Helena POV:
A Sede da Alcateia estava silenciosa.
Normalmente, este lugar era uma colmeia de ruídos. Lobos jovens treinando no quintal, ômegas batendo pratos na cozinha, o zumbido constante de cinquenta lobisomens vivendo sob o mesmo teto.
Mas a maioria dos membros de alto escalão tinha ido para a Cúpula. O resto estava em patrulha.
Atravessei o grande hall de entrada. Meus saltos estalavam bruscamente no piso de mármore — pisos que eu paguei para importar da Itália porque Cornélia disse que o assoalho antigo machucava seus pés sensíveis.
Entrei na cozinha. A equipe, composta principalmente por ômegas de baixo escalão que não conseguiam se transformar, ergueu os olhos com medo. Eles estavam comendo sobras — restos de carne e pão velho.
"Onde está o assado?", perguntei, olhando para o balcão vazio.
"Dona Cornélia levou os melhores cortes para o quarto dela antes de ir para o aeroporto", sussurrou uma jovem chamada Sara. "Ela disse... ela disse que os empregados não merecem picanha."
Fechei os olhos. Eu havia comprado aquela carne especificamente para o jantar de agradecimento da equipe esta noite.
Meu celular vibrou. Era uma chamada de vídeo de Ricardo.
Eu aceitei, apoiando o celular contra uma fruteira.
O rosto de Ricardo preencheu a tela. Ele parecia vermelho, furioso. O ruído de fundo era o zumbido caótico de um terminal de aeroporto.
"Por que meu cartão foi recusado?", ele gritou. As pessoas ao fundo se viraram para olhar. "Pousamos para reabastecer em Manaus e o piloto disse que a conta de combustível está congelada!"
"É mesmo?", perguntei, pegando uma maçã e inspecionando-a. "Que pena."
"Resolva isso, Helena! A Âmbar está com fome. Ela precisa de carne de caça orgânica, e o restaurante do aeroporto não aceita o cartão corporativo."
O rosto de Âmbar apareceu por cima do ombro dele. Ela parecia pálida, mas seus olhos brilhavam com malícia.
"Ah, Helena", ela arrulhou, com a voz escorrendo falsa simpatia. "Esqueceu de pagar as contas de novo? Você sabe como fica esquecida quando está estressada. Talvez devesse apenas transferir a autorização para o Ricardo. Ele é o Alfa, afinal."
"A autorização requer uma leitura biométrica do titular da conta", eu disse calmamente. "Ou seja, eu."
"Então autorize!", rugiu Ricardo. "Eu te ordeno!"
Senti a pressão do Comando do Alfa me atingir.
No mundo dos lobos, a voz de um Alfa é lei. Ela força fisicamente o lobo a se submeter. Força o pescoço a se expor, os joelhos a se dobrarem.
Senti a onda de pressão passar por mim. Tentou forçar minha cabeça para baixo.
Mas eu sou uma Mestra Curandeira. Meu espírito foi forjado por anos de batalha contra a própria morte. Minhas barreiras mentais são feitas de titânio.
Dei uma mordida na maçã. *Croc.*
Olhei diretamente para a câmera. Não me curvei. Não vacilei.
"Não", eu disse.
Ricardo congelou. O choque em seu rosto foi satisfatório. O Comando de um Alfa falhar era raro. Significava que ou o Alfa era fraco, ou o alvo era incrivelmente poderoso.
Ele escolheu acreditar que a primeira opção era impossível.
"Você... você me desafia?", ele gaguejou.
"Você quebrou o contrato, Ricardo", eu disse. "E não estou falando apenas da nossa certidão de casamento. Estou falando do acordo original. Aquele que você assinou com tinta vermelha. Você quebrou essa lealdade na pista do aeroporto hoje."
"Eu sou seu companheiro!"
"E ela", apontei para Âmbar na tela, "aparentemente é sua prioridade. Deixe que ela pague pelo combustível."
"Eu não tenho dinheiro humano", Âmbar fungou. "Eu vivo segundo os costumes antigos."
"Então cace um coelho no estacionamento", eu disse.
A voz estridente de Cornélia veio do fundo. "Helena! Pare com essa bobagem imediatamente. Nós somos a Alcateia Almeida! Não ficamos na fila do Burger King!"
"Agora ficam", eu disse.
"Quando eu chegar em casa", ameaçou Ricardo, sua voz baixando uma oitava, "você será punida. Vai passar uma semana nas celas por essa insolência."
"Você tem que chegar em casa primeiro", lembrei-o. "E Ricardo? Não se dê ao trabalho de pedir uma sessão de cura para suas enxaquecas hoje à noite. A clínica está fechada."
Encerrei a chamada.
Olhei para Sara e os outros membros da equipe. Eles me encaravam com os olhos arregalados.
"Peçam pizzas", eu disse a eles, tirando um maço de dinheiro da minha bolsa — meu dinheiro pessoal, não os fundos da alcateia. "Peçam o que quiserem. Coloquem na minha conta."
"Mas... Luna", gaguejou Sara. "O Alfa disse..."
"Eu não sou mais a Luna", eu disse, sentindo um peso sair dos meus ombros. "Sou apenas a proprietária."
Virei-me e caminhei em direção às escadas.
Eu precisava fazer as malas. Mas primeiro, eu tinha um destino específico em mente.
Subi para o terceiro andar, para a ala do Alfa.
A porta do quarto principal — meu quarto — estava fechada.
Eu a abri.
O cheiro me atingiu instantaneamente. Não era apenas o perfume persistente. Era o cheiro de sexo.
Baunilha e almíscar. Doce e enjoativo.
Era recente.
Eles não apenas me humilharam no aeroporto. Eles profanaram meu santuário antes mesmo de partirem.
Fiquei na porta e, pela primeira vez na vida, não senti o desejo de curar.
Senti o desejo de destruir.
"A conta foi enviada", sussurrei para o quarto vazio. "E a taxa de juros será fatal."
Helena POV:
Eu estava na soleira do que costumava ser meu quarto de casal. A Toca do Alfa.
Na cultura dos lobos, a Toca é sagrada. É onde o Alfa e a Luna se unem, onde dormem, onde são mais vulneráveis. Entrar na Toca de outro lobo sem permissão é um ato de guerra. Deixar seu cheiro lá é um desafio de morte.
O cheiro era avassalador. Cobria o fundo da minha garganta como óleo.
O cheiro de Âmbar estava por toda parte. Estava nas cortinas. Estava no tapete.
E estava mais forte na cama.
Aproximei-me da cama de dossel king-size. Eu havia escolhido aqueles lençóis. Algodão egípcio, 1000 fios.
Vi um longo cabelo loiro no travesseiro.
Minha loba, a Loba Branca que mantive escondida e suprimida por cinco anos para fazer Ricardo se sentir forte, arranhou o interior da minha caixa torácica. Ela queria sangue.
*Queime*, ela sibilou em minha mente. *Queime tudo.*
Não precisei ouvir duas vezes.
Agarrei a ponta do colchão.
Lobisomens são fortes. Mesmo uma curandeira é mais forte que dez homens humanos. Mas agora, alimentada pela fúria de uma companheira traída, minha força era algo completamente diferente.
Com um rosnado primitivo, arranquei o pesado colchão da estrutura da cama.
Não parei por aí. Peguei os travesseiros. O edredom. Os lençóis.
Marchei até as grandes portas de vidro que davam para o gramado da frente. Abri-as com um chute. O vidro se estilhaçou, mas eu não me importei.
Arremessei o colchão pela janela. Ele caiu no gramado impecável três andares abaixo com um baque satisfatório.
Depois os travesseiros. Depois os lençóis.
Virei-me de volta para o quarto. A porta do armário estava entreaberta.
Entrei. As roupas de Ricardo estavam à esquerda. As minhas, à direita.
Mas no meio, enfiadas apressadamente nos meus cabides, havia roupas baratas e chamativas que não me pertenciam.
Saias de oncinha. Casacos de pele sintética.
Âmbar havia se mudado. Ela não apenas visitou; ela começou o processo de me substituir antes mesmo de eu ter saído.
Peguei braçadas de roupas. Não me preocupei com os cabides. Arranquei-as.
Voltei para a janela e as joguei para fora. Elas flutuaram para baixo como confetes de mau gosto.
"Em nome da Deusa, o que você está fazendo?!"
Virei-me bruscamente.
Parada na porta estava a irmã mais nova de Ricardo, Jordana. Ela ficou para trás da Cúpula porque foi reprovada nas provas e estava de castigo.
Ela segurava um saco de salgadinhos, com a boca aberta de horror.
"Limpando", eu disse friamente.
"Esse é... esse é o quarto do Ricardo! Você não pode jogar as coisas pela janela! Mamãe vai te matar!"
"Sua mãe está presa em um aeroporto em Manaus comendo bolachas de máquina", eu disse, caminhando em direção à mesa de cabeceira.
Vi uma foto emoldurada. Éramos Ricardo e eu no dia do nosso casamento. Ele parecia presunçoso. Eu parecia esperançosa.
Peguei-a.
"Você está louca", zombou Jordana. "Sempre soube que você era instável. A Âmbar vai ser uma Luna muito melhor. Ela é divertida. Me deixou pegar o carro dela emprestado."
"O carro que eu paguei?", perguntei.
Deixei a foto cair. Ela não quebrou no tapete, então a esmaguei sob o meu calcanhar. O vidro estalou satisfatoriamente.
"Saia, Jordana", eu disse. Minha voz era baixa, vibrando com um rosnado que fez a garota dar um passo para trás.
"Você não pode me dar ordens! Meu irmão é o Alfa!"
"Seu irmão é um homem falido com um título que não pode bancar", retruquei. "E esta casa? Meu nome está na escritura. Não o dele. O meu."
Jordana empalideceu. "Isso não é verdade. É a Sede da Alcateia."
"Era uma propriedade hipotecada quando o conheci", eu disse, avançando sobre ela. "Eu a comprei. Eu a renovei. Eu permito que vocês vivam aqui."
Peguei um frasco de perfume da cômoda — o spray de baunilha barato de Âmbar.
Caminhei até a janela e o deixei cair. Ele se espatifou na entrada de carros lá embaixo.
Então, fiz algo proibido.
Invoquei minha aura. Não a luz azul suave e calmante de uma Curandeira.
Fui mais fundo, na linhagem que eu havia escondido. A linhagem da Loba Branca.
Uma chama prateada se acendeu ao redor das minhas mãos. Era o Fogo da Purificação. Uma habilidade antiga, perdida para a maioria dos lobos modernos.
Jordana gritou. "O que é você?!"
Toquei as cortinas. O fogo prateado as consumiu instantaneamente, devorando o tecido e o cheiro da intrusa, não deixando nada além de cinzas. Não queimou a madeira. Queimou apenas a impureza.
"Eu sou aquela que se cansou de ser usada", eu disse.
Olhei para o quarto vazio e coberto de cinzas.
"Diga ao seu irmão", eu disse para a garota aterrorizada, "que se ele quiser a Toca dele de volta, pode dormir no gramado com o lixo da amante dele."
Passei por ela, meu ombro batendo no dela com força suficiente para fazê-la tropeçar no corredor.
Eu tinha um avião para pegar.