Capítulo 2

Acordo com o celular tocando. Sem abrir os olhos, começo a procurá-lo no criado mudo e acabo derrubando algo no chão.

- Que droga! - resmungo, abrindo os olhos e pegando o celular. - Alô?

- Oi, filha! Me desculpe ligar assim, mas já estamos indo embora para casa. - Assim que ela fala, meu sono desaparece imediatamente.

- Oi, mamãe! Por que só me avisa agora?

- É que desembarcamos antes do previsto, então chegaremos umas 10h30 em casa. Estevam está comigo e tenho algo para te contar. - Suspiro, já pensando que lá vem mais uma novidade bombástica da minha mãe. - Quero almoçar com todos, então ligue para a Kim e peça para ela trazer a nossa princesinha. Estou com muitas saudades de todos vocês... Ah, e não se esqueça do Adam.

- Ok, mamãe, aviso todo mundo assim que amanhecer.

- Tudo bem. Até daqui a pouco, filha.

- Até, mamãe. Cuidado no caminho.

- Pode deixar.

Ela desliga, e eu aproveito para mandar mensagens para a Kim e para o Adam, avisando que mamãe está voltando e que quer todos aqui para o almoço. Coloco o celular no criado-mudo e me aconchego em meio aos travesseiros.

•••••♥••••• 

Há um barulho insistente que não me deixa dormir. Viro-me para o outro lado, colocando um travesseiro sobre a cabeça para abafar o ruído, mas o som continua insistente.

- Eu só quero dormir! - reclamo, sentando-me na cama enquanto a campainha toca mais uma vez.

Levanto-me apressada, pego o robe e o visto. Caminho até a porta com vontade de matar alguém, e assim que a abro, vejo Kim e Adam sorrindo. No entanto, ao olharem para a minha cara, os sorrisos desaparecem. Adam levanta Natálie na frente do rosto, parecendo a cena do filme O Rei Leão, quando Rafiki ergue Simba no penhasco. Ela me olha sorrindo, e minha carranca se desfaz ao ver aquele sorriso de dois dentinhos.

- Didi! - ela grita, balançando as perninhas e esticando os bracinhos.

- Oi, amor da dinda! - digo, pegando-a dos braços do Adam. Ela me abraça apertado. - Que saudade de você, meu amor.

- Sade, Didi! - diz, sorrindo, e me dá um beijo de boca aberta, deixando meu rosto todo babado.

Caminho com ela no colo até o sofá e me sento, fazendo carinho em sua barriguinha.

- Daqui a pouco sua mãe está chegando - diz Kim, e eu arregalo os olhos.

- O quê?

- Você mandou mensagem às 5h da manhã dizendo que sua mãe estava voltando, então viemos.

- Mas... achei que fosse um sonho.

- Amor, você precisa pegar mais leve no trabalho. Não pode se sobrecarregar assim - Adam diz. Olho para ele e vejo sua expressão séria. Sei que estou em falta. Não nos vemos há alguns dias porque estou atolada de trabalho e ele, de reuniões.

- Eu sei. Vou resolver isso, só preciso ajeitar as coisas primeiro. Estamos recebendo muitos pedidos, o café está bombando. Temos que abrir mais cedo e estamos fechando bem depois do horário. - Coloco Nate no colo da Kim e me levanto do sofá. - Vou tomar um banho e começar a preparar o almoço.

Caminho para o meu quarto e entro no banheiro.

•••••♥••••• 

Assim que saio, vejo Adam sentado na cama, de cabeça baixa. O quarto está arrumado e até mesmo uma roupa foi escolhida e estendida para mim.

- Não precisa cozinhar, pedi para entregarem o almoço. Ah, sua mãe me mandou uma mensagem dizendo que o voo dela atrasou. Seu celular está descarregado? - Adam pergunta.

Caminho até meu celular, vejo que está desligado e o coloco para carregar.

- Me desculpe, Adam. Sei que está chateado comigo por não ter tempo, mas vou te recompensar.

- Como? - ele diz, levantando a cabeça.

- Hum! - murmuro, me aproximando dele. Sento-me ao seu lado e lhe dou um beijo. Em seguida, faço um carinho em seu rosto e sorrio. - Vou pensar em como te recompensar. Obrigada por ser esse namorado maravilhoso.

Ele sorri e me beija novamente.

- Adam! - Kim grita do corredor e eu me afasto. Ele se levanta com uma expressão de desespero.

- É o meu dia de trocar a fralda da Nate - ele diz, olhando para o teto e pressionando o polegar contra a testa. - Preciso me preparar... Talvez de um psicólogo também. - Ele fala, saindo do quarto.

- Boa sorte! - grito, e ele aparece novamente na porta.

- Vou precisar - responde, antes de desaparecer no corredor.

Levanto-me, pego minha roupa e vou para o closet me arrumar.

•••••♥••••• 

Minha mãe finalmente chegou, e foi uma alegria só. Ela está tão linda e radiante! Nem parece aquela mulher que vivia trancada em casa, reclamando de tudo e sempre de cara fechada.

O Estevam, por sua vez, é tão simpático! Um senhor bonito, carinhoso e extremamente cuidadoso com ela.

- Lunna, temos uma notícia para te dar - minha mãe diz, olhando para Estevam, que sorri e segura sua mão.

- Eu gostaria de pedir a mão da sua mãe em casamento - Estevam anuncia, e eu sorrio. - Prometo cuidar dela, estar sempre ao lado dela e amá-la com todo o meu coração.

- Que lindo! - Kim exclama.

- Então, Lunna, você me concede a mão da sua mãe? - ele pergunta.

- Sim, claro! Confio que você vai cuidar dela e desejo, do fundo do meu coração, que sejam muito felizes.

- Obrigada, minha filha - minha mãe diz, sorrindo emocionada.

- Essa era a notícia que tinham para me contar? É maravilhosa!

- Sim, mas... - ela pausa e respira fundo. - Queremos comunicar que, após casarmos, vou me mudar com Estevam para Málaga.

- Mas... mamãe! - digo, segurando sua mão. - Por que tão longe? Não quero ficar sozinha.

- Você não vai ficar sozinha, meu amor. Tem o Adam, a Kim, os pais deles... E a Nate! Todos estão ao seu lado, e eu também, mesmo que seja a algumas horas de distância. - Ela sorri, tentando me tranquilizar, e eu retribuo o sorriso.

Seria egoísmo da minha parte ficar triste ou não aceitar que ela viva a vida dela. Todos têm o direito de serem felizes, e minha mãe, mais do que ninguém, merece isso.

- Quero que seja feliz, mamãe, muito feliz!

- E eu quero que você também seja, meu amor. Então, se permita ser.

- E eu estou - digo, lançando um olhar para Adam, que está com a Nate no colo. Ela se lambuza inteira com o glacê de um cupcake, arrancando risadas de todos.

Passamos a tarde conversando e vendo as fotos da viagem da minha mãe. Ela conta, animada, como foi conhecer tantos países. Seu rosto se ilumina a cada detalhe que descreve, e fico tão feliz por vê-la assim, cheia de vida e descobertas.

Capítulo 3

Estou no hospital, atendendo meu último paciente, quando o celular toca. Peço licença, olho para o visor e vejo ser ela. O que será que Yasmim quer? Ela insiste mais uma vez, mas desligo o aparelho.

- Me desculpe, senhora Beey. Só precisa tomar esses remédios e cuidar da pressão. Qualquer coisa, volte. É importante cuidar bem desse coração.

- Obrigada, Dr. Green - ela responde, se levantando. Entrego-lhe a receita com os medicamentos, e ela se despede, saindo do consultório.

Desligo o computador, arrumo minhas coisas e pego minha pasta. Assim que ligo o celular novamente, ele toca de imediato.

- Oi! Yasmim, o que você quer?

- Precisamos conversar.

- Sobre o quê?

- Adam e Lunna - ela diz, e meu coração dispara, mas não é de saudade.

- O que você tem para falar sobre eles, eu não quero ouvir.

- Ah, você vai querer ouvir sim! Estou te esperando no estacionamento - ela diz e desliga.

Respiro profundamente, fecho os olhos por um instante e saio do consultório. Despeço-me de alguns colegas no caminho e sigo para o estacionamento.

•••••♥••••• 

Yasmim Frazer.

Ando de um lado para o outro, impaciente. Como ele pode ignorar as minhas ligações? Por tanto tempo, ele correu atrás de mim, mas, quando descobriu quem eu realmente era, desistiu de tudo o que havia entre nós.

Eu realmente me apaixonei por Romolo. Tudo o que Lunna dizia sobre o relacionamento deles era verdade. Aquilo me despertou uma inveja que eu não sabia ser capaz de sentir. Quando ouvi sobre como tudo começou entre eles, sobre o amor deles, eu quis ter aquilo para mim.

Aproveitei-me da fragilidade no relacionamento deles e dos sonhos que Lunna compartilhava comigo. Só precisava de tempo para incentivá-la a acreditar que o meu plano era o certo. Enquanto isso, seduzia Romolo a cada ida à casa dela. Quantas vezes ela estava trabalhando, e eu ia até lá apenas para flertar com ele! Logo ele não resistiu, e eu também não.

Tudo entre nós era magnífico, e ainda mais excitante por ser proibido. Nosso envolvimento tornou-se intenso a ponto de nada mais importar. Foi assim até Lunna descobrir. Apesar de me afeiçoar a ela, meu verdadeiro objetivo era ser desejada por ele - e eu consegui.

Quando percebi estar apaixonada por ele, quis fugir. Mas ele veio atrás de mim, dizendo que também havia se apaixonado. Que nenhuma outra era igual a mim, que eu era sua preferida. Então, me entreguei por completo.

Agora, sinto-me dividida entre os arrependimentos e os que não quero aceitar. Arrependo-me por ter me deixado levar sem medir as consequências. E me arrependo ainda mais porque, quando ele descobriu quem eu era de verdade, me rejeitou. A dor da rejeição foi devastadora. Passei muito tempo mal até que conheci Phillips, e minha vida mudou drasticamente.

Vejo Romolo se aproximando do carro e sorrio. Ele para de caminhar, e sei que ainda mexo com ele.

•••••♥••••• 

Romolo Green.

Lá está ela, andando de um lado para o outro. Assim que me vê, para de andar e sorri. É um sorriso lindo, sedutor. Ela ainda mexe comigo, mas sei que Yasmim nunca será para mim.

Volto a caminhar, e, assim que me aproximo, ela praticamente se joga nos meus braços. Afasta-se sorrindo e deposita um beijo ao lado da minha boca. Por alguns instantes, fico sem reação, mas volto a mim e a afasto com cuidado.

- O que você quer, Yasmim?

- Nossa! Para quê tanta agressividade? Custa muito me tratar decentemente? Sou um ser humano, mereço respeito. Então, que tal começar de novo? - ela diz, cruzando os braços e semi-cerrando os olhos.

Mas seu semblante logo muda, e ela acaba rindo. Me pego fazendo o mesmo. Havia me esquecido de como esse som era.

- Ok, ok! Como vai à vida, senhorita Frazer? - digo, com um tom brincalhão. Ela sorri e, por um instante, tudo parece voltar no tempo.

- Muito bem, obrigada por perguntar, senhor Green - diz Yasmim, com uma ênfase sensual que me faz respirar fundo para manter o controle.

- Então, o que você tem para me dizer? Estou cansado e quero ir para casa.

- Ótimo. Vamos, porque o assunto vai te deixar um pouco irritado. Melhor conversarmos em um lugar onde possamos relaxar - responde, aproximando-se para pegar a chave do meu carro no bolso da minha maleta.

Reviro os olhos, fecho o bolso e ela me devolve a chave assim que o destrava antes de entrar no carro, ocupando o banco do passageiro como se já fosse dona do lugar. Caminho até o lado do motorista, coloco minha maleta no banco de trás e logo estamos a caminho. O silêncio entre nós é tão denso quanto o passado que carregamos.

•••••♥••••• 

Assim que chegamos à minha casa, abro a porta e entro. Sem pensar muito, largo minha maleta no sofá e começo a me livrar do paletó e da gravata, tentando aliviar a tensão acumulada do dia e da presença dela.

- Se quiser, pode tomar um banho. Vou preparar algo para você comer e depois conversamos - sugere, com uma familiaridade que me incomoda.

- Ok - murmuro, pegando minhas coisas e seguindo para o quarto.

No closet, jogo minha maleta sobre a poltrona e retiro o celular, colocando-o ao lado. Tiro a camisa, o paletó e a gravata, jogando tudo no cesto. Tento me concentrar na rotina, mas minha mente insiste em vagar.

Sento-me na cama, abro o celular e deslizo pela galeria até um álbum secreto. As fotos de Lunna continuam lá, guardadas como feridas que me recuso a deixar cicatrizar. Passo pelas imagens até parar na minha favorita: Lunna dormindo. Seus cabelos ruivos espalhados pelo travesseiro, a camisola de seda branca marcando suavemente as curvas de seu corpo. Ela parecia tão serena, tão intocável.

Eu a amava, mas nossa relação havia se tornado um ciclo frustrante. Desejava-a de todas as formas possíveis, mas sempre que o clima entre nós esquentava, ela recuava, deixando-me vazio e irritado. Não suportei. Comecei a traí-la antes mesmo do casamento da Kim Fiore, em um impulso de buscar fora o que ela negava dentro. Nem mesmo no hotel, durante a cerimônia, consegui me conter.

Não me arrependo. Na época, me convenci de que o que ela não me dava, outras dariam sem que eu precisasse implorar.

Fecho o álbum, deixando o celular na cama e caminho para o banheiro. Tento afastar os pensamentos, mas Yasmim e o que ela tem a dizer sobre Lunna e Fiore ocupam minha mente. Meus pais os viram juntos no hospital, e, embora Lunna tenha negado, a dúvida persiste. Aquela conversa mudou tudo. Foi a última vez que meus pais falaram comigo sobre o assunto, e, desde então, nossas relações nunca mais foram as mesmas.

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