Capítulo 2

Ponto de Vista: Selena

A confirmação de aceitação da Alcateia do Cume Alpino chegou em uma hora. O programa começava em duas semanas. O local era um território isolado e de alta altitude nos Alpes Suíços, um mundo longe das mentiras que me sufocavam aqui. Era perfeito.

Dirigi de volta para a cobertura, o lugar que eu antes chamava de nosso lar. Agora, cada objeto parecia zombar de mim. A foto na lareira de nós sorrindo em uma praia, o braço dele firmemente em volta de mim. O delicado colar de pedra da lua que ele me deu em nosso primeiro aniversário, uma pedra que deveria simbolizar a bênção da Deusa da Lua em nossa união.

Uma onda de repulsa física me invadiu.

Encontrei uma caixa de grandes sacos de lixo pretos debaixo da pia. Com uma fúria que eu não sabia que possuía, comecei a purga. As fotos foram as primeiras, o som de vidro quebrando uma satisfação sombria. O colar de pedra da lua veio em seguida, sua corrente de prata tilintando contra os cacos de vidro. Cada presente, cada lembrança, cada coisa que me ligava a ele e aos cinco anos de mentiras foi para os sacos.

Quando terminei, o apartamento parecia austero e vazio, despojado de todo calor. Comecei a arrumar minhas próprias coisas — minhas roupas, meus livros de arquitetura, minhas ferramentas de desenho. Minha vida.

Dante não voltou para casa naquela noite.

Ele finalmente apareceu na noite seguinte, entrando como se nada estivesse errado. Ele me abraçou por trás, enterrando o rosto no meu pescoço.

“Senti sua falta”, ele murmurou, sua voz um ronronar baixo.

Mas tudo o que eu conseguia sentir era o cheiro dela. O perfume enjoativo de Cassandra, um cheiro de beladona e falsidade, grudado em sua pele. E por baixo, o cheiro fraco e leitoso de um filhote.

Eu enrijeci e me afastei.

“O que há de errado?” ele perguntou, a testa franzida com falsa preocupação.

Decidi testá-lo uma última vez. “Eu estava pensando”, disse eu, mantendo a voz firme. “Talvez você estivesse certo em esperar, mas... eu realmente quero um filhote, Dante. Para solidificar nosso laço. Para nos tornar uma família de verdade.”

Sua expressão se contraiu. “Selena, já conversamos sobre isso. A alcateia precisa da minha total atenção. Há ameaças de renegados na fronteira. E as tensões com a Alcateia do Riacho de Prata são... delicadas. Não é o momento certo.”

Outra mentira. O momento certo simplesmente não era comigo.

Como se fosse um sinal, seu comunicador particular vibrou no balcão. Ele olhou para a tela e rapidamente a virou.

“É o meu Beta”, disse ele, seu tom seco. “Um relatório de emergência. Tenho que ir.”

Ele beijou minha testa, um gesto que pareceu frio e sem sentido, e saiu apressado pela porta.

Esperei até ouvir as portas do elevador se fecharem antes de ir até o balcão. Ele estava com tanta pressa que deixou seu comunicador reserva para trás. Minhas mãos tremiam enquanto eu o pegava.

A tela se iluminou com uma nova mensagem. Era de Cassandra.

“Ruan está com febre. O lobo dele está inquieto. Ele não para de chamar pelo pai Alfa dele.”

Uma dor aguda e cólica tomou meu abdômen. Dobrei-me, ofegante. As mentiras, o estresse, o coração partido — tudo era um peso físico me pressionando. Tropecei até o banheiro e vomitei, meu corpo convulsionando com a força da minha dor.

No dia seguinte, não fui ao meu estúdio. Fui à Curandeira da alcateia, sozinha.

Ela era uma senhora idosa e gentil que me conhecia desde que entrei na alcateia. Depois de alguns exames, ela voltou para a sala de exames, seu rosto radiante.

“Parabéns, minha querida”, disse ela, sua voz calorosa. “Você está carregando um filhote forte e saudável.”

Ela deu um tapinha na minha mão.

“Seis semanas. O Alfa ficará emocionado. Um herdeiro está a caminho.”

Capítulo 3

Ponto de Vista: Selena

Grávida. As palavras da Curandeira ecoavam em minha cabeça, uma sinfonia cruel de alegria e desespero. Este filhote era parte de mim, um produto do meu laço com meu companheiro de alma. Mas foi concebido em uma teia de enganos. Ele merecia mais do que um pai mentiroso e uma mãe tola.

Minha mente era uma tempestade caótica enquanto eu caminhava pelo corredor silencioso do centro médico. Eu tinha que ir embora. Agora, mais do que nunca, eu tinha que proteger esta criança do veneno da vida dupla de Dante.

Ao virar uma esquina, congelei. Lá, a menos de seis metros de distância, estava Dante. Ele abraçava Cassandra, que soluçava dramaticamente em seu peito. Ele acariciava o cabelo dela, murmurando para ela no mesmo tom gentil e tranquilizador que sempre usava comigo.

“Está tudo bem”, ele dizia. “Não se preocupe.”

Rapidamente me escondi atrás de um grande pilar de pedra, meu coração batendo em um ritmo doentio e pesado.

“Mas e se ela descobrir?” Cassandra lamentou, sua voz se espalhando claramente no corredor vazio. “E se eu arruinar sua posição como Alfa?”

Dante soltou uma risada baixa e desdenhosa. “Ela confia em mim completamente. Selena é uma arquiteta brilhante, mas não entende as complexidades da política da alcateia. Ela nunca saberá.”

Meu sangue gelou. Ele me achava simples. Ingênua.

“Quando você vai me fazer sua Luna?” Cassandra pressionou, sua voz tornando-se afiada. “Quando você vai se livrar dela?”

“Eu não posso rejeitá-la”, disse Dante, seu tom firme. “Ela é a vontade da Deusa da Lua. Rejeitar uma companheira de alma, especialmente uma tão... pura... seria visto como uma fraqueza pelos outros Alfas. Poderia destruir minha autoridade. Eu tenho uma responsabilidade para com ela.”

Uma responsabilidade. Não amor. Não devoção. Uma tarefa divina.

“Mas eu sempre cuidarei de você e de Ruan”, ele prometeu, sua voz suavizando novamente. “Você me deu um herdeiro forte, Cassandra. Isso é algo que eu nunca esquecerei.”

Ele beijou a testa dela e depois se afastou, seus passos ecoando pelo corredor.

Cassandra ficou por um momento, um sorriso lento e triunfante se espalhando por seu rosto. Então, seus olhos se fixaram diretamente no pilar onde eu estava escondida. Ela sabia que eu estava lá. Ela soube o tempo todo. Ela sustentou meu olhar por um instante, sua expressão uma mistura de vitória e pura malícia, antes de se virar e deslizar para longe.

Era isso. O último fio frágil de esperança ao qual eu me agarrava se partiu. Aos olhos dele, eu era uma obrigação. Ela e seu filho eram sua escolha.

Uma determinação fria e dura se instalou em minha alma. Eu não podia trazer meu filho para isso. Não podia deixar meu filhote ser a segunda escolha indesejada, um lembrete constante de um laço quebrado.

Fiz duas ligações. A primeira foi para uma clínica particular no mundo humano, agendando uma consulta que eu nunca pensei que teria que fazer. A segunda foi para minha advogada, instruindo-a a redigir os papéis oficiais de rejeição de companheiro e dissolução do laço.

Eu estava sentada no bosque de louros da lua do lado de fora do centro, tentando respirar, quando a voz de Dante invadiu minha mente.

*Meu amor, acabei de saber da novidade! A nova ala oeste que você projetou para a casa da alcateia está oficialmente concluída. É magnífica. Você é um gênio.*

Eu não respondi.

*Desculpe por estar tão ocupado ontem à noite*, ele continuou, sua voz mental escorrendo charme. *Tivemos um problema sério com renegados na fronteira norte. Já está tudo resolvido.*

Mentiras. Tudo.

*Para compensar minha ausência, vou dar uma grande gala em sua homenagem na nova ala esta noite. Uma celebração da minha brilhante companheira. Você merece.*

Meu interior parecia esculpido em gelo. Eu estava entorpecida.

*Parece maravilhoso*, respondi, minha voz um eco oco de si mesma.

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