O corpo de Beatriz permanece no asfalto molhado, inerte, cercado por luzes difusas e silhuetas diversas que começam a se aglomerar ao redor. As pessoas falam ao mesmo tempo, vozes ansiosas, alarmadas, carregadas de tensão.
- Alguém chama o SAMU, pelo amor de Deus! - grita uma mulher, com a mão trêmula segurando um celular molhado de chuva.
- Ela tá respirando? - pergunta um homem, ajoelhado ao lado do corpo.
Beatriz não se move. Os olhos fechados, os cabelos grudados no rosto, os lábios entreabertos. A chuva continua a cair sem cessar, lavando o sangue escasso que escorre de um arranhão no cotovelo. Um guarda chuva surge acima dela, sustentado por mãos trêmulas de uma jovem que tenta protegê-la da água insistente. Tudo parece acontecer em uma bolha, um mundo onde os sons são abafados, como se o universo respeitasse o instante frágil entre a vida e o abismo.
Minutos correm lentos.
A ambulância demora. O trânsito está um caos. Sirenes distantes anunciam socorro vindo de algum lugar da cidade, mas o tempo se arrasta como se o próprio universo hesitasse em dar continuidade à história de Beatriz.
E então, finalmente, o som metálico e crescente de uma sirene rasga a noite. Um clarão vermelho e azul dança nas poças formadas pela chuva. A ambulância para bruscamente, portas se abrem. Paramédicos saltam com rapidez e precisão treinada.
- Feminina, jovem, trauma por atropelamento! - grita um deles ao se aproximar do corpo.
Beatriz emite um gemido fraco. Os olhos se entreabrem por um segundo e tornam a fechar. A voz dos profissionais é firme, mas urgente.
- Pressão baixa. Escoriações leves visíveis. Pupilas reativas. Aparentemente sem fraturas expostas. Mas não podemos descartar trauma craniano. Vamos estabilizá-la.
Colocam o colar cervical com delicadeza e firmeza. Conectam um soro, monitoram os sinais vitais. Removem para a maca. A chuva ainda não cessa, e a sirene soa de novo enquanto a ambulância parte em disparada, como uma flecha rompendo o caos da cidade molhada.
Dentro do veículo, Beatriz se move levemente. Tenta falar. Os olhos piscam devagar.
- Shhh... fique calma - diz uma voz masculina, tranquila.
- Você está segura. Está a caminho do hospital.
Tudo gira. O teto da ambulância parece se afastar. Vozes distorcidas, luzes piscando, o frio do soro correndo na veia. Mas nada disso importa. Não para ela. Porque a dor maior não está no corpo. Está em outro lugar. Queima no peito. No fundo da alma. Uma dor que não tem nome definido, que nenhum laudo médico vai registrar.
Ao chegarem ao hospital, Beatriz é levada diretamente para o setor de traumas. A movimentação é rápida. Médicos, enfermeiras, equipamentos, exames. Palavras médicas flutuam ao redor dela como um idioma estrangeiro.
- Pressão ainda baixa. Colar cervical mantido. Prepara tomografias de crânio, e cervical mais raio X de tórax e membros. Vamos medicá-la para a dor. Monitorar sinais neurológicos.
- Qual o seu nome?
- Be Beatriz Scher.
- Tem alergia a algum medicamento?
Ela nega, mas sabe que não há medicamento no mundo que faça a dor que ela sente no peito desaparecer. Uma medicação é injetada.
Minutos depois, ela acorda. A luz branca do teto parece uma lâmina cortando os olhos. Pisca devagar. A cabeça lateja. Sente um peso estranho no pescoço.
- Onde... eu estou? - murmura, tentando se sentar.
- Calma, Beatriz - diz um médico, aproximando-se. - Você sofreu um atropelamento. Foi trazida por populares. Está estável, mas precisamos fazer alguns exames para garantir que está tudo bem, ok?
Ela balança a cabeça levemente. O mundo gira outra vez. A dor de cabeça aperta, latejando com violência.
- Estou com... muita dor aqui - aponta para a testa.
- Vamos cuidar disso - diz ele, sinalizando para a enfermeira. - Dipirona intravenosa e tramadol, por favor. Depois, levem para a tomografia.
Enquanto a medicação entra pela veia, Beatriz fecha os olhos. Mas a dor emocional não cede. A cena volta com força total: Felipe. Lívia. A cama. O lençol bagunçado. Os corpos entrelaçados. A traição. A humilhação.
Não pode ser verdade. Deve ter algum engano. Deve haver uma explicação...
Mas não há.
Ela viu. Com os próprios olhos.
Sentiu o coração se partir em tempo real.
O exame de imagem é rápido. Ela geme, incomodada com o colar cervical. Tenta mexer o pescoço.
- Por favor... posso tirar isso?
- Ainda não, Beatriz - responde o técnico. - O médico só autoriza depois dos exames de imagem.
Ela resmunga, cansada, com os olhos fixos no teto do aparelho. A máquina ronrona ao seu redor, capturando imagens do crânio, dos ossos, das verdades invisíveis.
Dentro dela, outra máquina trabalha, o coração tentando aceitar o que a mente já compreendeu, mas o peito ainda recusa.
Quando é levada de volta à maca, olha para o teto do hospital como quem olha para um céu sem estrelas. Tudo parece frio, clínico, distante.
Era com ele que ela sonhava dividir a vida. O lar. O futuro.
Mas agora...
Agora tudo mudou.
O mundo desabou.
E mesmo assim, em meio à dor e à confusão, uma chama tênue se acende no fundo da alma. Um fio de algo que ela ainda não reconhece como força, mas que se parece com decisão.
Ela inspira devagar.
Sim, doeu. Sim, ainda dói.
Mas ela não vai se deixar afundar. Não vai se despedaçar por ele.
Não mais.
Ela vai se levantar. Vai se reconstruir. Vai dar a volta por cima.
Nem que precise arrancar cada pedaço de dor com as próprias mãos.
Ela aperta os olhos com força. E pela primeira vez desde que tudo aconteceu, pensa com clareza:
- Ele vai se arrepender.
E o silêncio do hospital é interrompido apenas pelo bip do monitor cardíaco, que pulsa... como uma promessa.
Mas e se o atropelamento não foi um simples acidente?
Quem realmente estaria por trás da dor que Beatriz começa, enfim, a transformar em força?
Brasília desperta sob um manto espesso de silêncio, como se o tempo hesitasse em seguir adiante. As cores ainda não ousam colorir o céu, e o concreto das embaixadas permanece frio, inerte, indiferente à passagem das horas. Uma névoa preguiçosa rasteja pelas avenidas largas como um véu que tenta esconder algo, ou alguém. O céu, pálido, quase translúcido, confere à cidade uma atmosfera quase angelical, como se tudo estivesse suspenso entre o real e o irreal.
É nesse limiar entre noite e dia, nessa fresta de transição onde a escuridão ainda não cede espaço à luz, que as verdades costumam emergir, cruas, inegáveis. A cidade, por um breve instante, parece despida de máscaras. Brasília respira fundo... e espera.
Dentro do laboratório, isolado do mundo exterior por camadas de concreto, sensores e protocolos rígidos, tudo permanece imutável. Frio. Preciso. Seguro. O ambiente é asséptico ao extremo, não apenas no que se refere à higiene, mas à própria essência. Ali, sentimentos não têm lugar. Emoções não sobrevivem. É um espaço onde apenas os fatos são bem vindos... ao menos, é o que se pretende.
O zumbido grave dos compressores e o sutil clique dos calibradores automáticos compõem uma sinfonia mecânica, quase hipnótica. Para o Dr. Rafael Antonelli, esse som é familiar, reconfortante até. Representa controle. Ordem. Um microcosmo onde tudo obedece a leis claras e previsíveis, ao contrário do comportamento humano.
Ele ajusta com precisão o painel de fluorescência, olhos atentos às curvas dos espectros que começam a se formar na tela diante de si. Os dados sobem, suaves, confiáveis. É como deve ser. Um mundo de exatidão.
Mas, mesmo enquanto os seus dedos operam com maestria o sistema, sua mente não está ali. Ela se afasta. Voa para longe dos tubos e gráficos. Vai em direção a uma figura ainda distante, mas que, em breve, se tornará parte dessa engrenagem.
Beatriz.
Ela já deve estar em algum ponto do seu trajeto. Talvez dentro de um avião, talvez observando pela janela a cidade do Rio desaparecer atrás das nuvens. Está sozinha, ele sabe. E, mais importante, desprotegida. Um detalhe fundamental.
Jovem, recém formada, sem raízes, sem laços afetivos fortes. Sem ninguém que a espere em casa. Um perfil cuidadosamente escolhido.
- Contratá-la foi racional... - ele murmura para si mesmo, sem desviar os olhos da tela.
Mas, no fundo, sabe que não foi apenas isso. Algo em Beatriz o intriga desde a primeira vídeo chamada. O brilho nos olhos dela, um lampejo quase imperceptível de dúvida entre uma resposta e outra. Como se, mesmo sem querer, ela estivesse fazendo perguntas silenciosas. Como se desconfiasse, ainda que inconscientemente, de que o mundo ao redor dela não é o que aparenta ser.
Ele ativa o intercomunicador com um gesto sutil.
- Stefany?
A resposta é imediata, como sempre.
- Sim, doutor Rafael?
- A casa da nova assistente. Quero que esteja pronta ainda hoje. Umidificador ativado. Aquecedor ajustado. Tudo limpo. Alimentos frescos. Ela vem do Rio... o clima pode ser um choque.
Há um breve silêncio do outro lado. Pequeno demais para ser considerado hesitação, mas o suficiente para que Rafael perceba a diferença.
- Estava justamente pensando nisso - diz Stefany, sua voz levemente mais suave do que o habitual.
- Talvez pudéssemos deixar o ambiente um pouco mais... acolhedor.
- Acolhedor? - ele arqueia uma sobrancelha, mesmo sem ser visto.
- Sim. Uma manta no sofá, algumas flores brancas, luzes quentes na sala. Nada íntimo demais. Apenas... humano. Ela está vindo para um lugar novo, sem rostos conhecidos. Talvez se sentir cuidada ajude. Ela não tem ninguém, doutor.
Rafael silencia. Por um instante, seus olhos refletem mais do que cálculo. Stefany não costuma fazer sugestões sem fundamento. Ela conhece bem os limites da função que ocupa. Ainda assim, o gesto o surpreende.
- Tudo bem. Cuide disso pessoalmente. E use o seu julgamento. Quero que pareça um lar... mas sem exageros.
- Compreendido. Vou até lá à tarde. Um bolo fresco, chá natural na prateleira, janelas abertas para o ar circular. Apenas o suficiente para que ela baixe a guarda.
"Para que ela baixe a guarda..." A frase ecoa na mente dele, mesmo que não tenha sido dita em voz alta. Ele sabe o poder do conforto. Sabe que, quando as pessoas se sentem seguras, revelam mais do que pretendem.
Desliga o intercomunicador e encara o reflexo do próprio rosto na tela em branco.
Acolhedor.
Que palavra perigosa.
Volta-se para a bancada, mas não consegue mais se concentrar. Em vez disso, abre seu tablet e começa a digitar com exatidão cirúrgica:
– Corantes de fluorescência
– Lâminas e lamínulas
– Soluções tamponadas
– Água bi destilada
– Máscaras N95
– Luvas de tamanhos variados
– Termômetros infravermelhos
– Luminárias direcionais
– Cadernos novos
– Canetas pretas
– Cópia atualizada do regulamento interno
– Kit de coleta para amostras não declaradas
Envia a lista para o sistema interno, diretamente para Stefany. Mas antes que o som de confirmação ecoe, uma inquietação pulsa dentro dele. Uma urgência silenciosa. Um pressentimento?
Liga novamente.
- Stefany?
- Sim, doutor?
- Priorize a lista que acabei de enviar. Tudo precisa estar no lugar até o fim da tarde. Cada item.
- Está tudo sob controle, doutor.
Mas... está mesmo?
Desliga mais uma vez. E permanece ali. Imóvel. Observando o vazio do laboratório, onde o tempo parece curvar-se à sua vontade.
Beatriz está a caminho. Inconsciente de que está prestes a entrar em um tabuleiro minuciosamente montado. Um cenário meticulosamente arquitetado para parecer inofensivo. Científico. Ético.
Mas há outros corredores. Portas que ela não verá. Áreas restritas que nunca constarão nos mapas. Pessoas que apenas aparentam ser quem dizem. E protocolos... que não estão em papel algum.
Ela será recebida como uma jovem promissora, cheia de entusiasmo e com uma carreira brilhante pela frente.
Mas e se... ela começar a olhar com atenção demais?
E se ela notar as falhas nas fachadas, os ecos que não combinam com a arquitetura perfeita?
E se, por acaso, ela olhar para Rafael... e enxergar além da máscara?
Será que entenderia o que realmente está em jogo?
Ou pior... será que ela já desconfia?
O alarme suave da reação química indica o pico de atividade. Rafael nem se move.
Tudo está pronto.
Falta apenas Beatriz descobrir... que a grande mudança da sua vida está prestes a começar.