ver vocês?

— Sempre que quiser — respondeu Lorenzo.

— Não seja tão melodramática, Lara.

— Se você não tem coração, eu tenho! — respondi de mau humor. Meu pai ia iniciar uma discussão, mas minha mãe o impediu.

— Ela está de partida.

— Tudo bem. Tem razão.

— Sempre que puder, vou entrar em contato, mãe — falei ignorando meu pai.

— Vá com Deus, minha filha.

— Obrigada. Fique com ele.

— Vamos? — perguntou o baixinho.

Respirei fundo e segui o baixinho para fora da casa. Antes de entrar no carro, observei a casa e o estábulo. Todo o terreno por onde corria quando queria me sentir livre.

Será que terei um lugar parecido para fugir?

Meus pais e Maria estavam na varanda. As duas choravam e meu pai como sempre, indiferente. Entrei no carro, sentando no banco de trás. O baixinho sentou no banco da frente e o motorista começou a sair com o carro.

Continuei olhando para trás deixando a imagem de minha casa na mente.

Não sei o que será de mim nos próximos meses e mesmo tendo planos para me livrar disso, tenho medo que dê tudo errado. E ainda estou confusa quanto ao que ele disse sobre divórcio.

Será que vou poder me livrar disso em um futuro próximo?

Demoramos um pouco para chegar no aeroporto. Como eu disse, moro no fim do mundo e tudo é distante. Ainda bem que me despedi de Isabeli no dia anterior. Sei que não vou ver ela durante um tempo. Ou talvez nunca mais. Porém, a gente combinou de se falar pela internet.

— Chegamos.

Olhei para fora da janela do carro. Não era um lugar muito grande e principalmente não tinha cara de aeroporto. Só parecia ser uma pista de pouso.

Saí do carro e segui Lorenzo, o guarda-costas dele ficou encarregado de pegar as malas. Quando vi no que íamos voar, fiquei paralisada no mesmo lugar.

Era um jato particular! Meu Deus!

— Já voou alguma vez?

— Não.

— Vai gostar — disse sorrindo.

— Vamos para onde?

— Passar uns dias na Itália e depois voltamos.

— Você não mora lá?

— Não. Tenho muitas propriedades. Vamos para lá encontrar meu filho e voltamos em alguns dias.

— Filho? — perguntei engasgada.

Era só o que me faltava! Eu não sei lidar com criança! Elas estão sempre pentelhando e deixando as pessoas loucas! Não tenho paciência para isso!

Às vezes, os meus primos mais novos iam visitar a gente na fazenda e eles tratavam de fazer da minha vida um verdadeiro inferno. Mas eu também fazia a deles.

— Vamos. Temos um longo trajeto pela frente.

— Que ótimo — falei desanimada e ele sorriu.

Dormi a maior parte da viagem. Nos momentos que acordava, era por sonhos com crianças se pendurando no pescoço da Teci e eu enlouquecida atrás.

Eu nunca vou querer ter filhos!

— Vamos pousar agora.

— Até que enfim! — falei com as mãos para o ar. Lorenzo riu do meu drama.

Descemos do jato e entramos em um carro muito chique. Não entendo de marcas, até porque não ando de carro e sim a cavalo. Ficamos alguns minutos dentro do carro. Eu não aguento mais! Quero chegar logo! E não pense que estou ansiosa para conhecer o filho dele, ou para ver a casa que sei que deve ser enorme. Estou com pressa, pois quero dormir.

Sim, eu dormi a viagem toda, mas isso não quer dizer que ainda não esteja cansada.

O lugar que passávamos agora era muito bonito. O carro estava na estrada reta, parecia não ter fim. Ao lado, o gramado era verde e enorme. Lindo como nunca vi, nem nos terrenos da minha casa, ou ex-casa.

Via poucas casas, mas as que tinham eram muito bonitas. Pequenas e arrumadas.

Amei esse lugar.

O motorista entrou em uma rua de chão. Mesmo assim ainda era bonito o lugar. Ele parou na última casa, ou será que digo mansão? O lugar era enorme! A casa era perfeita e muito grande. Duas ou três vezes maior do que a que morava com meus pais. Uau!

— Chegamos. — Ofereceu a mão para me ajudar a sair do carro. Segurei a mão dele e continuei olhando o local. Era incrível!

Acho que vou gostar de passar uns dias aqui!

— Vamos conhecer meu filho agora.

Retiro o que disse.

Entramos na mansão e era tudo tão bem arrumado e bonito. A sala de estar era imensa, lareira, sofás chiques e uma tevê gigante.

Perto da lareira tinha um homem parado olhando a gente. Deve ser mais algum empregado do Lorenzo. Se bem que não parece usar uniforme ou andar como pinguim como o Marcos (o guarda-costas e motorista).

— Lara, esse é meu filho, Daniel. — Apontou para o homem parado ao lado da lareira.

Não consegui me manifestar. Estava chocada demais com a novidade. Meu Deus! Ele tem um filho mais velho do que eu! Que merda!

Ele é completamente diferente do pai. É alto, bem encorpado. Tem olhos verdes e cabelo loiro médio espetado. Deve ter enchido o cabelo de gel para ficar daquele jeito...

— Você está brincando, né pai?

Me recompus do transe e olhei o Lorenzo.

— Claro que não.

— Ela é uma menina!

Cruzei os braços e amarrei a cara.

— E você acha que eu queria estar aqui?

Os dois me olharam. Lorenzo com um meio sorriso e o tal do Daniel com uma sobrancelha levantada.

— Dá para me explicar isso? — Ele parecia muito aborrecido agora. Se ele não gosta da minha presença, tomara que me mande de volta!

— Eu também gostaria de explicações, afinal, você disse que ia dar e até agora não ouvi — falei olhando Lorenzo. Ele deu uma risadinha.

— Eu explico tudo.

— Ótimo! — falei junto com Daniel e a gente trocou olhares raivosos.

— Preciso me casar novamente para poder manter nossas propriedades.

O olhei com nojo e depois meus olhos correram para Daniel involuntariamente. Ele estava de braços cruzados olhando na minha direção. Fiquei séria no mesmo momento.

— E o que eu tenho com isso?

— Bem, como seu pai estava procurando um marido para você, encaixou perfeitamente.

— Então você é um pedófilo? — desafiei e vi o Daniel se aproximar de mim.

— Olha como fala com meu pai!

— Que eu me lembre, estou falando com ele e não com você.

— Parem com isso! — Lorenzo brigou. Ele afagou a barriga e passou a mão pelo cabelo, ou o resto que tinha. — É para vocês se darem bem e não entrarem em guerra!

— Me explique melhor então. Esse casamento é como um “negócio”?

— Podemos dizer que sim.

— Por isso disse que posso me divorciar depois?

— Isso.

— Graças a Deus!

Lorenzo caiu na gargalhada me assustando. Olhei Daniel e vi um vestígio de sorriso, mas ele disfarçou assim que meus olhos estavam sobre ele.

— Você é sempre assim?

— Assim como?

— Sem filtro.

— Falo o que quero?

— É.

— Sim.

— Ótimo! — disse irônico e olhou o pai. — Você não podia arrumar pelo menos alguém mais educado?

— Dani! — repreendeu.

— Olha quem fala! O poço de delicadeza! — falei irritada e Lorenzo riu.

— Vejo como isso vai ser fácil — falou com ironia.

— Muito — respondi no mesmo tom.

— Bom. Venha comigo. Vou te mostrar a casa.

— Ok.

Segui Lorenzo. Quando estávamos saindo da sala, olhei para trás. Daniel me encarava de braços cruzados. Sorri irônica e ele tentou, mas não conseguiu segurar o sorriso.

Lorenzo me mostrou todo o local, era muito grande! E muito bonito. O bom de ser grande é que não tenho que cruzar com o filho marrento e bonitão dele.

Que foi? Ele é irritante, mas não vou ser mentirosa. É lindo de morrer! Então não vamos ser falsos aqui.

— Aqui é o seu quarto.

Entrei e reparei tudo. Era duas vezes maior do que o meu e muito bem arrumado. A cama era de casal — coisa que a minha não era —, o armário era enorme e exagerado na minha opinião. E dentro dele tinha um banheiro.

Um banheiro só meu!

— Gostou?

— É muito bonito.

— Que bom. Sente e vamos conversar um pouco.

— Tudo bem. — Sentei na beirada da cama e ele sentou ao meu lado.

— Sei que essa situação não deve ser nada agradável para você.

— Isso não é um segredo.

Lorenzo riu com minha resposta.

— Eu sei. Mas veja bem, como é um "negócio" como você mesma disse, não precisamos ser marido e mulher de verdade. Você entende?

— Ainda bem! Essa era a parte que mais me preocupava.

— Não vou fazer isso com você, menina. Poderia me aproveitar da situação, mas não vou fazer isso.

— Obrigada.

Ele sorriu e várias rugas apareceram em seu rosto.

— Você pode ter sua vida normalmente, entendeu? Só não quero que seja vista com ninguém por aí.

— Como assim?

— Pode namorar se quiser. Não estou te prendendo, até porque isso não é bem um matrimônio, não para nós dois.

— Está dizendo que posso ficar com outras pessoas se eu quiser? — perguntei perplexa.

— Exatamente. Não vou te privar de viver sua juventude por um desejo estranho de seu pai.

— Estou começando a gostar de você, sabia?

A gargalhada foi alta e me fez rir junto.

— Tenho certeza de que vamos nos dar bem, menina Lara.

— Se você não mudar de ideia quanto ao que disse agora, também acho que vamos nos dar bem.

— Vou deixar você descansar agora. Se quiser pode dar uma volta pelo lugar, mas cuidado para não se perder!

— Obrigada.

Lorenzo saiu do quarto e eu continuei no mesmo lugar ainda anestesiada sobre o que ouvi.

Isso é muito esquisito!

***

No dia seguinte levantei com alguém batendo na porta. Abri e era uma mulher. Era baixinha como Lorenzo, porém pele morena e cabelos cacheados. Tinha um sorriso amigável no rosto.

— Bom dia, senhorita! Meu nome é Rosa e eu sou a cozinheira.

— Prazer, Rosa.

— Vamos descer para tomar café da manhã? Os patrões já estão sentados à mesa.

— Desço em dois minutos.

— Tudo bem.

Ela saiu dali e eu troquei de roupa. Segui até a sala de jantar e quando cheguei, os dois estavam sentados e a mesa estava lotada de comida. O que eu achei um exagero já que pelo visto só nós três que vamos comer.

— Bom dia, menina! Sente-se.

— Bom dia.

— Dani... — Lorenzo o olhou sugestivo. Ele revirou os olhos.

— Bom dia.

— E eu que sou a sem educação — resmunguei alto o suficiente para ele ouvir. Daniel me encarou com o rosto sério. É impressão minha ou ele está mais bonito hoje?

— Dormiu bem? — Lorenzo perguntou.

— Sim. Obrigada. Eu queria saber uma coisa...

— O que?

— Como vai buscar a Teci?

— O que é Teci? — Daniel perguntou e eu lancei um olhar de raiva a ele. Antes que pudesse dar uma resposta malcriada, Lorenzo respondeu:

— A égua dela.

— Tem uma égua?

— Algum problema com isso? — perguntei amarga.

— Daniel é apaixonado por cavalos.

Fiquei em silêncio olhando-o. Algo de bom tem que ter, não é mesmo?

— Aqui também tem muitos. Se você quiser montar, fique à vontade — disse Lorenzo. Sorri largamente e vi Daniel sorrir junto.

— E quanto a Teci?

— Não se preocupe. Assim que voltarmos para casa ela estará lá.

— Quando voltamos?

— Em cinco dias.

— Tudo isso? — Deixei os ombros caírem.

— Qual o problema?

— É que ela não fica bem longe de mim...

— Tem uma ligação forte com ela? — Daniel perguntou.

— Bem, eu salvei a vida dela quando era um potro e desde então ela só me deixa chegar perto.

Ele sorriu.

— Como foi isso?

— O que?

— Como salvou ela?

Olhei o Lorenzo. Ele sorriu e acenou com a cabeça incentivando a contar. Voltei a olhar Daniel e contei que achei ela na mata machucada e cuidei dela por dias.

— É uma história muito bonita.

Desviei o olhar.

— Ela deve estar sentindo minha falta... — resmunguei.

— Seus pais têm internet? — Daniel perguntou. Muda de assunto tão rápido...

— Ter tem, mas saber usar já são outros quinhentos. — Os dois riram. — Por que está perguntando isso?

— Poderíamos fazer vídeo chamada e você ver ela pela tela.

Fiquei em silêncio olhando o rosto dele. Parecia bem mais legal hoje do que ontem...

— É, mas eles não sabem mexer em nada.

Lorenzo pegou o celular dele.

— Pode se servir — disse Daniel enquanto o pai fazia uma ligação.

— Tomou chá de bondade ou o que? — perguntei desconfiada.

— Só estou tentando fazer com que isso dê certo.

— Sei... Se for do jeito que ele conversou comigo, eu também faço, mas se ele mudar de ideia, pode ter certeza que faço da vida de vocês um inferno.

Ele ficou em silêncio me encarando com os olhos cerrados.

— Combinou o que?

— Oi João! Como está? — A voz alta e escandalosa de Lorenzo fez com que olhássemos para ele. — Chegamos bem sim. Eu queria te pedir um favor se puder.

Bebi um pouco de suco e continuei olhando pra ele.

— Tem como você atender o celular em vídeo e mostrar a égua da Lara?

Engoli mais rápido e o olhei surpresa.

— Ótimo! Vou ligar de novo.

— Ele vai? — falei mais alto do que queria. Lorenzo me olhou confuso.

— Por que não iria?

— Ele odeia a Teci — falei franzindo a testa. — E não liga para o que eu acho. Ah claro! Mas liga para o que você acha. — Revirei os olhos e ele riu.

Lorenzo esperou uns minutos e então fez a vídeo chamada. Estava ansiosa olhando a tela do celular dele.

— Mostre ela, por favor — falou quando meu pai cobriu a tela com sua enorme cara. Ele mexeu com o celular e então a Teci apareceu na pequena tela. Sorri largamente.

— Teci... — Assim que falei ela levantou as orelhas e começou a bufar. — Você está bem, garota? — Ela balançou a cabeça e relinchou alto. — Não se preocupe que eu não abandonei você, tá bom?

Ela balançava a cabeça freneticamente e bufava, estava procurando de onde vinha a voz, mas eu não estava lá. Ela sempre sabe quando estou. Meu pai virou o celular para ele de novo e eu suspirei.

— Obrigado João. Vou enviar alguém para buscá-la amanhã mesmo.

— Tudo bem.

Eles desligaram e eu fiquei em silêncio encarando a jarra de suco em cima da mesa.

— Ela gosta mesmo de você.

Olhei para o lado. Nem reparei que Daniel ficou bisbilhotando a minha ligação.

— É.

— Não fica desanimada. Vou te mostrar os cavalos que temos aqui.

Sorri e ele também.

Capítulo 3

Depois de comer, segui o Daniel para o estábulo. Esse lugar é simplesmente maravilhoso! O estábulo é enorme! E os cavalos são muito bem cuidados. Mais um ponto para o bonitão sem educação.

Ele me levou até um cavalo todo preto. Sorri largamente, era lindo demais! O pelo brilhava de um jeito de dar inveja. Tem mais brilho do que o meu cabelo.

— Esse é o Cometa. Ele é como a Teci.

— Como assim?

— Tem uma ligação comigo.

— E alguém tem ligação com você? — perguntei sarcástica e ele revirou os olhos.

Me aproximei do cavalo e levantei a mão para acariciá-lo.

— Espera!

— O que? — perguntei sem tirar a mão.

— Ele não gosta de... — Cometa cheirou minha mão e chegou o focinho para frente para que eu acariciasse. — Ninguém...

Afaguei o focinho dele lentamente. Daniel tinha a boca aberta me olhando.

— Parece que viu um fantasma.

— A sensação é parecida.

— Eu não estou morta!

— Mas ele poderia fazer alguma coisa com você... — Parou de falar e ficou me encarando com a testa franzida.

— O que? — perguntei nervosa e tirei a mão de Cometa. Ele relinchou.

— Nada.

— Tem mais algum para eu poder ver?

— Temos muitos.

— Você mora aqui?

— Não.

— Se você disse que ele é seu... Trouxe ele pra cá para ficar com você?

— Sim.

— Nossa.

Cometa se mexeu e Daniel se aproximou de mim com pressa e segurou meu braço fortemente. Logo ele relaxou. Cometa cheirou meu cabelo me fazendo rir. Isso sempre faz cócegas.

— Você está muito nervoso. Sabia que os cavalos sentem isso?

— Sim, mas ele...

— Ele gostou de mim. Pode morrer de ciúmes agora!

Daniel riu quando falei isso e eu sorri.

— É a primeira.

— Segunda, ele já gosta de você. Não dá para entender isso, mas tudo bem.

— Você é implicante mesmo hein?

— Ainda não viu nada — falei sorrindo e ele sorriu. Sorrindo é mais bonito ainda... Para com isso, Lara! Que droga! Foco no cavalo!

— Vou te mostrar o resto.

— Tudo bem.

Segui Daniel e ele mostrou os outros cavalos e o lugar onde eles passeiam e pastam. Paramos e ficamos observando o enorme lugar. Subi na cerca e sentei para observar melhor. Senti que ele me encarava e olhei para o lado. Tinha uma sobrancelha levantada.

— O que? Que droga! Por que fica me encarando tanto?

— Não é nada demais. — Deu de ombros.

— E o que é então?

— Você parece bem mais à vontade aqui fora.

— E estou mesmo — falei olhando o horizonte.

Daniel subiu na cerca para minha surpresa e sentou ao meu lado.

— Eu também fico.

— Hum...

Ficamos em silêncio olhando o lugar. Ele é estranho... Ontem parecia ser o cara mais chato do universo e agora está tão legal. Dizem que a primeira impressão é a que fica, não é? Por isso vou continuar implicando com ele.

— Posso montar o Cometa?

— De jeito nenhum!

— Por quê?

— Você pode se machucar. Ele pode até ter sido simpático com você ali dentro, mas aqui pode te derrubar.

— Mas ele gostou de mim.

— Não.

— Você é um chato! — resmunguei.

— Tem outros cavalos lá dentro. É só escolher um e pode montar à vontade.

— Por que você não monta ele então?

— Pra que? — Ele me olhou desconfiado.

— Quero ver se vocês têm sintonia.

— É claro que sim.

— Então mostra — desafiei.

Ele ficou me olhando em silêncio um longo momento. Senti vontade de desviar o olhar e não sei o motivo, mas me segurei e retribuí o olhar.

— Tudo bem. — Desceu da cerca e seguiu para onde o Cometa estava.

— Esperarei aqui.

Escutei uma leve risada e ele saiu de perto. Continuei olhando o horizonte enquanto ele não aparecia.

Um tempo depois ele apareceu puxando o Cometa. Fiquei observando ele fazer carinho na cara do cavalo e depois subir com uma maestria incrível. Eles combinam muito bem. Cometa é um cavalo lindo e Daniel... Bem, ele é muito bonito também e os dois juntos ficaram perfeitos.

Cometa começou a correr pelo cercado e eu sorri quando vi Daniel me olhando. Ele sabe mesmo o que faz. Mas é muito exibido!

Quando cansou de correr, ele tirou a sela de Cometa e o deixou solto pastando. Logo sentou ao meu lado de novo.

— E aí, o que achou?

— São uma dupla incrível.

Ele sorriu.

— Você não quer montar?

— Você não quer me emprestar seu cavalo — falei carrancuda.

— Eu não vou deixar você fazer isso! Ele pode te machucar.

— Você não quer aceitar que ele gosta de mim, isso sim. Está com ciúmes porque ele nunca me viu na vida e me adorou

Daniel riu.

— Pense o que quiser. Eu não quero ter que te levar a hospital nenhum depois dele te jogar no chão.

Enquanto a gente discutia, nem vimos que o Cometa se aproximou. Só notamos quando ele já estava ao meu lado. Daniel segurou meu braço de novo me apertando com força. Não me mexi e nem fiquei com medo. Ele está exagerando! Esse cavalo é manso!

Cometa se aproximou de mim e cheirou meu cabelo de novo. Soltei uma risada e Daniel afrouxou o aperto. Cometa cheirou minha mão e passou o focinho pedindo carinho. Acariciei seu focinho e ele mexeu as orelhas para frente e para trás.

— Definitivamente eu não te entendo.

— Eu? — perguntei confusa.

— Ele. — Apontou para o cavalo.

— O que tem?

— Muitas pessoas dizem que o Cometa é um cavalo indomesticado.

— Jura? — falei olhando o cavalo todo carinhoso comigo.

— Sim. Só eu consigo montá-lo.

— Se você deixasse, eu também conseguiria.

— Quer parar de falar disso? Eu não vou deixar e acabou! — falou irritado.

— Chato — resmunguei e ele respirou fundo.

Cometa cheirou meu cabelo de novo e eu me encolhi por conta da cosquinha. Ele se afastou e balançou a cabeça. Arregalei os olhos quando Daniel se aproximou e cheirou meu cabelo também.

— O que pensa que está fazendo? — falei histérica.

— Estou vendo o que tanto ele te cheira...

— É cavalo agora? — perguntei cínica.

— Não, mas deve ter um cheiro bom que atrai ele a todo momento.

Olhei para ele chocada e ele sorriu. Desviei o olhar rapidamente.

Por que me arrepiei inteira com a proximidade dele?

***

Estávamos sentados à mesa jantando. Não me atrevi a abrir a boca para falar absolutamente nada! Não sei o que foi aquela cena com Cometa e Daniel lá no estábulo e não gosto de pensar nisso...

— Está tudo bem? — perguntou Lorenzo.

— Sim.

— Parece chateada.

— Só estou cansada.

— Certo. Quero que leve ela para passear amanhã Daniel.

— Por quê?

— Vai ficar aqui presa? Não, ela tem que sair.

— E por que eu tenho que levar? — perguntou carrancudo.

— Assim você sai também.

— Se ele não quiser me levar, você pode deixar Marcos ir comigo — falei com um largo sorriso. Lorenzo riu.

— Pode ser.

Fiz sinal de vitória com a mão e Daniel franziu a testa.

— Não quer que eu vá?

— Você já deixou claro que não quer ir.

— E se eu mudar de ideia?

— Você que sabe, mas o Marcos vai me levar de qualquer forma.

— De onde conhece ele?

— Do dia em que me ajudou com minhas malas.

— Ontem — disse com as sobrancelhas levantadas.

— O que tem de mau nisso?

— É filho, o que tem?

Ficamos em silêncio esperando a resposta dele. Percebi que ficou incomodado com o nosso olhar.

— Não tem nada — respondeu olhando sua comida.

— Vou falar com Marcos e ele te leva onde você quiser.

— Onde eu quiser é vago, não? Eu não conheço nada aqui.

Daniel deu uma risada e eu o olhei carrancuda.

— Conheço um lugar muito bom — disse sorrindo.

Não sei porque, mas não gostei desse sorriso...

— Ótimo! Combinado então! Marcos vai levar vocês dois nesse lugar que você conhece, filho.

Suspirei e continuei comendo para não falar besteira.

Depois do jantar cada um foi para o seu quarto. Eu não podia me sentir melhor por Lorenzo me deixar livre e ainda oferecer para sair. E principalmente me deixar dormir em um quarto sem a presença dele. Mas também é maravilhoso não ter obrigações com ele. Principalmente conjugais...

Me tremo inteira só de pensar nisso.

Imagina se ele resolve se aproveitar disso? Ainda não casamos e eu tenho medo de que depois de assinado, ele queira que seja sua mulher sim.

Como se já não bastasse ser obrigada a casar, se for obrigada a perder a virgindade com esse homem, não vai ser agradável.

Aí terei que entrar em ação com meu plano de infernizar todo mundo.

***

Acordei com alguém batendo na porta. Levantei e abri a porta. Em seguida, arregalei os olhos ao ver Daniel ali. Ele sorriu debochado me olhando.

Merda! Devo estar igual a uma bruxa!

— Resolvi deixar você montá-lo.

— Jura? — Sorri largamente e o sorriso dele aumentou.

— Sim, mas eu vou ficar do lado.

Revirei os olhos.

— Quer colocar rodinhas também? — perguntei cínica e ele soltou uma risada.

— Você é terrível, garota!

Desviei o olhar.

— Posso trocar de roupa ou quer que eu vá descabelada mesmo?

— Se você quiser espantá-lo, pode ir assim mesmo.

O encarei com fúria.

— Vou tomar café da manhã. Te espero lá embaixo.

— Tá. — Fechei a porta na cara dele e respirei fundo. Consegui ouvir sua risada e logo ficou silêncio do lado de fora.

Troquei de roupa e prendi meu cabelo em um rabo de cavalo. Ele estava mesmo rebelde hoje.

Assim que cheguei à sala de jantar, vi que só Daniel estava sentado.

— Cadê seu pai?

— Teve que sair cedo hoje.

— Hum...

Sentei na cadeira em frente a dele e peguei o que ia comer.

Ficamos em silêncio um bom tempo. Eu não sei o que conversar com ele além de cavalos. Sei que é a paixão dele, mas não existe só isso na vida, não é?

— Esse lugar que vai me levar hoje... Pode entrar menor de idade?

— Acha que vou te levar aonde? Uma boate ou coisa assim? — Daniel sorriu cínico.

— Não sei. Por isso estou perguntando — respondi azeda.

— Pode ficar tranquila. É um lugar pra gente da sua idade.

— E o que diabos isso significa?

— É uma pequena lanchonete de um amigo meu.

— Hum...

— Eles são do Brasil. Se mudaram há pouco tempo.

— Legal.

— Lá costuma ter música ao vivo, mas hoje à noite é do karaokê.

— Karaokê?

— Sim.

— Você canta? — perguntei rindo.

— Eu não. Geralmente ficamos rindo das pessoas que sobem naquele palco.

— Que maldade! — resmunguei e ele sorriu.

— Mas eles sobem lá para fazer a gente rir. Ninguém canta bem.

— Sempre tem alguém que tem voz boa. — Dei de ombros.

— Eu nunca vi ali.

— Não é possível.

— Vamos ver se hoje tem alguém.

— Claro. — Sorri.

Terminamos o café da manhã e fomos para o estábulo. Daniel preparou o Cometa e depois me fez colocar todos os equipamentos de proteção. Estava com cara de tédio enquanto ele pegava um capacete para mim.

— Pronto.

— Eu não preciso disso!

Ele revirou os olhos e se aproximou de mim. Logo colocou aquilo na minha cabeça. Olhei-o emburrada e ele prendeu aquela porcaria em meu queixo. Senti seu dedo em minha bochecha e pisquei confusa.

— Se ele derrubar você, vai me agradecer por ter isso.

— Se ele me derrubar, cairei de bunda no chão.

— Meu Deus do céu! Deixa de ser teimosa! Vou acabar mudando de ideia! — falou irritado.

— Ok. Podemos começar?

Ele conduziu o Cometa para o centro do local e eu fui junto.

— Muito bem. Vá com calma.

— Pra sua informação eu monto em cavalos desde que tinha seis anos de idade. Então eu sei como subir!

— Então vai lá, senhorita sabe tudo — falou, cínico. Ele estava em frente a Cometa e segurava as rédeas dele.

Segurei na sela e coloquei o pé esquerdo no estribo. Dei um leve impulso no chão e passei a outra perna por cima dele. Logo estava sentada e olhava Daniel com as sobrancelhas levantadas. Ele tentava segurar o sorriso.

— Muito bem.

— Eu disse que sei o que fazer.

— Ok. Mas isso não quer dizer que ele vá te aceitar.

— Então vamos logo com isso.

— Tá.

Daniel foi puxando o Cometa pelo lugar. Estava entediada em cima dele. Pra que andar tão devagar? Me sinto uma garotinha de quatro anos, que está andando pela primeira vez em um cavalo.

— Ele não parece me negar.

— É, mas é melhor não arriscar. Vamos aos poucos.

Depois de mais algumas voltas, ele parou e falou para eu descer. Fiz isso facilmente e logo tirei aquela droga da minha cabeça. Me senti livre na mesma hora.

Acho que sei como os cavalos se sentem com a sela...

Sentamos na grama e ficamos olhando o Cometa correr. Até ele devia estar entediado com aquela falta de velocidade que estávamos antes.

— Até que você leva jeito mesmo.

— Até que? — perguntei indignada. — Você nunca me viu montar um cavalo para sair pensando coisas de mim!

— É, mas...

— Mas nada! Você não pode julgar as pessoas desse jeito — falei irritada.

— Tá bom, raivinha — disse com as mãos para o ar. — Parei de pensar qualquer coisa de você.

— Raivinha? Ah...quer saber? Vou calar sua boca! — Levantei furiosa e segui para o estábulo sem olhar para trás.

Lá dentro encontrei um cavalo marrom e me aproximei. Fiz amizade com ele rapidamente e em pouco tempo estava selado. Conduzi ele para fora e Daniel sorriu ao me ver. Ele continuou sentado no gramado.

Subi no cavalo e suspirei. Sentia falta da Teci...

Comecei a andar com ele lentamente pelo local e olhei o Daniel. Me olhava com um sorrisinho cínico no rosto. Devia estar pensando que era aquela velocidade que eu costumava andar.

Sorri debochada e sacudi as rédeas do cavalo para ele acelerar. O sorriso dele diminuiu e eu comecei a correr com o cavalo.

Aquela sensação de liberdade de novo. Eu amo isso!

Cometa começou a correr atrás de mim relinchando e sacudindo a cabeça. Daniel levantou depressa e ficou olhando com cara de pavor. Tive que rir da cara dele. Ele é muito medroso!

Corri por alguns minutos e depois fiz o cavalo desacelerar. Parei em frente a Daniel, que agora estava com cara de poucos amigos.

O que eu fiz?

Daniel se aproximou feroz e me puxou de cima do cavalo sem delicadeza nenhuma. Segurei os braços dele quando me puxou, foi tão bruto que achei que ia me esborrachar no chão.

Ele me colocou em pé e ficou me encarando de um jeito assustador.

— Comeu algo azedo?

Ele ficou mais sério ainda quando falei isso.

— Você ficou maluca? — falou alto.

— Por quê?

— Poderia ter se machucado feio! Cometa ficou agitado!

— Ele só estava curtindo a liberdade comigo! O que tem de mau nisso?

— Liberdade?

— Quando o cavalo corre, ele se sente livre. Ele fica feliz. Eu também, mas no momento você estragou toda a minha felicidade! — falei carrancuda.

— Você deve ter um parafuso a menos...

— Melhor voltar pra casa.

— Já está quase na hora. Você ainda quer sair?

Fiquei pensativa e olhei o rosto dele. Fazia um olhar tão... Gatinho do Shrek. Que mudança de humor repentina...

— Hum...

— Vamos?

Respirei fundo. Se não fosse esse olhar, eu diria não.

— Tá bom.

Ele sorriu. Às vezes parece um garoto de dezoito anos. Franzi a testa.

— Quantos anos você tem?

— Por que essa pergunta agora?

— Não posso saber?

— Tenho vinte e quatro.

— Só?

— Achou que eu era mais velho?

— Na verdade, sim.

— E você, tem quinze?

— Eu não pareço ter quinze anos! — Fiz careta.

— Às vezes, parece.

— E você parece ter noventa! — falei irritada.

— Por que? — Franziu a testa.

— Porque tem momentos que parece um velho resmungão!

Daniel caiu na gargalhada e eu resmunguei contrariada.

— Vai querer ir comigo ou não?

— Sim.

— Então, vamos.

Seguimos de volta para a mansão e cada um foi para o seu quarto. E agora eis o dilema: Com que roupa eu vou?

Ele disse que é uma lanchonete. Ah! Pode ser qualquer coisa. Fui até a minha mala e procurei algo. Que foi? Eu não vou desfazer a mala se vamos embora daqui uns dias.

Encontrei um vestido simples e fiquei encarando-o. Que dúvida... Parei de pensar em roupa e segui até o banheiro. Tomei um banho demorado.

Amo água!

Então depois do banho coloquei aquele vestido mesmo.

Era de cor azul e bem simples. Tinha alça fina e era acima do joelho. Tenho que lembrar de não sentar igual moleque...

Penteei meu cabelo agora molhado e não rebelde. Coloquei um cordão simples que ganhei de presente da minha mãe e os brincos que são o conjunto dele. Está ótimo! Eu não gosto de maquiagem, então estou pronta.

Alguém bateu na porta e eu abri logo em seguida.

Ele estava maravilhoso! Usava uma camisa branca com três botões abertos e calça jeans escura. O cabelo bagunçado como se ele tivesse saído do banho e esquecido de arrumar, mas estava lindo. Se bem que qualquer coisa nele fica bom...

Ele me olhou de cima para baixo e me senti estranha por isso.

— Está pronta?

— Sim.

— Vamos então. Marcos vai deixar a gente lá.

— Tá bom.

Ele fez um movimento com a mão para que eu fosse na frente. Passei por ele e respirei fundo. Estava com um perfume delicioso.

Chega! Que droga! O que está acontecendo comigo? Nunca me interessei por ninguém. Acho uma perda de tempo relacionamentos. Por isso meu pai deve ter tido essa ideia brilhante de me casar. Percebeu que ninguém era bom o suficiente para mim, mas cara... Eu tenho dezessete anos! Tenho uma vida inteira pela frente! Pelo amor de Deus!

Entrei no carro e Daniel sentou ao meu lado no banco de trás. Achei que ele ia na frente... Desviei o olhar dele. Não sei porquê, mas estou me sentindo desconfortável agora. Talvez seja pelo braço dele roçando levemente o meu. Engoli em seco. Ele não pode perceber meu estado!

— Então, é muito longe? — Puxei assunto para ele não reparar no meu desespero.

— Não muito. Em poucos minutos estaremos lá.

— E seu pai? Não vi ele o dia todo.

— Ele deve chegar mais tarde.

— Entendi.

O maldito silêncio voltou junto com a atmosfera tensa. Será que já está perto? Vi Daniel colocar as mãos entre as pernas e apertar com certa força. Será que ele está sentindo o mesmo que eu? Ou só é um tique nervoso dele?

Não tenho como saber e nem vou perguntar.

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