Capítulo 2

— O que você acha, Boss? — Ryan perguntou.

— Oito homens são suficientes — respondi ao meu soldado. — Luigi

disse que seria uma comemoração pequena e classifiquei esse pequena entre

30 a 50 pessoas.

— Por isso acho melhor ter uns 15 de nós dentro do salão.

— Não! — rebati sem dar brecha a sugestões, porém, expliquei meu

ponto. — A famiglia de Nova York tem métodos ultrapassados, então além

de mais treinamento, temos técnica e somos mais rápidos.

— Entendi — foi o que meu soldado respondeu.

Era o aniversário de 22 anos da Mia e eu estava mais ansioso para vêla do que gostaria de admitir. Nos anos anteriores algumas coisas

aconteceram e me impediram de vir ao seu encontro e ela não fez a mínima

questão de ir até a Pensilvânia me ver, e isso me deixou irritado e até

desconfiado.

Uma semana antes de a mulher fazer 19 anos, eu fui baleado.

Estávamos em um confronto com outra máfia ou gangue. Sinceramente,

ainda não entendo como aquela organização funcionava, porém os filhos da

puta eram organizados e fui baleado pelo líder deles.

Daemon Blackwood.

Ou Quimera, ou Demônio.

Para mim, Demônio soa bem melhor. O desgraçado me deu o tiro no

banheiro de um salão em que acontecia um evento de caridade, como se não

tivesse conversado comigo amigavelmente durante a hora anterior.

Ele e sua esposa se sentaram à nossa mesa, dois advogados

conceituados. Eu senti algo diferente neles, mas estava ansioso por notícias

de um carregamento de armas que receberíamos e deixei meu sexto sentido

de lado. O contrabando viria por contêiner, e estava preocupado, pois tinha

consciência de que nosso esquema de fachada não era dos melhores, e perder

aquela carga significava perder muito dinheiro, além de credibilidade com

meu pai, já que seria eu a ocupar sua cadeira.

O homem entrou na porra do banheiro e mal tive tempo de pensar

antes de levar um tiro no ombro. Foi de raspão, intencionalmente, então ele

se apresentou como líder dos Falcões da Noite do estado de Louisiana e tirou

um isqueiro do bolso, se oferecendo para cauterizar a ferida, pois precisava

conversar comigo.

Foi ousado, porra. Precisava admitir, ele era louco, mas conseguiu

minha atenção. Nós tivemos uma conversa interessante e por conta disso e de

um negócio lucrativo para ambas as partes, não estive presente quando Mia

fez 19 anos.

O tempo passou e seus 20 anos chegaram.

Eu estava em uma convenção de tecnologia. Para todos, estava lá

como investidor de criptomoedas, mas a verdade é que precisava de um álibi

público diante de um carregamento que roubaríamos dos russos, caso isso

chegasse até a polícia.

Tráfico humano.

Essa porra ia contra o que pregamos. Temos cassinos e casas de

entretenimento, porém todas as mulheres e homens que trabalham conosco o

fazem por escolha própria. A Blood Skul repudiava todo e qualquer negócio

que envolvia tráfico humano.

Além disso esse tipo de negócio no mercado negro chamava atenção

da organização nacional e isso não era nada bom para o submundo.

Nossa operação teve êxito, porém arrumamos uma guerra com os

russos que durou um ano, e então chegamos aos 21 anos de Mia. Quando

enfim achávamos ter disseminado o problema, um infiltrado assassinou

minha avó na clínica onde estava internada há dois anos. Ela tinha Alzheimer

e foi uma crueldade do caralho matar uma pessoa que sequer tinha

consciência do que estava acontecendo. Isso acionou um alarme na minha

cabeça e precisei, por motivos de segurança, acabar com planos que eu

mesmo havia sugerido para o aniversário de Mia.

Como não a via há dois anos, pensei que poderíamos viajar juntos

para nos conhecermos melhor, já que nosso noivado estava longe de ser

normal. A garota aceitou e arrisco dizer que até gostou da ideia, conforme

minha mãe me contou. Iríamos para as Maldivas, seriam apenas três dias,

pois eu não poderia ficar ausente por muito tempo e ela tinha a faculdade.

A viagem precisou ser cancelada nas vésperas e acho que isso a

deixou irritada. Pela primeira vez tentei contatá-la, e quando percebeu que era

eu ao telefone, desligou na minha cara. Não desisti e enviei mensagens que

nunca foram respondidas.

No dia seguinte, a garota faria 22 anos e esse era o motivo de eu estar

no jatinho, voando para Nova York. Ryan não confiava na famiglia de Luigi

e obviamente, eu também não. Porém, achava difícil que ele tentasse algo

contra o futuro genro dentro da sua propriedade, o homem sabia das conexões

que a Blood Skull possuía e seria muita burrice ferrar com nosso acordo e

ainda tentar me ferir no processo.

Por isso eu entraria em seu território mostrando o quanto me sentia

seguro, mesmo com poucos homens. Eles deveriam temer a mim e não aos

meus soldados, até porque, era muito pior que eles.

Desbloqueei meu celular olhando novamente a rede social que Mia

mais usava, ela era discreta, porém frequente em suas postagens. No feed,

apenas poucas fotos, a grande maioria com a irmã e nunca mostrando o rosto

da pequena, que deveria ter uns quatro anos. Já nos stories ela postava às

vezes o que estava comendo, algo sobre o que estava estudando ou até fotos

com colegas de aula.

Ela mantinha intacta sua fachada de garota rica, estudiosa e

comprometida com a ética da nossa sociedade.

Mia era linda.

Conforme amadurecia, ficava ainda mais bonita e, porra, cada vez

mais gostosa. Nossa única interação foi em nosso noivado e suas atitudes e

até a falta delas, deixava claro que a mulher era o total oposto do que

imaginava.

E isso era bom, porra. Quer dizer... era bom até se tornar ruim.

Meu sexto sentido dizia que Mia Coleman seria o maior blefe da

minha vida.

— … e por isso decidi que o mais sensato seria acabar com nossos

negócios.

Arqueei apenas uma sobrancelha para um dos capos de Luigi.

— Você foi impulsivo e burro — declarei, fazendo com que os

homens à nossa volta me encarassem, surpresos com minha possível afronta.

— Espero que esteja aposentado quando eu assumir a famiglia, porque se

fizer algo do tipo quando eu estiver no comando, te mato.

Dimitri, o capo desprovido de inteligência, me encarou sem saber o

que responder. Levei o copo de uísque à boca, tirando os olhos do babaca e

fitando seu filho que olhava fixamente além de nós.

Mia.

Disfarcei uma respiração profunda, precisando recuperar o fôlego ao

vê-la em um vestido verde muito justo.

Caralho!

Ela estava ainda mais linda do que por foto e, porra... que corpo.

Puta que pariu!

Engoli a saliva e voltei meus olhos ao garoto, tocando seu ombro. Ele

virou o rosto em minha direção e empalideceu um pouco quando percebeu

que era eu a tocá-lo.

— Nunca mais olhe para minha noiva como se quisesse fodê-la,

moleque. — Minha expressão era controlada e a voz estava em uma altura

normal, mas sei que todos sentiam que minha raiva não estava nada

controlada. — Caso contrário, vou arrancar seus olhos com minhas próprias

mãos e fazer você engolir seus globos oculares, e então, nunca mais vai poder

cobiçar a minha mulher. — Devagar, tirei a mão do ombro dele e passei meus

olhos por cada homem presente à minha volta. — Isso vale para todos vocês.

Novamente, ninguém respondeu.

Irritado, saí de perto deles. Tomei o restante do conteúdo do meu

copo e o descartei sobre a bandeja de um dos garçons que passavam por mim.

Troquei um olhar com Ryan, meu segurança pessoal, vendo que ele me

observava e percebia minha tensão. Dei um leve aceno de cabeça

demonstrando que estava tudo bem, e voltei minha atenção à Mia, que

naquele momento estava acompanhada.

Ela conversava muito alegremente com um idiota vestido em um

terno malfeito azul-marinho.

É, muitas pessoas estavam merecendo levar um tiro naquele dia!

À medida que me aproximei, observei a mulher que em alguns anos

iria se tornar a minha esposa, uma parte significativa da minha vida e isso

gerava uma inquietação dentro de mim. Ela estava rindo com outro homem,

compartilhando gestos que demonstravam proximidade entre os dois.

Não disfarcei minha expressão, pois me sentia extremamente

incomodado com a situação. Cada vez que via um sorriso genuíno cruzar o

rosto dela enquanto conversava com ele, uma pontada de ciúmes passava por

mim. Era como se uma pequena voz dentro do meu interior começasse a

questionar se um dia seria capaz de ter um daqueles sorrisos direcionados a

mim.

Todos os sorrisos dela deveriam ser meus.

Minha mente começou a criar histórias e cenários hipotéticos nos

quais eles tinham uma conexão mais profunda do que eu estava vendo. Esses

pensamentos eram como um turbilhão de emoções fodidas que me irritavam.

À medida que avançava em sua direção, sentia a tensão irradiar pelos meus

poros.

— Mia — falei, atraindo sua atenção.

Enquanto nossos olhares se encontravam, podia sentir a eletricidade

no ar. Cada segundo que passava parecia carregado de antecipação, como se

o mundo inteiro estivesse desaparecendo ao nosso redor e só restássemos nós

dois. Perdi a compostura, enlaçando sua cintura e levando a outra mão à sua

nuca. Um leve rubor coloriu suas bochechas enquanto apoiava suas mãos

contra meu peito.

Nossos lábios estavam a centímetros de distância e podia sentir a

pulsação acelerada do meu coração reverberando em todo meu corpo. Minhas

mãos instintivamente impunham mais força, mostrando uma pegada mais

bruta, pouco me importando se parecia deselegante e até mesmo rude. Aquela

mulher era minha e era bom que tal fato estivesse claro para todos os

presentes.

Quando finalmente nossos lábios se tocaram foi como se uma faísca

tivesse sido acesa. A sensação era suave, quase hesitante no início, como se

estivéssemos explorando a profundidade daquela conexão que

compartilhávamos sem ao menos sabermos.

Minha respiração se misturou com a dela, e aceitei de bom grado o

calor do seu corpo contra o meu.

Era apenas um simples toque de lábios, e quase me perdi ao sentir a

textura suave da sua boca, porém aquele não era um beijo gentil ou uma

demonstração de afeto, era a porra de uma marcação de território e foda-se se

soou grosseiro.

Mia percebeu meu showzinho e subiu uma das mãos para meu

pescoço, fincando as unhas longas e afiadas em minha pele. Afastei um

pouco nossos rostos apenas para puxar seu lábio inferior com os dentes e o

morder com força ao ponto de ela resmungar. Então deixei um beijo casto,

carinhoso em seus lábios e sorri.

— Estava com saudades, amore mio

[3] — falei e em resposta ela me

devolveu um sorriso sarcástico.

— Claro! Posso imaginar — ironizou. Ela forçou as mãos contra meu

peito, claramente tentando me afastar e até permiti, mas meu braço continuou

firme contra sua cintura, deixando nossos corpos lado a lado. — Esse é

Johnnie, meu primo.

Johnnie estendeu a mão em minha direção, mas não aceitei seu

cumprimento, apenas acenei com a cabeça. Ele pigarreou sem jeito, levando a

mão do gesto patético até seu bolso, visivelmente constrangido. Primo é o

caralho, porra! Sei de vários primos que se comem e eu definitivamente

queria o pau daquele filho da puta longe da boceta da minha noiva.

— Venha. — Tirei a mão da cintura dela, segurando seu braço de leve

e a empurrando em direção ao jardim.

Podia sentir os olhares daquele bando de abutres em nossas costas, e

ignorei a todos eles, inclusive de Luigi. O Don

[4] da famiglia devia estar

querendo me matar naquele momento por estar levando sua filha para um

lugar privado, longe de todos os olhares.

Quando já estávamos em um lugar afastado, Mia puxou seu braço

com brusquidão.

— Nunca mais me beije dessa forma!

— Qual forma? — perguntei, arqueando uma sobrancelha.

Ela abriu a boca, então fechou. Abriu e fechou de novo, respirando

fundo, buscando calma. Minha noiva aparentemente estava tão irritada e

impaciente quanto eu, e isso me levou a uma pergunta.

— Já imaginou como será nosso sexo com raiva? — questionei, e a

expressão surpresa dela me fez sorrir.

Caramba, que boca linda!

Um dia eu ainda iria foder estes lábios e fazer esta mulher engasgar

com meu gozo.

— Tenho coisas melhores para imaginar do que o quão entediante

seria transar com você.

Balancei a cabeça em negação, meu sorriso se tornando ainda maior.

— Mentir desse jeito é o mesmo que zombar do meu treinamento,

Mia, e fui muito bem treinado.

Ela empinou o nariz, a expressão séria tentando demonstrar uma

indiferença que eu sabia que não existia.

Queria transar com aquela mulher tanto quanto ela queria transar

comigo.

— Seu celular tem algum problema? — perguntei, mudando de

assunto, e dessa vez foi ela quem arqueou uma sobrancelha. — Quando eu te

enviar uma mensagem, você deve me responder — ordenei, e ela balançou a

cabeça em negação.

— Não sou um de seus soldados, vita mia

[5]

. — A voz transbordava

ironia.

— Aprenda a me responder ou vou colocar uma mulher de segurança

na sua cola, te acompanhando até o banheiro!

— Isso tudo é medo de levar um chifre? — zombou, e respirei fundo.

— Vamos mesmo fingir que você não trepa com todas as garotas dos seus

cassinos?

— Não sou celibatário, mas sou discreto.

— Eu também.

Senti todo o sangue do meu corpo subir para minha cabeça, a raiva

invadiu cada célula do meu ser e eu tinha vontade de jogar aquela mulher nos

meus ombros e amarrá-la na minha cama para sempre.

— Espero que isso não envolva transar com seu primo — esbravejei,

e ela riu, balançando a cabeça em negação, como se fosse uma piada interna.

Aproximei-me, segurando sua cintura e inclinando meu rosto, fazendo com

que ela levantasse o pescoço para me encarar. — Seja discreta, não se

relacione com conhecidos e jamais se envolva emocionalmente com

ninguém. Quebre qualquer uma dessas regras e tenha em mente que alguém

vai morrer, e vai ser por sua culpa.

— Maldito...

— É, eu sou mesmo um maldito. O pior de todos, Mia. Viva sua vida

na medida do aceitável, porque o seu futuro é meu, e quando estiver

dividindo a cama comigo, será só minha. Já é minha.

— Presunçoso desgraçado...

— Me elogiando? Você pode ser mais criativa. — Pisquei, sorrindo

ao vê-la tremer de raiva. — Fique tranquila, delicinha. Vou te fazer gozar tão

gostoso que vai se viciar em mim, e sua boceta vai esquecer qualquer outro.

— Atrapalho? — Uma voz feminina soou atrás de nós e me virei.

Alejandra, mãe da Mia.

— Na verdade, atrapalha sim — respondi. Nunca fui com a cara

daquela mulher que parecia tão traiçoeira quanto Genevieve era.

Mia deu um risinho sem jeito.

— Já estamos indo, mamma

[6]

.

— Ótimo! Está na hora de assoprar as velinhas, querida.

Ainda que usasse a palavra "querida", sua frase era rígida, fria,

impessoal. A mulher não deu trégua, nos esperando, e Mia segurou a minha

mão, me incentivando a caminhar. Me senti como um adolescente que foi

flagrado se masturbando no banheiro.

Enquanto caminhávamos de volta para casa, pensei se não deveríamos

adiantar o casamento e fiz uma nota mental de amadurecer aquela ideia.

Capítulo 3

Dominic: Eu não vou conseguir ir na data combinada.

Dominic: Me atende!

Dominic: ????

Dominic: Porra, Mia, para de agir feito uma criança!

Olhei a mensagem dele mais uma vez e respirei fundo.

É claro que ele não viria.

A verdade era que precisei de pouco tempo para perceber que minha

relação com Dominic, caso eu permitisse, seria semelhante à da minha mãe

com meu pai, ela nunca seria a prioridade dele, e ainda assim, ele tinha um

poder absurdo sobre ela.

Walsh não iria exercer esse poder sobre mim.

Eu não iria permitir que isso acontecesse, não sem lutar pelo lugar que

me era de direito. Esse lugar era ao seu lado, e não abaixo dele. Estaríamos

ambos no comando, de igual para igual. Iria exigir participar de cada negócio

e estar a par de todas as situações.

Exigi que fosse assim e se o bonitão de dois metros de altura pensava

que não seria dessa forma, ele estava muito enganado. Eu iria dar muito

trabalho a ele se não fosse aceita conforme o esperado.

Se ele era a pólvora, eu era o fogo, e nós dois explodiríamos juntos.

— Problemas no paraíso? — Anny perguntou assim que entrou no

vestiário onde estavam os armários.

— É... — Respondi sem dar detalhes. Como sempre.

Ela bufou em resposta.

— O que adianta ser noiva de um gostoso daquele se ele é tão

ausente? — disse sem filtro algum, arrancando um sorrisinho de mim. — Ter

um playground zerado, e nunca brincar nele é um pecado.

— Dom é muito ocupado, Anny. E por causa da faculdade e da

residência, não consigo ir para Pensilvânia com frequência. — Usei o apelido

como estratégia para validar uma proximidade que não existia.

— Certo — respondeu contrariada. — O que acha de ir a um barzinho

comigo e com o pessoal hoje? — Respirei fundo em resposta e ela cruzou os

braços. — Mia, você não tem vida, nunca faz nada, vive dentro desse hospital

ou em parques com sua irmã mais nova.

Eu treinava, e muito, fazia artes marciais, tiro, manuseio de qualquer

instrumento que possuísse uma lâmina, mas Anny não podia saber disso.

— Eu gosto de parques — respondi.

— Você precisa se divertir! Sair, curtir! — Arqueei a sobrancelha.

— Eu sou noiva.

— Foda-se o gostosão de terno, você merece um orgasmo além dos

que alcança sozinha.

Gargalhei alto diante de sua fala. Se ela soubesse que nunca sequer

havia transado, se soubesse o quanto era controlada e que esse controle ia

muito além dos seguranças que as pessoas viam. Todos achavam que os

quatro seguranças que eu tinha era devido aos negócios do meu pai e aos

investimentos de Dominic.

— Não vou trair o meu noivo, Anny.

Porque se o fizesse, meu pai me mataria.

Ainda que Walsh tenha demonstrado que não se importava com o

tradicionalismo da virgindade, que é uma tradição da minha famiglia, meu

pai se importava. Além do mais, eu não queria correr o risco de ser

descoberta, se algo relacionado a qualquer possível escapadinha minha

vazasse na mídia, estaria morta.

Luigi me disse claramente que me mataria, e uma ameaça do meu pai

nunca era feita em vão.

— Se você quer manter as teias de aranha, tudo bem. Porém, não vou

aceitar um não como resposta para vir dormir na minha casa. Vou convidar a

galera... bebidas, pizza. Vamos?

— Anny...

— Nem tente, Mia. Seus pais estão viajando, então não pode usar

Nanna como desculpa.

Isso é verdade. Me cortou o coração, porque pela primeira vez Luigi e

Alejandra foram viajar e decidiram levar Nanna junto. Meu peito doía de

saudade daquela criança.

Apertei o celular em minha mão enquanto pensava que era só uma

bebida na casa da Anny.

Que mal poderia haver?

— Tudo bem.

— Não! Chega de desculpas e... — Ela parou de falar, me encarando

enquanto sorria. — Você disse tudo bem?

— Sim.

— Ah! Que máximo! — Ela abriu seu armário e pegou a bolsa,

tirando de lá o celular. — Vou mandar mensagem para o pessoal!

Ainda sorrindo, balancei a cabeça em negação, com a certeza de que

iria beber pouco para não correr o risco de fazer alguma besteira. Algumas

pessoas não podem se dar ao luxo de errar, e eu com certeza era uma dessas.

Minha cabeça estava explodindo.

Como combinado, havia passado a noite na casa da Anny. A casa dela

estava lotada e realmente foi muito legal. Eu maneirei na bebida e nem foi

porque precisava ir para o hospital no dia seguinte, mas porque não estava

disposta a passar dos limites.

Eu jamais daria motivos para que validassem as comparações que me

eram feitas em relação à Genevieve. Eu não sou igual à minha irmã mais

velha e morreria provando isso e calando a boca de qualquer filho da mãe que

pensasse o contrário.

Passei o dia inteiro com dor de cabeça, pois ainda que não tenha

bebido muito, o pouco de álcool que ingeri foi o suficiente para ficar com a

cabeça explodindo o tempo todo. Contei os minutos até meu intervalo, e

assim que consegui sair para o meu horário de descanso, comi e então tomei

um analgésico.

Estava no jardim do hospital, procurando algum local afastado para

me sentar e ficar no silêncio, esperando que isso ajudasse a aliviar as

badaladas na minha cabeça.

— Mia? — Me virei diante do chamado, reconhecendo a voz do Dr.

Mark.

— Doutor — respondi. — Precisa de ajuda?

Ele sorriu, e era fofo ver o quanto estava sem jeito.

Fazia algum tempo que vinha percebendo o jeito que me olhava e até

mesmo que ficava nervoso perto de mim. Mark foi efetivado no hospital no

ano anterior, era comprometido com os pacientes, atencioso, bonito e...

normal.

Extremamente normal.

Ele não era o tipo de cara que chamaria minha atenção, o doutor era

um mocinho e só isso já fazia com que fossemos extremamente opostos e, no

meu caso em específico, não rolava aquele lance de que opostos se atraem.

— É... — Pigarreou. — Foi muito legal ter você ontem conosco. Você

não costuma aparecer muito, e...

— Mark — chamei, mostrando que ali era a Mia mulher, e não uma

das residentes. — Eu sou noiva.

— É… — Ele deu um riso nervoso. — Eu sei. Todos sabem.

— Pois é — respondi e ficou um clima desconfortável. Então ele

suspirou e tocou meu ombro.

— Se um dia estiver disponível, gostaria muito de jantar com você,

Mia. Eu... esse seu noivado é bem estranho, e...

— No seu lugar, eu não terminaria essa frase. — Senti um arrepio ao

ouvir a voz dele.

Dominic Walsh estava parado a poucos passos com cara de poucos

amigos, encarando fixamente Mark.

Era simplesmente impossível não olhar para ele como um todo. Meu

noivo estava com o tom de pele um pouco mais bronzeado do que da última

vez que o tinha visto, e podia jurar que seus cabelos claros brilhavam sob a

luz do sol. Sua estatura imponente ia muito além da altura, que facilmente já

o destacava. Sua presença era dominante e ele exalava confiança em cada

gesto, os olhos expressando uma intensidade magnética, ao mesmo tempo em

que transbordavam insatisfação. A constituição física dele era robusta e

atlética.

Para a minha total infelicidade, ele era muito gostoso, e o desgraçado

sabia disso.

É sério, a cada ano que passava, aquele cara ficava ainda maior. A

camisa social branca deixava evidente o contorno dos seus bíceps e eu nem

precisava olhar em volta para saber que todas as mulheres presentes estavam

olhando para ele.

Dominic transmitia com sua postura e segurança, uma aura de

autoridade natural. Em resumo, ele era um homem notável pela aparência

atraente e confiança.

Exalava poder e isso, infelizmente, era muito sexy.

— Acho que esse é um bom momento para tirar a mão da minha

noiva — disse, descendo os olhos para o crachá do moreno ao meu lado. —

Mark.

O doutor tirou a mão de mim e abriu a boca para falar algo, porém

tornou a olhar para o loiro que se aproximava com passos decididos.

Senti-me instantaneamente nervosa.

Meu coração acelerou e minhas mãos ficaram trêmulas. Encarei-o,

praguejando mentalmente por sentir minhas bochechas ficando coradas.

Mantive minha linguagem corporal neutra para não denunciar a mistura de

excitação e ansiedade que me invadiu.

— Amore mio — ele disse, tocando minha cintura e se abaixando para

ficar com o rosto na altura do meu.

Senti um misto de emoção e principalmente antecipação. Meu

coração batia ainda mais rápido à medida que ele se aproximava.

Notei os pequenos detalhes, como a textura dos seus lábios, a maneira

como estreitava os olhos lentamente, o cheiro suave de sua pele.

Quando a boca dele tocou a minha, as borboletas no meu estômago

pareceram ganhar vida e o tempo pareceu desacelerar. O beijo reafirmou a

conexão invisível que existia todas as vezes que nos aproximávamos. Cada

segundo era memorável e eu sentia como se estivesse flutuando em um

momento de puro encantamento. Era como se Dominic me enfeitiçasse e isso

era uma droga, pois deveria ser o contrário, eu que deveria causar esse efeito

nele.

Era apaixonada por ele desde a minha adolescência e talvez esse fosse

um dos maiores motivos que eu afastava todos os homens que tentavam se

aproximar, o motivo por eu negar a mim mesma as chances de experimentar

e viver experiências. Eu o acompanhei durante todos esses anos pelos

tablóides, sabendo cada passo seu, cada novo feito ou conquista.

— Você fica mais linda a cada dia que passa — disse quando afastou

os lábios, tirando a mão da minha cintura só para entrelaçar seus dedos nos

meus. — Sou Dominic Walsh, o noivo... estranho.

Mark ficou sem saber o que responder, tanto que apenas pigarreou e

pediu licença, como o bom homem educado que era, se afastando de nós

dois.

— Sinto que estão nos observando, então se tiver um lugar mais

discreto... — Nem deixei que ele terminasse de falar, o puxando pela mão.

Caminhamos em silêncio até um canto afastado, Dominic olhou em

volta e vi que ele respirou tranquilo quando percebeu os seguranças à

distância.

— Você está aqui — disse, ainda surpresa.

— Você não respondeu às minhas mensagens e não atendeu às

ligações.

— Você disse que não viria...

— Eu disse que não conseguiria vir no dia do seu aniversário, não que

não viria. Você agiu como uma criança, me ignorando. Na verdade, a única

coisa que sempre faz é me ignorar, Mia. Eu te procurei, tentei vir até você...

fiz o que nenhum outro em minha posição faria, e mesmo assim você acha

pouco, porra!

Arqueei as duas sobrancelhas, perplexa.

— Está jogando na minha cara por ter vindo me ver duas vezes nos

últimos quatro anos?

— Outro colocaria uma aliança no seu dedo e só apareceria no dia do

casamento.

— Então faça isso! — esbravejei percebendo que era impossível

manter um diálogo pacífico com Dominic. — Seja como os outros.

— Você entendeu mal.

— Não, eu entendi muito bem.

Ele balançou a cabeça impacientemente.

— Mia, eu tenho tentado, mas você simplesmente não se importa!

Caralho, as pessoas estão desconfiando por não termos fotos juntos, e...

— Claro, isso não é bom para a sua imagem — ironizei.

— Puta que pariu, eu tento, porra! Eu tento ter o mínimo de contato

com você, mas minhas conversas são monólogos porque sempre me ignora.

— Eu sou só um contrato para você.

— Não! Você será a minha mulher! Cacete... — Passou a mão pelos

fios loiros, desalinhando-os e ficando ainda mais bonito. Desgraçado. —

Você acha que minha vida é fácil? Que vivo para ir a festas ou trepar com

todas as mulheres que encontro pelo caminho? Você está muito enganada,

Mia.

Fiquei em silêncio, sem saber o que responder. Observei-o com mais

atenção, ele era um homem muito bonito mesmo, com traços definidos que

realçavam sua aparência. Seus olhos, embora tivessem aquele brilho sombrio,

também revelavam certo cansaço, com olheiras sutis que sugeriam noites mal

dormidas.

Sua postura era elegante, mas havia algo em seus traços que indicava

uma fadiga subjacente.

— Eu queria te conhecer, queria ser seu amigo antes de te levar para a

cama, porque isso vai acontecer, Mia. Nós vamos trepar e eu vou querer te

comer feito louco, porém, antes disso, queria saber seus gostos. Queria poder

te respeitar, quem sabe até admirar, mas você vive numa defensiva do caralho

e isso já está me irritando.

— Você não sabe o que eu passo.

— Eu poderia saber se você me desse abertura.

— Você ia se casar com a minha irmã, Dominic. Acha que é fácil

para mim, lidar com o fato de que estou nessa posição como o estepe de um

carro? Eu sou o pneu reserva, e isso obviamente não me deixa confortável.

— Entendi — respondeu, me olhando de uma forma tão analítica que

me remexi, desconfortável. — Se quer saber, você é a única aqui que se

lembra que aquela mulher existiu, Mia. — Ele riu, balançando a cabeça em

negação. — Você precisa amadurecer.

— Como é? — perguntei, me sentindo insultada.

— É isso mesmo que ouviu, você precisa amadurecer e lidar com suas

próprias questões. Eu nem me lembro mais da Genevieve.

Dei uma risada amarga.

— Eu sou lembrada diariamente dos meus deveres como substituta

dela, Dominic. Não venha bancar o moralista, bom moço, porque você não é.

— Estou longe de ser bom, mas não sou seu inimigo, Mia. — Ele

franziu as sobrancelhas levemente e respirou fundo. — Venha comigo.

— Como? — perguntei, confusa.

— Venha comigo para a Pensilvânia. Você...

— Não.

— Nem ouviu o que eu tenho a dizer, caralho! — esbravejou, ainda

mais irritado.

— Nanna é muito pequena e ela precisa de mim.

— Essa menina é sua filha, Mia? — perguntou e nem me deixou

responder. — Se for, esse é o momento de me dizer a verdade.

— Ela é minha irmã, Dominic. Todos viram minha mãe grávida!

— Então deixe seus pais cuidarem da filha deles — disse, e eu abaixei

a cabeça.

Eu não podia.

Não iria deixar Nanna, ela era muito pequena e..., eu ainda não estava

pronta. Precisava de mais treinamento, precisava de mais soldados dispostos

a me seguir. Precisava estar preparada para ser a mulher fatal que carrega

todos na palma da mão, não o contrário.

Dominic voltou a respirar fundo e quando olhei para ele, a única coisa

que vi foi cansaço, exaustão.

— Eu tentei, Mia. Eu realmente tentei. Não espere mais minhas

visitas em seus aniversários ou até mesmo as mensagens aleatórias que

costumo mandar. A verdade é que não importa o que eu faça, você vai

continuar na defensiva. — Então se endireitou, aprumando a postura. —

Quando eu disse para ser discreta caso... tivesse algo com alguém, não estava

brincando. Se eu tiver a confirmação de que esteve com alguém, essa pessoa

vai morrer e se você se envolver emocionalmente… — Ele estalou a língua.

— Vai presenciar um massacre.

— Você precisa decidir. Uma hora diz para eu ser discreta e em outra

fala que se descobrir, pessoas vão morrer.

— O meu lado racional me elucida para o fato de que você é jovem e

que não deve fidelidade a mim até que estejamos realmente juntos. Porém, o

Boss da Blood Skull, o homem que eu sou de verdade, jamais deixaria passar

se soubesse de algo. Nem um homem que te tocar intimamente vai viver para

ter a oportunidade de se lembrar como foi estar entre as suas pernas, não se

eu descobrir. Você é minha, caralho! O único que vai se lembrar do seu

cheiro, gosto e até mesmo dos seus gemidos serei eu.

Disfarcei a inquietação que tomou conta do meu peito e não respondi.

Aquele tipo de atitude possessiva já era esperada de homens como

ele, porém o convite para morar em sua cidade antes do casamento para nos

conhecermos foi bem inusitado. Inesperado.

— Acho que essa conversa acabou com o clima do jantar que planejei

— murmurou, tirando um envelope do bolso e me entregando. — Feliz

aniversário adiantado!

Franzi a sobrancelha, abrindo o envelope e ficando perplexa ao ler o

conteúdo.

— O que é isso, Dominic?

— Seu presente de aniversário.

— Dominic... você comprou um hospital para mim? — perguntei,

perplexa.

— Acredito que quando nos casarmos você vai querer uma ocupação,

e sua interação nas redes sociais deixa claro que ama a medicina. Este

hospital fica a menos de 15 minutos da minha cobertura, que também será a

sua casa. Está em seu nome, porém a administração estará a cargo de pessoas

da minha confiança até o nosso casamento. Depois, vamos ajustando tudo.

Fiquei em silêncio, sem saber o que falar, minha voz pareceu entalar

na garganta e... uau!

— Nunca se esqueça que mesmo de longe, estou de olho em você. Se

cuida, Mia. — Ele deu um passo à frente, deixando um beijo em minha testa

e então se virou e caminhou para longe de mim.

Olhei para ele se afastando mais a cada passo que dava e somente

quando o perdi de vista, voltei a olhar a folha de ofício em minhas mãos.

Medland.

Um hospital.

Meu hospital.

A junção das suas palavras ao seu gesto, me deixou atordoada,

perdida. Eu não sabia o que ele pretendia com isso, mas se sua intenção era

me desestabilizar, ele conseguiu.

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