Capítulo 2

Lobão Narrando

Fala Rapaziada! Meu nome é Alef da Silva, tenho 35 anos, e sou traficante. Tá ligado? Tenho 1,92 de altura, cabelos pretos e olhos castanhos escuros, muitas tatuagens espalhadas pelo corpo, e pela alma. Sou cria de Belford Roxo, mano, é um lugar que poucos conhecem, mas quem conhece sabe como é a parada. Fica lá na Baixada Fluminense, no Rio de Janeiro, do lado de Duque de Caxias e Nova Iguaçu. Só quem é da quebrada sabe o que é viver ali. Cresci ali, vi muita coisa que a galera de fora nem imagina que acontece nesse canto do mundo. Quem não viveu, não sabe o que é passar por uma infância födida, cheia de violência, tanto dentro de casa quanto na rua.

Eu nasci e cresci na favela, meu irmão, e a vida nunca me deu mole. Desde moleque, vi o bagulho pesado rolando dentro de casa. O pai batendo na mãe, a violência doméstica sendo o retrato do que era a nossa vida, meu pai matou a minha mãe na porrada, e isso me quebra até hoje. Mesmo mandando matar o desgraçado, não consigo esquecer essa dor.

E fora de casa, a rua era o reflexo disso. Fugir da fome, do descaso, da falta de oportunidade, a vida não foi fácil, mas quem é da rua sabe que é ali que você aprende a sobreviver. Não é só sobre comida, não é só sobre a grana. É sobre saber lidar com os pïores momentos e virar a chave quando a vida tenta te enterrar. E, vou te falar, muita gente cai nessa, mas eu não caí.

Quando eu aprendi a ler, eu já tinha mais de 16 anos, porque no começo eu não sabia de nada disso. Aí, chegou o mestre Dk. Ele era o cara que mudou minha vida, me colocou na linha. Ele me botou na escola, me fez entender que, se eu quisesse melhorar de vida, tinha que saber pelo menos escrever o meu próprio nome. Ele disse que era uma condição pra eu morar na sede do Comando, A sede era o lugar onde a gente tinha tudo, mas nada era de graça. Pra você ter o conforto, você tinha que ser disciplinado, tinha que saber cuidar de si, das suas coisas, e foi ali que eu ia aprender o que era realmente ser alguém.

O mestre, que me batizou com esse vulgo. Ele falou: "Você é igual a um lobo, tá sempre se escondendo, se isolando. Mas agora você vai aprender a viver entre os outros, vai sair dessa e vai entender o que é ser forte de verdade." E aí ficou, Lobão. Na moral, quando ele falou isso, eu me achei o bïcho, porque, na minha cabeça, eu sempre fui um lobo mesmo, mais voltado pro mato, pra vida selvagem. Então, aquele nome fez sentido.

Na sede do Comando, eu tinha o quarto só pra mim, cama boa, guarda-roupa e até televisão. Tinha refeição, todo dia, de boa. Mas, por mais que tivesse isso tudo, a regra era clara: eu tinha que cuidar das minhas coisas. Aprendi a cuidar da minha roupa, dos meus tênis, da minha cama. Primeiro par de tênis que eu usei na minha vida, parceiro, foi um marco. Não tinha noção do que era isso, de verdade. Eu só conhecia o corre, o fuzil na mão, mas nunca tinha colocado um lápis na mão pra escrever. Era um bagulho novo pra mim.

Aprendi a ler e escrever, mas, mais importante, aprendi a sobreviver. A professora me ensinou na escola, mas DK me ensinou a viver na vida do crime. Ele me treinou, me preparou pro que viria. E o que viria não era fácil, não. Ele me preparou pra encarar o mundo com tudo o que eu tinha, com a dureza de quem já passou por muita coisa. Me ensinou a ser um homem de verdade, a entender que a vida tem que ser jogada pra cima, porque senão o sistema vai te engolir. Mas o que ele me deu foi mais do que um simples treinamento, foi um legado.

Ele sempre dizia: "Aqui não tem moleza, filho. Se vacilar, o bagulho é feio. Se é pra ser, tem que ser até o final. E tu, Lobão, vai ser forte."

Mas o tempo passou e o mestre se foi. Quando ele partiu, a dor foi grande, não vou negar. Perdi um pai, um mentor, alguém que foi mais que só chefe. Mas quem é da rua sabe que a vida é assim: uma hora a gente tá no topo, na outra, já era. E quem fica, tem que continuar.

Agora, sou soldado do Comando Vermelho. Faço o que o chefe manda, O Chefe atual, é o Tártaro, neto do Mestre.

Sirvo ao Comando de Coração? Às vezes eu me pergunto se eu ainda tenho um. A vida me ensinou a não sentir muito. Dor? Tristeza? Pra mim, isso não tem mais espaço. O que eu conheço é, coragem e poder. Esses sentimentos são o que me movem. O resto é só parte do jogo, parte da luta pela sobrevivência. Quando você cresce vendo tudo o que vi, aprende que a única coisa que conta é o poder, é não mostrar fraqueza. O medo e a coragem, esses dois, são tudo o que você precisa pra dominar o mundo. E se tem algo que eu aprendi, é que só os fortes sobrevivem, só os corajosos se mantêm de pé.

Agora vou falar um bagulho que não queria, mas sei que a rapaziada curte essa ideia. Tive uma comade aí, fechei com ela, curti ela de verdade, botei dentro de casa, dei tudo que o dinheiro pode comprar. Mas a ratazana achou pouco, começou a fazer faculdade, queria ser doutora, e um belo dia ela chegou e falou que ia meter o pé. Queria viver a vida dela sem ficar se escondendo da polícia, queria um cara que fosse com ela pra balada, pras festas, que pudesse apresentar pras amigas.

Eu só mandei ela vazar do meu apê, mas deixei claro: só sai com o que entrou. Não somou, então some sem levar nada do que é meu. E é isso, depois dessa, fiquei ligeiro. Esse papo de fidelidade? Tô fora. Não tem como confiar em ninguém. Esse lance de amor é complicado, e de complicação, tô fora.

Capítulo 3

Kiara Narrando

Meu nome é Kiara Lemos, tenho 17 anos e sou herdeira de uma das maiores redes de hotelaria do Rio de Janeiro. Meu pai, sem dúvida, é um dos melhores no ramo, e isso nunca foi segredo para ninguém. Todos conhecem César Lemos, o nosso sobrenome é um sobrenome de peso, com os nossos empreendimentos em todas as áreas turísticas do Rio, eu tenho muito orgulho do meu pai. Tudo isso foi ele que conquistou. Cresci cercada de luxo, com tudo ao meu alcance. Nunca me faltou nada, e, graças a Deus, sou filha única. Não que eu tenha algo contra irmãos, mas gosto da minha liberdade e do meu espaço, e de ser a única, princesinha do papai.

Minha vida, entretanto, não é tão perfeita quanto parece. Há pouco mais de um ano, minha mãe foi embora. Foi um choque para todos nós. Descobrimos que ela estava tendo um caso com um dos sócios do meu pai. Nem sequer tive tempo de processar direito; quando percebemos, ela já estava fora do país com ele. Desde então, não mandou um cartão, uma mensagem, nada. O silêncio dela foi doloroso, como se ela tivesse decidido apagar nossa existência.

Chorei muito, me senti traída e abandonada. Não foi fácil. Mas, no final das contas, foi escolha dela, não é? Fiz o que podia para seguir em frente. Decidi ficar com meu pai, até porque sempre tivemos uma conexão muito forte. Ele é minha base, meu porto seguro, e não sei o que seria de mim sem ele.

Desejo que a minha mãe seja feliz, mas que ela encontre felicidade na dor, do fundo do meu coração desejo que esse homem faça com ela, o que ela fez com meu pai.

Se um dia ela voltar, e pedir perdão, vou perdoar, mas o acesso à minha vida ela não terá mais, Eu Não confio Em pessoas que traem. Se me traiu uma vez, se me abandonou, Quem me garante que não vai fazer isso novamente. Perdão sempre, acesso nunca mais.

Agora estou cursando faculdade de Nutrição. Sempre fui completamente apaixonada pelo tema. Acho fascinante entender como os alimentos influenciam nosso corpo e nossa mente. sempre cuidei de mim. Faço yoga regularmente, natação na nossa piscina aquecida e tenho uma rotina na academia de casa. Manter meu corpo e minha saúde em dia é uma prioridade para mim.

Apesar de toda a minha liberdade, ainda sinto que sou limitada por algumas coisas. Por exemplo, já pensei em me emancipar, mas meu pai não concordou. Então, estou esperando ansiosamente pelos meus 18 anos. Quero poder sair mais, ir para baladas e aproveitar minha juventude sem tantas restrições. Não que ele me prenda completamente, mas há coisas que ele simplesmente não permite.

Mesmo assim, minha vida social não é tão ruïm. Vou para a faculdade, saio com minhas amigas e, a cada seis meses, viajamos juntas nas férias. Antes, essas viagens eram em família, mas desde que minha mãe foi embora, fiz as duas últimas com minhas amigas e, em uma delas, com meu ex-namorado, Natanael.

O Natanael foi um capítulo que prefiro esquecer. No começo, parecia o namorado perfeito, mas, com o tempo, ele começou a ficar chato, controlador e desleal. A gota d'água foi um jantar em que o peguei dando em cima da garçonete. Ele estava bêbado, mas isso não é desculpa. Se teve coragem de fazer isso na minha frente, imagina o que não fazia pelas minhas costas. Aquilo girou uma chave em mim. Percebi que confiança é o mínimo que se deve ter em um relacionamento. E, sinceramente, mereço muito mais do que ele poderia oferecer.

Agora estou de férias e vim para Nova York com minha melhor amiga. Viemos no jatinho do meu pai, é claro. Nova York é perfeita para renovar o guarda-roupa, explorar tendências e me sentir parte do mundo. Mas, logo hoje, meu pai me ligou pedindo para voltar ao Brasil. E o mais estranho: pediu para eu não gastar tanto. Achei inusitado, porque ele nunca ligou para dinheiro. Sempre foi um homem generoso, adora me mimar, nunca ligou para o quanto eu gasto.

Essa ligação me fez refletir um pouco. Talvez ele esteja preocupado com algo que não quer me contar. Ou talvez seja só o cansaço de lidar com a ausência da minha mãe. Ela, com certeza, nunca foi um exemplo de economia. Minha mãe sempre viveu como uma verdadeira Barbie. Tudo nela era impecável, mas muito artificial. Lentes, procedimentos estéticos frequentes, roupas caras. Ela sempre viveu assim, cercada de luxo e aparência.

Não nëgo que cresci nesse mesmo universo. Adoro um bom chocolate quente em Aspen ou esquiar em Bariloche. O frio me acalma, me faz sentir viva. Mas, diferente dela, não sou movida apenas por aparências. Gosto de cuidar de mim porque isso me faz sentir bem, não para agradar os outros.

Minha melhor amiga, aliás, é a melhor companhia para essas aventuras. Estamos explorando a cidade juntas, entrando e saindo de lojas, provando roupas que talvez nunca usemos e tirando fotos que, com certeza, vão bombar nas redes sociais. Nova York tem essa energia que me inspira. É como se, por alguns dias, eu pudesse ser quem eu quisesse, sem julgamentos.

Mas, mesmo aqui, sinto falta de casa. Meu pai e eu criamos uma rotina confortável, e ele é a pessoa em quem mais confio no mundo. Ele sempre diz que, apesar de todas as dores, devemos seguir em frente e construir nossa felicidade. E é isso que tento fazer todos os dias.

Aos 17 anos, ainda tenho muito a aprender e viver. Quero viajar mais, conhecer novas culturas e talvez, um dia, assumir a rede de hotéis da família. Sei que tenho potencial e quero fazer meu pai se orgulhar de mim. Apesar de tudo que aconteceu, somos uma boa dupla, e juntos podemos superar qualquer coisa.

Por enquanto, vou aproveitar o resto das minhas férias, renovar meu guarda-roupa e, quem sabe, trazer um pouco da energia de Nova York para o Brasil. Afinal, a vida é feita de momentos, e eu quero que os meus sejam inesquecíveis.

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