O homem de camisa social e calça escura abre a porta do quarto, o cômodo era todo enfeitado com o tema fadas. Paredes com tons de roxo e branco, algumas partes com brilho, prateleiras com fadas de brinquedo, móveis que pareciam ter sido tirados de um conto de fadas. Uma garotinha por volta dos cinco anos de idade, estava sentada em uma cadeira de frente para uma mesinha, com um conjunto de chá infantil. Seus fios escuros e cacheados, contratavam com seus olhos azuis, idênticos aos de sua mãe.
- Como foi o seu dia, Stella? - indaga o mais velho.
- Fui para a escola e depois brinquei no quarto com as minhas bonecas - ela serve uma xícara de chá imaginário para ele.
- Você fez as atividades que a professora passou?
- A mamãe disse que vai me ajudar com o dever de casa depois do jantar.
Atlas deposita um beijo na cabeça de Stella, antes de sair do quarto e se trancar em seu escritório. Ele tinha combinado com Saiph, que ela ficaria no quarto com a filha depois do jantar, assim ele poderia resolver um assunto pendente. O pai de Kat tinha fugido, mas ele ainda teria que pagar sua dívida de alguma forma.
- Ela não tentou fugir ou algo do tipo.
- Então ela não deu nenhum trabalho? - ele bebe um gole de café.
- A senhorita Black parece ser uma boa pessoa.
- Ela é conhecida por ser uma garota extremamente mimada.
- Comigo ela foi bastante simpática. Talvez as pessoas só precisem conhecer ela melhor.
- Ela está aqui para pagar a dívida do pai, então eu não estou preocupado em conhecê-la melhor.
- O senhor vai mesmo fazer isso com aquela garota?
- Trabalhar não mata ninguém, Lily - Atlas deixa a xícara vazia de lado.
- Ela não está acostumada com o trabalho, senhor.
- Então ela vai ter que se acostumar de agora em diante.
- Eu já posso preparar a sala de jantar?
- Sim. Avise a minha irmã que o jantar será servido daqui meia hora.
O jantar era a única refeição que os três costumavam fazer juntos, o restante do tempo, Atlas estava muito ocupado para fazer refeições em família. Saiph costumava trabalhar nas empresas da família, então sempre se mantinha longe dos negócios do irmão, o que era algo que ele exigia, se preocupando com a proteção dela. Stella estudava, mas costumava chegar antes dos dois adultos, então Lily acabava cuidando da garota durante aquele intervalo, o que não era sua função, então eles precisavam de uma babá.
- Eu não posso deixar qualquer pessoa cuidar dela.
- A Lily me contou que a moça é legal. Talvez ela só tenha o azar de ter um pai irresponsável.
- Você confiaria a sua filha nas mãos dela, Saiph?
- A Lily pode supervisionar. Ela não vai aguentar um dia fazendo trabalho braçal, o trabalho de babá seria ótimo para ambas as partes.
- Eu vou ganhar uma babá? - indaga Stella.
- Acho que sim, querida - Saiph sorri para a mais nova.
- Vamos fazer um teste durante uma semana - Atlas da a última palavra antes de autorizar que sirvam a refeição.
...
Kat estava ansiosa, ela não sabia o que aconteceria nos próximos minutos, toda aquela demora só a deixava mais nervosa. Ela só queria ir para a faculdade, sair com garotos e ter uma vida normal. Seu pai nunca foi muito presente, mas sempre foi bom com ela quando estava em casa. Kat não conseguia entender o que estava acontecendo, era impossível o seu pai deixá-la para trás assim.
- Eu vou te levar até o senhor Miller - Lily estava na porta do quarto.
- Não sei se fico aliviada pelo fim da espera ou não.
A casa tinha tons escuros e a iluminação estava baixa, então aquilo dava um ar ainda mais assustador. Kat estava com medo de conhecer Atlas, mas ao mesmo tempo ela tinha certa curiosidade. Lily a conduz por um corredor, até pararem ao lado de uma porta, a empregada abre e faz sinal para que ela aguarde. Alguém dentro do cômodo parece liberar a entrada da Black, então Lily faz sinal para que ela entre, e sai da sala logo em seguida fechando a porta atrás de si. Kat encara seu sequestrador, ele era jovem e bonito, não parecia ter mais que trinta e cinco anos.
- Katherine Black, filha única de Joshua Black.
- O meu pai sumiu tem um tempo, eu não sei aonde ele está.
- No entanto, ele tem uma grande dívida comigo.
- Eu posso vender tudo de valor que tenho em casa.
- O seu pai traiu a minha confiança, a dívida dele não pode ser paga com dinheiro, mas sim com a própria vida.
- Eu não tenho culpa do que aconteceu - Ela fica de joelhos na frente dele - Por favor, não me mate por um erro que não é meu.
- Se levante - ele diz sem esboçar reação alguma.
- Eu só quero manter a minha vida - ela se levanta e desvia o olhar envergonhada.
- Katherine - ele segura o rosto dela a forçando a encará-lo.
Ela estava trêmula e não parava de se movimentar, Kat só parou quando ele segurou em seu rosto. Ele encarou as duas esferas esmeralda, ela estava prestes a chorar, mas segurou as lágrimas quando seus olhares se encontraram. Kat ficou sem reação, ela não sabia se estava surpresa pela atitude repentina, ou se estava nervosa com a aproximação. Ele a mantém por perto durante longos minutos, até que seu corpo relaxe e ela pare de se movimentar.
- Você vai ser babá da minha sobrinha. Vai trabalhar para mim como pagamento da dívida.
- Até quando? - ela indaga ainda imóvel.
- Até eu decidir que foi o suficiente - Ele a solta, mas se mantém próximo - Se você fizer algo errado, vai pagar por isso.
- Então eu vou trabalhar sem ganhar nada?
- Agradeça ao seu querido pai por isso, Katherine.
- Mas eu nunca trabalhei na minha vida.
- Vai ter que se acostumar. A Lily vai te explicar tudo, e monitorar a sua rotina de trabalho.
- Você está fazendo isso só para me humilhar.
- Trabalhar não é o fim do mundo - Ele caminha até a porta - Lily vai te acompanhar até o quarto.
...
Lily entra logo cedo no quarto para acordar Kat. Ela entrega um uniforme para a Black e deixa uma bandeja de café da manhã. O uniforme era composto, por uma camiseta azul marinho de botões, calças da mesma cor e um par de tênis branco. A jovem estava sem suas coisas, então ela não tinha como fazer escova no cabelo. Ela para em frente ao espelho, tinha um tempo que ela não usava o cabelo natural, mas ele estava tão bonito naquela manhã.
- O seu cabelo destaca os seus olhos, ele te deixa com um ar de princesa.
- Acho que eu posso me acostumar novamente - ela sorri enquanto se olha no espelho.
- Tome o café da manhã e me espere. A Stella vai para escola agora, então você precisa encontrá-la no quarto daqui meia hora.
- Ela é uma criança difícil de lidar? - indaga a jovem negra.
- A Stella é uma criança doce e gentil. Você vai gostar de cuidar dela, Kat.
- Espero que ela goste de mim, Lily.
- Tenho certeza que ela vai gostar de você.
Kat termina de tomar o café da manhã. Ela fica olhando para a porta ansiosa, Lily estava demorando para voltar. Quando ela finalmente chega, a Black a segue sem questionar. O quarto de Stella ficava no início do corredor, ao contrário do quarto de Kat, que ficava quase no final. O quarto era grande e bem decorado, lembrava o quarto de Kat na infância. Naquela época ela não imaginava que seu pai faria algo assim, deixá-la para trás sabendo que algo poderia acontecer com a filha.
- Essa é a sua nova babá, o nome dela é Kat.
- Você é muito bonita - a menina se aproxima timidamente.
- Não mais bonita que você, Stella - ela sorri para a menina que abre um sorriso espontâneo.
- Vocês vão se conhecer melhor mais tarde. Agora a Ella vai para a escola estudar bastante - Lily pega a mochila da mais nova.
- A vida de criança deveria ser só brincar e comer.
- Estudar é muito importante, senhorita - ela ajuda a pequena a pendurar a mochila nas costas.
- Eu só vou porque os meus amigos estão esperando.
- Kat, você vem comigo levar a Stella até o carro. O motorista leva e busca ela todos os dias na escola.
- Você já conheceu a minha mãe? - indaga a menina.
- Ainda não tive a oportunidade de conhecê-la.
Stella era realmente uma menina gentil e agradável. Durante o pequeno percurso até o lado externo da casa, a garotinha contou algumas coisas sobre ela, inclusive sobre sua relação com sua mãe. Ela parecia admirar muito sua mãe e seu tio, sempre falando deles com um brilho nos olhos. Kat não conseguia imaginar o Atlas descrito pela sobrinha, para ela ele era o seu sequestrador, o mafioso que estava cobrando uma dívida que não era dela. Aquela visão que ela estava tendo através de Stella, era algo que ela realmente não conseguia acreditar, parecia se tratar de duas pessoas completamente diferentes.
- Você parece um pouco triste hoje, Kat.
Era difícil esconder seus sentimentos, ela estava realmente muito triste. Kat gostava da sua antiga rotina, então para ela era triste viver trancada naquela casa. Após um mês naquela casa, Atlas sequer tinha permitido que ela fosse ao jardim. Os únicos momentos que ela conseguia sair da casa, eram quando ela levava Stella até o carro, e quando a menina queria brincar no jardim aos finais de semana.
- Eu só estou sentindo falta da minha casa.
- Você vai voltar quando terminar de ser minha babá.
Stella não sabia sobre o que realmente estava acontecendo. Ela era apenas uma criança, que acreditava nas histórias que lhe contavam. Para ela, Kat estava ali por vontade própria, e ficaria até o final de seu contrato de trabalho. Essa era a história inventada por Atlas, pouco antes da Black conhecer a menina em seu quarto.
- Eu vou pedir para Lily trazer o seu café da tarde.
- Uma pena que amanhã eu tenho aula.
- Os finais de semana não são eternos, Ella.
- Eu vou levar a minha filha para comer fora, então não precisa pedir a refeição dela.
- Tudo bem, senhorita Saiph - ela caminha até a porta.
- Pode ir ao jardim tomar um pouco de sol. Meu irmão só volta amanhã, e eu sei que você não sai muito.
- Obrigada - Kat sorri feliz com a oportunidade de finalmente sair por mais tempo.
O jardim da mansão era enorme, então ela nunca teve a oportunidade de explorar o lugar. Na primeira parte ela encontra um banco, estátuas de pedra e um chafariz. O gramado era bem cuidado, alguns caminhos feitos com uma pedra clara, flores e árvores de vários tipos. Passarinhos viviam livres por ali, as vezes alguns esquilos surgiam nas árvores.
Kat caminha até encontrar um pequeno jardim secreto, nele tinha uma estufa com espécies de plantas diferentes, e na parte externa algumas flores de diversas cores. Ela se senta em um banco de madeira, aquele lugar era tranquilo e silencioso. Parecia ter sido tirado de um filme, era incrível passar um tempo ali, apenas deixando as preocupações de lado.
- Aqui ao menos eu não me sinto tão presa. Esse homem acha que eu sou um robô? Eu preciso sair de casa, frequentar a faculdade, ir para academia e sair com as minhas amigas.
- As minhas unhas estão horríveis - Ela levanta as mãos na altura dos olhos - Negar um esmalte já é tortura demais.
A jovem se deita no banco e olha para o alto, o topo das árvores deixava o céu escondido. Kat fecha os olhos e acaba pegando no sono sem perceber, a lua surge no céu sem que ela desperte. Fazia um tempo desde sua última noite bem dormida, ela sempre perdia horas de sono, pensando sobre a dívida de seu pai. Ela tinha passado a última noite chorando, não aguentava mais viver trancada naquela casa, longe de sua cama e seus amigos. Kat parecia uma jovem fútil, mas na realidade, ela era una jovem sensível que usava uma máscara para não sofrer - Somente o seu travesseiro conhecia a verdadeira Kat - ela não deixeria que alguém conhecesse suas fraquezas.
...
- Ela está em alguma parte da propriedade, senhor.
- Então encontrem a Katherine antes do amanhecer.
- Sim senhor - diz o chefe da segurança antes de instruir os demais.
Atlas caminha pelo jardim, ele conhecia aquele lugar como a palma de sua mão. Aquele lugar foi inspirado em sua mãe, com todas as flores que ela gostava. Ele caminha durante algum tempo, o jardim secreto ficava na parte mais escondida, então ela poderia ter se escondido ali. O moreno se aproxima com cautela, ele estava furioso com a suposta fuga da Black.
O dia ainda estava clareando, mas uma silhueta era visível em um dos bancos. Ela estava em um sono profundo, parecia bastante desconfortável naquele banco, mas isso não a impediu de adormecer ali. Atlas se aproxima em silêncio, ele a observa durante longos segundos. Katherine era uma jovem bonita, isso ele não tinha como negar. A garota se move o fazendo sair de seus devaneios, mas ela logo volta a dormir tranquilamente.
- Katherine - ele diz num tom autoritário.
- Droga - ela resmunga esquanto se levanta ainda atordoada.
- Você saiu de casa sem a minha permissão?
- A senhorita Saiph permitiu a minha saída na parte da tarde.
- Estamos na manhã do dia seguinte, Katherine.
- Me desculpe - ela diz ainda tentando entender o que estava acontecendo.
Ela não imaginava que estava tão cansada, mas tantas horas de sono diziam outra coisa. Agora o sol estava surgindo, e Atlas não parecia nada contente com aquilo. Kat o encara diretamente nos olhos, ela não queria voltar a se rebaixar, mesmo que ele fosse um homem perigoso. Ela não tinha feito nada de errado, acabar pegando no sono era algo que qualquer um estava sujeito.
- Me siga até o seu quarto - ele caminha sem dizer mais uma palavra sequer.
O silêncio deixava a situação ainda pior, provocando um sentimento de ansiedade em Kat. Atlas não demonstrava o que estava pensando, ele apenas caminhava na frente dela, com passos firmes mantendo um silêncio sepulcral. Ele abre a porta do quarto da jovem, e espera que ela entre primeiro. Ele fecha a porta atrás de si, a Black o olha com medo, ela não sabia o que ele faria dali em diante.
- Você vai ficar nesse quarto o dia inteiro. Não quero que saia para nada, nem mesmo para cuidar da Stella.
- Quem vai cuidar da menina? - indaga Kat.
- Não se preocupe com isso agora. Apenas fique aqui como forma de punição - Ele caminha até a porta - Você só vai comer na hora do jantar.
- Por favor, não me deixe aqui nesse quarto.
- A Lily vai trazer o seu jantar no horário de sempre. Você só vai sair amanhã - ele tranca a porta com a chave ao sair.
- Não me deixa trancada, por favor - ela bate na porta com força.
- Eu não quero ficar nessa casa. Não me importo com a droga da comida, só quero voltar para casa - a jovem negra se senta atrás da porta, e deixa as lágrimas molharem seu rosto, em meio aos gritos de raiva e ao desabafo.
...
- Eu deixei a Kat sair um pouco, Atlas. Ela não merece ser castigada.
- Regras são regras, irmã - ele se serve de uma taça de vinho.
- Você não acha que está exagerando? Ela só pegou no sono enquanto explorava o jardim.
- Ela não veio para essa casa como hóspede. A Katherine está pagando a dívida do pai, um traidor que achou que me enganaria.
- Ela é só uma jovem inocente no meio dessa situação.
- Eu não vou mudar de ideia, Saiph. A Katherine vai ficar no quarto até segunda ordem.
Saiph conhecia muito bem o irmão, no passado ele não era daquele jeito, mas depois de uma grande tragédia ele mudou. Desde então ele se fechou, só era amável com ela e Stella, mas com os outros ele continuava frio. A morena segue até o quarto da filha, a menina estava desenhando. Stella era a única coisa boa daquela época de sua vida, aonde ela foi enganada e traída. Talvez o amor não fosse para os irmãos Miller, parecia até mesmo uma maldição.
- Quando a Kat vai voltar, mamãe? - indaga a garotinha.
- Amanhã tudo volta ao normal, minha linda.
- Ela é tão legal e bonita - A menina mostra um desenho para a mãe - Fiz um desenho de vocês três comigo.
- A Kat é essa mulher ao lado do seu tio?
- Eles seriam um casal bonito, não é?
- A Kat não é a namorada do seu tio, Ella.
- Eu queria que ela fosse minha tia. Seria legal ganhar primos e uma tia.
- Você já está imaginando os filhos deles?
- Alguém nessa casa precisa fazer isso por eles - ela da de ombros.
- Não deixa o seu tio saber disso - ela enche a filha de beijos.
Kat desperta no chão do quarto. Ela tinha adormecido após passar um bom tempo chorando. Sua cabeça estava doendo e seu estômago roncava, ela estava se sentindo doente. Ainda não estava na hora do jantar, e dormir já não era mais uma opção, então ela ficaria com fome e dor de cabeça. A Black entra no banheiro e toma um longo banho, ao menos isso Atlas não lhe tirou. Ela veste um roupão e enrola uma toalha no cabelo, seus olhos ainda estavam inchados.
- Repus a sua água e troquei seu lençol de cama - Lily estava saindo do quarto quando ela saiu do banho.
- Eu não aguento mais esse castigo, Lily.
- Só restam duas horas para o final do castigo. Tente se hidratar e ficar deitada até a hora do jantar.
- Eu odeio esse homem - ela desaba e é surpreendida por braços a envolvendo.
- Eu vou tentar te ajudar - ela diz antes de soltar a Black.
- Quando essa maldita dívida vai acabar?
- Talvez em alguns anos ou meses. O senhor Atlas é quem decide isso.
- Não sei se vou suportar viver nessa casa por muito tempo.
- Tente seguir todas as regras. Sei que as coisas vão melhorar com o tempo.
- Espero que ele não me castigue com coisas piores.